{"id":90210,"date":"2025-07-08T00:01:29","date_gmt":"2025-07-08T03:01:29","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=90210"},"modified":"2025-08-06T06:57:02","modified_gmt":"2025-08-06T09:57:02","slug":"critica-opus-e-bonito-e-bem-atuado-apesar-de-nao-se-sustentar-tao-bem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2025\/07\/08\/critica-opus-e-bonito-e-bem-atuado-apesar-de-nao-se-sustentar-tao-bem\/","title":{"rendered":"Cr\u00edtica: \u201cOpus\u201d \u00e9 bonito e bem atuado, apesar de n\u00e3o se sustentar t\u00e3o bem"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>texto de\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/caro.davii\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Davi Caro<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">O flerte da cultura pop com o culto \u00e0 personalidade \u00e9 um fen\u00f4meno quase t\u00e3o antigo quanto o pr\u00f3prio conceito de cultura pop; o mesmo pode ser dito sobre como a ind\u00fastria do entretenimento se retroalimenta do fasc\u00ednio que a idolatria, a superexposi\u00e7\u00e3o e a obess\u00e3o desmesurada s\u00e3o capazes de produzir. O estudo minucioso de f\u00e3s ao redor do globo em decifrar cada s\u00edlaba cantada por Taylor Swift, por exemplo, pode se mostrar como uma conclus\u00e3o l\u00f3gica da quase psic\u00f3tica \u201cDylanologia\u201d, conforme idealizada <a href=\"https:\/\/www.screamyell.com.br\/blog\/2018\/08\/16\/dylan-com-cafe-dia-76-world-tours\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">pelo infame A.J. Weberman<\/a>, do mesmo modo que o furor hoje destinado aos grandes astros do K-Pop remonta \u00e0 histeria coletiva da Beatlemania \u2013 e assim sucessivamente. \u00c9 imposs\u00edvel discutir, explicar, ou mesmo imaginar o conceito de cultura popular, ent\u00e3o, sem falar da fascina\u00e7\u00e3o id\u00f3latra que habita o (in)consciente coletivo desde que o mundo \u00e9 mundo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tal \u00e9 a realidade na qual habita Adrian Moretti, o cantor fict\u00edcio interpretado por John Malcovich em \u201cOpus\u201d (2025), novo filme da A24 dirigido pelo estreante Mark Anthony Green. O artista, que prefere ser identificado somente por seu sobrenome, \u00e9 um dos maiores astros dos anos 1990, respons\u00e1vel por colecionar hits, figurinos escandalosos, \u00e1lbuns ambiciosos e muitos, muitos rumores e mist\u00e9rios. Dos convidados ilustres recepcionados em seus camarins e badalados relacionamentos com figuras como Cindy Crawford, at\u00e9 boatos de haver comprado e vestido os dentes de Freddie Mercury, Moretti \u00e9, para dizer o m\u00ednimo, um exc\u00eantrico elusivo. No in\u00edcio do longa, um longo per\u00edodo longe dos holofotes, respons\u00e1vel por alimentar a aten\u00e7\u00e3o e a obsess\u00e3o de admiradores ao redor do globo, \u00e9 quebrado pelo s\u00fabito an\u00fancio de um retorno triunfal, acompanhado de um disco que, nas palavras do pr\u00f3prio, almeja o posto de obra definitiva. Naturalmente, o lan\u00e7amento \u00e9 acompanhado de um bomb\u00e1stico an\u00fancio no qual um seleto grupo de profissionais da imprensa e do entretenimento \u00e9 convidado, sem muita sutileza, a conhecer a ampla \u00e1rea restrita na qual Moretti habita, junto com muitos de seus in\u00fameros seguidores.<\/p>\n<p>\u00a0<img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-90213 aligncenter\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/opus3.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/opus3.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/opus3-300x176.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em meio ao grupo de convidados est\u00e1 Ariel (Ayo Edebiri), uma jovem jornalista em busca de reconhecimento e auto-afirma\u00e7\u00e3o profissional, e que lida com o choque de ser inesperadamente convocada com a ambi\u00e7\u00e3o que suas aspira\u00e7\u00f5es naturalmente implicam. Acompanhada de seu chefe, o inescrupuloso Stan (Murray Bartlett) juntamente com a apresentadora de TV Clara (Juliette Lewis), a fot\u00f3grafa paparazzi Bianca (Melissa Chambers), a influenciadora Emily (Stephanie Suganami) e o radialista Bill (Mark Silvertsen), a mo\u00e7a \u00e9 levada at\u00e9 o retiro, onde todos s\u00e3o recebidos cerimonialmente por um grupo de devotos de Moretti vestidos todos com cores e formas semelhantes, e que vivem em um tipo de doutrina misteriosa que envolve estranhas pe\u00e7as de teatro de fantoches, bizarros rituais durante jantares coletivos e outras pr\u00e1ticas, no m\u00ednimo, perturbadoras \u2013 tudo isso culminando em uma prometida primeira audi\u00e7\u00e3o do novo disco do cantor. Claro que n\u00e3o demora muito para que o grupo passe a diminuir, e que a oportunidade maravilhosa de uma avant-premiere de um trabalho dito \u201crevolucion\u00e1rio\u201d se transforme em um pesadelo do qual, no in\u00edcio, s\u00f3 Ariel parece realmente se dar conta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se a descri\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria soa cativante, \u00e9 porque o conceito desenvolvido de fato o \u00e9, ainda mais nos dias atuais, onde venerar uma entidade que se apresente como maior do que a vida \u00e9 praticamente um requisito b\u00e1sico a todos que buscam se encaixar em normas (e redes) sociais. O roteiro, no entanto, \u00e9 por vezes acidentado: Mark Anthony Green, vale citar, trabalhou anteriormente como jornalista e, mais tarde, editor da revista GQ, o que pode explicar a elabora\u00e7\u00e3o de sua perspectiva diante dos aspectos mais hostis do showbiz. Por\u00e9m, o desenvolvimento da trama carece de consist\u00eancia conforme os diferentes aspectos da seita de Moretti vem \u00e0 tona. As refer\u00eancias para a cria\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria pregressa do artista e antagonista do longa s\u00e3o inescap\u00e1veis e escancaradas para quem quiser ver. Dif\u00edcil n\u00e3o lembrar da m\u00edtica que sempre circundou grandes nomes como Prince e David Bowie, assim como (especialmente em uma tomada a\u00e9rea no in\u00edcio do filme) de Michael Jackson e sua ostensiva Neverland. Tais refer\u00eancias, infelizmente, acabam fazendo com que muitos detalhes do enredo caiam por terra diante de arqu\u00e9tipos t\u00edpicos de filmes inspirados em eventos reais de organiza\u00e7\u00f5es ditas \u201creligiosas\u201d, e de seus carism\u00e1ticos (e man\u00edacos) l\u00edderes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 na escolha dos personagens centrais, entretanto, que \u201cOpus\u201d consegue se redimir. Aproveitando bem o tempo predominante de tela, Ayo Edebiri demonstra o mesmo tipo de intensidade e entrega demonstrados antes nas tr\u00eas temporadas de \u201cO Urso\u201d, se sobressaindo mesmo com atua\u00e7\u00f5es que variam entre corretas (como a de Murray Bartlett, em apenas uma fra\u00e7\u00e3o do potencial exibido em \u201cThe White Lotus\u201d) e levemente exageradas (como a histeria deslocada de Juliette Lewis). Mas, apesar de agraciado com quase impercept\u00edveis participa\u00e7\u00f5es de luxo \u2013 tais quais as de Lenny Kravitz e Lil Nas X \u2013 \u201cOpus\u201d encontra seu \u00e1s em John Malcovich, que comanda todas as cenas com um tipo muito d\u00f3cil de estranheza, com direito \u00e0 uma (propositalmente) esquisita cena de dan\u00e7a. Sua performance ajuda a criar um senso de instabilidade constante, de uma insanidade parcamente oculta que se estende a todos os seguidores de sua cren\u00e7a. Uma men\u00e7\u00e3o em especial (\u00e0 Billie Holiday) ajuda a explicar as dementes raz\u00f5es por tr\u00e1s dos atos hediondos que tomam forma por dentro das cercas de seu retiro, em uma \u2013 mal velada \u2013 alus\u00e3o ao vampirismo da m\u00eddia especializada e de massas, apontada como incapaz de criar e destinada a viver como detratora, e sanguessuga, de d\u00e1divas art\u00edsticas profundas demais para criaturas de mentes estreitas.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Opus (2025) | A24 | Trailer Legendado\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/4-rdKpvHY4Q?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tecnicamente falando, trata-se de um filme impec\u00e1vel. O trabalho de cinematografia, conduzido por Tommy Maddox-Upshaw, faz excelentes usos de tomadas abertas que valorizam paisagens naturais, ao mesmo tempo em que trechos filmados em ambientes fechados s\u00e3o adornados com usos de cores que refor\u00e7am a sensa\u00e7\u00e3o de desorienta\u00e7\u00e3o e perturba\u00e7\u00e3o. E a m\u00fasica, claro, tamb\u00e9m n\u00e3o deixa a desejar: al\u00e9m das pe\u00e7as incidentais, o que realmente chama a aten\u00e7\u00e3o s\u00e3o as can\u00e7\u00f5es compostas para o filme, como interpretadas por Moretti. Estas, resultado da colabora\u00e7\u00e3o entre o cantor e compositor The-Dream e o guitarrista e produtor Nile Rodgers, s\u00e3o capazes de soarem contempor\u00e2neas na linha do R&amp;B do primeiro, ao mesmo tempo em que remetem diretamente aos c\u00e9lebres trabalhos setentistas e oitentistas do segundo (e, em especial, a seus discos com&#8230;David Bowie). As tr\u00eas novas faixas trabalhadas pela dupla mereceram, inclusive, um lan\u00e7amento em streaming, na forma de \u201cOPUS: The Moretti EP\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Entre mortos e feridos, \u201cOpus\u201d \u00e9, em sua forma final, desbalanceado: com um final algo agridoce, \u00e9 um filme onde as performances fazem valer a experi\u00eancia, mas no qual muito da subst\u00e2ncia dram\u00e1tica se mostra vol\u00e1til e pouco certa de si. O trabalho inagural de Mark Anthony Green n\u00e3o se sustenta t\u00e3o bem, mas pode indicar melhores retornos no futuro n\u00e3o t\u00e3o distante. H\u00e1 coisas para se gostar, e estas s\u00e3o capazes de justificar esta ambiciosa empreitada \u2013 dependendo do n\u00edvel de boa vontade do espectador, disposto, ou n\u00e3o, a testemunhar uma obra de arte capaz de retratar t\u00e3o bem o horror por tr\u00e1s de um culto, mesmo que ainda carecendo, justamente, de um pouco mais de personalidade.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-90211 aligncenter\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/opus2.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"948\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/opus2.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/opus2-237x300.jpg 237w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p><em><a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=4cfQaQO-YD4\">\u2013\u00a0Davi Caro\u00a0\u00e9 professor,<\/a>\u00a0tradutor, m\u00fasico, escritor e estudante de Jornalismo. Leia mais textos dele\u00a0<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/author\/davi-caro\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">aqui<\/a>.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\u201cOpus\u201d \u00e9 desbalanceado, um filme onde as performances fazem valer a experi\u00eancia, mas no qual muito da subst\u00e2ncia dram\u00e1tica se mostra vol\u00e1til.\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2025\/07\/08\/critica-opus-e-bonito-e-bem-atuado-apesar-de-nao-se-sustentar-tao-bem\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":134,"featured_media":90212,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[4],"tags":[7790],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/90210"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/134"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=90210"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/90210\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":90214,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/90210\/revisions\/90214"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/90212"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=90210"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=90210"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=90210"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}