{"id":90285,"date":"2004-11-12T00:28:50","date_gmt":"2004-11-12T02:28:50","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=90285"},"modified":"2025-07-17T00:43:10","modified_gmt":"2025-07-17T03:43:10","slug":"cinema-cazuza-o-tempo-nao-para-e-um-documento-de-epoca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2004\/11\/12\/cinema-cazuza-o-tempo-nao-para-e-um-documento-de-epoca\/","title":{"rendered":"Cinema: &#8220;Cazuza &#8211; O Tempo N\u00e3o P\u00e1ra&#8221; \u00e9 um documento de \u00e9poca"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>texto de <a href=\"https:\/\/twitter.com\/screamyell\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Marcelo Costa<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">O rock brasileiro dos anos 80 est\u00e1 de volta. Por\u00e9m, engana-se quem esperar este retorno em um aparelho de CD. A tal volta tem rela\u00e7\u00e3o com o estrondoso sucesso da cinebiografia &#8220;Cazuza &#8211; O Tempo N\u00e3o P\u00e1ra&#8221; (2004), assinada a quatro m\u00e3os por Sandra Werneck e Walter Carvalho e que conta, no elenco, com Marieta Severo, Reginaldo Faria, Andr\u00e9a Beltr\u00e3o e D\u00e9bora Falabella, al\u00e9m do protagonista Daniel Oliveira encarnando o cantor que despontou para a fama cantando o blues e o rock \u00e0 la Rolling Stones com a banda Bar\u00e3o Vermelho, saiu em carreira solo at\u00e9 morrer, aos 32 anos, em decorr\u00eancia da Aids.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Segundo dados do Filme B (\u00f3rg\u00e3o respons\u00e1vel pelos dados de bilheterias dos cinemas brasileiros), at\u00e9 o final de setembro, &#8220;Cazuza &#8211; O Tempo N\u00e3o P\u00e1ra&#8221; havia sido visto por mais de 3 milh\u00f5es de pessoas, alcan\u00e7ando a nona posi\u00e7\u00e3o na lista de filmes mais assistidos no Pa\u00eds em 2004 (\u00e0 frente de, por exemplo, de &#8220;O \u00daltimo Samurai&#8221;, blockbuster hollywoodiano que conta com Tom Cruise) e a maior bilheteria de um filme brasileiro no ano. Os n\u00fameros impressionantes do filme fazem pensar: que p\u00fablico foi ver Cazuza? qual a relev\u00e2ncia de sua hist\u00f3ria para os dias de hoje? Cazuza \u00e9 o nosso Jim Morrison? Temos 3 milh\u00f5es de trint\u00f5es que foram matar saudades dos famigerados anos 80 nas salas de cinema?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma das maneiras de se analisar o sucesso do filme \u00e9 entender que Cazuza \u00e9 uma figura m\u00edtica, como os grandes her\u00f3is que morreram de overdose, impl\u00edcitos na letra de &#8220;Ideologia&#8221; (e expl\u00edcitos em uma can\u00e7\u00e3o de Lulu Santos da \u00e9poca, &#8220;Tesouros da Juventude&#8221;: Brian Jones, Jimi Hedrix, Janis Joplin, Jim Morrison). Em uma \u00e9poca cuja liberdade ainda era vigiada, Cazuza surgiu fazendo coisas que muita gente sonhava fazer (mas n\u00e3o tinha coragem para tanto), transformando-se em representante de uma juventude que ainda n\u00e3o sabia o que era realmente ser livre. &#8220;Sexo, drogas, rock&#8217;n&#8217;roll, adrenalina&#8221; (como cantava o parceiro Lob\u00e3o) combinavam com um rapaz que era filho de uma fam\u00edlia de classe m\u00e9dia alta, envolvida com o mundo da m\u00fasica (o pai, Jo\u00e3o Ara\u00fajo, era presidente da gravadora Som Livre) , com sede por aventuras e com dinheiro para pag\u00e1-las.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Trailer do filme &#039;Cazuza - O Tempo n\u00e3o P\u00e1ra&#039;\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/S66cllSAuZc?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Cazuza &#8211; O Tempo N\u00e3o P\u00e1ra&#8221; pega pesado neste lado do cantor, amparado pelo retrato desenhado por sua m\u00e3e, Lucinha Ara\u00fajo, no livro &#8220;S\u00f3 As M\u00e3es S\u00e3o Felizes&#8221; (1997). Desde as primeiras cenas, a c\u00e2mera nervosa e a edi\u00e7\u00e3o fren\u00e9tica tentam retratar as porralouquices do rapaz metido a poeta. Deste feito, surgem os epis\u00f3dios em que Cazuza conhece o Bar\u00e3o Vermelho (em um ensaio regado a maconha), os primeiros shows do grupo, os romances do cantor e sua tend\u00eancia a bissexualidade. Tudo aumenta em propor\u00e7\u00f5es inimagin\u00e1veis conforme o Bar\u00e3o Vermelho vai galgando as paradas de sucessos com hits como &#8220;Pro Dia Nascer Feliz&#8221; (cuja primeira grava\u00e7\u00e3o foi de Ney Matogrosso, que foi namorado de Cazuza e n\u00e3o \u00e9 citado em nenhum momento no filme), &#8220;Bete Balan\u00e7o&#8221; e &#8220;Maior Abandonado&#8221;. Um dos fatos interessantes desta primeira parte do filme \u00e9 ouvir as m\u00fasicas adentrando o territ\u00f3rio rock&#8217;n&#8217;roll do cantor: &#8220;procurando vaga uma hora aqui e a outra ali no vai-e-vem dos seus quadris&#8221;. Seguem-se a carreira solo (com muito menos destaque no filme) e a doen\u00e7a (em um excelente trabalho de interpreta\u00e7\u00e3o de Daniel Oliveira).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Toda rebeldia de Cazuza \u00e9 tamb\u00e9m fruto de um per\u00edodo hist\u00f3rico pelo qual o pa\u00eds estava passando, p\u00f3s-ditadura e p\u00f3s-censura. Cazuza viveu os \u00faltimos dias da decantada liberdade sexual, cuja maior v\u00edtima foi o lema &#8220;amor livre&#8221;, t\u00e3o presente no ide\u00e1rio de alguns de seus \u00eddolos. Transposta para os dias de hoje, a figura de Cazuza &#8211; controversa e hipn\u00f3tica &#8211; encontra abrigo n\u00e3o s\u00f3 na mem\u00f3ria de quem viveu a \u00e9poca, mas, principalmente, no saudosismo juvenil daqueles que nem eram nascidos, e admiram muito algu\u00e9m que tenha visto a cara da morte tendo tempo para voltar e escrever uma can\u00e7\u00e3o dizendo que ela estava viva (na m\u00fasica &#8220;Boas Novas&#8221;). Cazuza \u00e9 o representante daqueles que acreditam que vale a pena viver seguindo apenas suas pr\u00f3prias regras, ato rebelde que encontra eco em uma juventude cada vez mais protegida e direcionada pelos pais. Como escreveu o pr\u00f3prio, em parceria com Lob\u00e3o: &#8220;Eu n\u00e3o posso causar mal nenhum \/ A n\u00e3o ser a mim mesmo \/ A n\u00e3o ser a mim&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mais do que qualquer coisa, o filme nada tem de apolog\u00e9tico, afinal, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel ter como bom exemplo um cara que morre aos 32 anos, ap\u00f3s um sofrimento terr\u00edvel de anos, pesando 38 quilos, retrato do que uma vida desregrada, regada a muita bebida, drogas e promiscuidade sexual pode trazer a uma pessoa. \u00c9 o tipo de coisa que impressiona na tela do cinema, mas \u00e9 imposs\u00edvel de se desejar para qualquer fam\u00edlia. Serve mais como aviso do que como inspira\u00e7\u00e3o. Na melhor das vis\u00f5es, funciona como um &#8220;se quer fazer, fa\u00e7a, mas n\u00e3o cometa os mesmos erros&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Desta forma, &#8220;Cazuza &#8211; O Tempo N\u00e3o P\u00e1ra&#8221; \u00e9 o primeiro filme altamente rock&#8217;n&#8217;roll (muito mais em atitude do que em sonoridade) produzido por estes lados, transpirando o mundo perigoso deste g\u00eanero rebelde da m\u00fasica mundial. O mesmo rock que, por excel\u00eancia, tem muito mais parentesco com o juvenil do que com a maturidade. &#8220;Cazuza &#8211; O Tempo N\u00e3o P\u00e1ra&#8221; \u00e9 um documento de \u00e9poca que impressiona a molecada de hoje em dia, tanto quanto a molecada que cantava, em 1984, &#8220;mais uma dose \/ \u00e9 claro que eu estou afim. A noite nunca tem fim: por que a gente \u00e9 assim?&#8221;. \u00c9, tamb\u00e9m, apenas uma das vers\u00f5es da hist\u00f3ria de uma pessoa comum chamada Agenor Miranda de Ara\u00fajo Neto. Um exagerado personagem do mundo quase ficcional da m\u00fasica popular brasileira.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-90288 aligncenter\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2004\/11\/cazuza4.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"1088\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2004\/11\/cazuza4.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2004\/11\/cazuza4-207x300.jpg 207w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p><em>\u2013 Marcelo Costa (<a href=\"https:\/\/twitter.com\/screamyell\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">@screamyell<\/a>) \u00e9 editor do Scream &amp; Yell e assina a\u00a0<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/blog\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Calmantes com Champagne<\/a>.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"&#8220;Cazuza &#8211; O Tempo N\u00e3o P\u00e1ra&#8221; \u00e9 o primeiro filme altamente rock&#8217;n&#8217;roll (muito mais em atitude do que em sonoridade) produzido por estes lados, transpirando o mundo perigoso deste g\u00eanero rebelde\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2004\/11\/12\/cinema-cazuza-o-tempo-nao-para-e-um-documento-de-epoca\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":2,"featured_media":90289,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[4],"tags":[371],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/90285"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=90285"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/90285\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":90290,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/90285\/revisions\/90290"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/90289"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=90285"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=90285"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=90285"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}