{"id":90250,"date":"2025-07-14T00:09:52","date_gmt":"2025-07-14T03:09:52","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=90250"},"modified":"2025-10-05T22:39:35","modified_gmt":"2025-10-06T01:39:35","slug":"entrevista-don-l-lanca-caro-vapor-ii-e-diz-que-o-brasil-precisa-voltar-a-pensar-como-um-pais-soberano","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2025\/07\/14\/entrevista-don-l-lanca-caro-vapor-ii-e-diz-que-o-brasil-precisa-voltar-a-pensar-como-um-pais-soberano\/","title":{"rendered":"Entrevista: Don L lan\u00e7a &#8220;Caro Vapor II&#8221; e diz que o Brasil precisa &#8220;voltar a pensar como um pa\u00eds soberano&#8221;"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>entrevista de <a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/trsobrinho\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Thiago Sobrinho<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/donl\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Don L<\/a> mira um mapa-m\u00fandi e o v\u00ea de cabe\u00e7a para baixo. Afinal, j\u00e1 faz tempo que para o rapper cearense o Sul Global \u00e9 seu guia. Em \u201c<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=LgAJvMB3JTQ&amp;list=PLpmpNbqyfcHp6O-FklqR-96E0cRK4udjG\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Caro Vapor II &#8211; qual a forma de pagamento<\/a>\u201d (2025), esse giro decolonial se traduz na est\u00e9tica e na ideologia, especialmente quando o artista de 44 anos reivindica dialogar mais com o Brasil e a Am\u00e9rica do Sul do que com Estados Unidos ou Europa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em entrevista ao Scream &amp; Yell, o \u201c\u00faltimo bom malandro\u201d explica que suas escolhas nasceram de uma recusa de elementos musicais estrangeiros: \u201cFalava para (os produtores) Nave e Iuri: \u2018N\u00e3o quero batidas gringas nesse disco, tem que ser batida nacional, ou \u00c1frica, ou Am\u00e9rica Latina. Vamos conversar aqui entre n\u00f3s, com a nossa r\u00edtmica\u2019\u201d, ressalta Don L.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Exemplo disso \u00e9 a faixa \u201cPara Kendrick e Kanye\u201d, refer\u00eancia direta a Kendrick Lamar e Kanye West. A evoca\u00e7\u00e3o a \u201cPara Lennon e McCartney\u201d n\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa. Assim como Milton Nascimento homenageava seus \u00eddolos na d\u00e9cada de 1970; agora, em 2025, Don L dialoga e provoca os dois dos principais rappers da atualidade ao reafirmar sua cr\u00edtica ao imperialismo no cen\u00e1rio musical.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao longo das 15 faixas que comp\u00f5em o \u00e1lbum, essa inquieta\u00e7\u00e3o se traduz numa tentativa de recuperar uma autoestima brasileira. Isto \u00e9, uma satisfa\u00e7\u00e3o e alegria que j\u00e1 se cristalizou musicalmente no passado. \u201cA gente conversa muito pouco entre n\u00f3s (entre pa\u00edses latino-americanos e do Sul Global), que somos t\u00e3o parecidos. Queremos conversar com nossos algozes muito mais. E a conversa \u00e9 sempre subserviente. Ela n\u00e3o \u00e9 de igual pra igual\u201d, destaca.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nas redes sociais, por\u00e9m, esse \u00e9 um papo que ainda n\u00e3o foi assimilado por todos. \u201cNo Twitter, quando fa\u00e7o uma cr\u00edtica a um rapper gringo vem gente questionando quem \u00e9 o Don L para falar do Rick Ross, um cara que tem 50 milh\u00f5es na conta. Para ele, a m\u00e9trica sobre uma pe\u00e7a de arte \u00e9 o sucesso comercial. \u00c9 um bagulho meio rid\u00edculo, mas isso \u00e9 um pensamento muito comum\u201d, critica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Agora, com o novo disco lan\u00e7ado, Don L planeja os pr\u00f3ximos passos e adianta que eles podem convergir com a linguagem audiovisual: \u201cTenho um curta-metragem que queria ter lan\u00e7ado junto com o disco, mas n\u00e3o consegui fazer. Eu tinha um pr\u00e9-roteiro que mandei pro Geovani Martins (\u2018<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2018\/11\/28\/literatura-o-colecionador-era-uma-vez-uma-mulher-que-tentou-matar-o-bebe-da-vizinha-e-o-sol-na-cabeca\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">O Sol na Cabe\u00e7a<\/a>\u2019 e \u2018Via \u00c1pia\u2019), que \u00e9 um grande escritor contempor\u00e2neo brasileiro l\u00e1 do Vidigal, no Rio de Janeiro\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cEu o chamei, e ele aceitou. O que \u00e9 uma honra muito grande pra mim, porque ele \u00e9 um cara muito requisitado hoje em dia. E a gente est\u00e1 tentando fazer. Espero que em algum momento isso esteja na rua\u201d, conclui o \u201crapper favorito do seu rapper favorito\u201d. Confira a entrevista completa abaixo:<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"CARO Vapor II - qual a forma de pagamento ?\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/videoseries?list=OLAK5uy_nzCR9ZsC5YTc2e7sg1yM0BVfBHCL60UIs\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Como foi esse seu processo criativo de retorno ao \u201cCaro Vapor\u201d? Como voc\u00ea chegou a esse resultado?<\/strong><br \/>\nBom, eu j\u00e1 tinha o plano de fazer o \u201cVolume II\u201d, desde sempre. J\u00e1 tinha esse plano, mas passou muito tempo. S\u00f3 que esperei chegar ao momento certo. Acho que n\u00e3o s\u00f3 por uma quest\u00e3o de cria\u00e7\u00e3o art\u00edstica, \u00e0s vezes de condi\u00e7\u00e3o mesmo. Ent\u00e3o, tipo, eu quero produzir um disco de um jeito espec\u00edfico e, \u00e0s vezes, preciso de uma condi\u00e7\u00e3o financeira pra isso tamb\u00e9m. Uma tranquilidade pra que voc\u00ea consiga pagar as pessoas pelo menos o m\u00ednimo. Nunca produzi nenhum disco com a condi\u00e7\u00e3o ideal. Sempre foi numa condi\u00e7\u00e3o m\u00ednima, sabe?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E, tipo, precisava disso e a\u00ed chegou o momento. Eu j\u00e1 tava com a ideia do que eu queria, em termos de sonoridade. Essa onda de n\u00e3o ter nada gringo no disco. Nada gringo no sentido do Norte, da Am\u00e9rica do Norte, da Europa e tal. \u00d3bvio que estou dialogando ali com a \u00c1frica, com a Am\u00e9rica Latina. Pensando mais em Sul Global, que eu acho que \u00e9 uma conversa que a gente tem que ter cada vez mais, do que com o Norte, que a gente sempre teve uma postura de subservi\u00eancia. Eu tentei fazer isso, achei que estava na hora. Ent\u00e3o tem toda essa conflu\u00eancia de elementos, de momentos da vida, do que que eu t\u00f4 vivendo, do que que eu t\u00f4 sentindo, de como as coisas que acontecem no mundo est\u00e3o me atravessando e o que eu tenho a dizer sobre isso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Que tipo de Brasil voc\u00ea buscou retratar ao longo desses quase 56 minutos de \u00e1lbum?<\/strong><br \/>\nTem dois Brasis a\u00ed, um Brasil imagin\u00e1rio, que \u00e9 o Brasil que est\u00e1 mais em falta. E tem um Brasil real, que \u00e9 o Brasil colonizado, o Brasil que est\u00e1 rebaixado, decadente. E tem a briga entre eles dois. Ent\u00e3o \u00e9 uma disputa, na verdade, entre uma ideia de Brasil que deixou de ser imaginada e o Brasil real. E esse Brasil real se curva a uma ideia de col\u00f4nia mesmo. \u00c9 uma coisa que ultrapassa o espectro pol\u00edtico reduzido que a gente vive\u2026 de esquerda, que \u00e9 uma esquerda liberal, e uma direita que tem muitos sonhos com Miami, com Nova York, Paris, entendeu? E olha pouco pra Istambul, pra Argel, Teer\u00e3, sabe? Ou (olha pouco) pra pr\u00f3pria Am\u00e9rica Latina, pra Buenos Aires, pra Cidade do M\u00e9xico, pra Cuba.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E esse outro Brasil \u00e9 o que eu vivo. \u00c9 o que eu sinto na pele, \u00e9 o que me atravessa, \u00e9 o que eu preciso falar tamb\u00e9m, \u00e9 o que eu preciso me comunicar. E eu tamb\u00e9m estou sujeito. A gente \u00e0s vezes tamb\u00e9m est\u00e1 sujeito a se autocriticar. Ent\u00e3o o disco todo tamb\u00e9m \u00e9 um questionamento a mim mesmo e at\u00e9 onde eu consigo. Acho que tinha uma ideia de Brasil que a gente deixou pra tr\u00e1s, quando a gente tinha mais autoestima, quando a gente achava que realmente a gente ia ser o pa\u00eds do futuro e que a gente tinha todos os recursos naturais e culturais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Isso est\u00e1 localizado em que tempo, Don?<\/strong><br \/>\nEu acho que nos anos 60, at\u00e9 antes, nos anos 50, at\u00e9 os anos 80. No meio dos anos 80 pra frente come\u00e7ou a ficar esquisito.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00c9 a ascens\u00e3o do neoliberalismo tamb\u00e9m, n\u00e9?\u2028<\/strong><br \/>\nPorque \u00e9 a ascens\u00e3o do neoliberalismo no Brasil. Foi quando caiu a ditadura e o que se colocou. A queda da ditadura foi aquele jeitinho brasileiro\u2026 Acertado, n\u00e9? Lenta e gradualmente. E teve uma galera que desistiu mesmo. Porque cansa. Eu sei que cansa. Ent\u00e3o grandes nomes da nossa imagina\u00e7\u00e3o art\u00edstica e pol\u00edtica se conformaram um pouco. Depois veio o rap. E ele veio, tipo, questionando tamb\u00e9m muita coisa. Mas tamb\u00e9m cansa, porque \u00e9 complicado, saca? Mas a gente foi deixando, foi deixando, foi deixando\u2026 E a\u00ed eu tentei trazer uma outra imagina\u00e7\u00e3o, porque tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 aquela, \u00e9 outra agora. \u00c9 outra coisa.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-90253 aligncenter\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/donl1.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"750\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/donl1.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/donl1-300x300.jpg 300w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/donl1-150x150.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>De que maneira essa reinven\u00e7\u00e3o que voc\u00ea e outros artistas fazem, utilizando samples de artistas brasileiros do passado, s\u00e3o importantes para a constru\u00e7\u00e3o de novas identidades culturais no Brasil de hoje?<\/strong><br \/>\nO Marcelo D2, quando veio com aquele disco \u201cEu Tiro \u00c9 Onda\u201d (1988), foi um marco na hist\u00f3ria da m\u00fasica brasileira mesmo, porque vem do gueto, da periferia. N\u00e3o \u00e9 exatamente norte-americano. E acho que foi um jeito que eu j\u00e1 fiz tamb\u00e9m, mas que \u00e9 diferente. Que \u00e9 voc\u00ea usar samples brasileiros dentro de uma estrutura r\u00edtmica gringa. \u00d3bvio que ele tamb\u00e9m colocava o samba ali, no ritmo. E a\u00ed eu queria ir um passo al\u00e9m. Queria, tipo, tirar as batidas gringas do disco. Ent\u00e3o foi outro passo porque eu queria propor algo novo tamb\u00e9m. Acho que essa linguagem de fazer sample com boom bap j\u00e1 foi feita, t\u00e1 ligado? De samplear a m\u00fasica brasileira e botar um boom bap em cima. Eu acho massa, mas queria uma coisa realmente nova.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Partindo da ideia que h\u00e1 um Brasil que precisa ser redescoberto e que voc\u00ea aponta caminhos para isso, as suas letras abordam temas como migra\u00e7\u00e3o e deslocamento pessoais e coletivos. Como as suas experi\u00eancias dialogam com esses fen\u00f4menos migrat\u00f3rios globais e essas ideias de fronteiras, que podem ser f\u00edsicas, culturais ou digitais?<\/strong><br \/>\nEssa contradi\u00e7\u00e3o que est\u00e1 ali &#8211; de um Brasil real colonizado ao extremo, e um Brasil poss\u00edvel &#8211; muitas vezes \u00e9 muito sutil. Essa coisa de voc\u00ea navegar por esses mares. \u00c0s vezes o que estou propondo est\u00e1 muito mais em uma forma de dizer, do que eu n\u00e3o quero. Porque \u00e9 importante saber o que voc\u00ea quer e o que voc\u00ea n\u00e3o quer. A partir da\u00ed a gente pode come\u00e7ar a conversar. E estou propondo um caminho sonoro, uma forma de se enxergar no mundo. Pra gente conseguir criar algo, criar um sonho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa coisa do imigrante \u00e9 uma coisa muito doida, porque depois que saiu o disco, estourou mais ainda do que j\u00e1 est\u00e1 estourado, n\u00e9? A gente est\u00e1 num mundo que isso conversa muito com a minha pr\u00f3pria experi\u00eancia, porque dentro do Brasil eu sou um imigrante. Sou um nordestino em \u00eaxodo pra S\u00e3o Paulo, como muitos j\u00e1 foram e constru\u00edram essa cidade e muitas outras no Brasil. Ent\u00e3o converso a partir da minha pr\u00f3pria experi\u00eancia, mas enxergando tamb\u00e9m essas outras experi\u00eancias de um mundo cada vez mais onde as pessoas tentam fugir do reflexo do colonialismo. Voc\u00ea v\u00ea que a Europa agora est\u00e1 descobrindo que, porra, de repente fez merda. Mas pra mascarar essa constata\u00e7\u00e3o tem uma parcela toda pol\u00edtica que chega e diz que o problema da merda que est\u00e1 acontecendo s\u00e3o os imigrantes. Mas o que s\u00e3o os imigrantes invadindo a Europa? \u00c9 o reflexo da pr\u00f3pria coloniza\u00e7\u00e3o que eles praticaram.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E essas s\u00e3o respostas muito f\u00e1ceis para quest\u00f5es muito complexas. E, \u00e0s vezes, apesar de complexas, n\u00e3o s\u00e3o t\u00e3o dif\u00edceis de entender. Porque voc\u00ea imagina que se voc\u00ea \u00e9 um franc\u00eas, deve imaginar que a Fran\u00e7a colonizou a Arg\u00e9lia, certo? N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel que voc\u00ea n\u00e3o saiba disso. E voc\u00ea n\u00e3o pode imaginar que, porra, de repente a Arg\u00e9lia podia estar melhor. E a galera est\u00e1 com tanta vontade de ir pra Fran\u00e7a porque est\u00e1 t\u00e3o ruim e est\u00e1 ruim porque a gente fez essa merda l\u00e1. Ali\u00e1s, aqui est\u00e1 melhor porque a gente roubou deles. \u00c9 complexo, mas tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o dif\u00edcil de entender.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Em \u201cPara Kendrick e Kanye\u201d, voc\u00ea coloca o Sul Global no centro desse discurso e parece propor um novo olhar para n\u00f3s. Na sua vis\u00e3o, em que est\u00e1gio estamos desse despertar e como esse sonho de futuro pode transformar a realidade que vivemos?<\/strong><br \/>\nAcho que esse sonho, primeiro, tem que valorizar coisas que a gente cria, formas de vida que a gente produz e se organizar coletivamente. Sem organiza\u00e7\u00e3o coletiva a gente n\u00e3o tem como mudar nada. Mas, em primeiro lugar, ter um pouco mais de autoestima. Um pouco mais de cabe\u00e7a erguida. A gente acredita muito numa narrativa que vem de fora. A gente precisa ter uma autoestima brasileira. Voltar a pensar como um pa\u00eds soberano, e isso inclui tudo: cultura, m\u00fasica, estilo de vida, pol\u00edtica, saca? A gente n\u00e3o pode pensar numa chave s\u00f3, porque n\u00e3o \u00e9 como se a gente pudesse, a partir de agora, atrav\u00e9s do consumo, por exemplo, mudar o mundo. O consumo n\u00e3o muda as coisas. Mas se voc\u00ea junta pessoas e procura difundir ideias \u00e9, tipo, outra coisa. Ent\u00e3o tem uma quest\u00e3o de se organizar coletivamente e tamb\u00e9m ter mais autoestima, pensar no que vale a pena pra gente.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"02. Don L - para Kendrick e Kanye part Giovani Cidreira - CARO Vapor II \u2013 qual a forma de pagamento?\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/1es04KsxloY?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Mesmo que hoje as gravadoras n\u00e3o tenham o poder que tinham no passado, ainda existe esse filtro elitista delas que decide o que vai ser ouvido ou marginalizado. Essas decis\u00f5es s\u00e3o feitas por homens brancos e ricos, o que n\u00e3o deixa de ser uma forma de colonialismo dentro da ind\u00fastria.<\/strong><br \/>\nE agora eles podem fazer isso de uma forma muito mais sutil atrav\u00e9s dos algoritmos. A gente n\u00e3o est\u00e1 nem vendo, ele \u00e9 direcionado, mas tamb\u00e9m tem um outro lado, que \u00e9 o financiamento. Ent\u00e3o, tipo, tem muita coisa interessante sendo feita, mas tem muita coisa que poderia ser interessante e n\u00e3o consegue ser porque n\u00e3o tem grana suficiente, porque produzir arte \u00e9 caro tamb\u00e9m. Ent\u00e3o fica a\u00ed o questionamento sobre como que a gente vai financiar uma arte, criar uma arte brasileira competindo com uma parada que \u00e9 super financiada. \u00c0s vezes \u00e9 questionando tamb\u00e9m quem est\u00e1 no topo e pensar que a gente conseguiu muitas coisas sem financiamento nenhum. Conseguimos chegar muito longe. Muitos ritmos e estilos musicais brasileiros conseguiram chegar l\u00e1 em cima, ganhar um monte de dinheiro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea mencionou a quest\u00e3o dos algoritmos, e a gente est\u00e1 ligado que esse algoritmo n\u00e3o \u00e9 neutro. As entregas s\u00e3o enviesadas. \u00c9 o que tem gente que chama de racismo algor\u00edtmico, n\u00e9? Voc\u00ea acha que a partir dessa l\u00f3gica h\u00e1 o risco de apagamento da mem\u00f3ria cultural brasileira e latino-americana?<\/strong><br \/>\nCara, o risco sempre h\u00e1, mas a gente \u00e9 muito resiliente. Eu sou um exemplo. Eu n\u00e3o gosto de teoria da conspira\u00e7\u00e3o, mas a galera sempre fica me mandando mensagem dizendo que \u00e9 dif\u00edcil colocar minhas m\u00fasicas no Instagram. E essas redes tem dono. Esses donos atendem apenas aos seus interesses.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando o Twitter mudou de dono, eu n\u00e3o acho que o outro fosse t\u00e3o diferente, os meus posts come\u00e7aram a ter muito menos alcance. E a viol\u00eancia atrav\u00e9s das redes, ela \u00e9 di\u00e1ria. \u00c9 subliminar. Ela vai fazendo as pessoas se acostumarem e ficarem insens\u00edveis a um genoc\u00eddio acontecendo em tempo real, do outro lado do planeta, entendeu? Coisas que, h\u00e1 um tempo, uma imagem dessa chocaria o mundo, mas a repeti\u00e7\u00e3o delas deixa voc\u00ea insens\u00edvel. N\u00e3o s\u00f3 essas imagens, mas a mistura dessas imagens com a sedu\u00e7\u00e3o e itens de consumo.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"06. Don L - tristeza Na\u0303o part. Anelis Assump\u00e7\u00e3o - CARO Vapor II \u2013 qual a forma de pagamento?\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/4FKMiQ7v_9Q?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea canta em \u201ctristeza N\u00e3o\u201d sobre malandragem para n\u00e3o ir de arrasto. Num momento t\u00e3o dif\u00edcil no Brasil, em que diferentes formas de se viver s\u00e3o constantemente atacadas, quais s\u00e3o suas estrat\u00e9gias para manter o equil\u00edbrio?<\/strong><br \/>\nEnt\u00e3o, \u00e9 muito doido o mundo que a gente vive. A gente precisa estar lutando a favor de uma sanidade. Precisamos valorizar mais espa\u00e7os fora das redes, uma vida offline. Tentar cada vez mais isso. Mas, cada vez mais, isso tamb\u00e9m \u00e9 uma forma de privil\u00e9gio. Hoje em dia, n\u00e3o ter celular ou usar pouco celular \u00e9 uma distin\u00e7\u00e3o de classe. \u00c9 um privil\u00e9gio de poucos. Ent\u00e3o, a gente tem que pensar e tentar ter alternativas pra isso. Mas solucionar mesmo \u00e9 lutando por uma outra forma de internet, uma regula\u00e7\u00e3o das redes. E a regula\u00e7\u00e3o \u00e9 tamb\u00e9m um paliativo, n\u00e9? O ideal seria redes sociais brasileiras, por exemplo. N\u00e3o estrangeiras. (\u00c9 ser) Como \u00e9 na China, como \u00e9 em outros lugares do mundo. \u00c9 uma longa batalha que est\u00e1 s\u00f3 come\u00e7ando a ser travada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Don, me fala mais sobre seu futuro. Como que est\u00e1 o seu planejamento de shows, o que voc\u00ea quer entregar ao p\u00fablico e, tamb\u00e9m, se voc\u00ea j\u00e1 t\u00e1 trabalhando nesse meio tempo em outras coisas, em outras participa\u00e7\u00f5es.\u2028<\/strong><br \/>\nEstamos preparando o show que vai ser uma outra experi\u00eancia. Trago pro show um bagulho que complementa o disco. Em um sentido de outros elementos, est\u00edmulos visuais de palco mesmo e de performance. E uma tira\u00e7\u00e3o de onda. Um momento pra voc\u00ea curtir e tamb\u00e9m se libertar um pouco. Tipo, a m\u00fasica, ela tem esse poder. Por isso que eu quis trazer essa era da m\u00fasica brasileira ali, que era muito associada a algo libertador ao mesmo tempo que tinha coisas profundas sendo ditas nas letras. Mas com uma leveza, com uma coisa que te trazia uma sensa\u00e7\u00e3o de se libertar mesmo. E \u00e9 isso que eu quero traduzir pros shows.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-90251 aligncenter\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/donl3.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"938\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/donl3.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/donl3-240x300.jpg 240w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p><em>\u2013 Thiago Sobrinho (<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/trsobrinho\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">fb.trsobrinho<\/a>) \u00e9 jornalista do A Tribuna em Vit\u00f3ria, Esp\u00edrito Santo.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\u201cA gente conversa muito pouco entre n\u00f3s (entre pa\u00edses latino-americanos e do Sul Global), que somos t\u00e3o parecidos. 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