{"id":89904,"date":"2003-07-28T11:02:47","date_gmt":"2003-07-28T14:02:47","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=89904"},"modified":"2025-06-24T11:22:51","modified_gmt":"2025-06-24T14:22:51","slug":"cinema-exterminio-e-um-filme-de-climas-sensacoes-e-de-constante-ameaca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2003\/07\/28\/cinema-exterminio-e-um-filme-de-climas-sensacoes-e-de-constante-ameaca\/","title":{"rendered":"Cinema: &#8220;Exterm\u00ednio&#8221; \u00e9 um filme de climas, sensa\u00e7\u00f5es e de constante amea\u00e7a"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>texto de\u00a0<\/strong><strong>C. Lopes<\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">E quando tudo d\u00e1 errado? E quando o mundo cai na sua cabe\u00e7a? E quando voc\u00ea percebe que n\u00e3o tem ningu\u00e9m ao seu lado, ningu\u00e9m em quem confiar?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Estamos em 1996 e o diretor brit\u00e2nico Danny Boyle \u00e9 o rei do underground cinematogr\u00e1fico, seja l\u00e1 o que for isso. Seus dois primeiros filmes, &#8220;Cova Rasa&#8221; (1994) \u2013 um suspense esperto do tempo em que o tema &#8220;grupo de amigos que escondem um cad\u00e1ver&#8221; ainda n\u00e3o havia se tornando praticamente um g\u00eanero cinematogr\u00e1fico &#8211; e &#8220;Trainspotting &#8211; Sem Limites&#8221; (1996) \u2013 uma longa do tempo em que acompanhar o cotidiano de jovens junkies ainda era engra\u00e7ado &#8211; s\u00e3o idolatrados. A imprensa metida a alternativa e o p\u00fablico indie trata o cineasta como um g\u00eanio, o \u00faltimo representante do cinema &#8220;alternativo&#8221; contra o esquem\u00e3o hollywoodiano. Depois que o roteiro deste \u00faltimo foi indicado ao Oscar, era natural que Hollywood assediasse Boyle. O primeiro filme americano dele foi o fraco &#8220;Por Uma Vida Menos Ordin\u00e1ria&#8221; (1998), uma com\u00e9dia rom\u00e2ntica bestinha do tempo em que a presen\u00e7a de Cameron Diaz em uma com\u00e9dia rom\u00e2ntica bestinha era novidade. Em seguida foi a vez do projeto mais ambicioso do diretor, &#8220;A Praia&#8221; (2000) \u2013 e, esse sim, recebeu toda a execra\u00e7\u00e3o p\u00fablica que o anterior merecia. O filme est\u00e1 longe de ser uma maravilha, mas tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 o desastre que pintam. Apesar disso, o mundo caiu na cabe\u00e7a de Boyle. Seus f\u00e3s viraram facilmente seus detratores, seu amigo Ewan McGregor ficou puto por n\u00e3o ter participado de &#8220;A Praia&#8221; e disse que nunca mais trabalharia com o diretor (nada que a continua\u00e7\u00e3o de &#8220;Trainspotting&#8221;, <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2017\/03\/30\/cinema-t2-trainspotting-de-danny-boyle\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">que est\u00e1 sendo planejada<\/a>, n\u00e3o cure), o filme, tratado como superprodu\u00e7\u00e3o que n\u00e3o era, n\u00e3o rendeu o esperado. Tudo deu errado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Estamos em 2000 e alguma coisa e Jim (Cillian Murphy) acorda de um coma. O hospital est\u00e1 deserto. Jim vai pra rua, e o centro de Londres tamb\u00e9m est\u00e1 deserto. Toda a cidade est\u00e1 deserta. Ap\u00f3s ser salvo do ataque de zumbis por Selena (Naomi Harris) e Hank (Noah Huntley), ele descobre o que est\u00e1 acontecendo: um v\u00edrus foi liberado por ativistas ambientais de um laborat\u00f3rio de pesquisa, espalhando-se rapidamente. A cidade teve que ser evacuada. Quem era contaminado e n\u00e3o morria se transformava em morto-vivo, como os que atacaram Jim. O mundo cai na cabe\u00e7a do rapaz. Seus pais e amigos est\u00e3o mortos. Uma pessoa infectada deve ser morta em 20 segundos, n\u00e3o importa se \u00e9 seu pai, sua m\u00e3e, seu irm\u00e3o. Sendo assim, em quem confiar? Jim e Selena encontram Frank (Brendan Gleeson) e sua filha Hannah (a gracinha Megan Burns, uma esp\u00e9cie de clone da atriz Anna Paquin, a Vampira de &#8220;X-Men 2&#8221;), e eles se juntam para tentar sobreviver. Mas sobreviver pra qu\u00ea? O que fazer quando tudo d\u00e1 errado?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ok, &#8220;Exterm\u00ednio&#8221; (&#8220;28 Days Later&#8221;, 2002), o novo filme de Danny Boyle que conta a hist\u00f3ria de Jim, n\u00e3o \u00e9 uma met\u00e1fora do per\u00edodo de ostracismo que o diretor vivenciou. Mas tem um jeit\u00e3o de recome\u00e7o (e todas as dificuldades inerentes a ele) adequado ao retorno do cineasta depois do fracasso de &#8220;A Praia&#8221;. Se os personagens procuram um novo lar, Boyle volta ao seu (a Inglaterra) e suas origens. O filme tem o clima claustrof\u00f3bico pr\u00f3ximo ao de &#8220;Cova Rasa&#8221;, sua estr\u00e9ia na dire\u00e7\u00e3o. O come\u00e7o do longa \u00e9 exemplar: a libera\u00e7\u00e3o do v\u00edrus, bem filmada; Jim acordando na cama de hospital em total sil\u00eancio. \u00c0 medida que sai \u00e0 rua e percebe que algo de muito grave aconteceu, a trilha sonora de John Murphy come\u00e7a a ser ouvida, a princ\u00edpio em baixo volume, com a batida mais devagar, at\u00e9 descanbar em uma m\u00fasica r\u00e1pida e ensurdecedora. O bom uso da m\u00fasica e as invenciones visuais e sonoras sempre foram marcas de Boyle. S\u00f3 que, em seus filmes americanos, elas soavam exageradas ou deslocadas. A hist\u00f3ria de &#8220;Exterm\u00ednio&#8221; tamb\u00e9m n\u00e3o pede tais experimenta\u00e7\u00f5es, e o diretor usa a trilha sonora e as angula\u00e7\u00f5es criativas sabiamente, criando um clima de tens\u00e3o e desconforto cada vez maior.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Exterm\u00ednio (2002) | Trailer Legendado\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/at4JIc_vyUY?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E \u00e9 essa a chave: mais do que sustos, &#8220;Exterm\u00ednio&#8221; \u00e9 um filme de climas, sensa\u00e7\u00f5es. Medo pela constante amea\u00e7a. Nojo pelas mortes e pelo aspecto dos zumbis. E tamb\u00e9m melancolia. Ao contr\u00e1rio de outros filmes p\u00f3s-apocalipiticos, a a\u00e7\u00e3o se passa poucos dias depois que a trag\u00e9dia ocorreu. No lugar de personagens j\u00e1 calejados, acostumados em viver daquele jeito, temos pessoas se adaptando \u00e0 situa\u00e7\u00e3o, tendo claro na mem\u00f3ria como eram as coisas antes. Estranho como, em filmes de terror, o drama raramente \u00e9 explorado. Claro, h\u00e1 gritos, berros, choros convulsivos que fazem o nariz escorrer, mas n\u00e3o drama, emo\u00e7\u00e3o. S\u00f3 histeria. Por apresentar a rea\u00e7\u00e3o dos personagens, como eles se relacionam entre si e com a id\u00e9ia do fim da humanidade, o filme ganha mais alguns pontos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A op\u00e7\u00e3o por realizar o filme em v\u00eddeo digital n\u00e3o parece ter sido somente or\u00e7ament\u00e1ria, mas tamb\u00e9m est\u00e9tica. Todo o longa tem um aspecto tosco e cru (especialmente nas seq\u00fc\u00eancias mais violentas), bastante adequado ao que est\u00e1 se passando na tela. O trabalho de c\u00e2mera n\u00e3o cai na armadilha f\u00e1cil dos filmes feitos neste formato, com tomadas &#8220;sacolejantes&#8221;, em que mal d\u00e1 pra se perceber o que est\u00e1 acontecendo, e baixa qualidade da imagem. O efeito &#8220;Bruxa de Blair&#8221;, quando parece que a c\u00e2mera est\u00e1 sendo operada por um epil\u00e9tico em plena convuls\u00e3o, \u00e9 bem usado, nos momentos certos, gerando adrenalina ao inv\u00e9s de confus\u00e3o (como acontece normalmente). E a ilumina\u00e7\u00e3o e a fotografia do filme, apesar de manterem sempre o aspecto granulado, s\u00e3o bastante vers\u00e1teis, adequando-se ao clima da cena \u2013 destaque para a cena da chuva, mais para o final.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A tosqueira estende-se tamb\u00e9m ao elenco &#8211; Cillian Murphy, o protagonista, \u00e9 um magrel\u00e3o muito do esquisito \u2013 e \u00e0 forma quase mambembe em que o filme foi feito \u2013 com o or\u00e7amento \u00ednfimo de U$ 8 milh\u00f5es, as cenas em que Londres aparece deserta tiveram que ser gravadas no domingo de manh\u00e3, com a equipe de produ\u00e7\u00e3o pedindo aos poucos carros e pedestres que passavam pelas loca\u00e7\u00f5es \u00e0quela hora que esperassem um pouco. Mais b\u00e1sico, imposs\u00edvel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Exterm\u00ednio&#8221; tamb\u00e9m \u00e9 uma volta \u00e0s origens de Boyle por levar \u00e0s \u00faltimas conseq\u00fc\u00eancias o subtexto presente em seus filmes anteriores (com exce\u00e7\u00e3o de &#8220;Por Uma Vida Menos Ordin\u00e1ria&#8221;, sendo este um dos motivos do filme ser o mais fraco de sua carreira), a instabilidade do car\u00e1ter humano. Resumindo: quando o bicho pega, merm\u00e3o, \u00e9 cada um por si. Amizades, relacionamentos, promessas e ideologias s\u00e3o facilmente esquec\u00edveis, seja em um grupo de amigos criminosos (&#8220;Cova Rasa&#8221; e o final de &#8220;Trainspotting&#8221;), na sociedade perfeita (&#8220;A Praia&#8221;) ou entre pessoas fugindo de zumbis canibais (o caso em quest\u00e3o).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Claro que isso faz com que a mensagem, principalmente do meio pro final, se torne for\u00e7ada e exagerada. Al\u00e9m disso, o \u00f3timo Brendan Gleeson \u00e9 subaproveitado, e os v\u00e1rios furos no roteiro quase estragam a divers\u00e3o. Quase, porque o saldo final \u00e9 bastante positivo. Nada como um diretor que aprende com seus fracassos, e volta \u00e0quilo que sabe fazer. Quando tudo d\u00e1 errado, quando o mundo cai na sua cabe\u00e7a e n\u00e3o d\u00e1 pra confiar em ningu\u00e9m, o jeito \u00e9 come\u00e7ar de novo. \u00c9 isso que Danny Boyle faz \u2013 com compet\u00eancia &#8211; em &#8220;Exterm\u00ednio&#8221;.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-89917 aligncenter\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/exterminio2.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"1125\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/exterminio2.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/exterminio2-200x300.jpg 200w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Quando tudo d\u00e1 errado, quando o mundo cai na sua cabe\u00e7a e n\u00e3o d\u00e1 pra confiar em ningu\u00e9m, o jeito \u00e9 come\u00e7ar de novo.\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2003\/07\/28\/cinema-exterminio-e-um-filme-de-climas-sensacoes-e-de-constante-ameaca\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":151,"featured_media":89918,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[4],"tags":[1812],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/89904"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/151"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=89904"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/89904\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":89920,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/89904\/revisions\/89920"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/89918"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=89904"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=89904"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=89904"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}