{"id":90185,"date":"2005-07-29T00:32:29","date_gmt":"2005-07-29T03:32:29","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=90185"},"modified":"2025-07-05T00:45:22","modified_gmt":"2025-07-05T03:45:22","slug":"cinema-sin-city-e-um-filmaco","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2005\/07\/29\/cinema-sin-city-e-um-filmaco\/","title":{"rendered":"Cinema: &#8220;Sin City&#8221; \u00e9 um filma\u00e7o"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>texto de\u00a0<a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/screamyell\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Marcelo Costa<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quem mistura leite com manga morre. Ser\u00e1 verdade? Isso n\u00e3o est\u00e1 em nenhum dicion\u00e1rio m\u00e9dico, mas a sabedoria popular aconselha a n\u00e3o juntar os ingredientes no est\u00f4mago. Pode ser fatal. Na arte tamb\u00e9m \u00e9 assim, dizem. Misturas de g\u00eaneros geralmente entornam o caldo e podem induzir a obra ao t\u00famulo art\u00edstico. Quando se trata, ent\u00e3o, de misturar m\u00eddias, o resultado \u00e9 normalmente catastr\u00f3fico, com rar\u00edssimas exce\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De uns tempos para c\u00e1, devido principalmente a evolu\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica que permitiu aos est\u00fadios maior poder de &#8220;fantasia&#8221; sobre suas hist\u00f3rias, as populares HQspassaram a ser fonte constante de adapta\u00e7\u00f5es cinematogr\u00e1ficas. Apesar de alguns acertos (&#8220;Homem Aranha&#8221;, &#8220;<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2005\/06\/16\/cinema-batman-begins-o-homem-morcego-definitivo-de-christopher-nolan\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Batman Begins<\/a>&#8220;), ainda n\u00e3o dava para dizer que aquilo que se via na tela era uma hist\u00f3ria em quadrinhos. N\u00e3o dava: &#8220;Sin City \u2013 A Cidade do Pecado&#8221; (2005) surge para mudar essa hist\u00f3ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lan\u00e7ada em 1991, a HQ &#8220;Sin City&#8221; logo se tornou um cl\u00e1ssico dos chamados quadrinhos adultos. Assinada pelo g\u00eanio Frank Miller, a hist\u00f3ria tinha como uma de suas caracter\u00edsticas ser em preto e branco e raramente usar cores, al\u00e9m de transbordar cinismo ao retratar o mundo moderno de uma cidade do pecado, corrupta, prostitu\u00edda e mal-paga.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Miller se recusava a vender a hist\u00f3ria para os est\u00fadios de Hollywood sabendo que o cinema poderia jogar no lixo uma obra t\u00e3o sensacional. Precisou que Robert Rodriguez jogasse sua carteirinha de cineasta no lixo (o diretor pediu desligamento da Director&#8217;s Guild of Am\u00e9rica para incluir o nome de Miller como co-diretor no filme, j\u00e1 que a associa\u00e7\u00e3o n\u00e3o permite a exist\u00eancia desta fun\u00e7\u00e3o) e, tendo Miller como bra\u00e7o direito, Tarantino por perto, e as pr\u00f3prias revistas como roteiro, transpusesse para o cinema o clima s\u00e1dico e sombrio das p\u00e1ginas da HQ. O resultado \u00e9 acachapante.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-90187 aligncenter\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/sin2.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/sin2.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/sin2-300x176.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por\u00e9m, puristas acreditam que a adapta\u00e7\u00e3o rompe conceitos b\u00e1sicos tanto do cinema quanto das HQs. A ilus\u00e3o de movimento t\u00edpica do cinema teria achatado a est\u00e9tica dos quadrinhos, fixa em uma p\u00e1gina, e, pior, teria surrupiado do p\u00fablico (principalmente dos leitores de HQs) a liberdade de imagina\u00e7\u00e3o e dom\u00ednio sobre a hist\u00f3ria, j\u00e1 que Rodriguez \u2013 com o aux\u00edlio de Miller, \u00e9 importante ressaltar \u2013 deu vida e movimentos a personagens broncos que eram desenhados em uma folha, e l\u00e1 pulavam de um enquadramento para outro sem nenhuma gestualiza\u00e7\u00e3o, mas com total controle imaginativo do leitor, enquanto aqui caminham, pulam pr\u00e9dios, se socam e dirigem carros deixando o espectador como mero coadjuvante da hist\u00f3ria. A resposta para tudo isto est\u00e1 numa afirma\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio Rodriguez que declarou que n\u00e3o via &#8220;Sin City&#8221; como uma adapta\u00e7\u00e3o, mas sim como uma tradu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o \u00e9 a mesma coisa, mas \u00e9, entende? (risos). No fundo, \u00e9 algo muito mais te\u00f3rico que pr\u00e1tico, voltado para catedr\u00e1ticos de semi\u00f3tica, cineastas e gente que manja de t\u00e9cnicas de produ\u00e7\u00e3o, e n\u00e3o para pessoas comuns que v\u00eaem cinema como divers\u00e3o e entretenimento. No fundo, s\u00e3o como edi\u00e7\u00f5es remasterizadas de CDs: eu nunca consigo perceber a diferen\u00e7a. No caso do cinema, at\u00e9 entendo, respeito e valorizo regras como as do Dogma 95, por\u00e9m o que importa, e sempre ir\u00e1 importar, \u00e9 voc\u00ea sentado na frente da telona com cento e poucos minutos de proje\u00e7\u00e3o \u00e0 frente. \u00c9 ali que voc\u00ea saber\u00e1 se o filme \u00e9 bom ou n\u00e3o, independente de fatores de produ\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dito tudo isto, vamos ao que interessa: &#8220;Sin City&#8221; \u00e9 um filma\u00e7o. Dever\u00e1 agradar f\u00e3s da s\u00e9rie, que v\u00e3o ter muito que comparar e festejar. Deve agradar a quem n\u00e3o gosta tanto de quadrinhos (como eu), mas que \u00e9 fascinado por cinema e por hist\u00f3rias bem contadas. Sobretudo, vai agradar a quem gosta de cinema sujo, pervertido, sombrio e c\u00ednico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Deixando as t\u00e9cnicas de filmagem de lado, o que sobra s\u00e3o o texto avassalador de Miller e as atua\u00e7\u00f5es brilhantes de uma constela\u00e7\u00e3o de atores broncos que parecem terem sido escolhidos a dedo pelos produtores: Bruce Willis, Mickey Rourke (em excelente atua\u00e7\u00e3o), Rutger Hauer, Benicio Del Toro, Michael Madsen e Clive Owen (o &#8220;machista&#8221; de &#8220;<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2010\/04\/03\/dvd-closer-de-mike-nichols\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Closer \u2013 Perto Demais<\/a>&#8220;) transbordam trucul\u00eancia, que parecem ganhar contornos ainda mais broncos ao serem colocados ao lado de beldades como J\u00e9ssica Alba, Brittany Murphy, Rosario Dawson e Carla Gugino, entre outras.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Sin City - 2005 - Sin City - A Cidade do Pecado - Trailer\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/uLB4U7OKrmM?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A rigor, &#8220;Sin City&#8221; \u00e9 baseado em tr\u00eas hist\u00f3rias publicadas em graphic novel: &#8220;The Hard Good-Bye&#8221;, &#8220;The Big Fat Kill&#8221; e &#8220;That Yellow Bastard&#8221;. A primeira destaca Mickey Rourke encarnando a perfei\u00e7\u00e3o o ex-criminoso Marv que busca se vingar da morte de uma prostituta. A segunda foca na guerra entre policiais e as prostitutas da Cidade Velha de &#8220;Sin City&#8221;, em que brilham o texto c\u00ednico de Miller e as atua\u00e7\u00f5es empolgantes de Del Toro e Clive Owen. &#8220;That Yellow Bastard&#8221;, a terceira hist\u00f3ria, \u00e9 dividida em duas partes. Come\u00e7a focando no personagem de Bruce Willis, um detetive honesto que passa 8 anos em cana ap\u00f3s ser tra\u00eddo por seu parceiro, depois de impedir que o filho ped\u00f3filo de um pol\u00edtico local &#8220;devorasse mais uma criancinha&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A seq\u00fc\u00eancia da hist\u00f3ria flagra o tal bastardo amarelo na pista da tal menininha, isso oito anos ap\u00f3s a tentativa de estupro. S\u00f3 que agora a menininha virou um mulher\u00e3o, e que mulher\u00e3o (a hist\u00f3ria d\u00e1 voltas, esbarra em outros personagens, e fecha o c\u00edrculo, afinal, estamos todos na cidade do pecado) . Quem ir\u00e1 salv\u00e1-la?, pergunta o leitor. E mais uma vez o policial honesto, mas truculento, entra em cena. Essa terceira hist\u00f3ria tamb\u00e9m registra a divertida passagem filmada por Tarantino em que Clive Owen &#8220;conversa&#8221; com o cad\u00e1ver de Benicio Del Toro. Impag\u00e1vel. Robert Rodriguez comp\u00f4s a trilha sonora de &#8220;Kill Bill 2&#8221; pelo pre\u00e7o simb\u00f3lico de US$ 1. Como retribui\u00e7\u00e3o, Tarantino decidiu dirigir este segmento de &#8220;Sin City&#8221; pela mesma quantia. Trabalhar com o que se gosta \u00e9 outra coisa, n\u00e3o \u00e9 mesmo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mais do qualquer outra coisa, a vers\u00e3o cinematogr\u00e1fica de &#8220;Sin City&#8221; lan\u00e7a luz sobre os quadrinhos cl\u00e1ssicos de Frank Miller, que correm o risco de sair do gueto dos f\u00e3s de HQs para se tornarem, merecidamente, &#8220;best sellers&#8221; da literatura mundial. Exagero? N\u00e3o, e os di\u00e1logos matadores do filme est\u00e3o l\u00e1 para comprovar. \u00c9 claro que, esteticamente, o filme respira cinema com oxig\u00eanio de quadrinhos, mas, no fundo, bem l\u00e1 no fundinho, \u00e9 cinem\u00e3o blockbuster. Por\u00e9m, diferente do excelente &#8220;Batman Begins&#8221;, em que o Christopher Nolan quis dar ao homem-morcego o tom mais humano poss\u00edvel, em &#8220;Sin City&#8221;, Robert Rodriguez simplesmente jogou os quadrinhos na tela de cinema. E deu movimentos para a hist\u00f3ria. A mistura, que poderia soar tremendamente indigesta, se tornou um dos grandes filmes de 2005. Afinal, suco de manga com leite tem um gosto \u00f3timo. \u00c0s vezes vale a pena arriscar.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-90188 aligncenter\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/sin3.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"1109\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/sin3.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/sin3-203x300.jpg 203w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p><em>\u2013 Marcelo Costa (<a href=\"https:\/\/twitter.com\/screamyell\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">@screamyell<\/a>) \u00e9 editor do Scream &amp; Yell e assina a\u00a0<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/blog\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Calmantes com Champagne<\/a>.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Robert Rodriguez simplesmente jogou os quadrinhos na tela de cinema. 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