{"id":89949,"date":"2025-06-25T00:55:02","date_gmt":"2025-06-25T03:55:02","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=89949"},"modified":"2025-09-19T17:06:22","modified_gmt":"2025-09-19T20:06:22","slug":"cinema-o-terror-argentino-1978-e-rico-em-gore-ideias-promissoras-e-deslizes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2025\/06\/25\/cinema-o-terror-argentino-1978-e-rico-em-gore-ideias-promissoras-e-deslizes\/","title":{"rendered":"Cinema: O terror argentino \u201c1978\u201d \u00e9 rico em gore, ideias promissoras e deslizes"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>texto de\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/caro.davii\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Davi Caro<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">A Copa do Mundo de 1978 \u00e9 um marco na hist\u00f3ria da Argentina por uma s\u00e9rie de raz\u00f5es. Entre as mais emblem\u00e1ticas est\u00e3o, em primeiro lugar \u00f3bvio, por ter se encerrado como o primeiro campeonato mundial conquistado pelos anfitri\u00f5es, que venceram a Holanda na final por um placar de 3 a 1. E segundo como exerc\u00edcio de uma tentativa de mascarar os horrores que a Ditadura Militar, presidida pelo General Jorge Rafael Videla, vinha promovendo no pa\u00eds desde 1976.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Entre abdu\u00e7\u00f5es, interrogat\u00f3rios, torturas, assassinatos e desaparecimentos que vitimaram quase 10 mil pessoas em uma tentativa de suprimir supostas iniciativas comunistas, a imprensa e os \u00f3rg\u00e3os humanit\u00e1rios internacionais come\u00e7aram a prestar aten\u00e7\u00e3o. A realiza\u00e7\u00e3o do evento, portanto, poderia servir como uma distra\u00e7\u00e3o da realidade brutal pela qual a popula\u00e7\u00e3o, oprimida, passava ent\u00e3o: foram instalados centenas de centros de deten\u00e7\u00e3o e tortura clandestinos ao longo de diferentes cidades, onde assassinatos e abusos f\u00edsicos e psicol\u00f3gicos eram rotina.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Este \u00e9 o momento hist\u00f3rico onde se situa \u201c1978\u201d, filme dirigido pelos irm\u00e3os Luciano e Nicolas Onetti, distribu\u00eddo pela produtora Black Mandala e originalmente lan\u00e7ado em 2024. Constru\u00eddo a partir de um roteiro de autoria dos dois diretores, o longa, que agora chega ao streaming via HBO Max, transita entre um lado mais politizado \u2013 que \u00e9 mais do que oportuno dado o momento que o mundo atravessa atualmente \u2013 e outro fixado no body horror recheado de v\u00edsceras, remetendo a grandes obras de John Carpenter e Dario Argento. Com um argumento interessante, o filme mira em um aprofundamento da trama, por si s\u00f3 enriquecido com o contexto hist\u00f3rico que retrata, e almeja, assim, certa valida\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia gr\u00e1fica propagada na tela. E o longa atinge seus objetivos, mesmo que n\u00e3o sem ressalvas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um grupo de torturadores em plant\u00e3o se entret\u00e9m assistindo a final da Copa, jogando truco e encarando como uma mera inconveni\u00eancia as sess\u00f5es brutais de tortura que realizam em indiv\u00edduos indefesos. Quando um desses militares, Moro (Mario Alarcon), obt\u00e9m, durante o questionamento particularmente impiedoso de um jovem, a informa\u00e7\u00e3o de um local que abrigaria uma organiza\u00e7\u00e3o rebelde que buscavam, um grupo, que inclui o relutante Miguel (Agust\u00edn Olcense) apreende de forma violenta cerca de meia d\u00fazia de jovens, entre os quais uma jovem gr\u00e1vida chamada Irene (Paula Silva).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os b\u00e1rbaros interrogat\u00f3rios dos novos prisioneiros, no entanto, revelam que os \u201crevolucion\u00e1rios\u201d aprisionados pelos torturadores n\u00e3o s\u00e3o o que pareciam ser: com tatuagens em vermelho-sangue, e portando objetos que incluem obscuros livros e uma adaga, o grupo se revela como membros de um culto, com objetivos misteriosos que s\u00e3o diretamente conectados \u00e0 crian\u00e7a que Irene carrega no ventre. Assim, os sanguin\u00e1rios oficiais, bem como outros prisioneiros, se veem diante de um ritual macabro do qual precisam lutar contra o tempo para escapar com suas vidas \u2013 e seus esp\u00edritos \u2013 intactos.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"1978 Official Trailer (2025) Argentinian Horror Movie\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/8nCyQR8eU8w?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Desde a primeira tomada, com uma j\u00e1 mencionada partida de truco, \u00e9 f\u00e1cil lembrar de uma outra ambiciosa produ\u00e7\u00e3o recente realizada em terras argentinas: afinal, o aclamado \u201cO Eternauta\u201d tamb\u00e9m se usa deste elemento narrativo para estabelecer as din\u00e2micas entre os personagens centrais. A tens\u00e3o vista em \u201c1978\u201d, na verdade, \u00e9 uma subvers\u00e3o completa do enredo elaborado no quadrinho de Oesterheld e Solano L\u00f3pez: a deturpa\u00e7\u00e3o dos torturadores mostrados aqui faz torcer para que n\u00e3o demore tempo para ver o sangue jorrar. Neste sentido, o elenco encara, e muito bem, a tarefa de encarnar figuras t\u00e3o repugnantes e merecedoras de \u00f3dio \u2013 sobretudo o ator Carlos Portaluppi, que interpreta o vil policial Carrancho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se \u201c1978\u201d tem um protagonista, este \u00e9 o Miguel de Agust\u00edn Olcense. Os esfor\u00e7os em estabelecer uma narrativa paralela que une o passado do personagem com o tormento que presencia no presente, por\u00e9m, parecem muitas vezes apressados e dignos de um desenvolvimento mais cuidadoso no roteiro. J\u00e1 o prisioneiro Hugo (Augusto Pardella) n\u00e3o ganha tempo de tela suficiente para que o \u00fanico elemento digno de empatia em cena consiga despertar uma conex\u00e3o mais real da parte do espectador. O mesmo se pode dizer de muitos dos coadjuvantes, que incluem um displicente e asqueroso m\u00e9dico que se recusa a dar aten\u00e7\u00e3o a uma Irene iminentemente gr\u00e1vida, com a desculpa de odiar o que ele chama de \u201cgente imunda\u201d. Mesmo assim, o fim dado ao personagem, que poderia guardar oportunidades de aprofundarem o subtexto pol\u00edtico e humanit\u00e1rio da trama, \u00e9 brusco, anti-clim\u00e1tico e carecedor de mais aten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se o desenvolvimento dos personagens \u00e9 atravancado, o mesmo n\u00e3o se pode dizer do apre\u00e7o visual do filme. A cinematografia n\u00e3o poupa esfor\u00e7os em apresentar cenas sanguinolentas com frequ\u00eancia, e o uso de efeitos pr\u00e1ticos definitivamente conta a favor. Determinados pontos do filme, no entanto, tem efeitos de edi\u00e7\u00e3o onde cortes (muito) r\u00e1pidos acabam desorientando a audi\u00eancia. \u00c9 algo que n\u00e3o chega a prejudicar a experi\u00eancia, mas que poderia valorizar mais as boas loca\u00e7\u00f5es, claustrof\u00f3bicas na medida certa. O contexto hist\u00f3rico, embora apare\u00e7a com mais \u00eanfase em determinados pontos, fica longe de ser fundamental no decorrer da trama, ao ponto de muitas vezes n\u00e3o fazer qualquer tipo de diferen\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Visto como um todo, \u201c1978\u201d \u00e9 uma boa ideia levada a cabo por uma produ\u00e7\u00e3o que, por muito pouco, se mostra aqu\u00e9m do conceito que tenta abarcar. Existem, sim, muitos pontos positivos a se considerarem aqui \u2013 tanto a montagem e a cinematografia quanto o pr\u00f3prio enredo principais s\u00e3o promissores desde o in\u00edcio \u2013 ainda que o filme permane\u00e7a como uma promessa para algo muito maior. Seu an\u00e1logo mais pr\u00f3ximo, talvez, seja o longa brasileiro \u201cSkull: A M\u00e1scara de Anhang\u00e1\u201d (2020); ambas s\u00e3o produ\u00e7\u00f5es dotadas de enredos capazes de prender a aten\u00e7\u00e3o mesmo do mais casual dos cin\u00e9filos (al\u00e9m de um senso de terror visceral desenfreado que remete a grandes cl\u00e1ssicos do g\u00eanero) e acabam se deparando com alguns percal\u00e7os que, se n\u00e3o arru\u00ednam totalmente a experi\u00eancia \u2013 e s\u00e3o definitivamente dignos da aten\u00e7\u00e3o de audi\u00eancias maiores \u2013 levantam quest\u00f5es sobre o que poderia ser alcan\u00e7ado com um pouco mais de tempo, e de esmero.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201c1978\u201d pode n\u00e3o estar \u00e0 altura de um cl\u00e1ssico moderno como o impec\u00e1vel (e tamb\u00e9m argentino) \u201c<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2024\/02\/07\/critica-quer-ver-um-jovem-classico-do-terror-nascendo-assista-o-mal-que-nos-habita-de-demian-rugna\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">O Mal Que Nos Habita<\/a>\u201d (2023). Mesmo assim, n\u00e3o deixa de ser reconfortante saber que h\u00e1 boas ideias sendo desenvolvidas na s\u00e9tima arte latino-americana, a medida que tomamos conhecimento de nossa hist\u00f3ria e vemos m\u00e3os talentosas e comprometidas ilustrarem n\u00e3o s\u00f3 as formas mais surreais do horror fantasioso, como tamb\u00e9m amea\u00e7as ainda mais tenebrosas, aterrorizantes e que, igualmente, n\u00e3o deveriam existir. Mesmo sendo muito, muito mais reais.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-89950 aligncenter\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/1978_1.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"1111\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/1978_1.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/1978_1-203x300.jpg 203w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p><em><a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=4cfQaQO-YD4\">\u2013\u00a0Davi Caro\u00a0\u00e9 professor,<\/a>\u00a0tradutor, m\u00fasico, escritor e estudante de Jornalismo. Leia mais textos dele\u00a0<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/author\/davi-caro\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">aqui<\/a>.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Visto como um todo, \u201c1978\u201d \u00e9 uma boa ideia levada a cabo por uma produ\u00e7\u00e3o que, por muito pouco, se mostra aqu\u00e9m do conceito que tenta abarcar\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2025\/06\/25\/cinema-o-terror-argentino-1978-e-rico-em-gore-ideias-promissoras-e-deslizes\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":134,"featured_media":89951,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[4],"tags":[45,3905],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/89949"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/134"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=89949"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/89949\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":89952,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/89949\/revisions\/89952"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/89951"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=89949"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=89949"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=89949"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}