{"id":89814,"date":"2025-06-16T01:32:58","date_gmt":"2025-06-16T04:32:58","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=89814"},"modified":"2025-09-08T12:15:38","modified_gmt":"2025-09-08T15:15:38","slug":"entrevista-luis-henrique-pellanda-fala-sobre-seu-novo-livro-a-cronica-nao-mata-notas-do-isolamento","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2025\/06\/16\/entrevista-luis-henrique-pellanda-fala-sobre-seu-novo-livro-a-cronica-nao-mata-notas-do-isolamento\/","title":{"rendered":"Entrevista:  Luis Henrique Pellanda fala sobre seu novo livro, \u201cA cr\u00f4nica n\u00e3o mata: Notas do isolamento\u201d"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>entrevista de\u00a0<a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/lvinhas78\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Leonardo Vinhas<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">A cr\u00f4nica n\u00e3o mata. Mas a pandemia, o \u00f3dio pol\u00edtico, a desumaniza\u00e7\u00e3o, o isolamento, a doen\u00e7a mental \u2013 todos esses matam. O cotidiano pode matar, mas tamb\u00e9m pode curar, reparar, alegrar, reviver. Uma biblioteca n\u00e3o mata: pode ser um sumidouro, mas tamb\u00e9m pode ser o \u00fanico jardim que rega o pr\u00f3prio jardineiro. A literatura, se mata, o faz para deixar viver algo que pedia para (re)nascer, e que n\u00e3o conseguia porque havia alguma parte tumorosa vivendo por cima dela.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Elucubra\u00e7\u00f5es como essas s\u00e3o poss\u00edveis a partir de \u201c<a href=\"https:\/\/www.livrariaarquipelago.com.br\/a-cronica-nao-mata-luis-henrique-pellanda\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">A cr\u00f4nica n\u00e3o mata<\/a>\u201d (2025), livro mais recente do paranaense <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/lhpellanda\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Luis Henrique Pellanda<\/a>. N\u00e3o apenas elucubra\u00e7\u00f5es: s\u00e3o temas que est\u00e3o presentes na obra, que nasceu a partir de trechos escritos para a coluna que o autor manteve no <a href=\"https:\/\/www.plural.jor.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Plural Curitiba<\/a> durante a pandemia. Revistos, reorganizados, acrescidos de novos trechos, esses trechos se tornaram uma obra com vida pr\u00f3pria nas p\u00e1ginas comercializadas pela Arquip\u00e9lago Editorial.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como \u201cautor publicado\u201d, Pellanda \u00e9 um nome do s\u00e9culo 21. Seu primeiro livro, &#8220;O macaco ornamental&#8221;, data de 2009. Depois vieram &#8220;N\u00f3s passaremos em branco&#8221; (2011), &#8220;Asa de sereia&#8221; (2013), &#8220;Detetive \u00e0 deriva&#8221; (2016), &#8220;A fada sem cabe\u00e7a&#8221; (2018), &#8220;Calma, estamos perdidos&#8221; (2019), &#8220;Na barriga do lobo&#8221; (2021) e &#8220;O ca\u00e7ador chegou tarde&#8221; (2022). Mas a cr\u00f4nica, todos sabemos (ou n\u00e3o?), \u00e9 um dos g\u00eaneros mais emblem\u00e1ticos da literatura brasileira \u2013 pelo menos, assim foi para quem chegou \u00e0s Letras por Rubem Braga, Paulo Mendes Campos, Fernando Sabino, Luis Fernando Ver\u00edssimo, Ign\u00e1cio de Loyola Brand\u00e3o, ou mesmo nomes mais contempor\u00e2neos, como Jamil Snege, Fabricio Carpinejar, Eliane Brum, Claudia Laitano, Martha Medeiros e tantos outros.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para os que n\u00e3o t\u00eam o salutar h\u00e1bito de acompanhar diariamente o Scream &amp; Yell, cabe avisar que Luis Henrique Pellanda \u00e9, tamb\u00e9m, m\u00fasico. Foi vocalista da banda cult curitibana Woyzeck, passou pelo breve combo sambista Gente Boa de Melhor Qualidade, e agora \u00e9 um dos v\u00e9rtices do Smoko, projeto que criou em conjunto com os m\u00fasicos e compositores Caio Marques e Rodrigo Stradiotto, e que j\u00e1 tem <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/tag\/smoko\/\">dois \u00e1lbuns lan\u00e7ados pelo selo Scream &amp; Yell<\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para que serve a cr\u00f4nica, em tempos de \u201copini\u00f5es formadas sobre tudo\u201d? Ali\u00e1s, ela precisa servir para alguma coisa? O que tem a ver remexer nas feridas da pandemia nesse 2025 j\u00e1 cheio de dores? E o que as redes sociais t\u00eam (ou n\u00e3o) a ver com tudo isso? Perguntas que orientaram outras perguntas \u2013 as que foram feitas ao autor nessa entrevista, realizada por e-mail, e que voc\u00ea pode ler em sua vers\u00e3o n\u00e3o editada a seguir.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-89815 aligncenter\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/pellanda2.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"896\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/pellanda2.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/pellanda2-251x300.jpg 251w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>As cr\u00f4nicas deste livro nasceram de seu trabalho como colunista no Plural, mas tamb\u00e9m como estrat\u00e9gia de sobreviv\u00eancia aos rigores pand\u00eamicos. Passados tr\u00eas anos do per\u00edodo mais denso, voc\u00ea diria que a obra cumpriu seu prop\u00f3sito? Ou, em palavras mais diretas, qu\u00e3o bem voc\u00ea sobreviveu?<\/strong><br \/>\nAcho que sobrevivi bem. Porque, claro, muitos n\u00e3o sobreviveram, e outros tantos sobreviventes perderam n\u00e3o s\u00f3 a sa\u00fade, mas tamb\u00e9m empregos, parentes, amigos, dinheiro, futuro, esperan\u00e7a. Eu sigo na pista, e sou grato por isso. Tive meus problemas, que n\u00e3o foram poucos, mas permaneci protegido por aquele velho pacote de privil\u00e9gios da classe m\u00e9dia que t\u00e3o bem conhecemos e que mal fizemos por merecer. Quanto \u00e0 obra, se cumpriu ou n\u00e3o o seu prop\u00f3sito, preciso pensar nela dividida em duas fases distintas: a do jornal e a do livro. Quando publiquei estes textos no jornal, eles cumpriram seu papel. Eu tinha uma coluna a preencher e um leitorado que a acompanhava. Escrever as cr\u00f4nicas era uma obriga\u00e7\u00e3o, mas public\u00e1-las em livro n\u00e3o era. E eu mesmo n\u00e3o estava certo de que esse material realmente tivesse \u201ccorpo\u201d para se tornar um livro. S\u00f3 fui convencido disso pelo meu editor, Tito Montenegro, da Arquip\u00e9lago, que viu algum valor liter\u00e1rio nesse punhado de notas que rascunhei no isolamento, na posi\u00e7\u00e3o de fl\u00e2neur privado da vida nas ruas. Mas admito que gosto do livro, e espero que ele cumpra o prop\u00f3sito primordial dos livros, que \u00e9 o de encontrar leitores. Um livro s\u00f3 existe quando \u00e9 lido.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A pandemia \u00e9 bastante recente, mas n\u00e3o vejo tantos livros, filmes ou can\u00e7\u00f5es sobre o tema como eu inicialmente imaginei que haveria. Que ela foi um trauma coletivo e mundial, n\u00e3o resta d\u00favida. Mas a arte n\u00e3o tem revisitado\/repensado muito esse per\u00edodo. A que voc\u00ea atribui isso &#8211; caso seja essa sua percep\u00e7\u00e3o? Queremos tanto deixar esses anos pesados para tr\u00e1s que preferimos n\u00e3o falar a respeito?<\/strong><br \/>\nAinda n\u00e3o se passou tempo o bastante para que todos possam processar tudo que aconteceu. N\u00e3o a ponto de que possam fabular a respeito, transformar todo aquele chumbo em uns poucos gramas de ouro. As primeiras obras mais apuradas sobre a pandemia come\u00e7am a surgir agora. Para a literatura, assim como para o cinema, e para tantas outras artes, \u00e9 necess\u00e1rio esse prazo maior de matura\u00e7\u00e3o e produ\u00e7\u00e3o. \u00c9 preciso que pensemos e repensemos o mundo, primeiro a quente e depois a frio. \u00c9 preciso deixar a emo\u00e7\u00e3o se arrefecer, esperar que o \u00f3dio perca a sua fun\u00e7\u00e3o paralisante, para s\u00f3 ent\u00e3o revisitarmos nossas ideias e experi\u00eancias sem tanta interfer\u00eancia do real. A literatura simula o real, discute o real, mas ao mesmo tempo precisa afastar-se dele, encontrar seu lugar de representa\u00e7\u00e3o. A pandemia, somada \u00e0 situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica de ent\u00e3o, nos intoxicou de realidade, e escrever demanda certa desintoxica\u00e7\u00e3o. Mas, sim, \u00e9 verdade que muita gente ainda n\u00e3o quer ou n\u00e3o consegue falar sobre a Covid, ou prefere n\u00e3o pensar sobre o que a pandemia significou para a sa\u00fade mental e o amor pr\u00f3prio da humanidade como esp\u00e9cie. Para quem escreve profissionalmente, no entanto, deixar de pensar n\u00e3o \u00e9 uma op\u00e7\u00e3o. Temos que nos manter \u00e0 tona, e s\u00f3 se pode fazer isso trabalhando.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Para transformar as cr\u00f4nicas em um livro, foi preciso fazer uma edi\u00e7\u00e3o, ou \u00e9 apenas minha mem\u00f3ria me traindo? Porque a edi\u00e7\u00e3o final parece ter suprimido algumas cr\u00f4nicas publicadas na \u00e9poca e tamb\u00e9m rearranjado os textos em outra cronologia.<\/strong><br \/>\nSim, entre o conjunto de textos que publiquei no jornal e o que publiquei no livro, posteriormente, h\u00e1 v\u00e1rias diferen\u00e7as. Em parte por conta daquele processo de distanciamento de que falei mais acima. Anos depois de escrever essas notas, percebi, ao revisit\u00e1-las, que algumas delas n\u00e3o sobreviveram ao per\u00edodo pand\u00eamico. S\u00f3 funcionavam quando lidas no calor opressivo daqueles dias. Fora daquele ambiente de medo e incerteza, perdiam for\u00e7a e sentido. Outras, escritas \u00e0s pressas, por um cronista insuflado pelo \u00f3dio e pela frustra\u00e7\u00e3o, tornavam-se quase ing\u00eanuas, tolas at\u00e9, quando lidas em momentos de maior serenidade. Portanto, cortei boa parte delas, acrescentei ao combo restante algumas outras, rascunhadas e n\u00e3o aproveitadas na \u00e9poca, e as recosturei a um tecido novo, pretendendo emprestar \u00e0 pe\u00e7a uma unidade maior, mais coesa, e que se parecesse, de algum modo, \u00e0 reuni\u00e3o dos fragmentos de uma \u00fanica e longa cr\u00f4nica. Uma cr\u00f4nica intermitente, feita de 130 cacos, e que, com o seu fracionamento, emulasse a perda da harmonia e do fluxo de nossa pr\u00f3pria vida social. A edi\u00e7\u00e3o serve para isso.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-89816 aligncenter\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/pellanda3.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"825\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/pellanda3.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/pellanda3-273x300.jpg 273w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O espa\u00e7o primordial da cr\u00f4nica era o jornal impresso. Ela ainda teve um certo protagonismo no come\u00e7o dos portais, mas hoje a linguagem das redes sociais e nossa indisposi\u00e7\u00e3o ao texto mais liter\u00e1rio parecem ter escanteado a cr\u00f4nica at\u00e9 mesmo para os apreciadores da literatura. O g\u00eanero est\u00e1 mesmo em um per\u00edodo descendente?<\/strong><br \/>\nAcho que h\u00e1 outra maneira de encararmos essa quest\u00e3o. A cr\u00f4nica liter\u00e1ria enfrenta, sim, uma crise, que vem se aprofundando desde que as disputas ideol\u00f3gicas tomaram conta do Brasil, via redes sociais, nos sequestrando a aten\u00e7\u00e3o e boa parte de nosso interesse pela vida comum. Com ela, muitos dos leitores de cr\u00f4nicas passaram a preferir artigos que discorressem diretamente sobre pol\u00edtica e, de prefer\u00eancia, confirmassem seu modo de interpretar a sociedade. Passamos a carecer de confirma\u00e7\u00e3o, valida\u00e7\u00e3o, certeza, aliados \u2014 coisas que a literatura n\u00e3o \u00e9 capaz de nos fornecer, ao menos objetivamente. E essa car\u00eancia, claro, \u00e9 compreens\u00edvel. Por outro lado, \u00e9 preciso que se diga: nunca tanta gente escreveu e publicou cr\u00f4nicas no Brasil como agora. E tamb\u00e9m nunca houve tanta diversidade entre os cronistas, ou tanta facilidade de acesso \u00e0 leitura de livros (embora, desde 2015, estejamos novamente perdendo leitores). Nas escolas, por\u00e9m, a cr\u00f4nica continua sendo lida. Livros de cr\u00f4nicas continuam a ser compilados, publicados e vendidos. S\u00f3 acho que n\u00e3o existem mais unanimidades como as que tivemos tempos atr\u00e1s. O conjunto dos leitores de Rubem Braga, Drummond ou Fernando Sabino, no s\u00e9culo passado, era homog\u00eaneo. O leitor de revistas e de jornais do s\u00e9culo 20 pertencia a um determinado tipo de elite, bastante exclusivista. Hoje, h\u00e1 cronistas para v\u00e1rios p\u00fablicos, e h\u00e1 mais conflito. Mesmo porque h\u00e1 muito mais disputas, tamb\u00e9m ideol\u00f3gicas, no interior do pr\u00f3prio campo liter\u00e1rio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>De Rubem Braga a Luis Fernando Ver\u00edssimo, sempre tivemos a cr\u00f4nica para nos ajudar a por em ordem nossos sentimentos e os acontecimentos mundanos. \u00c0s vezes, at\u00e9 para bagun\u00e7\u00e1-los. Com a cr\u00f4nica em queda, que estilo desempenha esse papel? Ou simplesmente n\u00e3o temos um substituto \u00e0 altura?<\/strong><br \/>\nNesse sentido, no que se refere ao seu \u201cdesempenho\u201d perante os leitores, n\u00e3o creio que a cr\u00f4nica esteja em queda, ou mesmo em risco. Tamb\u00e9m n\u00e3o sei se ela algum dia realmente nos ajudou a ordenar nossos sentimentos. Pode ser que sim, n\u00e3o tenho certeza. Mas sei que \u00e9 dif\u00edcil estabelecer uma fun\u00e7\u00e3o \u00fanica para a cr\u00f4nica, assim como \u00e9 dif\u00edcil estabelecer uma fun\u00e7\u00e3o para a literatura ou para a arte em geral. Cada artista, cada escritor, cada cronista ter\u00e1 seu objetivo, seu projeto, seu plano intransfer\u00edvel. Assim como cada leitor, ao ler o que escolhe ler, o faz a partir de suas refer\u00eancias pessoais, de suas necessidades mais \u00edntimas, talvez at\u00e9 inconscientes. Tenho os meus leitores, ainda bem, e eles conversam comigo nos eventos de que participo, e escrevem para mim nas redes sociais, e me cobram pelo que pensam desvendar no meu texto, por coisas que conto ou deixo de contar, e isso, essa participa\u00e7\u00e3o, me d\u00e1 a temperatura do meu leitorado. Ela \u00e9 sempre vari\u00e1vel. Esquenta, esfria, esquenta, esfria. Outros cronistas t\u00eam tamb\u00e9m os seus leitores, em maior ou menor n\u00famero, e que \u00e0s vezes coincidem com os meus, \u00e0s vezes diferem dos meus, \u00e0s vezes se op\u00f5em aos meus. Cada um vai \u00e0 cr\u00f4nica com uma sede particular, n\u00e3o raro insaci\u00e1vel. N\u00e3o fosse assim, escrever\u00edamos apenas uma cr\u00f4nica e estar\u00edamos conversados. Um livro e bastaria. Uma can\u00e7\u00e3o daria conta de todas as nossas dores.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea se ausentou totalmente das redes sociais durante a pandemia, e s\u00f3 voltou a elas para divulgar o livro. Como foi esse per\u00edodo afastado? Criativamente, ficar longe das redes te ajudou ou dificultou, j\u00e1 que o cronista se ocupa da realidade e, gostemos ou n\u00e3o, isso \u00e9 parte da realidade hoje?<\/strong><br \/>\nMe ausentei das redes depois da pandemia. Tirei um ano sab\u00e1tico, digamos assim. Foi um per\u00edodo muito bom, \u00e9 o m\u00ednimo que posso dizer. Ganhei tempo. Ganhei sa\u00fade. Dormi melhor. Percebi o quanto as redes n\u00e3o me fazem qualquer falta, pelo contr\u00e1rio, e s\u00f3 voltei a elas porque o trabalho me obrigou a voltar. Fora isso, n\u00e3o vejo por que estar conectado a elas. A verdade \u00e9 que n\u00e3o acho que as redes se ocupem da realidade. Acho que elas, assim como faz a literatura, criam um simulacro de realidade, com a diferen\u00e7a fundamental de que as redes s\u00e3o predat\u00f3rias por defini\u00e7\u00e3o, e pretendem que o simulacro que criaram substitua o modelo original. O que as redes buscam, em \u00faltima inst\u00e2ncia, \u00e9 a pr\u00f3pria destrui\u00e7\u00e3o da realidade, da vida presencial, do bom relacionamento entre a humanidade e o mundo natural que a cerca, a demoli\u00e7\u00e3o da ponte multimilenar entre a humanidade e sua pr\u00f3pria cultura. O papel do artista deveria ser o de opor-se fundamentalmente a essa destrui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2024\/06\/28\/entrevista-caio-marques-luis-pellanda-e-rodrigo-stradiotto-apresentam-a-smoko\/\">Na entrevista sobre o primeiro disco do Smoko<\/a>, voc\u00ea disse que as letras em ingl\u00eas entram como uma brincadeira, um espa\u00e7o de relaxamento no meio da seriedade do trabalho como escritor. N\u00e3o existe, na sua cr\u00f4nica, espa\u00e7o para essa brincadeira? Ela \u00e9 sempre autoconsciente a ponto de impedir o brincar?<\/strong><br \/>\nA seriedade de que falo em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 escrita \u00e9 algo profissional. Quando escrevo, levo meu trabalho bastante a s\u00e9rio. Busco fazer o melhor poss\u00edvel, pois desse melhor tiro tamb\u00e9m o meu ganha-p\u00e3o. A linguagem e o cotidiano s\u00e3o a minha mat\u00e9ria-prima. Depois de um tempo trabalhando como escritor, passei a pensar em ambas as coisas, tanto na vida como na palavra, de uma forma quase que estritamente profissional. N\u00e3o \u00e9 algo desej\u00e1vel, \u00e9 um problema. Mas acontece. E por isso tamb\u00e9m brinco. Seriedade e brincadeira n\u00e3o s\u00e3o coisas excludentes. Escrever me alegra. E h\u00e1 muita felicidade nisso de fazermos exatamente aquilo com que sonhav\u00e1mos quando \u00e9ramos crian\u00e7as. Quanto \u00e0 m\u00fasica, com ela, a hist\u00f3ria \u00e9 outra. Profissionalmente falando. Ela tem um car\u00e1ter menos racional, mais intuitivo, e que procurei resgatar quando voltei a compor com meus amigos e parceiros de longa data, Caio Marques e Rodrigo Stradiotto. Escrevendo em ingl\u00eas pude me ater a um tipo bem mais b\u00e1sico, para n\u00e3o dizer primitivo, de comunica\u00e7\u00e3o. E sem cobran\u00e7as profissionais. Era algo de que precisava, escrever como um ne\u00f3fito. Lembro tamb\u00e9m que j\u00e1 compus muito em portugu\u00eas, inclusive recentemente. Mas, cantando em ingl\u00eas, tamb\u00e9m brinco de dizer o que quero com o m\u00ednimo de recursos dispon\u00edveis. Brinco com a pr\u00f3pria afeta\u00e7\u00e3o da voz que o canto representa, brinco e me divirto com o casamento entre minha voz e a voz dos instrumentos, com o trabalho em equipe, a cria\u00e7\u00e3o coletiva, as ideias de comunidade, de rito, de impulso, de desapego. Coisas de que um escritor, t\u00e3o concentrado, t\u00e3o afeito \u00e0 solid\u00e3o luminosa da tela em branco, n\u00e3o deve jamais abrir m\u00e3o.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Rather Be Better\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/N2IJ7AxQg2A?list=OLAK5uy_l4qo2pZU9b4wLC-hI4B2tA2M_66ZFJzQI\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Midnight Hits\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/9g0oclq-oYI?list=OLAK5uy_nqLYC1G9kLvEz0_ega6fiHKSCjK9wLmxA\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u2013 Leonardo Vinhas (<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/leovinhas\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">@leovinhas<\/a>) \u00e9 produtor e autor do livro \u201c<a href=\"https:\/\/editorabarbante.com.br\/produtos\/o-evangelho-segundo-odair-censura-igreja-e-o-filho-de-jose-e-maria\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">O Evangelho Segundo Odair: Censura, Igreja e O Filho de Jos\u00e9 e Maria<\/a>\u201c.\u00a0<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Para que serve a cr\u00f4nica, em tempos de \u201copini\u00f5es formadas sobre tudo\u201d? Ali\u00e1s, ela precisa servir para alguma coisa? O que tem a ver remexer nas feridas da pandemia nesse 2025 j\u00e1 cheio de dores?\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2025\/06\/16\/entrevista-luis-henrique-pellanda-fala-sobre-seu-novo-livro-a-cronica-nao-mata-notas-do-isolamento\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":6,"featured_media":89819,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[9],"tags":[7748,7257],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/89814"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/6"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=89814"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/89814\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":89818,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/89814\/revisions\/89818"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/89819"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=89814"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=89814"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=89814"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}