{"id":9002,"date":"2011-07-03T10:47:38","date_gmt":"2011-07-03T13:47:38","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=9002"},"modified":"2018-02-02T17:31:30","modified_gmt":"2018-02-02T19:31:30","slug":"a-utopia-de-angelus","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2011\/07\/03\/a-utopia-de-angelus\/","title":{"rendered":"M\u00fasica: A Utopia de &#8220;Angelus&#8221;, de Milton Nascimento"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-9003\" title=\"angelus\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/07\/angelus.jpg\" alt=\"\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>por <a href=\"http:\/\/twitter.com\/jotadablio\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Jorge Wagner<\/a><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 1993, Milton Nascimento j\u00e1 n\u00e3o precisaria provar mais nada a ningu\u00e9m. \u201cClube da Esquina\u201d, \u201cMilagre Dos Peixes\u201d, \u201cMilton\u201d, \u201cTravessia\u201d, e tantos outros (bons) discos, j\u00e1 estavam prontos, e j\u00e1 o haviam rendido reconhecimento, dentro e fora do pa\u00eds. Mas Milton n\u00e3o estava satisfeito.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nessa \u00e9poca, o cantor, que estava muito ligado \u00e0 atividades em prol da ecologia (n\u00e3o apenas ele, se considerarmos, um ano antes, a realiza\u00e7\u00e3o da Eco 92) juntou uma turma de amigos, brasileiros ou n\u00e3o (entre os gringos, gente da estirpe do n\u00e3o menos engajado Peter Gabriel, James Taylor, o guitarrista Pat Metheny e o fanhoso Jon Anderson \u2013 de voc\u00ea-sabe-que-banda), conquistados aqui e ali, ao longo de seus quase trinta anos de carreira, e os convidou para participar de um disco no qual, a primeira coisa que podemos ver ao abrirmos o encarte \u00e9 o s\u00edmbolo da Anistia Internacional.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lan\u00e7ado pela Warner e gravado no exterior, a qualidade sonora do disco \u00e9 muito superior \u00e0 maioria dos lan\u00e7amentos nacionais da mesma \u00e9poca. \u201cSeis Horas Da Tarde\u201d, faixa de abertura, t\u00eam viol\u00f5es, orquestra\u00e7\u00f5es e, apesar de ter vozes, n\u00e3o tem letra (guardada as propor\u00e7\u00f5es, \u00e9 algo que pode ser recomendado aos f\u00e3s de Sigur R\u00f3s, sem exagero algum). Serve como pr\u00f3logo para \u201cEstrelada\u201d, que traz na seq\u00fc\u00eancia um dueto de Milton Nascimento e Jon Anderson, em&#8230; portugu\u00eas! Uma grande m\u00fasica com uma boa letra (fruto da parceria entre Milton e M\u00e1rcio Borges). N\u00e3o h\u00e1 como n\u00e3o ver certa gra\u00e7a no sotaque do eterno frontman do Yes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cDe Um Modo Geral\u201d, a terceira faixa do disco, n\u00e3o \u00e9 uma grande m\u00fasica, mas n\u00e3o abala a qualidade do \u00e1lbum. O destaque fica por conta dos solos nervosos de Wayne Shorter no sax, e a cama de T\u00falio Mour\u00e3o (ex-Veludo El\u00e9trico, Mutantes e outros). A faixa seguinte, \u201cAngelus\u201d, instrumental, \u00e9 a t\u00edpica trilha para campanhas de ONGs. Traz na cola \u201cCoisas de Minas\u201d, mais um dos muitos tributos prestados por Milton \u00e0 sua querida Minas Gerais. Come\u00e7a animada, com gritos de \u201c\u00ca, \u00ea boi&#8230;\u201d, mas \u00e9 s\u00f3 ap\u00f3s a \u00faltima estrofe (\u201cO Sol t\u00e1 nascendo agora \/ O sil\u00eancio deixa ouvir \/ Ser\u00e1 o sinal de um anjo \/ Essa brisa a traduzir \/ Meus nomes?\u201d) que Milton, inspirado, faz suavemente, com o som de sua voz, men\u00e7\u00f5es \u00e0 Ave Maria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No ponto alto do disco, Milton vai at\u00e9 \u201cThe Magical Mistery Tour\u201d, pin\u00e7a \u201cHello Goodbye\u201d, tira toda a aparente \u2018felicidade\u2019 da m\u00fasica, e a apresenta numa vers\u00e3o repleta de cordas e metais \u2013 fruto da orquestra\u00e7\u00e3o de Gil Goldstein, deixando-a t\u00e3o emocionante que ser capaz de fazer Paul McCartney chorar (se j\u00e1 n\u00e3o o fez). Em termos de cover, o paralelo poss\u00edvel \u00e9 \u201cHurt\u201d, do NIN, na voz de Johnny Cash. Boa o suficiente para fazer Trent Reznor, o compositor, dizer que era assim que gostaria de ter composto a m\u00fasica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cSofro Calado\u201d \u00e9 um tema r\u00e1pido, de pouco mais de um minuto. Robertinho Silva fica encarregado da concep\u00e7\u00e3o r\u00edtmica, enquanto Milton declara: \u201cSofro calado \/ Pra n\u00e3o lhe dizer \/ A cada segundo \/ o que \u00e9 um segundo \/ Sem voc\u00ea\u201d, e \u00e9 s\u00f3. Ent\u00e3o vem mais uma entre as milhares de vers\u00f5es poss\u00edveis e imagin\u00e1veis para \u201cClube da Esquina #2\u201d, em que o cantor parece querer mostrar a todos que j\u00e1 gravaram essa m\u00fasica algo como \u201c\u00c9 assim! Voc\u00ea precisa se emocionar em cada s\u00edlaba, e deixar com que todos percebam essa emo\u00e7\u00e3o!\u201d. Hugo Fatturoso, T\u00falio Mour\u00e3o, Jo\u00e3o Baptista e Robertinho Silva (piano, teclado, baixo e bateria, respectivamente) s\u00e3o, ao lado de Milton Nascimento, os her\u00f3is dessa que \u00e9, sem d\u00favida, a melhor vers\u00e3o j\u00e1 feita para a m\u00fasica, que nasceu sem letra, em 1972, para o disco \u201cClube da Esquina\u201d, parceria de Milton e L\u00f4 Borges.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cMeu Veneno\u201d \u00e9 uma boa poesia, escrita em parceria com Ferreira Gullar, mas que serve mesmo como plataforma para o brilho de Nan\u00e1 Vasconcelos. Traz na cola \u201cOnly A Dream In Rio\u201d, mezzo portugu\u00eas, mezzo ingl\u00eas (vers\u00e3o creditada \u00e0 Fernando Brant). Milton Nascimento canta a primeira estrofe na l\u00edngua p\u00e1tria, e \u00e9 seguido por James Taylor, numa bela homenagem ao Rio de Janeiro. \u201cQualquer Coisa a Haver Com o Para\u00edso\u201d, parceria com Fl\u00e1vio Venturini (e gravada originalmente em \u201cNascente\u201d, disco de estr\u00e9ia de Fl\u00e1vio), traz mais um dueto de Milton, dessa vez com Peter Gabriel, ex-vocalista do Genesis em tempos remotos. E os falsetes do mineiro combinam perfeitamente com os graves do ingl\u00eas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">J\u00e1 nas faixas \u201cVera Cruz\u201d, \u201cNovena\u201d e \u201cAmor Amigo\u201d, a responsabilidade parece cair toda sobre o guitarrista Pat Metheny e o pianista Herbie Hancock, al\u00e9m de Ron Carter, Robertinho Silva e Jack Dejohnette (baixo, percuss\u00e3o e bateria, nesta ordem), nas duas primeiras. Apesar de todas serem assinadas por Milton (com M\u00e1rcio Borges em \u201cVera Cruz\u201d e \u201cNovena\u201d, e com Fernando Brant em \u201cAmor Amigo\u201d), a impress\u00e3o \u00e9 de que ele n\u00e3o passa de um mero convidado na brincadeira entre Herbie e Pat, os \u201cdonos da bola\u201d. Com o dobro de dura\u00e7\u00e3o de sua primeira apari\u00e7\u00e3o, \u201cSofro Calado\u201d retorna para fechar o disco, numa vers\u00e3o com apenas piano e voz, em que Milton tamb\u00e9m cuida das teclas. Simples e emocionante, como tudo deveria ser.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E l\u00e1 se foram quase 20 anos desde o lan\u00e7amento de \u201c\u00c2ngelus\u201d. Rios de asfalto e gente continuam descendo pelas ladeiras, entupindo os meio-fios. O mundo melhor que Milton idealizou com esse disco n\u00e3o chegou, e provavelmente n\u00e3o chegar\u00e1. Ainda n\u00e3o pressionamos nossos l\u00edderes, n\u00e3o reciclamos como dever\u00edamos, n\u00e3o economizamos energia, n\u00e3o amamos e respeitamos todas as formas de vida, conforme o artista sugeriu na contra-capa. Parece ter sido pura utopia, e talvez, hoje em dia, o pr\u00f3prio Milton Nascimento saiba disso tamb\u00e9m. Mas nem por isso \u201c\u00c2ngelus\u201d deixa de ser um grande disco, tido por muitos como o \u201cClube da Esquina #3\u201d.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/HV4GWbMSWiQ?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"autoplay; encrypted-media\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">M*******<br \/>\nJorge Wagner (siga <a href=\"http:\/\/twitter.com\/jotadablio\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">@jotablio<\/a>) \u00e9 jornalista e colabora com o Scream &amp; Yell desde 2006<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"por Jorge Wagner\nO mundo melhor que Milton idealizou com esse disco n\u00e3o chegou, e provavelmente n\u00e3o chegar\u00e1. 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