{"id":90048,"date":"2025-06-30T13:04:33","date_gmt":"2025-06-30T16:04:33","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=90048"},"modified":"2025-08-18T08:49:59","modified_gmt":"2025-08-18T11:49:59","slug":"el-baile-rock-e-a-insurreicao-sonora-do-norte-quando-o-rock-brasileiro-olha-para-a-america-latina","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2025\/06\/30\/el-baile-rock-e-a-insurreicao-sonora-do-norte-quando-o-rock-brasileiro-olha-para-a-america-latina\/","title":{"rendered":"\u201c\u00a1El Baile Rock!\u201d e a insurrei\u00e7\u00e3o sonora do Norte: quando o rock brasileiro olha para a Am\u00e9rica Latina"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>texto de Ismael Machado<\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">A chuva j\u00e1 tinha passado e o Paysandu acabara de vencer seu maior rival, o Clube do Remo, pelo placar m\u00ednimo, numa disputa na s\u00e9rie B do Campeonato Brasileiro. E coincid\u00eancia ou n\u00e3o, uma das m\u00fasicas que ouvira logo no in\u00edcio da semana havia sido justamente sobre o <a href=\"https:\/\/www.espn.com.br\/futebol\/serie-b\/artigo\/_\/id\/15331985\/remo-x-paysandu-classico-mais-disputado-futebol-mundial-supera-barcelona-x-real-madrid-ranking\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">cl\u00e1ssico mais disputado do mundo<\/a> (sim, para quem n\u00e3o sabe \u00e9 Remo e Paysandu &#8211; o consagrado Re-Pa) da banda paraense <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/lesritapavone\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Les Rita Pavone<\/a>. A m\u00fasica animada no estilo samba-rock se chama \u201cHoje \u00e9 dia de RexPa\u201d e certamente abriria um largo sorriso em Jorge Benjor, Fred 04 ou Bebeto. E esse \u00e9 apenas um dos m\u00e9ritos dessa comunidade musical que, para variar, est\u00e1 \u2018longe demais das capitais\u2019.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por muito tempo, o rock e o pop brasileiro foram um espelho voltado para o sul. A tradi\u00e7\u00e3o do g\u00eanero por aqui sempre dan\u00e7ou entre as refer\u00eancias angl\u00f3filas e o filtro do pop-rock radiof\u00f4nico vindo do eixo Rio-S\u00e3o Paulo. Tudo fora disso era, em geral, ru\u00eddo perif\u00e9rico \u2014 algo n\u00e3o ouvido com a devida aten\u00e7\u00e3o. Mas de tempos em tempos surgem bandas que n\u00e3o pedem licen\u00e7a: chegam como vento quente atravessando as estruturas e obrigam a redefinir o mapa. \u00c9 nesse gesto que se inscreve Les Rita Pavone.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com diversas forma\u00e7\u00f5es ao longo do caminho, o Les Rita Pavone lan\u00e7a agora seu primeiro \u00e1lbum completo \u2014 \u201c<a href=\"https:\/\/open.spotify.com\/album\/2SzbKItTPbJzzGCxhD79gE\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">\u00a1El Baile Rock!<\/a>\u201d, que chegou \u00e0s plataformas digitais no dia 30 de maio, pelo selo <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2021\/05\/21\/entrevista-gabriel-thomaz-fala-sobre-o-selo-maxilar\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Maxilar Music<\/a>, de Gabriel Thomaz (Little Quail and The Mad Birds, Autoramas). A forma\u00e7\u00e3o atual re\u00fane Gabriel Gaya (voz), Arthur da Silva (viol\u00e3o e voz), Hel\u00eanio C\u00e9zar (baixo), Jimmy G\u00f3es (guitarra) e Luiz Ot\u00e1vio de Moraes (bateria).<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-90049 aligncenter\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/El-Baile-Rock-Capa-copiar.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"750\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/El-Baile-Rock-Capa-copiar.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/El-Baile-Rock-Capa-copiar-300x300.jpg 300w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/El-Baile-Rock-Capa-copiar-150x150.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o se trata apenas de um disco. \u00c9 um posicionamento est\u00e9tico e pol\u00edtico. Uma declara\u00e7\u00e3o de pertencimento n\u00e3o a um centro imaginado, mas a uma outra cartografia poss\u00edvel \u2014 latino-americana, amaz\u00f4nida, mesti\u00e7a, dan\u00e7ante. Ao inv\u00e9s de seguir a f\u00f3rmula consagrada do pop rock brasileiro, o \u00e1lbum aponta em outra dire\u00e7\u00e3o, propondo uma est\u00e9tica calcada no rock latino-americano, misturando brega, bolero, bossa, reggae e soul, sob o filtro da experi\u00eancia belenense. O resultado \u00e9 um disco plural, mesti\u00e7o, dan\u00e7ante \u2014 uma verdadeira ode \u00e0 hibridez sonora. \u201cPartimos de um conceito de rock latino, livre do formato tradicional brasileiro. \u00c9 uma sonoridade que abre espa\u00e7o para outras linguagens, outros ritmos\u201d, afirma Gabriel Gaya.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nascido em Bel\u00e9m do Par\u00e1, o Les Rita Pavone \u00e9, antes de tudo, um corpo coletivo. N\u00e3o no sentido raso da \u201cbanda com muitos integrantes\u201d, mas como um projeto org\u00e2nico, de constante reinven\u00e7\u00e3o e troca. Ao longo dos \u00faltimos anos, o grupo se alimentou de suas pr\u00f3prias muta\u00e7\u00f5es. O que se ouve em \u201c\u00a1El Baile Rock!\u201d n\u00e3o \u00e9 o som de uma forma\u00e7\u00e3o fixa, mas de uma comunidade sonora, viva, fluida, h\u00edbrida \u2014 um palimpsesto musical feito de encontros, afetos e camadas. Algo que encontra afinidade, de certa forma, com outro grupo paraense com essa mesma ideologia, embora com outro formato musical, o Bando Mastodontes, que tamb\u00e9m precisa ser ouvido pela parte de baixo do mapa brasileiro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa ideia de banda-fam\u00edlia est\u00e1 na espinha do \u00e1lbum. Gravado entre 2022 e 2024, \u201c<a href=\"https:\/\/open.spotify.com\/album\/2SzbKItTPbJzzGCxhD79gE\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">\u00a1El Baile Rock!<\/a>\u201d carrega tra\u00e7os de todas as fases da banda. Algumas faixas nasceram ainda com ex-integrantes, que continuam colaborando criativamente. A instrumental \u201cChinatown\u201d, por exemplo, foi composta por Mael Anhang\u00e1, primeiro baterista da banda, e atravessou a janela do tempo antes de ser registrada em est\u00fadio. Outras contam com participa\u00e7\u00f5es de m\u00fasicos convidados. Essa marca coletiva \u00e9 um tra\u00e7o fundamental da identidade do Les Rita Pavone. Al\u00e9m do n\u00facleo atual, participam do disco m\u00fasicos como Theo Silva (trompete), Douglas Silva (Dod\u00f4), Larissa M\u00ea (percuss\u00f5es), al\u00e9m de ex-integrantes como Mateus Moura e Rafael Pavone, que contribu\u00edram com composi\u00e7\u00f5es e vocais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 trompetes, percuss\u00f5es, guitarras sujas, boleros sentimentais, riffs tropicais. E isso n\u00e3o \u00e9 nostalgia: \u00e9 arquitetura de mem\u00f3ria. O Les Rita Pavone constr\u00f3i com o que o tempo n\u00e3o apaga. Para quem n\u00e3o sabe ou nem imagina, Bel\u00e9m talvez seja a capital da saudade musical. Na cidade, repleta de \u2018bailes da saudade\u2019, se dan\u00e7a Kraftwerk de rosto coladinho atravessando o sal\u00e3o e Lipps Inc e sua Designer Music \u00e9 uma institui\u00e7\u00e3o sonora para todas as gera\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas se a estrutura da banda \u00e9 coletiva, o gesto \u00e9 incisivo: \u201c<a href=\"https:\/\/open.spotify.com\/album\/2SzbKItTPbJzzGCxhD79gE\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">\u00a1El Baile Rock!<\/a>\u201d, mesmo sem a inten\u00e7\u00e3o original, \u00e9 uma cr\u00edtica sonora ao rock brasileiro pasteurizado, domesticado pelas gravadoras e playlists. O disco recusa o molde e, em vez de reproduzir o som das capitais do sul, prefere sintonizar com outros territ\u00f3rios do rock \u2014 os Andes, o Caribe, os guetos das periferias sonoras, os sal\u00f5es de festa onde a guitarra dialoga com o tambor.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Les Rita Pavone - Eva (Clipe Oficial)\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/wsoY_4fv4lo?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A escolha pelo t\u00edtulo em espanhol, com direito \u00e0s exclama\u00e7\u00f5es t\u00edpicas \u2014 \u201c\u00a1El Baile Rock!\u201d \u2014 \u00e9 tamb\u00e9m um gesto simb\u00f3lico: n\u00e3o se trata de afeta\u00e7\u00e3o est\u00e9tica, mas de inscri\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. O Les Rita Pavone n\u00e3o quer ser a exce\u00e7\u00e3o regional que \u201cdeu certo\u201d. Quer deslocar o centro, inverter a b\u00fassola, lembrar que h\u00e1 Brasil demais nesses territ\u00f3rios todos \u2014 e que esse Brasil canta, dan\u00e7a e distorce acordes de forma pr\u00f3pria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Gabriel Gaya, um dos vocalistas, explica com clareza: \u201cEsse disco prop\u00f5e um olhar diferente para o rock brasileiro. \u00c9 feito em Bel\u00e9m, mas dialoga com a Am\u00e9rica Latina\u201d. E essa frase, dita com simplicidade, carrega a inten\u00e7\u00e3o. O Norte deixa de ser borda e se torna eixo. O disco \u00e9 um baile, sim \u2014 mas tamb\u00e9m um manifesto. Convida a dan\u00e7ar, mas n\u00e3o \u00e0 toa. Cada passo carrega a d\u00favida, cada riff prop\u00f5e uma travessia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O hist\u00f3rico da banda tamb\u00e9m ajuda a entender sua for\u00e7a. O Les Rita Pavone passou por palcos diversos e festivais alternativos aos coletivos musicais que sustentam a cena independente de Bel\u00e9m. S\u00e3o filhos e irm\u00e3os de uma cidade onde o brega \u00e9 sofisticado, o bolero \u00e9 rock e o som \u00e9 sempre mistura. Bel\u00e9m \u00e9 uma encruzilhada \u2014 e o Les Rita Pavone sabe tirar m\u00fasica desse tr\u00e2nsito.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201c<a href=\"https:\/\/open.spotify.com\/album\/2SzbKItTPbJzzGCxhD79gE\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">\u00a1El Baile Rock!<\/a>\u201d \u00e9, portanto, mais que um \u00e1lbum de estreia. Ele chega como s\u00edntese e virada. \u00c9 a celebra\u00e7\u00e3o de um percurso coletivo, mas tamb\u00e9m um manifesto que prop\u00f5e repensar o que se entende por rock brasileiro. Ao inv\u00e9s de refor\u00e7ar os centros \u2014 Rio e S\u00e3o Paulo \u2014, o \u00e1lbum convida a escutar os sons do Norte, do Caribe, da Amaz\u00f4nia e de toda a riqueza cultural que vibra al\u00e9m das rotas comerciais da m\u00fasica brasileira. \u00c9 uma linha tra\u00e7ada no ch\u00e3o: esse \u00e9 um dos caminhos poss\u00edveis para o rock feito no Brasil. Um caminho mais interessado em se conectar com as vozes do continente. Porque, ao fim, o que a banda nos lembra \u00e9 simples e essencial: n\u00e3o h\u00e1 centro sem escuta, e n\u00e3o h\u00e1 futuro sem dan\u00e7a. \u00c9, em \u00faltima inst\u00e2ncia, um convite ao corpo e ao pensamento: para dan\u00e7ar, sim \u2014 mas tamb\u00e9m para deslocar os ouvidos, abrir os olhos e repensar fronteiras.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"El Baile Rock\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/videoseries?list=OLAK5uy_lSICVMj6yDI2stPGXVJJp5AlTollVp26Q\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u2013 Ismael Machado \u00e9 escritor, jornalista e, por que n\u00e3o, cineasta. Publicou cinco livros e \u00e9 ganhador de 12 pr\u00eamios jornal\u00edsticos. Roteirista dos longas document\u00e1rios \u201c<a href=\"https:\/\/www.videocamp.com\/pt\/movies\/soldados-do-araguaia-2017\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Soldados do Araguaia<\/a>\u201d e \u201c<a href=\"https:\/\/amazoniareal.com.br\/ismae-machado\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Na Fronteira do Fim do Mundo<\/a>\u201d e da s\u00e9rie documental \u201c<a href=\"https:\/\/canaisglobo.globo.com\/assistir\/futura\/ubuntu-a-partilha-quilombola\/t\/ZPScpgvvJ8\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Ubuntu, a partilha quilombola<\/a>\u201c.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\u201c\u00a1El Baile Rock!\u201d \u00e9 mais que um \u00e1lbum de estreia. \u00c9 a celebra\u00e7\u00e3o de um percurso coletivo, mas tamb\u00e9m um manifesto que prop\u00f5e repensar o que se entende por rock brasileiro.\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2025\/06\/30\/el-baile-rock-e-a-insurreicao-sonora-do-norte-quando-o-rock-brasileiro-olha-para-a-america-latina\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":15,"featured_media":90050,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[3],"tags":[7769],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/90048"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/15"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=90048"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/90048\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":90052,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/90048\/revisions\/90052"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/90050"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=90048"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=90048"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=90048"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}