{"id":89728,"date":"2025-06-11T11:36:20","date_gmt":"2025-06-11T14:36:20","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=89728"},"modified":"2025-07-30T00:21:26","modified_gmt":"2025-07-30T03:21:26","slug":"entrevista-marcelo-fonseca-e-george-ferreira-falam-sobre-o-documentario-hardcore-90","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2025\/06\/11\/entrevista-marcelo-fonseca-e-george-ferreira-falam-sobre-o-documentario-hardcore-90\/","title":{"rendered":"Entrevista: Marcelo Fonseca e George Ferreira falam sobre o document\u00e1rio &#8220;Hardcore 90&#8221;"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>entrevista de\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/lage.guilherme66\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Guilherme Lage<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">A d\u00e9cada de 90 foi uma \u00e9poca de transforma\u00e7\u00f5es no Brasil. Seja nos desafios de dar um p\u00e9 na bunda do Collor ou at\u00e9 mesmo se acostumar com a chegada de um novo plano econ\u00f4mico, que est\u00e1 a\u00ed at\u00e9 hoje: o real. Foi nessa \u00e9poca tamb\u00e9m que as guitarras distorcidas come\u00e7aram a aparecer com mais clareza no underground tupiniquim. O g\u00eanero musical j\u00e1 era conhecido de outra d\u00e9cada, mas foi ali, nos \u00faltimos 10 anos do s\u00e9culo XX, que se sacramentou no cora\u00e7\u00e3o de jovens paulistas: o hardcore.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Naquela \u00e9poca, o hardcore era mais que m\u00fasica, mas conex\u00e3o, descoberta. Por\u00e9m,, ainda que S\u00e3o Paulo tenha sido o epicentro da efervesc\u00eancia hardcore, o g\u00eanero se espalhou em palcos, garagens e ch\u00e3o sujo de todas as regi\u00f5es do Brasil. Como diz E.T, guitarrista do Muzzarellas, banda formada em 1991, &#8220;o que eu achava que s\u00f3 acontecia em Campinas com meus amigos doidos, estava rolando em todo lugar&#8221;. A declara\u00e7\u00e3o est\u00e1 no trailer de &#8220;<a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/hardcore90doc\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Hardcore 90<\/a>&#8221; (2025), document\u00e1rio idealizado pelo historiador Marcelo Fonseca e pelo jornalista George Ferreira,<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O filme levou para l\u00e1 de 15 anos para ficar completo. D\u00e1 para entender: s\u00e3o obst\u00e1culos pelo caminho, muita gente para entrevistar, a correria da vida no dia a dia. O projeto, no entanto, nunca foi engavetado, estava era engrossando, ano ap\u00f3s ano, e ap\u00f3s 12 vers\u00f5es diferentes, finalmente ver\u00e1 a luz do dia no festival de cinema <a href=\"https:\/\/br.in-edit.org\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">In-Edit Brasil<\/a>, neste s\u00e1bado (14), em S\u00e3o Paulo (com exibi\u00e7\u00f5es ainda no dia 18 na Cinemateca &#8211; com pocket show do No Violence, e dia 20 na Matilha Cultural). Imperd\u00edvel, o filme \u00e9 um relato afetivo de quem estava l\u00e1, quem subiu no palco, quem escreveu sobre aquela cena! Em um mundo cor de xerox, como define George, o hardcore punk era uma boa pincelada com cores.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">M\u00fasicas de bandas cl\u00e1ssicas como No Violence e Rot permeiam aquela gera\u00e7\u00e3o de jovens que se descobriam em meio ao som dissonante. Hardcore mel\u00f3dico, anarcopunks, straight edge. Tudo em um compilado sincero sobre uma gera\u00e7\u00e3o que descobriu quem queria ser em meio a busca por identidade, troca de socos e uni\u00e3o. Confira o bate-papo com os idealizadores!<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Hardcore 90 -Trailer Oficial\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/dum6IMsNyLM?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00eas podem me contar um pouco sobre o background de voc\u00eas? O Marcelo citou que teve bandas. Voc\u00eas participaram da cena hardcore dos anos 90? Como foi aquela \u00e9poca para voc\u00eas?<\/strong><br \/>\nMarcelo: Cara, estou com 51 e toco desde os 19 anos, ent\u00e3o \u00e9 uma jornada bem longa. Nesse per\u00edodo que o filme cobre, eu estava entrando nessa cena e me tornando uma pessoa ativa no quesito de criar m\u00fasica e viver todas as experi\u00eancias que a gente narra no filme, como troca de correspond\u00eancia, gravadora&#8230; s\u00f3 n\u00e3o tive zine, mas por incompet\u00eancia minha, pois montei uma pequena gravadora, gravei demo tape, mandei fita pelo correio, comprei muito <a href=\"https:\/\/www.screamyell.com.br\/blog\/tag\/fanzine\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">fanzine<\/a>, fui em muito show e vi muito show de bandas de amigos em VHS tamb\u00e9m. Ent\u00e3o nessa parte mais pr\u00e1tica do &#8220;viver a cena&#8221;, eu estava ali e foi um per\u00edodo muito rico para mim, j\u00e1 que enquanto outras pessoas estavam vivendo um per\u00edodo de forma\u00e7\u00e3o, para mim foi um per\u00edodo de matura\u00e7\u00e3o. Entro um pouco mais velho do que a m\u00e9dia nesse rol\u00ea. Sei l\u00e1, estava todo mundo com seus 16, 17 anos, eu j\u00e1 tinha uns 19 ou um pouco mais, ent\u00e3o foi um per\u00edodo de amadurecer v\u00e1rias ideias, receber v\u00e1rias informa\u00e7\u00f5es e processar elas no que eu me tornei como pessoa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">George: Da minha parte, eu n\u00e3o sou de S\u00e3o Paulo, cresci no litoral, em Santos. Comecei a frequentar uns shows, principalmente no final de 1990, come\u00e7o de 1991, e a\u00ed saquei que tinha uma cena local legal, tanto de hardcore punk quanto de outros estilos. Eu tinha uns 15 anos nessa \u00e9poca e comecei aos poucos a ir nesses shows, a conhecer o pessoal de l\u00e1 e a partir de 92\/93, passei a vir a S\u00e3o Paulo para ver shows, mas n\u00e3o era algo frequente, era de tempos em tempos, n\u00e3o vinha todo m\u00eas. A partir de 94 comecei a vir mais e nessa \u00e9poca eu fiz fanzine, colaborei com fanzine. mais um pouquinho para a frente, ainda morando no litoral com amigos, organizava shows com bandas de S\u00e3o Paulo, chegou at\u00e9 a ter show com banda gringa. Bem mais para frente tive selo voltado para hardcore e punk, e s\u00f3 n\u00e3o tive banda. A gente volta e meia tamb\u00e9m viajava para outras regi\u00f5es, ia para outros lugares tamb\u00e9m\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>&#8220;Hardcore 90&#8221; \u00e9 um projeto que j\u00e1 se estende h\u00e1 uns 15 anos, n\u00e9? Queria que voc\u00eas falassem um pouquinho sobre isso, como esse tempo foi dividido. Foi quest\u00e3o da capta\u00e7\u00e3o dos depoimentos? Ou entraves da vida mesmo?<\/strong><br \/>\nMarcelo: O projeto nasceu em outubro de 2009, ent\u00e3o j\u00e1 s\u00e3o 16 anos! Come\u00e7ou de uma ideia que eu tive. Eu dividia apartamento com uns amigos, que por sinal eram amigos que eu tinha uma banda na \u00e9poca. Eu assisti a aquele document\u00e1rio &#8220;American Hardcore&#8221; (2006), do Steven Blush, que nasceu de um livro. E eu falei: \u201cp\u00f4, legal para caramba, meio que sempre fala do mesmo per\u00edodo que tem de punk e hardcore no Brasil, que \u00e9 ali do come\u00e7o\u201d. Tinha sa\u00eddo o &#8220;Botinada&#8221; (de Gast\u00e3o Moreira, <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2013\/11\/30\/tres-filmes-pre-grunge-metal-e-punk\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">focado na origem do punk no Brasil<\/a>) na \u00e9poca e eu pensei: \u00e9 impressionante como a minha gera\u00e7\u00e3o, a do George, n\u00e3o tinha nada documentado assim. Fiquei pensando comigo mesmo, porque eu tinha um monte de VHS de show da \u00e9poca, que eu toquei, que os meus amigos tocaram, pilhas de fanzines em casa. Isso j\u00e1 era come\u00e7o dos anos 2010, ou seja, j\u00e1 tinha um distanciamento temporal razo\u00e1vel da d\u00e9cada de 90. E falei: \u201cCara, vou fazer isso a\u00ed!\u201d A minha primeira gradua\u00e7\u00e3o \u00e9 Hist\u00f3ria, na PUC-SP, e havia mais um fator importante nisso: a minha especializa\u00e7\u00e3o \u00e9 na \u00e1rea de Hist\u00f3ria Oral, ou seja, criar uma documenta\u00e7\u00e3o a partir da oralidade e das mem\u00f3rias das pessoas. Eu j\u00e1 tinha participado de dois ou tr\u00eas projetos assim, fui dado a publicar livro, fazer exposi\u00e7\u00e3o, portal, e pensei: \u201cJ\u00e1 tenho meio que as ferramentas, vou pegar e fazer, j\u00e1 que conhe\u00e7o quase todo mundo\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nesse primeiro momento montei um time que era eu, dois amigos que ajudavam a fazer as entrevistas e o Fernando Alves, que tinha uma c\u00e2mera super simples, aquelas que filmam dois quadradinhos, e n\u00e3o gravava \u00e1udio separado, era tudo na c\u00e2mera mesmo. O roteiro principal era meu, mas propus a seguinte estrutura: eu seguia o roteiro principal e eles pegavam ganchos de assuntos espec\u00edficos que podem aparecer imprevistos ao meu roteiro, e funcionou lindo, maravilhoso, durante seis meses, at\u00e9 que o futebol de final de semana dos meus amigos come\u00e7ou a atrapalhar a participa\u00e7\u00e3o deles (risos). A\u00ed come\u00e7ou a ficar custoso\u2026 Por exemplo: o George chegou a ser entrevistado, ele \u00e9 meu amigo h\u00e1 muitos anos e eu queria esse ponto de vista dele, s\u00f3 que, no come\u00e7o, n\u00e3o havia um corte muito claro sobre a cena em Santos, porque a gente ia falar de tudo, do Brasil todo, do que estava rolando. Ent\u00e3o o document\u00e1rio, enquanto narrativa audiovisual, ele foi se construindo com a pr\u00f3pria jornada de fazer.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E da\u00ed, mais ou menos um ano e meio depois, eu estava em vias de quase desistir, j\u00e1 tinha gravado umas trinta e poucas entrevistas, no final a gente chegou a mais de 100, e a\u00ed eu conversei com o George, ele tinha me perguntando sobre o projeto. E eu falei: \u201cCara, estou quase desistindo, porque teve entrevista que eu fui gravar sozinho. Ent\u00e3o imagina, eu fui com todo o equipamento nas costas, parei no hall do apartamento do entrevistado, montei a c\u00e2mera, montei o \u00e1udio, peguei meu bloco com as anota\u00e7\u00f5es e liguei tudo, e ainda ficava monitorando se a pilha n\u00e3o ia acabar, se o cart\u00e3o n\u00e3o ia encher, se a fita n\u00e3o ia encher e estava muito desesperador para mim, porque eu bancava tudo sozinho do meu bolso. E tem outra coisa: a gente tinha por princ\u00edpio desde a primeira entrevista que esse document\u00e1rio tinha que ser feito por pessoas do meio, eu e meus amigos, na base do &#8220;Fa\u00e7a Voc\u00ea Mesmo&#8221;, que a gente acredita que \u00e9 o jeito certo de fazer as coisas. N\u00e3o sou do cinema, nem da \u00e1rea de audiovisual, a minha expertise \u00e9 Hist\u00f3ria, oralidade, mem\u00f3rias, criar documenta\u00e7\u00f5es, mas as outras expertises foram vindo do grupo de pessoas que se agregou a mim e fez esse doc andar e sair, que \u00e9 o George,e o M\u00e1rio C\u00e9sar Rabelo, que \u00e9 o editor. O M\u00e1rio tamb\u00e9m \u00e9 um cara do hardcore, ele vem da zona sul extrema de S\u00e3o Paulo, onde nasci, cresci e me formei, mas a \u00e1rea de forma\u00e7\u00e3o dele \u00e9 outra, \u00e9 audiovisual mesmo, ele trouxe essa expertise do audiovisual, como o George que, vindo do jornalismo e da comunica\u00e7\u00e3o, trouxe outros olhares.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">George: Quando a gente teve essa conversa, em 2010, come\u00e7amos a desenhar a hist\u00f3ria, preocupando-se com a documenta\u00e7\u00e3o e a narrativa. (1990) Foi uma d\u00e9cada muito diferente da d\u00e9cada de 80, que teve <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2015\/09\/15\/pensata-rock-brasil-10-discos-30-anos\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">o &#8220;boom&#8221; (do rock nacional)<\/a> a partir de 1983, e a\u00ed teve uma retra\u00e7\u00e3o, os shows pararam de acontecer, as pessoas voltaram para suas quebradas e isso tamb\u00e9m coincide com meio que o crescimento do rock nacional da \u00e9poca. Ent\u00e3o esse pessoal do hardcore e do punk ficou muito numa obscuridade, e voc\u00ea tamb\u00e9m tem nessa \u00e9poca, ali por 1986\/1987, o boom da cena metal em S\u00e3o Paulo, que foi muito grande, ficou muito maior que a cena punk. Na virada para os 90, voc\u00ea tem ainda algumas pessoas que vieram dessa gera\u00e7\u00e3o dos 80, mas muita gente nova que entra nisso por &#8220;N&#8221; vias e expande a coisa. Tanto em termos de m\u00fasica, quanto em termos de direcionamento do conte\u00fado que essa cena tinha. Acho que a nossa narrativa, desde o in\u00edcio, foi dar muito enfoque nessa diversidade. Tanto na diversidade musical, quanto nessa diversidade de comportamento, de pol\u00edtica, dos temas. O document\u00e1rio fala de diversos temas. Isso foi desafio para a gente, porque na edi\u00e7\u00e3o a gente teve que colocar isso em xeque-mate, esses temas, tudo isso. Isso tornou o document\u00e1rio muito din\u00e2mico. Como o Marcelo falou, minha forma\u00e7\u00e3o \u00e9 em jornalismo, eu passei por isso, trabalhei editorial, corporativo, mas tanto eu quanto o Marcelo, a gente quis dar um enfoque nesse document\u00e1rio sobre a import\u00e2ncia dessa movimenta\u00e7\u00e3o como uma movimenta\u00e7\u00e3o cultural e pol\u00edtica, ent\u00e3o acho que o document\u00e1rio vai por a\u00ed.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Quando falamos de punk, hardcore, n\u00e3o estamos falando s\u00f3 de m\u00fasica, mas de ideologia, comportamento. Por alguns depoimentos nos teasers, d\u00e1 pra ver que existia muita uni\u00e3o na cena, mas tamb\u00e9m conflitos. Voc\u00eas testemunharam esses rachas?<\/strong><br \/>\nMarcelo: Cara, estamos falando de uma movimenta\u00e7\u00e3o social que, evidentemente, \u00e9 movida por jovens. Eu j\u00e1 &#8220;dobrei o Cabo da Boa Esperan\u00e7a&#8221;, mas voc\u00ea olha para tr\u00e1s e percebe que, quando voc\u00ea \u00e9 jovem, voc\u00ea pisa na bola, faz merda, a grosso modo. H\u00e1 outros componentes que, depois de ter feito o doc, ter lido v\u00e1rias coisas da \u00e9poca, preparado roteiros, entrevistas, surgiram: a primeira gera\u00e7\u00e3o do punk se perde num mundo de viol\u00eancia, de atrito, de briga, e etc. Essa gera\u00e7\u00e3o poderia ter escrito algo ali na rocha dizendo &#8220;vamos come\u00e7ar uma cena nova e ela n\u00e3o vai ser baseada em ganguismo&#8221;, n\u00e3o existe isso, mas era uma premissa que essas pessoas tinham para elas. Por outro lado, era todo mundo muito jovem, tem uma certa inexperi\u00eancia, um outro fator da juventude \u00e9 que existe uma certa impaci\u00eancia para lidar, muito imediatismo dos sentimentos, de como as coisas chegam e atingem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No \u201cHardcore 90\u201d, a gente tenta focar em v\u00e1rios agrupamentos, do pessoal envolvido com straight edge aos anarcopunks, do hardcore mel\u00f3dico \u00e0 cena riott grrls, tudo isso estava acontecendo ao mesmo tempo. Eu vi acontecendo atrito interpessoal e de grupos que j\u00e1 tinham rachado. O filme, em determinado momento, sem querer dar spoiler, trata disso. Pega um caso espec\u00edfico e coloca na mesa, pela voz de todo mundo que participou. \u00c9 um racha t\u00e3o importante para a hist\u00f3ria, que teve gente do (hardcore) mel\u00f3dico que fala disso, gente do straight edge que fala disso, do anarcopunk que fala disso. S\u00e3o rela\u00e7\u00f5es humanas, pautadas tanto pelo afeto quanto pelo atrito, e dentro dessa cena era inevit\u00e1vel que isso acontecesse.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E digo mais, a gente tem cento e poucos entrevistados, tem gente muito bem resolvida com o passado, e gente muito mal resolvida com o passado. Tem gente que n\u00e3o quer nem tocar no assunto. A coisa marcou a pessoa t\u00e3o profundamente, o hardcore marcou tanto a vida das pessoas que vivenciaram, que ele \u00e9 um definidor de personalidade. Ent\u00e3o tem gente que n\u00e3o aguenta ouvir isso, que quer apagar completamente da sua vida, e tem gente que vai levar isso para sempre com muita felicidade, muito orgulho, bem resolvida. &#8220;Vivi, fiz tal coisa, fiz burrada, fiz coisas legais, est\u00e1 bom para todo mundo e vambora&#8221;. Cheguei a ver gente se esmurrando, atrito, o disse me disse. Vamos considerar tamb\u00e9m que era uma \u00e9poca que a internet estava engatinhando, ent\u00e3o a fofoca rolava solta, &#8220;Fulano n\u00e3o gosta de beltrano, fulano disse isso e aquilo&#8221;, e por a\u00ed vai.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">George: Olhando para tr\u00e1s, acho que existia, no come\u00e7o dos anos 90, n\u00e3o uma nega\u00e7\u00e3o, mas uma avers\u00e3o ao ganguismo entre alguns polos, alguns segmentos da cena. O pessoal do anarcopunk e o pessoal do straight edge tinham avers\u00e3o a isso, da parte interpessoal, das ruas mesmo. Tanto que muitos shows foram feitos nessa \u00e9poca em lugares onde os caras n\u00e3o atuavam, para se criar algo novo. Acho que, da mesma maneira, o pessoal que desenvolvia um tipo de som mais elaborado, seja no hardcore metalizado, seja no mel\u00f3dico, tamb\u00e9m tinha avers\u00e3o a esse pessoal mais ganguista. Acho que muito mais pelo lado musical do que o lado do ganguismo em si, interpessoal, das tretas e tal. Acho que era uma coisa que pairava no ar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Voc\u00ea perguntou se presenciei alguma coisa, e sim, v\u00e1rias vezes, cara. Em situa\u00e7\u00f5es diferentes, acho que era uma coisa da \u00e9poca, e dessa pouca idade, dessa posi\u00e7\u00e3o de ter raz\u00e3o sobre uma determinada situa\u00e7\u00e3o. Vou dar um exemplo do que que mais me marcou, aquele incidente que aconteceu no segundo &#8220;Junta Tribo&#8221;, em Campinas, em 94, acho que ilustra bem isso. Porque tinham v\u00e1rias bandas l\u00e1, de v\u00e1rios estilos, e algumas bandas de hardcore. Era um festival grande, para aquela \u00e9poca, bem organizado, gratuito, tr\u00eas dias de banda. Teve o primeiro dia e no segundo teve uma provoca\u00e7\u00e3o ali em cima do Garage Fuzz , e era uma coisa assim, um pessoal anarcopunk da \u00e9poca que foi l\u00e1 e provocou os caras, jogou coisas neles. Eu estava ali e foi uma coisa gratuita, algo de &#8220;vamo ali zoar os caras&#8221;, sabe? Gratuito e infantil. Tamb\u00e9m existia uma coisa na \u00e9poca de a banda ser comercial ou n\u00e3o, entende? Tinha muito esse embate &#8220;fulano \u00e9 comercial&#8221;, tem muito termo dessa \u00e9poca.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Marcelo: Tinha muita cobran\u00e7a. Alguns grupos tinham uma determinada agenda, e eles usavam isso meio que como um filtro moral. \u00c9 meio ris\u00edvel hoje, fico tentando transplantar isso para hoje e n\u00e3o tem cabimento. Tipo: &#8220;olha, eu sou assim e assado e vejo o mundo por essa lente, por essa forma, a postura correta \u00e9 essa aqui e quem n\u00e3o estiver de acordo com isso, \u00e9 um problema&#8221;. E isso a gente pode falar de &#8220;N&#8221; grupos. Voc\u00ea coloca isso e todo mundo tinha nessa \u00e9poca, 17, 18, 19 e at\u00e9 20 anos, e qualquer coisa era motivo de problema. Se nos anos 80, os caras iam para a galeria com a camisa de uma banda e podiam tomar uma pedrada, uma facada, nos 90 parece que isso ficou um pouco mais elaborado por ideologia.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Hardcore 90 -  Teaser 1 - 2025\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/c54MQaZqqeU?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E voc\u00eas, como historiador e jornalista, pessoas que participaram ativamente da cena, trazem um retrato muito fiel do que estava rolando. \u00c9 um relato muito leal de uma \u00e9poca sob a lente de muita gente que realmente viveu aquilo. Como est\u00e3o sendo as rea\u00e7\u00f5es? Como isso mexeu com as pessoas envolvidas?<\/strong><br \/>\nMarcelo: O filme n\u00e3o foi lan\u00e7ado ainda, mas a gente mostrou dois teasers e o trailer oficial e definitivo. Como estamos lan\u00e7ando tudo isso via rede social, a gente tem um term\u00f4metro muito imediato. A curva de gente que come\u00e7ou a seguir as nossas redes, que come\u00e7ou a escrever, que come\u00e7ou a comentar nos materiais, ela \u00e9 absurdamente grande. \u00c9 uma curva exponencial mesmo. Sei l\u00e1, o primeiro teaser deve ter tido umas mil visualiza\u00e7\u00f5es, olhei o trailer agora h\u00e1 pouco e parece que deu 20 mil j\u00e1, sendo que a gente publicou ele h\u00e1 dois dias. Para as pessoas que viveram essa experi\u00eancia, ou que vivenciaram um per\u00edodo pr\u00f3ximo, sei l\u00e1, que chegou no come\u00e7o dos anos 2000, que tangenciou essa \u00e9poca, mexe muito com o afeto e com as emo\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tamb\u00e9m tem um outro fator: como o filme demorou muito tempo para ser feito e a gente decidiu fazer ele de um jeito &#8220;Fa\u00e7a Voc\u00ea Mesmo&#8221;, &#8220;Do It Yourself&#8221; na veia, aprendendo e quebrando a cara com v\u00e1rias coisas, a gente teve o dilema que a gente brinca at\u00e9 hoje, que a nossa maior dor de cabe\u00e7a \u00e9 que o filme foi gravado em quatro ou cinco formatos de c\u00e2mera diferentes. Da\u00ed quando a gente coloca isso na timeline de edi\u00e7\u00e3o, \u00e9 um pesadelo para o editor, porque aumenta, cresce, diminui, corta, n\u00e3o sei o qu\u00ea. Teve entrevistas que o \u00e1udio foi captado separado, teve entrevistas que n\u00e3o, teve problema de ru\u00eddo, teve mil quest\u00f5es t\u00e9cnicas que a gente sambou para resolver nesses anos todos. E, durante isso, no primeiro ano eu mantive um blog da produ\u00e7\u00e3o &#8220;hoje eu entrevistei fulano&#8221;, e colocava um pedacinho. Isso acabou virando um problema no come\u00e7o, porque as pessoas se empolgavam, viam e a\u00ed quando a gente entrevistava outra pessoa, a pessoa respondia meio &#8220;formatado&#8221;, como os trechos que a gente tinha deixado no ar. A gente falou: n\u00e3o, para evitar esse problema t\u00e9cnico e tem\u00e1tico, a gente derrubou todas as entrevistas, deixou sem nada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Durante muito tempo ali, pelo menos os cinco, seis anos iniciais, eu dei muita entrevista do projeto pra fanzine, para canais do youtube que estavam come\u00e7ando, essas coisas. E era assim &#8220;daqui a tr\u00eas anos a gente lan\u00e7a, daqui a quatro anos lan\u00e7a&#8221;, e nada. O neg\u00f3cio foi esticando, esticando e esticando, que cheguei a conclus\u00e3o de que a melhor coisa era n\u00e3o dar data. Para trabalhar com tranquilidade, do jeito que a gente quer, tanto que foram de 10 a 12 cortes, imagina, o filme teve 12 vers\u00f5es, que a gente montou ele de diferentes formas nesses 16 anos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E como voc\u00ea falou, a sua gera\u00e7\u00e3o nunca antes tinha sido retratada em um document\u00e1rio, sempre foi algo focado nos anos 70 e 80, ent\u00e3o realmente \u00e9 uma coisa que estava faltando mesmo, tinha muita gente esperando, n\u00e9? Ver isso eternizado. Muita gente entra em contato com voc\u00eas?<\/strong><br \/>\nMarcelo: A primeira postagem <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/hardcore90doc\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">que a gente fez em rede social<\/a> foi s\u00f3 com o logo antigo do filme: \u201cvai sair esse ano\u201d. Foi uma hecatombe, a gente teve uma resposta muito r\u00e1pida e muito calorosa, do tipo: \u201cNossa, tinha esquecido, pensei que voc\u00eas tinham desistido, que legal!\u201d. Muito porque tamb\u00e9m tem um outro fator: a gente tem um elenco muito grande, e essas pessoas tanto ficam na expectativa esperando o resultado final quanto tamb\u00e9m falam para outras pessoas: &#8220;P\u00f4, eu dei uma entrevista para um document\u00e1rio que est\u00e1 sendo feito, e esse document\u00e1rio nunca sai&#8221;, ent\u00e3o se criou essa coisa meio lenda urbana, sabe? Algo de: vai sair ou n\u00e3o vai? E agora que a gente divulgou deu meio que essa explos\u00e3o. N\u00e3o houve nenhum coment\u00e1rio negativo&#8230; ainda, s\u00f3 teve gente falando coisa boa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Claro que estamos falando do retrato de uma gera\u00e7\u00e3o, relembrando hist\u00f3rias, conversando com pessoas, mas a gente fala &#8220;Hardcore 90&#8221;, qual a import\u00e2ncia da m\u00fasica mesmo no document\u00e1rio?<\/strong><br \/>\nGeorge: No final das contas, a m\u00fasica \u00e9 o que vai unir as pessoas. No in\u00edcio dos anos 90, voc\u00ea tinha poucos lan\u00e7amentos e por conta do espectro econ\u00f4mico, como est\u00e1vamos no plano Collor, estava todo mundo super sem grana, e os lan\u00e7amentos eram poucos. Tinham lan\u00e7amentos de lojas de discos, de pessoas que n\u00e3o eram da cena, eram pessoas lan\u00e7ando um disco ou outro, no interior de S\u00e3o Paulo. A partir de 92 come\u00e7a uma nova fase, com selos lan\u00e7ando discos e selos independentes. A\u00ed, com a chegada do CD no Brasil, em escala de fabrica\u00e7\u00e3o, a partir de 94, come\u00e7aram a surgir v\u00e1rios selos &#8220;Do It Yourself&#8221; de pessoas da cena, e isso deu uma boa expandida. Isso fez com que muito mais gente pudesse ter acesso a essa m\u00fasica, conseguisse entrar nessa cena.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A cena dos anos 90 tinha v\u00e1rias movimenta\u00e7\u00f5es, em que as pessoas eram muito receptivas a pessoas novas. Ent\u00e3o voc\u00ea era um cara novato entrando ali, e em pouco tempo voc\u00ea recebia uma carga de informa\u00e7\u00e3o e queria voltar naquele lugar e estar com aquelas pessoas. Existe uma diferen\u00e7a entre o senso de gangue e sobreviv\u00eancia e um senso de comunidade, \u00e9 bem diferente. O que me atraiu foi esse senso de comunidade. Para mim isso foi a coisa mais incr\u00edvel. Voc\u00ea at\u00e9 perguntou se as pessoas est\u00e3o entrando em contato com a gente. Comigo, pessoalmente, pelo whatsapp, veio amigo meu que n\u00e3o vejo h\u00e1 d\u00e9cadas, at\u00e9 a dona da ag\u00eancia onde eu trabalhava. Essas pessoas viveram isso de uma maneira ou outra, de uma intensidade ou outra, mas elas querem ter essa informa\u00e7\u00e3o de volta para elas documentada, isso \u00e9 uma coisa legal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sou viciado em document\u00e1rio musical. Eu e o Marcelo j\u00e1 fomos juntos no In-Edit v\u00e1rias vezes, desde a primeira edi\u00e7\u00e3o. Gosto de m\u00fasica, desde m\u00fasica jamaicana at\u00e9 grindcore, ou\u00e7o de tudo. E eu sempre vejo document\u00e1rios, que \u00e9 algo que pode me trazer mais informa\u00e7\u00f5es e mais aprofundamento. Acho que as duas coisas mais importantes do meio para mim foi a viv\u00eancia, de comunidade, porque as pessoas se encontram depois de anos e parece que voc\u00ea viu a pessoa semana passada e tamb\u00e9m essa coisa de ter uma diversidade. Essa cena dos anos 90 trouxe muitas coisas que as pessoas est\u00e3o falando hoje em dia. Eu vou dar um exemplo b\u00e1sico: esse tema foi comum na cena anarcopunk do in\u00edcio, mas a cena straight edge foi a que colocou, por exemplo, a discuss\u00e3o do veganismo na m\u00eddia. Isso eu estou falando de reportagens de 1994. Tem um programa, que n\u00e3o conseguimos para o document\u00e1rio, porque tem coisas de arquivo que voc\u00ea n\u00e3o consegue, porque se perderam. Mas tem coisas da TV Cultura que j\u00e1 fala desse tema em 94. Eram duas pessoas do straight edge que foram l\u00e1 falar sobre isso. Em 95 tem v\u00e1rios, tem coisas impressas, como na Folha de S\u00e3o Paulo, Estad\u00e3o. As pessoas falavam em vegetarianismo, mas era aquela coisa dos restaurantes que voc\u00ea passava na rua, e era aquele restaurante que voc\u00ea entrava e era uma coisa meio que s\u00f3 tinha velhinho dentro, com fruta pintada, n\u00e3o era uma coisa para o jovem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">J\u00e1 o lance da m\u00fasica, acho que houve pessoas nos anos 90 que tiveram cuidado musical absurdo, bandas que fizeram discos incr\u00edveis. Bandas que fizeram disco naquela \u00e9poca, que se tivesse lan\u00e7ado o disco cinco anos depois em portugu\u00eas teriam explodido. Houve bandas que fizeram discos emblem\u00e1ticos, coisas que eu ou\u00e7o e falo: meu, de onde os caras tiraram isso? Eram coisas que mudavam sua vida. Era uma coisa que a cena punk, no in\u00edcio, no Brasil, n\u00e3o tinha esse cuidado. Tem uma outra particularidade dessa cena, que foi ter pessoas que vieram do metal, mais velhas. Isso eu estou falando do pessoal que no come\u00e7o dos 90 j\u00e1 estava com 23, 24 anos, j\u00e1 era um pessoal adulto. Esse pessoal que absorveu metal nos 80, conseguia tocar muito melhor nos 90, sabe? Mas teve, por exemplo, bandas que n\u00e3o tiveram essa viv\u00eancia, gente muito mais nova, mas que os shows eram arrebatadores. Os exemplos s\u00e3o in\u00fameros, gigantescos. Esse pessoal teve a preocupa\u00e7\u00e3o de evoluir musicalmente. Foi uma coisa n\u00e3o planejada, aconteceu naturalmente.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Hardcore 90 -  Teaser 2 - 2025\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/AquYgNa2sOY?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Quando a gente fala de anos 90, n\u00e3o era uma banda de hardcore, mas <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2006\/10\/05\/nevermind-e-ainda-hoje-um-disco-atual-e-sensacional\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">\u00e9 imposs\u00edvel n\u00e3o pensar no Nirvana<\/a> e na explos\u00e3o que aconteceu naquela \u00e9poca. Quando penso no Nirvana, penso em uma banda que juntou muita gente, de diversos gostos musicais. Trazendo isso pra cena de voc\u00eas. como voc\u00ea falou de receptividade, como era a recep\u00e7\u00e3o de pessoas que curtia outro tipo de som? Por exemplo, um headbanger colando nos shows.<\/strong><br \/>\nMarcelo: Eu tenho uma vis\u00e3o muito particular disso tudo, porque depois de fazer o doc e como passou muito tempo, muita coisa vai flutuando pela sua cabe\u00e7a a respeito do assunto. O George falou algo interessante e eu queria refor\u00e7ar uma coisa: a gera\u00e7\u00e3o da d\u00e9cada de 90 come\u00e7a a ver transforma\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas, tanto no plano de fazer m\u00fasica, quanto de lan\u00e7ar disco, que tem uma acelera\u00e7\u00e3o muito maior do que a gera\u00e7\u00e3o dos anos 80, por exemplo. O surgimento de selos independentes vindo de pessoas da cena mesmo para esse tipo de produ\u00e7\u00e3o, \u00e9 uma coisa que aconteceu no decorrer da d\u00e9cada. Se no in\u00edcio dos anos 90 o forte da produ\u00e7\u00e3o \u00e9 a demo tape, que \u00e9 um formato anal\u00f3gico ainda, do meio para o final o CD tem seu auge e seu decl\u00ednio tamb\u00e9m, no meio dos anos 2000, ent\u00e3o \u00e9 uma \u00e9poca muito intensa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Outra coisa, essa gera\u00e7\u00e3o \u00e9 uma gera\u00e7\u00e3o que quando o Rock in Rio de 85 estourou, foi uma gera\u00e7\u00e3o que pensou &#8220;bom, eu n\u00e3o preciso mais ouvir a m\u00fasica dos meus pais, n\u00e3o preciso ouvir Beatles, por exemplo&#8221;. A d\u00e9cada de 90 com todas essas transforma\u00e7\u00f5es, os muitos planos econ\u00f4micos, a diversidade que come\u00e7a a chegar aqui. Nos anos 90 a gente tem Helmet, tem Rage Against The Machine. o pr\u00f3prio Nirvana mesmo. Se voc\u00ea olhar a diversidade musical que essas bandas produziram, \u00e9 muito reflexo disso tamb\u00e9m. Tipo, o <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2018\/04\/03\/colera-lanca-acorde-acorde-acorde\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">C\u00f3lera<\/a>, o Olho Seco, o Restos de Nada e o pr\u00f3prio <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2022\/04\/20\/entrevista-ratos-de-porao-num-papo-sobre-brasil-pandemia-industria-farmaceutica-genocidio-e-necropolitica-o-novo-album\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Ratos de Por\u00e3o<\/a>, t\u00eam muito a ver entre si com o per\u00edodo que eles existiram, mas a mesma coisa n\u00e3o acontece com as bandas da d\u00e9cada de 90, \u00e9 muito mais diverso, muito mais amplo. A gente tem tamb\u00e9m um quesito de um aprimoramento musical, que tem tamb\u00e9m que existir uma abertura de uma aceita\u00e7\u00e3o maior para as diferen\u00e7as e o que estava acontecendo no tecido social do momento, e a\u00ed \u00e9 inevit\u00e1vel, Nirvana \u00e9 a grande explos\u00e3o dessa d\u00e9cada, principalmente dos cinco anos iniciais, tem tudo a ver.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Basta voc\u00ea pensar que quem veio do skate estava ali, influenciado tanto pelo hardcore mel\u00f3dico, quando esse hip hop mais gangsta do come\u00e7o dos anos 90. Quem veio do anarcopunk n\u00e3o ouvia mais s\u00f3 Crass, que era uma coisa mais elementar, estava ouvindo crust mesmo, n\u00e3o era s\u00f3 mais aquela coisa do Discharge, j\u00e1 estava vindo a segunda ou terceira onda do crust. A cena straight edge tinha coisas mais mel\u00f3dicas, mas tamb\u00e9m influenciadas por metal, ent\u00e3o tudo isso que acontecia nas cenas mundiais, na Inglaterra, Su\u00e9cia e no pr\u00f3prio Estados Unidos, refletia aqui e gerava um produto com a cara do Brasil. Basta voc\u00ea pensar nos anos 90: a gente tem Dominatrix, tem Mukeka di Rato, tem D.F.C, tem Paura, o No Violence, o Point of No Return, nenhuma dessas bandas tem alguma coisa a ver com a outra, todas elas t\u00eam caracter\u00edsticas sonoras e ideol\u00f3gicas muito pr\u00f3prias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">George: Esse &#8220;boom&#8221; do Nirvana cai bem na \u00e9poca que existiam algumas casas noturnas aqui em S\u00e3o Paulo em que rolavam show. A explos\u00e3o do Nirvana foi uma coisa t\u00e3o grande, mas t\u00e3o grande, que eu achava insuport\u00e1vel, eu detestava (risos). Mas n\u00e3o era a m\u00fasica, n\u00e3o eram os caras, mas \u00e9 que em toda a esquina tinha um carro tocando Nirvana, todo lugar que voc\u00ea entrava estava tocando Nirvana. Foi um bagulho muito grande. Em S\u00e3o Paulo, na primeira metade dos 90, voc\u00ea tinha o Der Temple, na Augusta, o Urb\u00e2nia no Anhagaba\u00fa, o Retr\u00f4, que era do final dos anos 80 e ainda existia, e tinha um lugar no Jardins que chamava Vit\u00f3ria Pub, que rolava pouco show. A\u00ed tinha uns lugares um poucos maiores, um local na Consola\u00e7\u00e3o chamado Woodstock, e o AeroAnta, que era o maior de todos, e o Blackjack na zona sul. Esses bares, quando tinha meio show, meio festa, tocava-se de tudo. Por exemplo, o No Violence e o IML, que s\u00e3o bandas bem do in\u00edcio dos anos 90, as mais antigas do doc, eles tocaram muito com banda de metal, muito, inclusive na porta da Woodstock.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esses lugares eram uma mescla, voc\u00ea tinha o pessoal do rap, o pessoal do skate, o pessoal mais do indie, que na \u00e9poca n\u00e3o se falava indie rock, falava &#8220;guita&#8221;. Era o povo alternativo. O No Violence tocou com todo mundo, de A-Z, uma banda que n\u00e3o tinha restri\u00e7\u00e3o. Acho que essa mescla de pessoas interessadas e m\u00fasica n\u00e3o comercial fez a diferen\u00e7a. Apesar do meu \u00f3dio na \u00e9poca, esses dias eu estava vendo umas coisas do Nirvana, o sucesso deles foi algo que nem eles esperavam. Eles assinaram com uma gravadora grande e um dia estavam dormindo numa van e no outro estavam milion\u00e1rios, o neg\u00f3cio foi muito r\u00e1pido. Eu acho que o som deles \u00e9 muito pr\u00f3ximo, eles todos passaram pelo hardcore, <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2023\/10\/10\/literatura-dave-grohl-testemunha-ocular-das-mudancas-no-rock-e-na-musica-pop\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">muito antes de o Dave Grohl entrar na banda<\/a>. Esse \u00e9 at\u00e9 um exemplo meio de piada, mas brinco que a maior banda de hardcore do mundo se chama Foo Fighters, porque cada cara do Foo Fighters teve uma banda de hardcore, \u00e9 uma piada sem gra\u00e7a, mas isso a gente fala entre a gente baixinho (risos).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Antigamente as pessoas tinham mais interesse, acho que era mesmo uma coisa da idade, as pessoas ficavam at\u00e9 6h, 7h da manh\u00e3 na rua, indo nesses shows. At\u00e9 94, 95, isso ainda n\u00e3o era segmentado. A partir dali cada segmento desse come\u00e7ou a crescer. A cena straight edge cresceu, a cena anarcopunk ficou mais organizada, o pessoal do mel\u00f3dico come\u00e7ou a se organizar melhor. Esse per\u00edodo, por exemplo, \u00e9 o per\u00edodo que o <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2020\/07\/30\/faixa-a-faixa-lado-bets-dead-fish\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Dead Fish<\/a> come\u00e7a a vir para S\u00e3o Paulo, como banda. Essa segmenta\u00e7\u00e3o come\u00e7ou aos poucos nos anos 90, a\u00ed chegou nos anos 2000, 2000 e pouco, e segmentou mais ainda, chegando num ponto que cada segmento desse tem seu p\u00fablico de 50, 100 pessoas. Antes era tudo somado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Marcelo: Acho que essa gera\u00e7\u00e3o se formou muito em cima do trauma da gera\u00e7\u00e3o anterior, existia uma necessidade de construir umas coisas juntos, de ser colaborativo. Na primeira parte da d\u00e9cada, essa coisa agregadora, de juntar todo mundo, era muito reflexo disso. E depois, como era todo mundo novo, \u00e9 claro que essa gera\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m vai ter seus pr\u00f3prios dilemas, suas pr\u00f3prias burradas, mas acho tamb\u00e9m que a gente n\u00e3o pode olhar para isso sem pensar na abertura econ\u00f4mica, as pessoas t\u00eam acesso a novos equipamentos, a guitarras, a disco, a revista Thrasher come\u00e7a a rodar aqui. O cara n\u00e3o est\u00e1 vendo uma coisa traduzida, ele est\u00e1 vendo a pr\u00f3pria revista. Por mais que as pessoas n\u00e3o tenham acesso a um segundo idioma com qualidade, a pessoa est\u00e1 em contato com a capa do disco, com lan\u00e7amento. Tudo isso pesa, \u00e9 uma mescla do contexto social com suas transforma\u00e7\u00f5es espec\u00edficas e econ\u00f4micas, como tamb\u00e9m de uma mentalidade de grupo, um novo grupo, novas pessoas vivendo essa experi\u00eancia. E o bom \u00e9 que essas pessoas tinham muito claro que elas queriam construir uma coisa nova, e ainda entram as transforma\u00e7\u00f5es socioculturais do per\u00edodo. O rock estava no r\u00e1dio ainda, na m\u00eddia. A gente tinha a MTV e a MTV meio que formou e educou boa parte de n\u00f3s dessa gera\u00e7\u00e3o, sendo do hardcore ou n\u00e3o, estava ali, e querendo ou n\u00e3o, todo mundo que estava em evid\u00eancia no rock mainstream daquela \u00e9poca, tinha um background no hardcore americano.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Estou em Vila Velha, e aqui e Vit\u00f3ria s\u00e3o duas cidades tamb\u00e9m conhecidas pela cena hardcore, e eu queria perguntar tamb\u00e9m, um document\u00e1rio que faz um retrato fiel de uma gera\u00e7\u00e3o, mesmo de S\u00e3o Paulo, voc\u00eas acham que ele consegue ressoar com pessoas de outras cidades? Pessoas v\u00e3o olhar e se identificar com aquilo de alguma forma.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Marcelo: Vila Velha Noise Beach, caralho! (risos). Tem uma coisa que cola muito que \u00e9 o fator da constru\u00e7\u00e3o da narrativa. Nos teasers, em determinado momento aparece o E.T do Muzarellas, l\u00e1 de Campinas, uma banda super ativa, que lan\u00e7ou coisas legais, lan\u00e7ou livro, e ele fala: \u201cCara, em determinado momento eu pensava que era s\u00f3 eu e meus amigos doidos fazendo as coisas aqui, mas n\u00e3o, estava acontecendo em um monte de lugar\u201d. No Nordeste, no Esp\u00edrito santo, em Vila Velha e Vit\u00f3ria. Engra\u00e7ado, parece super clich\u00ea, mas quando eu penso nessas coisas, eu penso nas bandas. Eu penso no Mukeka di Rato e Dead Fish, quando falo do Esp\u00edrito Santo, eu penso no Pinheads quando falo no Paran\u00e1, e por a\u00ed em diante. Isso porque essas pessoas, essas bandas, e os fanzines tamb\u00e9m, eram os pontos de refer\u00eancia que determinavam aqueles lugares pra gente. A gente fez o esfor\u00e7o de trazer pessoas de outros lugares para a narrativa do doc, justamente por causa disso, porque a gente sabe que n\u00e3o era uma coisa exclusiva de S\u00e3o Paulo, ela ressoava tamb\u00e9m em outros locais, seja no Rio de Janeiro, Salvador, Aracaju, Fortaleza, Campo Grande, Bras\u00edlia, Goi\u00e2nia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Isso estava acontecendo em v\u00e1rios lugares, por isso \u00e9 que eu acho que mesmo que o nosso foco narrativo esteja em S\u00e3o Paulo, por uma quest\u00e3o hist\u00f3rica e do surgimento do punk em S\u00e3o Paulo, ele \u00e9 um di\u00e1logo constante com outras cidades, e \u00e9 por isso que aparecem pessoas de outras cidades no doc. A gente teve essa preocupa\u00e7\u00e3o, a gente sabe a import\u00e2ncia. Na real, a gente queria falar de tudo, mas por uma quest\u00e3o pura e simples que a gente precisava entregar um filme de 90 minutos, n\u00e3o dava, infelizmente, algumas coisas tiveram que cair. Editar, por si s\u00f3, \u00e9 um trabalho prazeroso, mas ao mesmo tempo muito cruel. O George n\u00e3o me deixa mentir, a gente tirou blocos inteiros de coisas que a gente gostava, porque n\u00e3o cabia. A gente teve 12 vers\u00f5es do filme, e a cada vers\u00e3o dessas, vai ficando menor, e deixando algo que seja palat\u00e1vel, que seja compreens\u00edvel. Eu tamb\u00e9m n\u00e3o queria fazer um filme que ficasse s\u00f3 a galera do hardcore assistindo, eu queria que fosse um filme que minha m\u00e3e visse e entendesse. Essas escolhas acabam sendo meio cru\u00e9is, porque n\u00e3o d\u00e1 para colocar tudo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">George: Eu acho que tem um ponto muito importante dessa \u00e9poca, que \u00e9 quando a gente fala dos discos e de outras coisas: a comunica\u00e7\u00e3o dessa \u00e9poca foi feita estritamente atrav\u00e9s da correspond\u00eancia e produ\u00e7\u00e3o de fanzines. Isso \u00e9 uma coisa que conectava todo mundo, hoje em dia voc\u00ea quer falar com seu amigo que est\u00e1 na Bahia, voc\u00ea abre o Whatsapp, manda uma mensagem e ele vai te responder daqui um minuto. Naquela \u00e9poca , se voc\u00ea queria falar com um cara da Bahia, voc\u00ea ia escrever uma carta, ir at\u00e9 o correio, postar a carta e esperar a resposta dele. Ele ia ler, escrever e mandar de volta tamb\u00e9m pelo correio, e voc\u00ea receberia isso de volta. Essa foi a comunica\u00e7\u00e3o que se estabeleceu nessa \u00e9poca e que j\u00e1 era uma coisa que j\u00e1 rolava nos anos 80. Essa comunica\u00e7\u00e3o estreitou muito as pessoas, a ponto de voc\u00ea se corresponder com as pessoas durante anos e um dia num show, caso voc\u00ea fosse pra Bahia ou pessoal viesse pra c\u00e1, ou num ponto em comum, voc\u00ea conhecer a pessoa, isso era um evento, cara!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por exemplo, a gente postou outro dia um show em Piracicaba, em 93, que tocaram todas as bandas mais extremas desse per\u00edodo, umas 10 bandas. Tocou Rot, Infamy, todas essas bandas mais crust e grindcore. Veio uma mensagem do guitarrista do Rot, o Mendigo, o \u00fanico cara original, ele escreveu isso: \u201cNesse show a gente conheceu todo mundo que se correspondia por carta h\u00e1 anos\u201d. Ou seja, as pessoas foram todas para Piracicaba e se encontraram nesse show. A correspond\u00eancia era uma coisa super importante, porque ningu\u00e9m tinha celular, ningu\u00e9m tinha internet, n\u00e3o existia rede social. O mundo naquela \u00e9poca era cor de xerox, se nos anos 70 era preto e branco, nos anos 90 o mundo tinha cor de xerox. O pessoal se correspondia muito com o pessoal aqui e o pessoal no exterior. Mas voc\u00ea s\u00f3 ligava para uma pessoa, se voc\u00ea fosse marcar um show, cara. O bagulho era muito na unha, das pessoas se conhecerem primeiro por carta. Quando come\u00e7ou a ter mais show e essa comunidade se integrar mais, as pessoas come\u00e7aram a vir para S\u00e3o Paulo, pessoas de todo o lugar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Marcelo: Basta lembrar que no final dos anos 90, in\u00edcio dos 2000, rolou o primeiro Festival Hardcore de S\u00e3o Paulo, e foi um evento! Era literalmente um evento. E era aquela coisa, tinha uma banda de Minas Gerais, uma banda do Rio de Janeiro, de alguma capital do nordeste e n\u00e3o era s\u00f3 a banda vindo, era uma galera! Ou vinha junto com a banda, amigos, ou vinham pessoas de v\u00e1rios outros lugares, at\u00e9 mesmo cidades que nenhuma banda foi convidada pra tocar, porque era pra estar em contato com as pessoas. A gente leva em considera\u00e7\u00e3o que no final da d\u00e9cada de 90 a internet come\u00e7a a chegar na casa das pessoas e essa forma de comunica\u00e7\u00e3o se altera e fica mais \u00e1gil ainda, o que possibilita muitas coisas. Falando muito no plano afetivo, ir a um festival desses era incr\u00edvel: converso h\u00e1 meses, anos com o cara por carta, e agora estou vendo essa pessoa ao vivo mesmo. As pessoas vinham n\u00e3o pra ficar em hotel, mas nas casas das pessoas, isso estabelece la\u00e7os muito profundos.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"PERSONAL CHOICE + SELF CONVICTION + NO VIOLENCE @ AEROANTA S\u00c3O PAULO 14.10.1995\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/o_FqCJ6JRGQ?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"NO VIOLENCE + PAURA @ AEROANTA S\u00c3O PAULO 14.10.1995\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/oADoe0AfPqQ?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"AGAINE + TUBE SCREAMERS @ 8A DP S\u00c3O PAULO 1997\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/oPs82sn7xok?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><em>\u2013 Guilherme Lage (<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/lage.guilherme66\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">fb.com\/lage.guilherme66<\/a>) \u00e9 jornalista e mora em Vila Velha, ES.\u00a0<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/author\/guilherme-lage\/\">Leia outras entrevistas dele<\/a>!<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"O filme levou para l\u00e1 de 15 anos para ficar completo. 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