{"id":9010,"date":"2011-07-04T00:25:12","date_gmt":"2011-07-04T03:25:12","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=9010"},"modified":"2019-11-11T01:33:58","modified_gmt":"2019-11-11T04:33:58","slug":"trilhas-sonoras-de-amor-perdidas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2011\/07\/04\/trilhas-sonoras-de-amor-perdidas\/","title":{"rendered":"Trilhas Sonoras de Amor Perdidas"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-9011\" title=\"trilhas1\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/07\/trilhas1.jpg\" alt=\"\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>por Marcelo Costa<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;A pr\u00f3xima m\u00fasica que n\u00f3s vamos tocar fala sobre imperman\u00eancia. Muita gente aqui carrega mortos nas costas. Essa m\u00fasica fala sobre isso e se chama \u2018Mesmo Que Mude&#8217;\u201d. Ao anunciar aquela que seria a \u00faltima can\u00e7\u00e3o do show que a Bid\u00ea ou Balde fez no fim da madrugada de s\u00e1bado, no Jukebox Festival, em S\u00e3o Paulo, o vocalista Carlinhos Carneiro estava explicando o conceito dos relacionamentos atrav\u00e9s de uma can\u00e7\u00e3o quase doce que diz que \u00e9 sempre amor&#8230; mesmo que acabe, mesmo que mude.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Trilhas Sonoras de Amor Perdidas&#8221; aprofunda a tem\u00e1tica da imperman\u00eancia focando nas fitas cassetes que um rapaz gravava para uma menina. Voc\u00ea, caro leitor, talvez nunca tenha gravado ou ganhado uma fita cassete, mas j\u00e1 deve ter gravado (ou ganhado) um CDR ou uma mixtape. \u201cA maioria das fitas gravadas se transformaram em CDs, que se transformaram em Playlists. A tecnologia muda, mas o esp\u00edrito \u00e9 o mesmo\u201d, explica o personagem principal (interpretado por Guilherme Weber) em certo momento da pe\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A nova produ\u00e7\u00e3o da Sutil Companhia de Teatro, de Curitiba, \u00e9 a segunda parte de uma trilogia iniciada com a sensacional \u201cA Vida \u00e9 Cheia de Som e F\u00faria\u201c, em 2000 (eleita uma das 10 pe\u00e7as mais importantes da d\u00e9cada pela revista Bravo), e que tem por gancho a m\u00fasica pop. N\u00e3o \u00e0 toa, o cen\u00e1rio de &#8220;Trilhas Sonoras de Amor Perdidas&#8221; \u00e9 tomado por vinis (\u201cScreamadelica\u201d, \u201cBringing It All Back Home\u201d, \u201cAutomatic\u201d, \u201cSouthpaw Grammar\u201d, \u201cMTV Unplugged in New York\u201d, \u201cChelsea Girl\u201d e muitos outros) e caixas de som.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por\u00e9m, por mais que a m\u00fasica seja uma das estrelas da pe\u00e7a, &#8220;Trilhas Sonoras de Amor Perdidas&#8221; apenas usa as can\u00e7\u00f5es como ferramenta para aprofundar a tem\u00e1tica da mem\u00f3ria t\u00e3o cara \u00e0 companhia curitibana. As m\u00fasicas est\u00e3o ali ligando os personagens (como tantas vezes conectaram e continuam conectando pessoas), fazendo com que eles viajem no tempo (aqui mais precisamente para o come\u00e7o dos anos 90) atrav\u00e9s de uma sele\u00e7\u00e3o de m\u00fasicas gravada de forma especial para&#8230; dormir, dirigir, transar ou dizer, de forma cifrada, eu te amo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ele \u00e9 jornalista (e assina uma coluna em um jornal em que recupera trilhas sonoras de amor perdidas) e tem um programa em uma r\u00e1dio. A hist\u00f3ria come\u00e7a em S\u00e3o Paulo em uma noite em que o rapaz est\u00e1 revirando suas fitas e lembrando de sua ex-mulher, Soninho (Natalia Lage). Eles se conheceram como muitos casais: ela estava em uma balada e ele a percebeu cantando uma m\u00fasica -\u201cThirteen\u201d, do primeiro disco do Big Star &#8211; e prometeu gravar uma fita especial para ela (e gravou abrindo com \u201cFemme Fatale\u201d na vers\u00e3o do Big Star).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eles est\u00e3o se apaixonado e come\u00e7am a gravar enlouquecidamente fitas cassetes um para o outro. Tudo para eles est\u00e1 ligado intrinsecamente \u00e0 m\u00fasica. No dia do primeiro beijo, por exemplo, ela lamenta n\u00e3o ter encontrado a fita com o \u00e1lbum \u201cMoondance\u201d, de Van Morrison: \u201cEu tinha planejado para mim mesma que isso iria acontecer ao som desse disco\u201d. Mais pra frente os dois festejam a felicidade bebendo u\u00edsque e cantando uma m\u00fasica que diz que o mundo ir\u00e1 acabar em cinco anos (\u201cFive Years\u201d, David Bowie).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As m\u00fasicas est\u00e3o ali conduzindo o espet\u00e1culo, no entanto, &#8220;Trilhas Sonoras de Amor Perdidas&#8221; diverge bastante de \u201cSom e F\u00faria\u201d, uma pe\u00e7a mais adolescente (apesar de Rob Fleming ter 36 anos) e centrada no humor e na crise do amadurecimento (em tempos de adultesc\u00eancia). \u201cTrilhas\u201d t\u00eam l\u00e1 seus \u00f3timos momentos de com\u00e9dia, mas \u00e9 muito mais profunda, dolorida e dram\u00e1tica chegando a sufocar o espectador \u2013 principalmente na segunda parte, densa e por v\u00e1rias vezes tristonha.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O rapaz est\u00e1 ali cercado por fitas cassete que representam uma pessoa que n\u00e3o existe mais, muito embora ele quisesse que ela ainda existisse, e ele a mant\u00e9m viva naquelas fitas embora j\u00e1 n\u00e3o lembre mais da cor dos olhos dela. O tempo passa&#8230; e \u00e9 preciso seguir em frente (seja com as can\u00e7\u00f5es ou sem elas). Imposs\u00edvel n\u00e3o ouvir Carlinhos Carneiro cantando: \u201cEla vai mudar. Vai gostar de coisas que ele nunca imaginou. Vai ficar feliz de ver que ele tamb\u00e9m mudou. Pelo jeito n\u00e3o descarta uma nova paix\u00e3o\u201d. Mesmo agarrado por milhares de cora\u00e7\u00f5es partidos, o tempo n\u00e3o para.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Trilhas Sonoras de Amor Perdidas&#8221; analisa de forma arrebatadora as coisas que ficam impregnadas em nossa pele e que n\u00e3o conseguimos deixar para tr\u00e1s nem explicar direito o motivo pelos quais elas ainda nos acompanham ap\u00f3s o fim. Talvez seja amor (mesmo que mude). Uma ouvinte do programa de r\u00e1dio lhe envia uma trilha sonora de amor perdida (uma fita que seu ex gravou para ela) contando a sua hist\u00f3ria: \u201cN\u00f3s termin\u00e1vamos toda semana, e sempre volt\u00e1vamos. Ele tinha um g\u00eanio forte que queria me manter longe dele, mas ainda assim eu o amava\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esta talvez seja a melhor pe\u00e7a que a Sutil Companhia de Teatro j\u00e1 fez por seu conjunto de acertos em sua inspirada montagem. O roteiro, exemplar, vai e volta e se repete na \u00e2nsia de refor\u00e7ar a id\u00e9ia da mem\u00f3ria que come\u00e7a a se perder, do amor que come\u00e7a a escorrer como \u00e1gua entre os v\u00e3os dos dedos. Os atores brilham em cena e a hist\u00f3ria \u00e9 forte o bastante para dar n\u00f3 na garganta, apertar o peito e garantir pequenas pontadas no est\u00f4mago, dores que quem viveu (o fim de) uma verdadeira hist\u00f3ria de amor j\u00e1 sentiu.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As m\u00fasicas est\u00e3o ali como um objeto de familiaridade e fetiche para o p\u00fablico (que ir\u00e1 gravar mixtapes com as can\u00e7\u00f5es da pe\u00e7a), mas a fun\u00e7\u00e3o delas \u00e9 ainda mais nobre: a de funcionar como trilha sonora de v\u00e1rias hist\u00f3rias de amor (quem sabe, a sua). De \u201cDon&#8217;t Get Me Wrong\u201d a \u201cHeart Shaped Box\u201d. De \u201cSadly Beautiful\u201d a \u201cJust Like Heaven\u201d. De \u201cBeast of Burden\u201d a \u201cSo Real\u201d. De \u201cMidnight Train to Georgia\u201d a \u201cLadies and Gentleman, We\u2019re Floating in Space\u201d e \u201cSoul on Fire\u201d, a m\u00fasica, como escreveu Salman Rushdie certa vez, \u201cmostra como deveriam ser os nossos eus, se f\u00f4ssemos dignos do mundo&#8221;. E dignos do amor.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-9012 aligncenter\" title=\"trilhas2\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/07\/trilhas2.jpg\" alt=\"\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Marcelo Costa (<a href=\"http:\/\/twitter.com\/screamyell\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">@screamyell<\/a>) \u00e9 editor do Scream &amp; Yell e assina a <a href=\"..\/..\/blog\/\">Calmantes com Champagne<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Leia tamb\u00e9m:<\/strong><br \/>\n&#8211; \u201cN\u00e3o Sobre Amor\u201d, uma bela pe\u00e7a cruel e l\u00edrica, por Marcelo Costa (<a href=\"..\/..\/blog\/2009\/03\/01\/nao-sobre-amor\/\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; Guilherme Weber fala ao Scream &amp; Yell sobre \u201cAvenida Dropsie\u201d (<a href=\"http:\/\/www.screamyell.com.br\/mais\/dropsie.htm\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; Guilherme Weber fala sobre A Vida \u00e9 Cheia de Som e F\u00faria, por Marcelo Costa (<a href=\"http:\/\/www.screamyell.com.br\/mais\/somefuria.html\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; \u201cNostalgia\u201d, uma encantadora pe\u00e7a de teatro pop, por Marcelo Costa (<a href=\"http:\/\/www.screamyell.com.br\/mais\/nostalgia.html\">aqui<\/a>)<br \/>\n-&#8220;O Ch\u00e3o Que Ela Pisa&#8221;, de Salman Rushdie, por Marcelo Costa (<a href=\"http:\/\/www.screamyell.com.br\/literatura\/chaoquelapisa.htm\">aqui<\/a>)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>A exibi\u00e7\u00e3o de \u201cTrilhas Sonoras de Amor Perdidas\u201d integra uma mini-mostra da Sutil no Sesc Belenzinho, em S\u00e3o Paulo, que inclui ainda \u201cThom Pain \/ Lady Gray\u201d e \u201cN\u00e3o Sobre Amor\u201d.<br \/>\n<\/em><br \/>\n<strong>\u201cTrilhas Sonoras de Amor Perdidas\u201d<\/strong><br \/>\nDe 18\/06 a 31\/07<br \/>\nS\u00e1bados, \u00e0s 20h; domingos, \u00e0s 18h<br \/>\nDura\u00e7\u00e3o: 3h, com intervalo de 15 minutos<\/p>\n<p><strong>\u201cThom Pain \/ Lady Gray\u201d<\/strong><br \/>\nDe 23\/06 a 07\/07<br \/>\nQuintas, \u00e0s 21h (no feriado do dia 23, a sess\u00e3o ser\u00e1 \u00e0s 18h)<br \/>\nDura\u00e7\u00e3o: 2h com intervalo de 15 minutos<\/p>\n<p><strong>\u201cN\u00e3o Sobre o Amor\u201d<\/strong><br \/>\nDe 15\/07 a 31\/07<br \/>\nSextas e s\u00e1bados, \u00e0s 21h30; domingos, \u00e0s 18h30<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"por Marcelo Costa\nEsta talvez seja a melhor pe\u00e7a que a Sutil Cia de Teatro j\u00e1 fez por seu conjunto de acertos em sua inspirada montagem.\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2011\/07\/04\/trilhas-sonoras-de-amor-perdidas\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[36],"tags":[4122],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9010"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=9010"}],"version-history":[{"count":22,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9010\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":53631,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9010\/revisions\/53631"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=9010"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=9010"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=9010"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}