{"id":90649,"date":"2025-08-14T00:01:59","date_gmt":"2025-08-14T03:01:59","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=90649"},"modified":"2025-09-22T21:19:05","modified_gmt":"2025-09-23T00:19:05","slug":"congadar-lanca-aprendi-com-meus-antepassados-e-provoca-talvez-esteja-faltando-ousadia-na-curadoria-dos-festivais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2025\/08\/14\/congadar-lanca-aprendi-com-meus-antepassados-e-provoca-talvez-esteja-faltando-ousadia-na-curadoria-dos-festivais\/","title":{"rendered":"Congadar lan\u00e7a terceiro disco e provoca: &#8220;Talvez esteja faltando ousadia na curadoria (dos festivais)&#8221;"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>entrevista de\u00a0<a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/lvinhas78\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Leonardo Vinhas<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Congadar n\u00e3o \u00e9 uma banda de hip\u00e9rboles. Ao contr\u00e1rio, \u00e9 uma banda em que os tambores podem apelar \u00e0 introspec\u00e7\u00e3o e sensibilidade quando batem forte, assim como a melodia de cantos em harmonia pode colocar o ouvinte em estado de ebuli\u00e7\u00e3o. Se formos para um caminho de simplifica\u00e7\u00e3o, d\u00e1 para dizer que a banda conjuga congado, rock, psicodelia, m\u00fasica mineira e rap em sua sonoridade. Mas isso certamente n\u00e3o d\u00e1 conta de traduzir o que a banda provoca, especialmente em seus shows.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O recente \u201cAprendi com Meus Antepassados\u201d (2025), terceiro \u00e1lbum da banda, \u00e9 o que mais se aproxima de traduzir em est\u00fadio o que a banda consegue ao vivo. \u201cD\u00e1 Licen\u00e7a\u201d abre o disco e os caminhos com os tambores e as vozes de Mestre Sa\u00fava, Filipe Elt\u00e3o e Wesley Pel\u00e9, j\u00e1 sinalizando que h\u00e1 volume, pot\u00eancia e texturas que n\u00e3o estavam presentes nos trabalhos anteriores. Na metade final da can\u00e7\u00e3o, entram a percuss\u00e3o de Bruno Batista, a bateria de S\u00e9rgio DT, o baixo de Marc\u00e3o Avellar, e a j\u00e1 caracter\u00edstica guitarra de Giuliano Fernandes, tamb\u00e9m com defini\u00e7\u00e3o e brilho que ficavam mais subentendidos que presentes nos (bons) \u00e1lbuns anteriores, \u201cRetirante\u201d (2019) e \u201cChora N\u2019 Goma\u201d (2022).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De \u201cD\u00e1 Licen\u00e7a\u201d j\u00e1 sai a intensa \u201cRisca Ponto\u201d, uma das grandes faixas da safra 2025 da produ\u00e7\u00e3o nacional. \u201cSemente Raiz\u201d traz a heran\u00e7a africana tamb\u00e9m nas frases de guitarra, al\u00e9m dos tambores e das vozes, e a ela se segue \u201cFundido Ch\u00e3o\u201d, talvez a can\u00e7\u00e3o mais rica e com a din\u00e2mica mais variada desse \u00e1lbum. Com a participa\u00e7\u00e3o do rapper Lorenzo Kaverna, traz todas as vozes do Congadar, dos homens e dos instrumentos, se apresentando como declara\u00e7\u00e3o, ora\u00e7\u00e3o, desejo, cr\u00edtica e explos\u00e3o. Uma preciosidade que traduz com precis\u00e3o o afrofuturismo que \u00e9 inten\u00e7\u00e3o declarada desse \u00e1lbum.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao longo de \u201cAprendi com Meus Antepassados\u201d h\u00e1 a solene \u201cLegado Orum\u201d (que traz o verso que d\u00e1 t\u00edtulo ao disco), o gingado de \u201cPreparado da Vov\u00f3\u201d, o encanto quase pop de \u201cDan\u00e7a pr\u00e1 Oy\u00e1\u201d, os tons psicod\u00e9licos de \u201cSenhor Xaxar\u00e1\u201d e a elegia e a leveza mel\u00f3dica de \u201cOxal\u00e1\u201d. Mas h\u00e1 um inevit\u00e1vel destaque para \u201cPromessa ao Gantois\u201d, bela recria\u00e7\u00e3o da can\u00e7\u00e3o d\u2019Os Tinco\u00e3s de 1975, feita em parceria com Teresa Cristina.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cAprendi com Meus Antepassados\u201d \u00e9 um disco precioso e muito bem-vindo, e do ponto de vista art\u00edstico, tem todas as condi\u00e7\u00f5es de fazer o Congadar chegar a p\u00fablicos maiores. Como n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 a arte que determina isso, especialmente em um mercado cheio de v\u00edcios e acessos fechados, n\u00e3o d\u00e1 para antever que isso vai acontecer. Mas voc\u00ea pode ouvir e deixar o disco chegar at\u00e9 voc\u00ea da forma que tiver que chegar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para conhecer mais dos bastidores que levaram o Congadar a ajustar sua sonoridade de est\u00fadio, e tratar de tudo que perpassa essa transforma\u00e7\u00e3o, conversamos com Mestre Sa\u00fava e Marc\u00e3o Avellar por videochamada. O resultado voc\u00ea l\u00ea agora.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Aprendi Com Meus Antepassados\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/videoseries?list=OLAK5uy_kqC6w48o2ua2JXNPezjCcVf3xZSf9KOQI\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Apesar do disco j\u00e1 trazer uma inten\u00e7\u00e3o po\u00e9tica e pol\u00edtica muito forte j\u00e1 no t\u00edtulo, e tamb\u00e9m nas letras, queria come\u00e7ar o papo falando da sonoridade. Senti uma diferen\u00e7a muito grande em rela\u00e7\u00e3o aos dois primeiros \u00e1lbuns e ao EP <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2023\/10\/18\/entrevista-o-maracatu-ja-toca-no-mundo-agora-e-a-hora-de-levar-o-congado-para-o-mundo-tambem-diz-congadar\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">\u201cMorro das Tr\u00eas Cruzes\u201d<\/a> (2023). O primeiro \u00e1lbum, em especial, n\u00e3o tinha tanto peso percussivo, as guitarras estavam mais contidas, e as harmonias vocais, embora presentes, n\u00e3o tinham o cuidado de produ\u00e7\u00e3o que t\u00eam agora. De onde veio essa mudan\u00e7a?<\/strong><br \/>\nMarc\u00e3o Avellar: Gravamos esse disco no mesmo est\u00fadio em que a gente gravou o EP, e a diferen\u00e7a nos timbres e na produ\u00e7\u00e3o \u00e9 uma consequ\u00eancia dessa primeira grava\u00e7\u00e3o. Na primeira, a gente foi l\u00e1 com a inten\u00e7\u00e3o de gravar o EP, claro, mas principalmente a gente queria muito conhecer o processo do est\u00fadio. Ent\u00e3o nesse disco a gente estava bem mais preparado, pudemos gravar bem as bases ao vivo, e depois ir adicionando as camadas, as vozes e tal. Nos dois primeiros discos, era tudo muito digital, a gente chegava, gravava uma parte, n\u00e3o precisava repetir, era um tal de \u201ccorta aqui, cola ali\u201d, uma coisa assim meio fria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mestre Sa\u00fava: Acho que a gente n\u00e3o volta mais atr\u00e1s para gravar como foi no primeiro disco. No \u201cRetirante\u201d, n\u00f3s que somos do congado aqui, sent\u00edamos que nossas caixas soavam como se algu\u00e9m estivesse batendo em uma caixa de papel\u00e3o. O t\u00e9cnico de som fazia quest\u00e3o de pegar as tr\u00eas caixas e fincar num canal s\u00f3. Por isso, n\u00e3o tem o grave da caixa ali. Depois que sa\u00edram o \u201cMorro Tr\u00eas Cruzes\u201d e agora o \u201cAprendi com Meus Antepassados\u201d, n\u00e3o consigo ouvir os anteriores. O primeiro, principalmente. O segundo, eu consigo, porque a gente j\u00e1 gravou as tr\u00eas caixas juntas. N\u00e3o tem ainda os graves que a gente queria, porque o produtor teimava em tirar, mas pelo menos o molho, o balan\u00e7o, j\u00e1 s\u00e3o outros.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00c9 interessante que, no meu entender, essa sonoridade atual ajuda a desfazer uma confus\u00e3o que imagino que fosse comum, que era de quem n\u00e3o tem refer\u00eancia do congado e dos outros ritmos que voc\u00eas usam, e acabavam comparando a banda com a Na\u00e7\u00e3o Zumbi. Isso rolava, n\u00e9?<\/strong><br \/>\nMarc\u00e3o Avellar: Sim. Normal, a gente entende.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Sim, mas s\u00e3o tambores diferentes, s\u00e3o outros instrumentos de percuss\u00e3o, outros ritmos, outras refer\u00eancias de can\u00e7\u00e3o.<\/strong><br \/>\nMestre Sa\u00fava: Se a gente puder associar o Congadar a alguma coisa, vai associar com o que tem de Minas Gerais, sabe? \u00c9 claro que muita gente vai ver os instrumentos de percuss\u00e3o, as caixas de conga, tambores, e v\u00e3o lembrar do que a Na\u00e7\u00e3o fazia, porque s\u00e3o instrumentos parecidos, e o caminho desses instrumentos de \u00c1frica para c\u00e1 \u00e9 mais ou menos o mesmo. Mas se a gente for associar, vai ser com o que a gente tinha aqui em Minas, que foi Titane, Tizumba, Perer\u00ea. Foi tudo bem antes da gente, at\u00e9 a quest\u00e3o mel\u00f3dica vem coisas que o Marku Ribas fez l\u00e1 atr\u00e1s. \u00c9 com isso que a gente pode estar mais ou menos aproximado. Nesse \u00faltimo trabalho, a gente p\u00f4de aproximar muito com o que a gente tem aqui em Minas Gerais. A gente teve contato com o Tizumba de uma vida inteira, com dois anos de banda a gente se aproximou, e ele \u00e9 uma refer\u00eancia muito forte.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E falando nisso, existe uma identidade afromineira que o Brasil, de modo geral, desconhece. Quando muito, algumas pessoas sabem que a presen\u00e7a de negros e negras no Estado \u00e9 fruto principalmente da escravid\u00e3o e de ciclos econ\u00f4micos movidos \u00e0 explora\u00e7\u00e3o humana, mas para os brancos, em geral, \u00e9 como se, ap\u00f3s a proclama\u00e7\u00e3o da Lei da Aboli\u00e7\u00e3o, de uma hora para outra todos os problemas tivessem se resolvido. E claro que n\u00e3o, n\u00e9? Essa \u00e9 uma das raz\u00f5es pelo qual voc\u00eas expressam t\u00e3o claramente essa identidade afromineira na postura e no discurso do Congadar?<\/strong><br \/>\nMestre Sa\u00fava: Sempre expressamos. Tirando a sonoridade, todo o conte\u00fado do primeiro disco \u00e9 esse dedo na ferida como o que voc\u00ea acabou de falar, como se, a partir do dia 14 de maio de 1888, o mundo tivesse se transformado em estrelinhas e tudo ficou lindo. N\u00e3o! A gente traz essas coisas, mas tamb\u00e9m traz muita exalta\u00e7\u00e3o das conquistas, do que foi essa caminhada. A gente tem essa tradi\u00e7\u00e3o mineira, e tem esse congo, que chega aqui na nossa terra com o pessoal que extrai metais preciosos, tem esse pessoal do caf\u00e9, ent\u00e3o a gente tem muito nosso pil\u00e3o negro que \u00e9 batido, que nos d\u00e1 tempo, que nos d\u00e1 ritmo, que nos d\u00e1 batida, e que influenciou esse congado tamb\u00e9m. Muito ritmicamente, \u00e9 uma soma de tudo que \u00e9 feito em Minas Gerais, desde o per\u00edodo do barroco, das m\u00fasicas religiosas do barroco mineiro, e em tudo a gente vai sentir essa presen\u00e7a preta nessa m\u00fasica. Em Lobo de Mesquita, Jos\u00e9 Am\u00e9rico, padre Jos\u00e9 Maur\u00edcio, alguns compositores eruditos e sacros da \u00e9poca, a gente vai sentir muito essa presen\u00e7a negra na m\u00fasica, o Clube da Esquina tamb\u00e9m bebeu dessa fonte.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Marc\u00e3o Avellar: E nas letras, com esse conte\u00fado da quest\u00e3o pol\u00edtica, \u00e9 porque acho que a gente ainda est\u00e1 colhendo \u201cfrutos\u201d, digamos assim, de um per\u00edodo muito, muito macabro, de quatro anos sinistros que a gente viveu. Ach\u00e1vamos que v\u00e1rias coisas j\u00e1 estavam enterradas, e n\u00e3o estavam.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mestre Sa\u00fava: Um desses problemas tem tornozeleira agora? (risos gerais &#8211; na \u00e9poca da entrevista, um certo ex-presidente ainda n\u00e3o havia sido recolhido \u00e0 pris\u00e3o domiciliar)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Marc\u00e3o Avellar: Depois desses quatro anos, as pessoas perderam definitivamente a vergonha de se dizerem racistas, machistas, homof\u00f3bicas, enfim, essa lama toda. Ainda estamos pagando o pre\u00e7o desse per\u00edodo, e n\u00e3o tem como isso n\u00e3o entrar na nossa m\u00fasica, porque a classe art\u00edstica como um todo sofreu isso na pele. Al\u00e9m de tocar no Congadar, fa\u00e7o gest\u00e3o de um projeto cultural, que \u00e9 a Orquestra Jovem de Sete Lagoas, ent\u00e3o vivo da lei Rouanet. Eu n\u00e3o escondo isso: meu sal\u00e1rio vem de um projeto da Lei Rouanet. E a\u00ed eu fico escutando que \u201ca Lei Rouanet banca vagabundo\u201d. Poxa, eu trabalho tanto, velho! Mas virou essa lama cheia de preconceitos, de \u00f3dio.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"CONGADAR - Fundido Ch\u00e3o | Ao vivo no Beco do Repolho\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/zebgsw_WEwA?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A quest\u00e3o religiosa \u00e9 emblem\u00e1tica nesse sentido, n\u00e3o? Porque, em tempos atuais, com um modelo social cada vez maior de sectariza\u00e7\u00e3o e de discurso hegem\u00f4nico de alguns setores espec\u00edficos da sociedade, s\u00f3 o fato de trazer isso \u00e0s claras \u00e9 uma baita afirma\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, n\u00e3o?<\/strong><br \/>\nMarc\u00e3o Avellar: O que acontece? Eu sou de matriz africana. O Bruno \u00e9 de matriz africana, Pel\u00e9 e Elt\u00e3o tem origens familiares na matriz africana. Eles n\u00e3o s\u00e3o frequentadores assim, mas s\u00e3o pr\u00f3ximos, Marc\u00e3o tamb\u00e9m frequenta. Ent\u00e3o as coisas vem para aparecer mesmo, porque, em certos pontos, quando voc\u00ea fala de um orix\u00e1 ou de outra entidade, voc\u00ea vai tamb\u00e9m estar falando, mesmo que sem querer, dessa luta pol\u00edtica em v\u00e1rios \u00e2mbitos. E a gente vive em uma cidade (Sete Lagoas) muito tradicional, conservadora ao extremo de ocorrerem v\u00e1rios ataques a templos sagrados. Segundo um estudo do Conselho Municipal de Promo\u00e7\u00e3o de Igualdade Racial, s\u00e3o 17 ataques a templos por m\u00eas, no m\u00ednimo! No m\u00eas \u201cmais fraco\u201d. Ent\u00e3o, o grito tem que sair da gente, porque a gente tem um ve\u00edculo que tem um poder. Uma vez, n\u00f3s est\u00e1vamos fazendo um show aqui e um gestor cultural tinha feito alguma coisa, falou alguma coisa que foi como pegar uma bola e levant\u00e1-la dentro de \u00e1rea pra eu cabecear. Eu, com esse cabe\u00e7\u00e3o, vou deixar de cabecear? (risos) A\u00ed n\u00f3s falamos sobre um problema com outra banda nossa, uma situa\u00e7\u00e3o que vivemos, e ficou todo mundo: &#8220;Ah, mas voc\u00eas n\u00e3o podem falar assim, mano\u201d. Mas se a gente n\u00e3o pode falar, quem vai poder? \u00c9 a gente que est\u00e1 com o microfone na m\u00e3o e n\u00e3o \u00e9 simplesmente levar um som pros outros. N\u00e3o, n\u00e3o. A gente est\u00e1 com o microfone na m\u00e3o para trazer todo mundo para perto. Estou estudando N\u00eago Bispo, e ele fala que o mal do mundo foi sair do quilombo e vir para o urbano. E n\u00f3s queremos aquilombar o m\u00e1ximo poss\u00edvel de pessoas, queremos levar essa ideia para a frente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Quando entrevistei o Sa\u00fava para um programa de r\u00e1dio em 2023, ele me disse que \u201cMarimbondo Amarelo\u201d foi a primeira m\u00fasica que o Congadar fez, e que deu t\u00e3o certo que \u00e9 uma m\u00fasica que provavelmente voc\u00eas v\u00e3o tocar sempre\u2026<\/strong><br \/>\nMestre Sa\u00fava: Falei, mas n\u00f3s vamos tirar ela, n\u00e9 Marc\u00e3o? (risos)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Marc\u00e3o Avellar: J\u00e1 falei pro Sa\u00fava que \u201cMarimbondo Amarelo\u201d \u00e9 a \u201cSatisfaction\u201d do Congadar, ele vai ter que cantar isso o resto da vida! (risos)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Mas a minha pergunta \u00e9: tem alguma nesse disco novo que \u00e9, digamos assim, a \u201cMarimbondo Amarelo\u201d da vez, que seja uma s\u00edntese da banda nesse momento?<\/strong><br \/>\nMarc\u00e3o Avellar: Nossa! A\u00ed voc\u00ea apertou!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mestre Sa\u00fava: A introdu\u00e7\u00e3o da \u201cRisca Ponto\u201d me arrepia. Sou filho de Ungila, de Exu, e tinha uma m\u00fasica que era da outra banda dos meninos, que era um instrumental e virou essa, que j\u00e1 est\u00e1 na abertura do nosso show. \u00c9 a m\u00fasica que vai abrir porque Exu \u00e9 quem abre tudo, todos os caminhos s\u00e3o apontados por Exu para depois algum orix\u00e1 vir abrindo, sabe? Essa m\u00fasica j\u00e1 fala do meu lado espiritual, mas a\u00ed tem a m\u00fasica que o Marc\u00e3o, o Lorenzo [Kaverna, rapper] e o Bruno [Batista, percussionista do Congadar] fizeram (\u201cFundido Ch\u00e3o\u201d), que me d\u00e1 uma coisa que eu acho que um dia desses ela vai estar tocando numa miniss\u00e9rie qualquer a\u00ed..<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Marc\u00e3o Avellar: Essa, inclusive, foi a primeira m\u00fasica do disco que a gente fez. O Lorenzo \u00e9 um amigo nosso, do movimento hip hop aqui da cidade, das antigas. S\u00f3 joguei pra ele: &#8220;\u00d4, Louren\u00e7o, vamos fazer uma m\u00fasica, vai misturar rock, rap, congado, candombl\u00e9, vamos misturar tudo e tal&#8221;. A gente come\u00e7ou a se reunir l\u00e1 na casa do Bruno s\u00e1bado de manh\u00e3, a gente marcava \u00e0s 9h e chegava \u00e0s 10h (risos), e come\u00e7amos a desenvolver essa m\u00fasica. Foi um processo muito legal, ela que deu um start em v\u00e1rias outras m\u00fasicas, a gente se deu muita liberdade de experimentar. Giuliano botou as guitarras bem fortes, foi uma batida de congo diferente e um canto\u2026 \u00e9 iorub\u00e1, Sa\u00fava?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mestre Sa\u00fava: N\u00e3o, n\u00e3o, es\u00e1 em banto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Marc\u00e3o Avellar: Ent\u00e3o, um canto em banto, sabe assim? Fomos n\u00f3s nos permitindo colocar coisas bem experimentais, e \u00e9 por isso que ela marca tanto nos shows. Atualmente, \u00e9 a que a galera mais delira quando a gente toca, e a gente est\u00e1 com um certo problema, porque todos os shows que fizemos at\u00e9 agora foram aqui por perto, ent\u00e3o o Lorenzo participou. Quando a gente for fazer em S\u00e3o Paulo, por exemplo, os meninos v\u00e3o ter que se virar para cantar a letra da m\u00fasica, porque ele n\u00e3o vai viajar com a gente. Algu\u00e9m vai ter que cantar rap (risos).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Ou ent\u00e3o arrumar uns rappers locais, hein?<\/strong><br \/>\nMarc\u00e3o Avellar: De repente, n\u00e9?<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"CONGADAR - Promessa ao Gantois\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/2O9nmzHLYzs?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E a Teresa Cristina, como entrou no disco?<\/strong><br \/>\nMestre Sa\u00fava: A Teresa \u00e9 o seguinte: ela est\u00e1 namorando um amigo nosso aqui de Sete Lagoas, um moleque que foi meu aluno h\u00e1 muitos anos, e a gente \u00e9 muito colado na vida por causa do samba, do qual eu tamb\u00e9m fa\u00e7o parte. Esse moleque cantou num coral meu quando era crian\u00e7a e tal, ele era do meu bairro, o Garimpo. A\u00ed vem a Teresa, encontra esse mineiro, sotaquezinho, nh\u00e9m nh\u00e9m nh\u00e9m e foram namorando (risos). Ela come\u00e7ou a frequentar muito Sete Lagoas, e, por incr\u00edvel que pare\u00e7a, a primeira vez que ela veio pra cidade foi no meu anivers\u00e1rio. Ela colou na minha casa, e todo mundo dizendo \u201cAh, isso \u00e9 mentira, n\u00e3o \u00e9 ela n\u00e3o&#8221; (risos). Tivemos umas conversas com ela num evento em que a gente tocou, Quarteir\u00e3o Preto, que foi na antiga quadra de escola de samba. N\u00f3s tocamos e ela impressionada com aquele som, com coisas que ela estava meio que tentando entender o que era. At\u00e9 que um dia a gente se encontrou, e Marc\u00e3o e Giuliano deram ideia de chamar ela para gravar alguma coisa. A\u00ed reunimos, fizemos uma costelinha com cansan\u00e7\u00e3o, uma comida nossa daqui (com uma planta comest\u00edvel), s\u00f3 que estava tendo um jogo do Vasco no dia, e ela \u00e9 vasca\u00edna doente. Era Cruzeiro e Vasco, e o Cruzeiro come\u00e7a a ganhar desse Vasco. Um Cruzeiro mulambo, Cruzeiro ruim (risos), come\u00e7a a ganhar desse Vasco. Essa mulher perde a paci\u00eancia. A\u00ed ela n\u00e3o consegue conversar com a gente (risos). Mas na hora que deu o intervalo, ela falou assim: &#8220;Gente, tem uma m\u00fasica do Tinco\u00e3s que eu gosto muito, que \u00e9 da minha m\u00e3e Oxum, vamos cantar essa m\u00fasica a\u00ed\u201d. O Giu s\u00f3 pegou o tom com ela e foi!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Marc\u00e3o Avellar: A gente iria compor alguma coisa junto, mas acho que o Vasco desconcentrou ela. (risos) Mas \u00f3, vale enfatizar que foi ela que convidou a gente para gravar a m\u00fasica, nesse dia do Quarteir\u00e3o Preto, quando acabou o show, ela veio do nosso lado, falando: &#8220;Gente, a gente vamos gravar o single juntos\u201d. E a gente: \u201cclaro\u201d. N\u00e9? \u00c9 \u00f3bvio. Ia ser um single, s\u00f3 que como j\u00e1 estava aproximando da gente gravar o disco, decidimos colocar no \u00e1lbum.<br \/>\n.<br \/>\n<strong>Para encerrar, queria fazer uma pergunta um pouco mais espinhosa. Como jornalista e como produtor, acho que muitos festivais no Brasil s\u00e3o bem pregui\u00e7osos na hora de montar o lineup. Quando voc\u00ea olha a diversidade musical que o Brasil tem, a quantidade de artista novo que surge, \u00e9 muito curioso voc\u00ea ver as mesmas atra\u00e7\u00f5es encabe\u00e7ando festivais em diferentes estados. E quando o Bruno Capelas cobriu o show de voc\u00eas no Para\u00edso do Rock 2023 para o Scream &amp; Yell, ele escreveu que <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2023\/10\/03\/paraiso-do-rock-celebra-rock-latino-e-atesta-que-congadar-e-maciel-salu-merecem-circular-por-outros-festivais-no-brasil\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">voc\u00eas e o Marcial Salu tinham que estar em outros festivais pelo pa\u00eds<\/a>. Ent\u00e3o a pergunta \u00e9: o que n\u00e3o coloca o Congadar hoje em um p\u00e9 de igualdade com o que temos no cen\u00e1rio nacional? N\u00e3o estou falando de compara\u00e7\u00f5es art\u00edsticas, mas de quest\u00f5es de exposi\u00e7\u00e3o, de proposta cultural, e de quest\u00f5es dessa natureza.<\/strong><br \/>\nMarc\u00e3o Avellar: Essa foi espinhosa mesmo. E eu realmente n\u00e3o consigo explicar muito o que eu vejo, L\u00e9o. Por exemplo, eu fa\u00e7o parte de um grupo no WhatsApp de produtores de festivais, porque j\u00e1 fiz festival aqui em Sete Lagoas, que era o Gramofone. Teve tr\u00eas edi\u00e7\u00f5es, j\u00e1 faz uns bons anos, mas ainda estou nesse grupo, e muitas vezes eu fico calado sobre as discuss\u00f5es ali. Mas em outras n\u00e3o, e acho que v\u00e3o acabar me tirando dali (risos). Mas j\u00e1 vi, ali, v\u00e1rios produtores reclamando \u2013 e n\u00e3o foi uma nem duas vezes, foram v\u00e1rias \u2013 que um artista X ou Y pede um valor alt\u00edssimo, coisa na casa de R$ 60 mil, alguns chegando a seis d\u00edgitos, e n\u00e3o levam nem mil pessoas pro show. E ao mesmo tempo, eu vejo esse v\u00edcio de repetir os mesmos lineups em v\u00e1rios festivais. N\u00e3o vou dizer \u201cem todos\u201d, porque tem festivais que eu acho que s\u00e3o louv\u00e1veis. O Para\u00edso do Rock para mim foi uma experi\u00eancia maravilhosa. Eu acho que \u00e9 um exemplo de festival. Primeiro pela receptividade, por fazer quest\u00e3o de integrar os artistas, pela diversidade da programa\u00e7\u00e3o. P\u00f4, um festival que traz uma banda do Uruguai, uma banda do Paraguai, uma banda da Argentina, uma banda do Sudeste, uma banda do Nordeste\u2026 Mas voltando aos festivais: eles ficam reclamando que a conta n\u00e3o fecha, ficam apertando o or\u00e7amento para poder receber aquele \u201cartist\u00e3o\u201d hypado das redes sociais, mas que n\u00e3o leva mil pessoas\u2026 Acho que muitos festivais se perderam da quest\u00e3o musical. Ent\u00e3o \u00e9 isso, tem que ter a tirolesa, os estandes bonitos, e a m\u00fasica est\u00e1 ficando em segundo plano. Acho que os festivais est\u00e3o precisando de voltar a ser o que eram h\u00e1 15 anos, h\u00e1 20 anos, de serem esses momentos de transforma\u00e7\u00e3o mesmo, das pessoas irem pela curadoria e n\u00e3o pelo nome hypado. Da pessoa ir a um festival, porque confia na curadoria, vai ali pra ver algo diferente e que pode ser do caralho. J\u00e1 fui em v\u00e1rios festivais assim. Talvez esteja faltando um pouco de ousadia nas curadorias.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"CONGADAR - Ben\u00e7\u00e3o pr\u00e1 Vov\u00f3 | Clipe oficial\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/YNRiQgi1cjk?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><em>\u2013 Leonardo Vinhas (<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/leovinhas\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">@leovinhas<\/a>) \u00e9 produtor e autor do livro \u201c<a href=\"https:\/\/editorabarbante.com.br\/produtos\/o-evangelho-segundo-odair-censura-igreja-e-o-filho-de-jose-e-maria\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">O Evangelho Segundo Odair: Censura, Igreja e O Filho de Jos\u00e9 e Maria<\/a>\u201c.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\u201cAprendi com Meus Antepassados\u201d \u00e9 um disco precioso e muito bem-vindo, e do ponto de vista art\u00edstico, tem todas as condi\u00e7\u00f5es de fazer o Congadar chegar a p\u00fablicos maiores.\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2025\/08\/14\/congadar-lanca-aprendi-com-meus-antepassados-e-provoca-talvez-esteja-faltando-ousadia-na-curadoria-dos-festivais\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":6,"featured_media":90650,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[3],"tags":[5445],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/90649"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/6"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=90649"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/90649\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":90659,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/90649\/revisions\/90659"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/90650"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=90649"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=90649"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=90649"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}