{"id":9028,"date":"2011-07-04T11:10:13","date_gmt":"2011-07-04T14:10:13","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=9028"},"modified":"2016-10-13T10:22:39","modified_gmt":"2016-10-13T13:22:39","slug":"nas-beiradas-do-sonho-americano","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2011\/07\/04\/nas-beiradas-do-sonho-americano\/","title":{"rendered":"Nas beiradas do sonho americano"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-9029\" style=\"border: 1px solid black;\" title=\"bukowski\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/07\/bukowski.jpg\" alt=\"\" width=\"278\" height=\"400\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>por <a href=\"http:\/\/twitter.com\/eduardomarciano.\" target=\"_blank\">Gabriel Innocentin?i<\/a><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se voc\u00ea pensava que Charles Bukowski era um baita dum safado, que passava os dias em casa bebendo, escrevendo por uns poucos trocados e recebendo mulheres de todos os tipos, voc\u00ea est\u00e1 quase certo. A alcunha de \u201cVelho Safado\u201d, como ficou conhecido, representa com perfei\u00e7\u00e3o tal estere\u00f3tipo. O que pouca gente sabe \u00e9 que ele passou cerca de 50 anos de sua vida sem ser l\u00e1 muito safado, como disse num poema autodepreciativo:<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em>\u201cpara um homem de 55 que n\u00e3o fez sexo<br \/>\nat\u00e9 os 23<br \/>\ne n\u00e3o foi muito ass\u00edduo at\u00e9 os 50<br \/>\neu acho que devia ficar na lista<br \/>\nda Pacific Telephone<br \/>\nat\u00e9 conseguir tanto quanto<br \/>\num homem de meia-idade\u201d<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Isso \u00e9 o que se descobre lendo \u201cCharles Bukowski \u2013 Vida e loucuras de um Velho Safado\u201d, de Howard Sounes, lan\u00e7ado nos Estados Unidos em 1998 e com edi\u00e7\u00e3o brasileira da Conrad em 2000. Sounes teve acesso a quase todas as pessoas importantes na vida de Bukowski, principalmente \u00e1s mulheres. O retrato esbo\u00e7ado por essas conversas n\u00e3o \u00e9 muito enobrecedor: quando s\u00f3brio, Buk podia ser terno e carinhoso, mas quando bebia, se transformava no arruaceiro c\u00e9lebre. Terminar as brigas enjaulado n\u00e3o era raridade para Bukoswki, que trabalhou durante doze anos no servi\u00e7o de correios norte-americano.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com uma inf\u00e2ncia pobre e atormentada \u2013 Buk teve o pior tipo de espinha que um ser humano pode ter, da\u00ed o aspecto repulsivo de sua figura \u2013, ele sofreu muito na escola e em casa. Isolado dos colegas, apanhando do pai, Bukowski aprendeu a postura do Homem G\u00e9lido, como se referiu em um de seus contos autobiogr\u00e1ficos, para sobreviver \u2013 n\u00e3o demonstrar emo\u00e7\u00f5es. As mulheres, t\u00e3o celebradas e de presen\u00e7a marcante em seu romance chegaram tarde: ele perdeu a virgindade apenas aos 24 anos (o 23 do poema acima \u00e9 licen\u00e7a po\u00e9tica) e s\u00f3 foi aprender o que era sexo, definitivamente, quando encontrou Linda King, um de seus grandes amores.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Antes do artista, Sounes biografa o homem. Neste aspecto, a biografia gasta poucas linhas com a an\u00e1lise do estilo e das obras de Bukowski. A prosa do Velho Safado \u00e9 identificada com os di\u00e1logos \u00e1geis e diretos de Hemingway (o humor e a ironia ausentes no mestre da prosa enxuta entram como o toque de Buk na equa\u00e7\u00e3o) e com os cap\u00edtulos curtos de Fante, um de seus deuses e uma de suas principais influ\u00eancias \u2013 o pref\u00e1cio de Bukowski para \u201cPergunte ao P\u00f3\u201d \u00e9 simplesmente o melhor argumento para ler o cl\u00e1ssico romance protagonizado por Arturo Bandini. Sounes poderia ter aprofundado de que modo a leitura dos romances russos, principalmente de Dostoievski, influiu na vis\u00e3o de mundo do Velho Safado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Apesar de mostrar os poemas, que aparecem em profus\u00e3o em p\u00e1ginas de todos os cap\u00edtulos, Sounes n\u00e3o analisa o estilo po\u00e9tico de Bukowski. \u00c9 apenas pelo contexto que o leitor depreende, por exemplo, que muitos poemas do \u201cbardo do bar\u201d s\u00e3o praticamente contos dispostos em versos. Da\u00ed decorre tamb\u00e9m certa fraqueza de muitos poemas: para compreend\u00ea-los \u00e9 necess\u00e1rio saber a que epis\u00f3dio da vida de Buk eles se referem. Sounes revela que o elogio de Sartre (\u201co maior poeta vivo da atualidade\u201d) n\u00e3o passa de uma lenda inventada pelo Velho Safado para se auto-promover. De posse dessa informa\u00e7\u00e3o, as editoras brasileiras poderiam parar de estampar essa frase nos livros de Bukowski.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O bi\u00f3grafo acerta na veia ao atribuir \u00e0 \u201cfilosofia de n\u00e3o-participa\u00e7\u00e3o\u201d o apelo dos livros de Bukowski para os jovens e os insatisfeitos. A rejei\u00e7\u00e3o \u00e0s regras e \u00e0 sociedade, a id\u00e9ia de que as pessoas s\u00e3o desprez\u00edveis e de que a vida tem pouco valor est\u00e3o presentes em sua obra \u2013 mas tamb\u00e9m o outro lado da moeda: o de que h\u00e1 gra\u00e7a e beleza na mis\u00e9ria da exist\u00eancia, se voc\u00ea souber onde encontr\u00e1-las. No caso de Bukowski, ela est\u00e1 encarnada nas mulheres e nas bebidas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 das rela\u00e7\u00f5es conturbadas com o sexo feminino e com o \u00e1lcool que Charles Bukowski tirava o combust\u00edvel para seus livros e colunas em jornais \u2013 as \u201cNotes of a Dirty Man\u201d que o tornaram famoso no meio underground. As mulheres com quem ele se relacionou sugerem nas entrevistas que Buk procurava brigas e confus\u00e3o em sua vida como alimento para sua obra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A escolha por uma obra autobiogr\u00e1fica colaborou para as decep\u00e7\u00f5es: sempre um amigo citado depreciativamente nos contos rompia a amizade e as ex-amantes ficavam raivosas quando se viam retratadas em personagens de fic\u00e7\u00e3o sem nenhum aspecto positivo. A \u00fanica pessoa que n\u00e3o demonstra reservas sobre Bukoswki \u00e9 sua filha Marina, que afirmou ter no pai um porto seguro para todos os problemas, mesmo quando ele tinha problemas financeiros.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se foi um especialista em decep\u00e7\u00f5es, Bukowski teve sempre as vestes do sujeito dur\u00e3o, inabal\u00e1vel, mas sujeito a intemp\u00e9ries e explos\u00f5es de sentimentalidades, como implorar pela volta de Linda King em cartas rid\u00edculas \u2013 e qual carta de amor n\u00e3o \u00e9, \u00c1lvaro de Campos?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em que pese o in\u00edcio de exist\u00eancia nada promissor \u2013 recluso, sem o carinho dos pais na inf\u00e2ncia, sem rela\u00e7\u00f5es com as mulheres por ser bukowskimente feio, habitando os bares como mosca durante dez anos \u2013, ele deu sorte ao cruzar com o editor da Black Sparrow, John Marin, um sujeito que nunca tomou uma gota de \u00e1lcool na vida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Embora desconfiasse de Martin no come\u00e7o da amizade, aos 49 anos, Bukowski fez um contrato para receber cem d\u00f3lares mensais, o suficiente para as necessidades b\u00e1sicas como moradia e alimenta\u00e7\u00e3o, com a obriga\u00e7\u00e3o de escrever. Grande ironia para um escritor marginal: o acordo durou quase at\u00e9 o final da vida de Buk. Mesmo depois do sucesso e da fama, ele ainda recebia a mesada de Martin.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">J\u00e1 no final da vida, no meio dos anos 1980, ele passou a ganhar muito dinheiro ao entrar para o cinema hollywoodiano, escrevendo o argumento para o filme \u201cBarfly\u201d, de Barbet Schroeder, com um Mickey Rouke como Henri Chinasky, alter-ego de Bukowski em seu passeio pelas beiradas do sonho americano em bares, becos, brigas, boemia e bueiros. A partir do filme, ele n\u00e3o precisou mais se preocupar com dinheiro, tendo at\u00e9 se adaptado muito bem aos computadores, no in\u00edcio da d\u00e9cada de 1990.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">V\u00edtima de leucemia, Bukowski morreu em 1994 aos 73 anos de idade. Em seu t\u00famulo deixou escrito: \u201cDon\u2019t try\u201d. O epit\u00e1fio \u00e9 perfeito. Ao rechear seus contos de seres s\u00f3rdidos, em relatos c\u00ednicos e muitas vezes escatol\u00f3gicos, Bukowski estava dizendo: se tem nojinho, n\u00e3o leia. N\u00e3o \u00e9 para voc\u00ea. \u00c9 como sua figura grotesca, feia de doer: fique longe. Se voc\u00ea se aproximar, pode descobrir que a apar\u00eancia, como sugeriu Oscar Wilde, corresponde fielmente \u00e0 realidade. Voc\u00ea j\u00e1 entrou num boteco sem porta no banheiro masculino, a igreja de todos os b\u00eabados, como cantou Cazuza numa refer\u00eancia roubada do Velho Safado? N\u00e3o tente. \u00c9 l\u00e1 que se esconde a verdade \u2013 ao menos no caso de Charles Bukowski.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-9030 aligncenter\" title=\"bukowski1\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/07\/bukowski1.jpg\" alt=\"\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">*******<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Gabriel Innocentini (<a href=\"http:\/\/twitter.com\/eduardomarciano\" target=\"_blank\">@eduardomarciano<\/a>) \u00e9 jornalista e assina o blog  <a href=\"http:\/\/blogeurogol.blogspot.com\/\">Eurogol<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"por Gabriel Innocentin?i\nSe voc\u00ea pensava que Charles Bukowski era um baita dum safado, que passava os dias em casa bebendo, voc\u00ea est\u00e1 quase certo&#8230;\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2011\/07\/04\/nas-beiradas-do-sonho-americano\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":32,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[9],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9028"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/32"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=9028"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9028\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":9346,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9028\/revisions\/9346"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=9028"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=9028"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=9028"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}