{"id":89959,"date":"2025-06-26T06:01:36","date_gmt":"2025-06-26T09:01:36","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=89959"},"modified":"2025-08-07T01:43:30","modified_gmt":"2025-08-07T04:43:30","slug":"entrevista-gabriel-ventura-fala-sobre-segundo-disco-pra-me-lembrar-de-insistir-e-a-arte-de-continuar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2025\/06\/26\/entrevista-gabriel-ventura-fala-sobre-segundo-disco-pra-me-lembrar-de-insistir-e-a-arte-de-continuar\/","title":{"rendered":"Entrevista: Gabriel Ventura fala sobre segundo disco \u201cPra Me Lembrar de Insistir\u201d e a arte de continuar"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>entrevista de\u00a0<a href=\"https:\/\/twitter.com\/ociocretino\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Alexandre Lopes<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quem acompanha a cena independente brasileira provavelmente j\u00e1 cruzou com o nome <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/filhodalurdinha\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Gabriel Ventura<\/a>. Guitarrista de timbre inconfund\u00edvel da extinta e cultuada banda Ventre, artista solo desde 2020 e h\u00e1 mais de uma d\u00e9cada um dos respons\u00e1veis pelos bastidores dos shows de Lenine, Ventura sempre transitou entre os holofotes e os cabos de som. Agora, ele se coloca novamente no centro da pr\u00f3pria cria\u00e7\u00e3o com \u201c<a href=\"https:\/\/ditto.fm\/pra-me-lembrar-de-insistir\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Pra Me Lembrar de Insistir<\/a>\u201d (2025), seu segundo \u00e1lbum solo, lan\u00e7ado em maio pela Balaclava Records.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mais do que um conjunto de can\u00e7\u00f5es, o disco \u00e9 um registro de sobreviv\u00eancia criativa, um lembrete \u00edntimo e ao mesmo tempo aberto ao p\u00fablico de que criar m\u00fasica \u00e9 uma necessidade e surge como fruto de perseveran\u00e7a. O \u00e1lbum soa quase como um di\u00e1rio, redigido \u00e0 m\u00e3o por viol\u00f5es delicados, mem\u00f3rias gravadas em fita cassete e colabora\u00e7\u00f5es de amigos m\u00fasicos como Felipe Duriez, Bruno Giorgi, Emilie Roussille, Aline Gon\u00e7alves, Ar\u00edcia Ferigato, Vitor Ara\u00fajo, Vov\u00f4 Beb\u00ea, Yuri Pimentel e Patrick Laplan (tamb\u00e9m co produtor do \u00e1lbum).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O t\u00edtulo do disco nasceu como um bilhete pessoal para o pr\u00f3prio m\u00fasico, mas acabou ganhando um significado coletivo. \u201cInsistir\u201d, aqui, n\u00e3o \u00e9 apenas uma ideia, mas uma pr\u00e1tica. Do Gabriel adolescente de 17 anos gravando ideias num gravador caseiro em 2006, ao artista maduro que segue, quase duas d\u00e9cadas depois, fazendo as mesmas perguntas. \u201cDesde aquela \u00e9poca, at\u00e9 antes, j\u00e1 estava batendo cabe\u00e7a nisso aqui. Tentando fazer, aprendendo, buscando\u201d, confessa o m\u00fasico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com uma sonoridade mais ac\u00fastica e \u00edntima do que sua estreia solo, \u201cTarde\u201d (2020), o novo trabalho revela um artista mais silencioso, mas n\u00e3o menos potente. E mesmo que n\u00e3o viva exclusivamente de sua m\u00fasica (Gabriel continua atuando como roadie de Lenine), sua entrega art\u00edstica carrega a for\u00e7a de quem insiste &#8211; seja nos palcos ou nas grava\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201c<a href=\"https:\/\/ditto.fm\/pra-me-lembrar-de-insistir\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Pra Me Lembrar de Insistir<\/a>\u201d tamb\u00e9m ganhou forma visual em clipes como o de \u201cFogos\u201d e o duplo \u201cO enfeite do n\u00e3o e o sim \/ Toda Can\u00e7\u00e3o\u201d, dirigidos por Isadora Ravacci, Alexandre Rozemberg e Raphael Barbanjo (que tamb\u00e9m assina a capa e as fotos do disco) por meio da produtora Filmes Poss\u00edveis. O foco destas obras est\u00e1 no processo do m\u00fasico: mostrar o fio passando pelo viol\u00e3o, a c\u00e2mera registrando os gestos de Gabriel, o detalhe antes do som. Porque esse tamb\u00e9m \u00e9 o esp\u00edrito do disco: a beleza e o significado que ainda existe em fazer as pequenas coisas ao seu tempo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na conversa a seguir com Scream &amp; Yell, Ventura fala sobre o processo de cria\u00e7\u00e3o do \u00e1lbum, a experi\u00eancia de viver a m\u00fasica dentro e fora dos palcos e sobre como seguir adiante, mesmo quando tudo parece pedir o contr\u00e1rio. Confira a entrevista completa abaixo.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Pra me lembrar de insistir\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/videoseries?list=OLAK5uy_nFDMZ8_5efGrBx3VcP4sxaLmOCwmRPbJU\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O nome do disco (na integra acima) \u00e9 \u201c<a href=\"https:\/\/ditto.fm\/pra-me-lembrar-de-insistir\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Pra Me Lembrar de Insistir<\/a>\u201d e trata sobre voc\u00ea continuar fazendo m\u00fasica. Quando vi o t\u00edtulo, me pareceu algo melanc\u00f3lico e tamb\u00e9m no sentido de resist\u00eancia &#8211; sobre ser m\u00fasico autoral nos dias atuais, o que est\u00e1 bem dif\u00edcil. Quando escolheu esse nome, pensou nesse sentido amplo tamb\u00e9m? Ou estava pensando mais em voc\u00ea mesmo?<\/strong><br \/>\nCara, \u00e9 engra\u00e7ado&#8230; O t\u00edtulo em si tem mais a ver com o processo, com o ato de fazer um disco, do que com o tema das can\u00e7\u00f5es que est\u00e3o presentes nele. De certa forma, eu acho um disco muito rom\u00e2ntico. Pra mim, o disco \u00e9 super amor. Mas quando dei esse nome, estava pensando mais em mim. Mas em um sentido tamb\u00e9m amplo, que \u00e9 exatamente isso que voc\u00ea falou. Desculpa o clich\u00ea, mas \u00e9 foda ficar dando esse eterno murro em ponta de faca, sabe? \u00c9 um processo muito longo, realizar um disco. Muito emotivo. Ent\u00e3o voc\u00ea fica muito sensibilizado. Envolve muito dinheiro porque, obviamente, voc\u00ea tem que pagar todo mundo que est\u00e1 trabalhando. Nada nesse universo se realiza sozinho. Por mais que a gente tente centralizar, tentar realizar todas as fun\u00e7\u00f5es, se esgotar at\u00e9 o m\u00e1ximo e ficar sem dormir, porque n\u00e3o tem muito dinheiro pra pagar profissionais capacitados pra isso. Isso pode at\u00e9 acabar enfraquecendo o pr\u00f3prio resultado, mas j\u00e1 seria outra conversa. Mas acho que \u00e9 isso mesmo: fazer o disco foi pensar profundamente no porqu\u00ea eu insisto em fazer isso. Ent\u00e3o acho que foi uma busca por respostas nessa quest\u00e3o. Mas esse meu questionamento no sentido amplo. Eu acho que \u00e9 de todo mundo. Seja na arte ou n\u00e3o. O mundo est\u00e1 dif\u00edcil\u2026 sempre foi. Viver \u00e9 complicado, de certa forma. Ent\u00e3o \u00e9 pessoal, mas tamb\u00e9m generalizando, porque n\u00e3o \u00e9 um questionamento s\u00f3 meu.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Eu li umas entrevistas mais antigas e lembro que voc\u00ea comentava que a m\u00fasica n\u00e3o \u00e9 o seu \u00fanico of\u00edcio. Voc\u00ea trabalha com o qu\u00ea exatamente?<\/strong><br \/>\nEu sou roadie. Trabalho para v\u00e1rios artistas, como freelancer, em festivais e tudo mais. Mas o trabalho que mais fa\u00e7o, h\u00e1 mais de 10 anos, \u00e9 com o Lenine. Viajo com ele, sou roadie dele h\u00e1 mais de 10 anos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Ent\u00e3o voc\u00ea vive de m\u00fasica, mas n\u00e3o necessariamente da sua m\u00fasica, n\u00e9?<\/strong><br \/>\nExatamente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E como \u00e9 que voc\u00ea acha que est\u00e1 o cen\u00e1rio agora, no p\u00f3s-pandemia? Tanto no trabalho como roadie quanto pra tocar seu material\u2026 Voc\u00ea acha que j\u00e1 deu uma estabilizada ou piorou?<\/strong><br \/>\nCara, como m\u00fasico estou mais afastado. Talvez eu nem seja a melhor pessoa pra responder isso\u2026 \u00c9 que eu me mudei do Rio de Janeiro, vim morar em Petr\u00f3polis no meio da pandemia, ent\u00e3o vai fazer, sei l\u00e1, quatro, cinco anos. E a\u00ed \u00e9 aquela coisa: quem n\u00e3o \u00e9 visto, n\u00e3o \u00e9 lembrado. Ent\u00e3o hoje eu toco basicamente comigo mesmo, sabe? N\u00e3o me sinto muito capacitado pra falar como \u00e9 viver de m\u00fasica agora, sinceramente. Porque pago minhas contas exclusivamente com o trabalho de roadie. \u00c0s vezes rolam umas produ\u00e7\u00f5es, produzo alguns artistas, gravo guitarra pros outros aqui em casa. Mas essa soma definitivamente n\u00e3o paga o meu aluguel, minha conta de luz, o mercado\u2026 N\u00e3o d\u00e1. Isso vem majoritariamente do meu trabalho como roadie. Ent\u00e3o talvez sobre isso eu possa comentar melhor. Mas acho que meu caso tamb\u00e9m \u00e9 um pouco mais setorizado, pelo fato de eu trabalhar com um artista s\u00f3 h\u00e1 muitos anos. Isso acaba meio que me deixando quase exclusivo dele. Mesmo sem querer ser, e sem que ele queira que eu seja. Mas por estar quase sempre com ele, quando os amigos me pedem: \u201cP\u00f4, me cobre aqui nessa data?\u201d, eu acabo dizendo: \u201cPutz, bicho, tenho Lenine nessa data, n\u00e3o vai dar\u201d. A\u00ed o ritmo de convites acaba diminuindo tamb\u00e9m. Se o cara me chama uma, duas, ou tr\u00eas vezes e n\u00e3o d\u00e1, ele acaba chamando outra pessoa, n\u00e9?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Claro. E est\u00e1 todo mundo certo!<\/strong><br \/>\nSim, sim. Ent\u00e3o acabo trabalhando mais com ele nesse tempo todo. O que \u00e9 um gigantesco privil\u00e9gio, estar com um medalh\u00e3o da m\u00fasica brasileira e mundial h\u00e1 tantos anos. Ter a confian\u00e7a de zelar pelos instrumentos dele, de estar de olho nos shows e tudo mais. \u00c9 uma responsa gigantesca e uma honra, um aprendizado absurdo. A quantidade de coisa que voc\u00ea aprende observando \u00e9 assustadora. Estar perto de um cara como ele \u00e9 tipo uma faculdade intermin\u00e1vel. Voc\u00ea fica ali, falando de vida, de rela\u00e7\u00e3o com equipe, de como tratar os outros, como tratar o f\u00e3, como chegar no palco\u2026 E isso eu tamb\u00e9m acho importante na quest\u00e3o do m\u00fasico. O que eu vou dizer agora \u00e9 uma brincadeira, t\u00e1? Mas acho que todo m\u00fasico tinha que passar por um est\u00e1gio de alguns meses a um ano trabalhando como roadie, locando amplificador, essas coisas. Acho isso important\u00edssimo, porque setoriza o ego do m\u00fasico, tira esse glamour bobo de que \u00e9 um ser iluminado, dotado de um talento angelical. Voc\u00ea tem que aprender a falar com as pessoas, tem que entender que seu trabalho \u00e9 t\u00e3o importante quanto o do padeiro. \u00c9 uma especializa\u00e7\u00e3o que voc\u00ea fez na sua vida. Voc\u00ea perdeu um tempo estudando uma parada, o cara ali perdeu tempo estudando outra parada. E esse fato de voc\u00ea zelar por algu\u00e9m ou por um grupo de pessoas, bota a cabe\u00e7a no lugar, bota o ego no lugar. Acho isso important\u00edssimo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voltando sobre o disco novo: sinto que tem mais viol\u00e3o do que guitarra nele. Mas fora isso, o que voc\u00ea acha que fez de diferente nesse trabalho em rela\u00e7\u00e3o aos anteriores?<\/strong><br \/>\n\u00c9, com certeza. Mas acho que \u00e9 algo natural. E vou te dizer: se eu lan\u00e7ar um terceiro disco, vou repetir isso. Se lan\u00e7ar um quarto, tamb\u00e9m. \u00c9 um amadurecimento. N\u00e3o tem muito pra onde fugir. A gente vai ficando mais velho \u2013 estou com quase 37 anos \u2013 ent\u00e3o quero falar sobre outras coisas. Quero naturalmente explorar elementos musicais dentro do meu trabalho que eu n\u00e3o explorei antes. Os temas v\u00e3o mudando. O disco que voc\u00ea mais ouve em 2025 n\u00e3o vai ser o mesmo de 2026, e assim por diante. Ent\u00e3o, de certa forma, eu fiz tudo e nada de diferente. Porque a pessoa continua sendo a mesma. Cada um tem part\u00edculas de individualidade que n\u00e3o tem como tirar. Voc\u00ea pode at\u00e9 tentar suprimir, mas n\u00e3o adianta. Esse Gabriel est\u00e1 ali sempre. Mas mudam os temas, o que est\u00e1 sendo dito, a forma como as coisas s\u00e3o arranjadas. Comparando com o primeiro disco, agora com um olhar mais cl\u00ednico, acho que quis fazer menos cortes. No primeiro, forcei um pouco essa barra propositalmente. Era tipo: \u201cCaraca, estou curtindo muito aqui, nossa senhora, pra onde eu fui e voltei!\u201d Eu queria dar essa din\u00e2mica mesmo, porque tinha a ver com o que estava sendo dito nas letras. E pra mim, a palavra sempre \u00e9 o norte de tudo; o arranjo da m\u00fasica vai atr\u00e1s do texto. Talvez por isso eu n\u00e3o tenha muita preocupa\u00e7\u00e3o com refr\u00e3o. \u201cAh, vou voltar pro refr\u00e3o\u201d? Normalmente n\u00e3o. Eu vou fazendo m\u00fasica em partes &#8211; A, B, C, D, E &#8211; porque estou emoldurando a historinha que quero contar, do jeito que consigo. Nesse segundo disco, eu quis tornar essa moldura um pouco mais fluida. Um pouco mais f\u00e1cil, palat\u00e1vel, menos brusca. No primeiro disco eu dava umas freadas muito secas. E agora quis abrir mais a instrumenta\u00e7\u00e3o, o que foi maravilhoso. Eu ainda n\u00e3o tinha experimentado isso: abrir o processo e chamar pessoas com quem nunca tinha tocado, sem briefing nenhum e dizer: \u201c\u00f3, a m\u00fasica \u00e9 essa aqui. Pensei em voc\u00ea. Fa\u00e7a o que voc\u00ea quiser, um beijo\u201d. Claro, me permite conversar depois, se tiver algo que a gente precise ajustar&#8230; Mas se eu chamei a Ar\u00edcia, a Aline, o Vitor, o Vov\u00f4 Beb\u00ea, o Patrick, o Yuri&#8230; \u00e9 porque eu quero o Patrick, o Yuri, a Aline, e n\u00e3o uma extens\u00e3o de mim. N\u00e3o tem que ser igual. Isso foi talvez a parte mais prazerosa: descobrir isso. Pode ser comum pra v\u00e1rios artistas, mas pra mim, n\u00e3o era nem um pouco. \u00c9 muito interessante entregar algo que voc\u00ea achava que sabia como ia ficar e receber de volta uma parada que voc\u00ea pensa: \u201cMeu Deus&#8230; caraca!\u201d Isso me deixou muito contente. Quero continuar exercitando isso daqui pra frente. Mas essa coisa do viol\u00e3o, eu realmente quis que tivesse mais presente. Acho que o viol\u00e3o traz uma cor, uma coisa mais \u00edntima. Sempre tem ali um viol\u00e3o de nylon, uma coisa mais pessoal\u2026 Tinha arranjos que, na minha cabe\u00e7a, soariam muito melhor com viol\u00e3o. Ent\u00e3o segui esse caminho. E tamb\u00e9m foi uma maneira de apresentar outro lado meu, algo diferente. Guitarra \u00e9 maneiro, mas j\u00e1 fiz um disco assim. Tem o que fiz no Ventre tamb\u00e9m. Mas eu estudo viol\u00e3o \u00e0 be\u00e7a, ent\u00e3o queria poder mostrar esse estudo tamb\u00e9m. Teve essa grande vontade. Mas vai do que a m\u00fasica est\u00e1 pedindo. Eu posso ter minhas vontades, mas a palavrinha ali, o texto, est\u00e1 dizendo o que precisa. A gente s\u00f3 vai colocando uns desenhos em volta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea acha que, pra esse disco, voc\u00ea comp\u00f4s mais no viol\u00e3o? Ou sempre foi assim, e dessa vez voc\u00ea s\u00f3 resolveu explor\u00e1-lo mais na grava\u00e7\u00e3o?<\/strong><br \/>\nEu acho que, pra mim, compor &#8211; seja no viol\u00e3o, seja na guitarra &#8211; depende mais do que estou pr\u00f3ximo naquele momento. N\u00e3o tem uma coisa tipo: \u201cAh, eu gosto de compor sentado, ao meio-dia, com luz natural\u2026\u201d. N\u00e3o \u00e9 isso. Eu fico estudando, e se num determinado momento da minha vida estou estudando mais viol\u00e3o, eu vou acabar compondo mais no viol\u00e3o. Isso n\u00e3o me impede de depois levar pra guitarra, ou o contr\u00e1rio. Talvez no \u201cPra Me Lembrar de Insistir\u201d eu estivesse estudando muito viol\u00e3o naquele momento, e justamente em algumas m\u00fasicas, eu n\u00e3o quis levar pra guitarra porque n\u00e3o precisava. Outras eu comecei no viol\u00e3o e achei que ia ficar mais bonito na guitarra. E outras eu realmente j\u00e1 fiz direto na guitarra. Ent\u00e3o \u00e9 uma coisa muito&#8230; abstrata, sabe? N\u00e3o tem muita regra, n\u00e3o.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Gabriel Ventura - Fogos\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/pdHwqdzE4Po?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Eu percebi que no disco tamb\u00e9m tem harpa. Voc\u00ea pensou primeiro no som do instrumento ou na contribui\u00e7\u00e3o da pessoa, especificamente?<\/strong><br \/>\nFoi um pouco dos dois. Eu conheci a Ar\u00edcia, que foi quem gravou maravilhosamente a harpa. Obrigado, Ar\u00edcia! Acho que foi num show que fiz em Belo Horizonte, naquele projeto Tranquilo, se n\u00e3o me engano. Um esquema mais intimista&#8230; E a\u00ed a Ar\u00edcia foi assistir ao show, e quando acabou a gente ficou trocando a maior ideia. Eu n\u00e3o a conhecia. A gente se deu super bem, ela falou que tocava harpa, me mostrou uns v\u00eddeos, umas coisas&#8230; e eu fiquei com aquilo na cabe\u00e7a eternamente. Pensei: \u201cPorra cara, uma harpa ia ser foda.\u201d A\u00ed, quando comecei a gravar \u201cFogos\u201d, falei: \u201cCara, em \u2018Fogos\u2019 ia ficar incr\u00edvel.\u201d Ent\u00e3o, naquele momento, eu j\u00e1 estava pensando no som do instrumento, mas porque j\u00e1 tinha ficado com essa vontade depois de conhecer a Ar\u00edcia. Viramos amigos, aquele tipo de pessoa que parece que voc\u00ea j\u00e1 conhece h\u00e1 muito tempo. A\u00ed pensei: \u201cP\u00f4, vou manter ela por perto.\u201d Fiquei com isso na cabe\u00e7a. A\u00ed uniu o \u00fatil ao agrad\u00e1vel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E nesse disco, como no anterior, voc\u00ea trabalhou novamente com o Patrick Laplan na produ\u00e7\u00e3o e tocando alguns instrumentos, bateria e baixo. Queria que voc\u00ea falasse um pouco sobre essa parceria de voc\u00eas dois, como come\u00e7ou e se estendeu para esse disco tamb\u00e9m.<\/strong><br \/>\nAh, \u00e9 um pouco do mesmo caso da Ar\u00edcia. Eu j\u00e1 tinha feito dois trabalhos com o Patrick, mas bem espor\u00e1dicos. Ele me chamou pra gravar umas coisas, acho que foi com o Jo\u00e3o Capdeville e com o El Efecto. Fui l\u00e1, gravei, aquela coisa r\u00e1pida: voc\u00ea troca uma ideia, d\u00e1 umas risadas, grava, e volta pra casa. A\u00ed, um belo dia, ele me ligou e falou: \u201cP\u00f4, cara, vamos fazer um som&#8230;\u201d E eu falei: \u201cPorra, claro!\u201d Estava sem tocar com outras pessoas j\u00e1 fazia um tempo, o Ventre j\u00e1 tinha acabado, enfim\u2026 Fui l\u00e1, e rolou de novo essa coisa de parecer que a gente j\u00e1 se conhece muito bem. Mesmo sem muita intimidade pessoal, a gente meio que come\u00e7ou a tocar direto, nem falou muito. Foi tipo: \u201cSenta a\u00ed, toca qualquer coisa, e no fim a gente v\u00ea qual \u00e9.\u201d E foi isso. Hoje somos grandes amigos, criamos uma intimidade musical muito profunda. A gente gosta de coisas muito parecidas. Claro, tem lugares que ele vai e eu n\u00e3o, e vice-versa, somos pessoas diferentes, mas a gente se d\u00e1 muito bem, troca muito bem, conversa muito bem. Isso \u00e9 muito importante, ainda mais quando voc\u00ea est\u00e1 compondo e produzindo qualquer tipo de trabalho &#8211; n\u00e3o s\u00f3 m\u00fasica. Tem que haver di\u00e1logo, tem que se entender, tem que falar a mesma l\u00edngua. Na \u00e9poca do \u201cTarde\u201d, eu j\u00e1 estava com isso na cabe\u00e7a: queria fazer um disco e chamei o Patrick pra fazer comigo. O \u201cTarde\u201d \u00e9 basicamente eu e ele o disco inteiro: todos os instrumentos, todas as baterias, todos os baixos \u00e9 ele tocando, gravando, pensando junto. Quando fui fazer o segundo disco, chamei ele de novo. \u00c9 uma pessoa de quem eu gosto, com quem me sinto confort\u00e1vel, sou um grande f\u00e3. \u00c9 outra pessoa com quem eu aprendo o tempo inteiro. Quero estar perto. Foi natural.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Inspirac\u0327a\u0303o 1. Ano - 2006\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/tPpBMGwW8L0?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea falou sobre essa coisa mais espont\u00e2nea, de deixar rolar ou controlar mais a grava\u00e7\u00e3o. A\u00ed, ouvindo o disco, quando cheguei nas faixas \u201cInspira\u00e7\u00e3o 1 &#8211; Ano 2006\u201d e \u201cInspira\u00e7\u00e3o 2 &#8211; Ano 2024\u201d, achei que elas pareciam demos, esbo\u00e7os de can\u00e7\u00f5es. \u00c9 isso mesmo?<\/strong><br \/>\nSim. Essas duas vinhetas cumprem um papel importante pra mim: afirmar o t\u00edtulo do disco e o porqu\u00ea de insistir. A \u201cInspira\u00e7\u00e3o 1 &#8211; 2006\u201d \u00e9 uma fita cassete minha de 2006. Eu me encontrei com ela fu\u00e7ando coisas. E a \u201cInspira\u00e7\u00e3o 2 &#8211; 2024\u201d tamb\u00e9m \u00e9 um trecho gravado em fita cassete, agora em 2024. Ent\u00e3o \u00e9 isso: \u201cPra me Lembrar de Insistir\u201d. Voltei l\u00e1 no Gabrielzinho de 17 anos tocando, tentando entender como fazer m\u00fasica, gravando com um gravadorzinho de fita cassete Philips. Guardei todas essas fitas, achei, e joguei direto, n\u00e3o tem manipula\u00e7\u00e3o nenhuma. Dei play na fita, gravei pro computador, e o que voc\u00ea escuta \u00e9 isso a\u00ed. Tanto que a grava\u00e7\u00e3o tem uma qualidade meio estranha, desafina \u00e0s vezes &#8211; tem essas coisas de fita cassete. \u00c9 isso a\u00ed, \u00e9 o que \u00e9.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E a de 2024 voc\u00ea gravou com um equipamento parecido?<\/strong><br \/>\nSim, com um gravador de fita tamb\u00e9m. N\u00e3o foi o mesmo porque infelizmente, ele j\u00e1 n\u00e3o funciona mais. Mas peguei um outro gravadorzinho, uma fita cassete velha &#8211; n\u00e3o achei onde comprar uma nova aqui perto, em Petr\u00f3polis, mas tamb\u00e9m nem procurei muito. Usei uma dessas fitas que tinham programas de r\u00e1dio que eu gravava quando era moleque, pra tirar m\u00fasica. Gravei por cima de um desses trechos e fiz o mesmo processo: joguei pro computador, pronto.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Inspirac\u0327a\u0303o 2. Ano - 2024\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/Woc0RHyp5VE?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00c9 uma atitude meio saudosista. Voc\u00ea pensou nisso como conceito tamb\u00e9m? Como voc\u00ea enxerga essas duas faixas dentro do \u00e1lbum?<\/strong><br \/>\nCara, n\u00e3o acho que, nesse caso, a busca tenha sido est\u00e9tica; n\u00e3o era uma coisa de buscar o \u201cantigo\u201d. N\u00e3o estava preocupado com isso. O foco era na naturalidade da coisa: n\u00e3o tem edi\u00e7\u00e3o, afina\u00e7\u00e3o, equalizador, nada. \u00c9 aquilo ali. E isso, naturalmente, traz uma intimidade. Na faixa de 2024, por exemplo, eu estava aqui, nesse mesmo quartinho onde estou falando com voc\u00ea agora, que \u00e9 onde gravo minhas coisas. Tem esse aspecto \u00edntimo. E mais do que isso, era essa afirma\u00e7\u00e3o: sigo insistindo. Talvez por isso a faixa de 2024 fecha o disco. \u00c9 quase como se, na minha cabe\u00e7a, eu dissesse: \u201c\u00d3, t\u00f4 seguindo, hein.\u201d E a de 2006 \u00e9 tipo: \u201cDesde aquela \u00e9poca, at\u00e9 antes, j\u00e1 estava batendo cabe\u00e7a nisso aqui. Tentando fazer, aprendendo, buscando.\u201d Pra mim, essas faixas amarram o conceito do disco. Elas s\u00e3o muito importantes por isso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Uma pergunta sobre uma faixa espec\u00edfica: \u201cLanny\u201d \u00e9 uma homenagem ao Lanny Gordin?<\/strong><br \/>\n\u200b\u200bObviamente, at\u00e9 pela harmonia. N\u00e3o tem como. Aquele tipo de acorde ali&#8230; aquilo ali, o querido professor nos ensinou e nos ensina eternamente. Aquilo era pra ser a introdu\u00e7\u00e3o de \u201cBrusco\u201d, tanto que ela est\u00e1 logo antes. Eu quis separar pra dar destaque, pra poder nomear. Porque estava muito \u00f3bvio. Se eu colocasse aquilo e falasse: \u201cUau\u201d, n\u00e3o. Cara, aquilo ali \u00e9 Lanny Gordin, pelo amor de Deus. Ent\u00e3o eu quis prestar essa homenagem. Ele \u00e9 um medalh\u00e3o na minha cabe\u00e7a, assim. Escutei muito, sigo escutando e aprendendo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Vi que o disco j\u00e1 tem dois clipes &#8211; na verdade, tr\u00eas porque um deles une duas m\u00fasicas em um clipe s\u00f3. Queria que voc\u00ea falasse um pouco sobre eles.<\/strong><br \/>\nAcho que nos clipes, assim como em tudo que eu pretendo fazer na minha vida, o mais importante \u00e9 a troca. Em &#8220;Fogos&#8221;, eu chamei a Isadora e a galera da Filmes Poss\u00edveis, a produtora que realizou o trabalho, Isadora, Alexandre&#8230; E eles me apresentaram o Raphael Barbanjo, que tamb\u00e9m virou um grande amigo depois. Ele acabou comandando mais o clipe duplo, mas foi ele quem fez a capa e todas as fotos do do \u00e1lbum, de divulga\u00e7\u00e3o, tudo \u00e9 dele. Ele tamb\u00e9m fez a dire\u00e7\u00e3o de fotografia dos dois clipes. E foi isso: convidei, a gente tinha a ideia de fazer um clipe, e a Isadora e o Alexandre desenvolveram todo o enredo. Eu s\u00f3 fui atr\u00e1s ali: \u201cGabriel, senta aqui.\u201d Eu: \u201cBeleza.\u201d \u201cSenta a\u00ed, olha pra cima.\u201d Eu: \u201cOk.\u201d Foi meio que isso. Claro que eu pontuo algumas coisas, porque \u00e9 um trabalho que vai me representar. Mas n\u00e3o s\u00f3 a mim, a eles tamb\u00e9m. Se eu fiz o convite, n\u00e3o posso depois ficar dizendo: \u201cAh, isso aqui t\u00e1 doido.\u201d Ent\u00e3o fiquei nessa posi\u00e7\u00e3o mesmo. E isso foi \u201cFogos\u201d.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Gabriel Ventura - O enfeite do n\u00e3o e o sim \/ Toda Can\u00e7\u00e3o\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/DQcmYBv7w3M?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E de onde surgiu a ideia de combinar as faixas \u201cO enfeite do n\u00e3o e o sim\u201d e \u201cToda Can\u00e7\u00e3o\u201d num clipe s\u00f3?<\/strong><br \/>\nCara, foi na verdade uma grande d\u00favida. Eu n\u00e3o sabia qual das duas m\u00fasicas lan\u00e7ar. Fiquei em d\u00favida, \u201ccaraca, lan\u00e7o uma? Lan\u00e7o a outra?\u201d. A\u00ed falei: \u201cQuer saber? Vou lan\u00e7ar as duas. E vamos ver o que vai dar\u201d. E a\u00ed fomos criando essa ideia. O motivo visual foi esse: o encordoar do viol\u00e3o. O Felipe Dur\u00e3es deu uma ideia maravilhosa de deixar a coisa mais \u201cnude\u201d, mais aberta. Porque eu n\u00e3o estou botando corda no viol\u00e3o &#8211; \u00e9 um cord\u00e3o, na real. Ent\u00e3o tem aquele cord\u00e3o do meu lado, e estou passando ele pelo viol\u00e3o. Eu, Barbanjo, Isadora, Alexandre, discutimos bastante o tema e chegamos nessa ideia de mostrar mais o processo. J\u00e1 que o nome \u00e9 \u201cEncordoar\u201d e a gente est\u00e1 fazendo material audiovisual, vamos tamb\u00e9m mostrar o processo do audiovisual. Ent\u00e3o tem cena deles filmando, tem cena do Barbanjo com aquela c\u00e2mera velha dele. Isso tamb\u00e9m amarra o nome do disco. \u00c9 mais uma maneira de olhar pro ato de insistir. Porque se eu estou insistindo, eles tamb\u00e9m est\u00e3o. Todos n\u00f3s estamos, seja no que for. Mostrar isso, o processo de encordoar, de filmar, de montar, aproxima a gente de uma resposta pro \u201cpor que seguimos insistindo?\u201d. Talvez, quando a gente olhar pra tr\u00e1s, entende o como e o porqu\u00ea de fazer as coisas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Quando est\u00e1 gravando, voc\u00ea evita ouvir outros artistas pra n\u00e3o refletir no seu trabalho?<\/strong><br \/>\nCara, n\u00e3o, eu n\u00e3o evito ouvir nada n\u00e3o. Pelo contr\u00e1rio, eu acho que eu escuto mais coisas, sabe? Escuto para me inspirar mesmo. N\u00e3o acredito nessa coisa de &#8220;Nossa Senhora, caiu um raio na minha cabe\u00e7a e fiz uma m\u00fasica&#8221;. N\u00e3o, n\u00e3o. Eu tento, fico reescrevendo letras interminavelmente, fico na picuinha da harmonia eternamente. E acho que ouvir outras coisas vai me dando ideia, me inspirando. &#8220;Ah, vou fazer por aqui, vou fazer por ali.&#8221; Como a gente falou antes, n\u00e3o d\u00e1 para voc\u00ea retirar sua individualidade, pelo menos eu n\u00e3o imagino como isso seria poss\u00edvel. Eu n\u00e3o acho que \u00e9 porque estou ouvindo outro artista que eu vou deixar de ser eu, sabe? Claro que pode rolar uma refer\u00eancia a algum m\u00fasico, por exemplo, o Lanny. Eu olho e falo: &#8220;P\u00f4, pelo amor de Deus, Gabriel, baixa a bola, n\u00e9, amigo, segura.&#8221; (risos) Mas, no fundo, n\u00e3o acho isso negativo. O importante \u00e9 voc\u00ea saber dosar isso e contar com a ajuda de um amigo. Eu produzi esse disco com o Patrick, ent\u00e3o o olhar dele tamb\u00e9m foi muito importante. Ent\u00e3o voc\u00ea vai encontrando essa medida, que \u00e9 vari\u00e1vel, cada um vai ter a sua, mas voc\u00ea encontra essa dosagem. Mas, para mim, ouvir as coisas \u00e9 bom demais. S\u00f3 me traz mais ideia, mesmo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Depois que voc\u00ea termina um \u00e1lbum, voc\u00ea costuma voltar a ouvi-lo ou voc\u00ea meio que deixa de lado, tipo \u201cn\u00e3o aguento mais\u201d?<\/strong><br \/>\nEu n\u00e3o escuto muito n\u00e3o. Escuto mais no processo inicial, porque tem aquela coisa de fazer show. E geralmente, quando voc\u00ea lan\u00e7a um disco, voc\u00ea j\u00e1 gravou ele h\u00e1 um tempo. \u00c0s vezes, eu realmente n\u00e3o lembro mais como \u00e9 que eu toco as coisas. Ent\u00e3o, preciso ouvir para me lembrar de como \u00e9 que fiz isso, pensar nos arranjos, o que tem que ter. Porque transpor o disco pro ao vivo \u00e9 uma experi\u00eancia completamente diferente. N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 reproduzir tudo o que est\u00e1 ali; \u00e9 outra coisa, outra experi\u00eancia. Para mim, cada um tem sua vis\u00e3o, mas eu volto a ouvir o disco para relembrar e decidir o que deve ter no show, o que n\u00e3o precisa, e assim por diante. Mas passado esse processo de aprender o que ainda estou aprendendo nele, acho que n\u00e3o vou ouvir muito n\u00e3o, porque este foi um disco que eu me arrisquei a mixar, ent\u00e3o foi um envolvimento gigantesco. Voc\u00ea escuta as coisas com uma lupa muito grande. Tipo, a a\u00e7\u00e3ozinha da bateria, que voc\u00ea fica ouvindo ali&#8230; Caraca, \u00e9 um processo intermin\u00e1vel. E isso se conecta a essa coisa da mudan\u00e7a do ser humano: o que escuto hoje posso n\u00e3o gostar amanh\u00e3. Ent\u00e3o, v\u00e1rias escolhas que fiz como mixador naquele momento provavelmente eu vou discordar daqui um tempo. Acho que, se ficar ouvindo, vou sofrer, pensando: \u201cAi, podia ter feito isso ou aquilo. Ah, por que fiz isso?\u201d Ent\u00e3o prefiro n\u00e3o ouvir, porque \u00e9 importante manter o registro do momento. O disco \u00e9 aquilo que voc\u00ea estava vivendo, tocando daquele jeito, o que voc\u00ea gostava, o que voc\u00ea tinha. Eu prefiro curtir dessa forma, ao inv\u00e9s de ficar revirando e sofrendo. Eu sei que, inevitavelmente, parte de mim vai fazer isso, ent\u00e3o eu prefiro n\u00e3o ouvir.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Entendi. E esse &#8220;n\u00e3o ouvir&#8221; \u00e9 s\u00f3 uma quest\u00e3o de respeitar o momento que foi. Como uma foto. E, \u00e0s vezes, \u00e9 bom deixar passar um tempo\u2026<\/strong><br \/>\nExato, \u00e9 isso. Eu acho que quando voc\u00ea n\u00e3o ouve por um tempo, h\u00e1 algo de gostoso, porque, quando escuta de novo, voc\u00ea pensa: &#8220;Porra, maneiro, hein! Gostei&#8221;. Sabe? \u00c9 deixar esse sentimento acontecer. Se voc\u00ea fica preso ali, pensando em todos os motivos e tentando encontrar falhas, voc\u00ea n\u00e3o vive o disco como ele \u00e9. E, por mais que eu saiba que, daqui a algum tempo, eu possa ouvir e achar que poderia ter feito diferente, esse distanciamento \u00e9 bom.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-89960 aligncenter\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/Pra-Me-Lembrar-de-Insistir_capa-Ventura-copiar.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"750\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/Pra-Me-Lembrar-de-Insistir_capa-Ventura-copiar.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/Pra-Me-Lembrar-de-Insistir_capa-Ventura-copiar-300x300.jpg 300w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/Pra-Me-Lembrar-de-Insistir_capa-Ventura-copiar-150x150.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E o que voc\u00ea tem ouvido hoje em dia? Imagino que tem os cl\u00e1ssicos que voc\u00ea ouve sempre. Quais s\u00e3o os seus?<\/strong><br \/>\nAh, eu sempre volto para os mesmos. Gonzaguinha, por exemplo, \u00e9 um cara que eu sempre escuto, compondo. Ele tem uma coisa na escrita que \u00e9 muito comovente, me identifico demais. N\u00e3o \u00e9 sobre copiar o cara, \u00e9 sobre buscar inspira\u00e7\u00e3o no que eu gosto. Siba para mim tamb\u00e9m \u00e9 um dos maiores, se n\u00e3o o maior, letrista e compositor da atualidade. E eu sou muito f\u00e3, n\u00e3o posso falar maior, n\u00e3o! (risos) Porque a gente n\u00e3o conhece todo mundo, mas \u00e9 um dos maiores, com certeza, dos que eu conhe\u00e7o. Eu tamb\u00e9m escuto muito o Rodrigo Ogi. Ele tem uma hist\u00f3ria, desenvolve os enredos de uma maneira que voc\u00ea fica pensando que est\u00e1 vendo um filme e fica pensando: &#8220;Meu Deus, o que vai acontecer agora?&#8221; E voc\u00ea quer ouvir mais, porque \u00e9 fascinante. Essa galera de S\u00e3o Paulo&#8230; Eu gosto muito de escutar o Rodrigo Ogi, o pr\u00f3prio Kiko Dinucci, e Ju\u00e7ara (Mar\u00e7al), nossa senhora, sempre. Como no disco eu busquei muito viol\u00e3o, fui atr\u00e1s dos medalh\u00f5es do viol\u00e3o brasileiro para pegar refer\u00eancia. Passei pelo Lenine, que sempre me influenciou, mas, ouvindo os discos dele, percebo o qu\u00e3o avan\u00e7ada \u00e9 a produ\u00e7\u00e3o dele, com colagens nas m\u00fasicas. O [Jo\u00e3o] Bosco tamb\u00e9m! E a\u00ed, voc\u00ea vai buscando, porque, no fundo, eu tinha esse norte: &#8220;Viol\u00e3o, vou estudar isso aqui&#8221;. N\u00e3o tem lugar melhor que na m\u00fasica brasileira para aprender. Ent\u00e3o fui ouvindo essas influ\u00eancias. Esses, talvez, sejam os mais recorrentes na minha vida e no processo do disco.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E o que voc\u00ea acha que seria o mais improv\u00e1vel de as pessoas acreditarem que voc\u00ea escuta? Tem algum som ou algum estilo que voc\u00ea acha que as pessoas diriam: &#8220;Isso n\u00e3o \u00e9 a cara do Gabriel&#8221;?<\/strong><br \/>\nRapaz, n\u00e3o sei&#8230; porque essa pergunta me joga no exerc\u00edcio que eu acho perigoso fazer, embora todo mundo fa\u00e7a: projetar-se no outro. Ficar pensando: &#8220;Como \u00e9 que o outro me v\u00ea?&#8221; (risos). Caraca, isso \u00e9 um neg\u00f3cio muito grande. Mas, tendo que falar algo, talvez a onda do rap. Eu escuto muito, muito, muito rap. Acho muito revolucion\u00e1rio. Desde os Racionais, l\u00e1 atr\u00e1s, voc\u00ea pega os primeiros \u00e1lbuns, e tem uma constru\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica neles que \u00e9 impressionante. O Rodrigo Ogi, que eu mencionei, tamb\u00e9m tem algo nesse sentido. Tem algo na constru\u00e7\u00e3o de hist\u00f3ria e como ele consegue emoldurar o enredo de uma forma muito sens\u00edvel. N\u00e3o vejo outros estilos fazendo isso de forma t\u00e3o intensa. Claro que tem exce\u00e7\u00f5es, mas no rap nacional principalmente, eles exploram muito isso. \u00c9 quase como um filme. Cada m\u00fasica que voc\u00ea escuta, os barulhinhos, as informa\u00e7\u00f5es v\u00e3o vindo e mudando&#8230; Voc\u00ea est\u00e1 na cadeia, depois num hospital, e essa constru\u00e7\u00e3o \u00e9 impressionante.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea pensa em fazer algo nesse estilo algum dia? Aquele tipo de narrativa cinematogr\u00e1fica, como se fosse um filme, contando uma hist\u00f3ria?<\/strong><br \/>\nN\u00e3o sei se \u00e9 para mim, n\u00e3o&#8230; Os caras dominam essa linguagem de uma forma que eu n\u00e3o tenho. Eu me inspiro nisso de certa forma e tento fazer isso, mas do meu jeitinho, \u00e0 minha maneira. Talvez meu jeito de contar hist\u00f3ria seja diferente, mas eu busco algo nesse sentido. Meu trabalho tem um pouco como a coisa do &#8220;Tarde&#8221;, de ter esses cortes bruscos. \u00c9 o meu jeito de emoldurar a cena. Mas meu jeito de escrever e pensar \u00e9 diferente. E ainda bem que \u00e9, porque \u00e9 a nossa individualidade, que \u00e9 o mais importante. Mas meu jeito de compor, de certa forma se aproxima disso: de tentar sempre estar nesses climas, de ter um telefone que toca do nada, de ter uma quebra, porque \u00e9 assim que eu acho interessante. A m\u00fasica, para mim, tem esse poder: ela pode ser um ritual. Voc\u00ea vai ouvir e ser transportado para aquele lugar. Eu acho que na m\u00fasica, o entretenimento puro n\u00e3o deveria ser o \u00fanico objetivo. A m\u00fasica tem esse poder de te fazer pensar, de te inspirar, de te transportar para outro lugar. N\u00e3o que o entretenimento n\u00e3o tenha seu valor, tem seu momento, mas a m\u00fasica deve ter o poder de fazer isso tamb\u00e9m, de te fazer ver o mundo de outra forma.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Gabriel Ventura - Vontade (Tenor Sessions Vol 1)\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/vsscdvjWdC0?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Gabriel Ventura - Nada pra ensinar, muito pra aprender (Tenor Sessions Vol 2)\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/dNEdp5L-ZYM?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Gabriel Ventura - O Arquiteto (Tenor Sessions Vol 3)\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/XRUCjU85SXg?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Gabriel Ventura - A queda para o abrac\u0327o (Tenor Sessions Vol 4)\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/eZrAap51thU?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><em>\u2013 Alexandre Lopes (<a href=\"https:\/\/twitter.com\/ociocretino\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">@ociocretino<\/a>) \u00e9 jornalista e assina o\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ociocretino.blogspot.com.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">www.ociocretino.blogspot.com.br<\/a>.\u00a0<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Com uma sonoridade mais ac\u00fastica e \u00edntima do que sua estreia solo, \u201cTarde\u201d (2020), o novo trabalho revela um artista mais silencioso, mas n\u00e3o menos potente.\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2025\/06\/26\/entrevista-gabriel-ventura-fala-sobre-segundo-disco-pra-me-lembrar-de-insistir-e-a-arte-de-continuar\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":101,"featured_media":89961,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[3],"tags":[3538,7753],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/89959"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/101"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=89959"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/89959\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":89962,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/89959\/revisions\/89962"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/89961"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=89959"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=89959"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=89959"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}