{"id":897,"date":"2009-03-07T20:21:04","date_gmt":"2009-03-07T23:21:04","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=897"},"modified":"2009-03-08T04:37:51","modified_gmt":"2009-03-08T07:37:51","slug":"milk-%e2%80%93-a-voz-da-igualdade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2009\/03\/07\/milk-%e2%80%93-a-voz-da-igualdade\/","title":{"rendered":"Milk \u2013 A Voz da Igualdade"},"content":{"rendered":"<p style=\"TEXT-ALIGN: center\"><strong><img decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-898\" title=\"milk\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2009\/03\/milk.jpg\" alt=\"\" \/><\/strong><\/p>\n<p style=\"TEXT-ALIGN: center\"><strong>Por Nuno Manna<\/strong><\/p>\n<p style=\"TEXT-ALIGN: justify\">Logo nos primeiros anos de carreira, ainda no cinema independente, Gus Van Sant fez seu filme mais cultuado, &#8220;Drugstore Cowboy&#8221;, de 1989. Mas foi preciso um filme mais quadrado e adocicado, &#8220;G\u00eanio Indom\u00e1vel&#8221;, com Robin Williams no elenco, para que a Academia o premiasse com um Oscar em 1997. O destaque rendeu a Van Sant a permiss\u00e3o para uma refilmagem do cl\u00e1ssico &#8220;Psicose&#8221;, em 1998, e o convite de Sean Connery para realizar um filme produzido e atuado por ele, &#8220;Encontrando Forrester&#8221; (quase um &#8220;G\u00eanio Indom\u00e1vel 2&#8221;), de 2000. O resultado de ambos foi irregular e muito criticado.<\/p>\n<p style=\"TEXT-ALIGN: justify\">A partir de ent\u00e3o, Van Sant voltou ao cinema independente e mergulhou em obras extremamente ousadas e autorais. Alguns filmes dessa safra, como &#8220;Gerry&#8221; (2002), que passou em branco na \u00e9poca, e &#8220;Elefante&#8221; (2003), premiado em Cannes, fazem dele um dos diretores estadunidenses mais interessantes das \u00faltimas d\u00e9cadas. Van Sant p\u00f4de se debru\u00e7ar sobre suas hist\u00f3rias, e desenvolveu grande sensibilidade para lidar com id\u00e9ias e sentimentos complexos, traduzindo-os na mat\u00e9ria de seus filmes. A volta de Van Sant aos holofotes \u2013 do Oscar, inclusive \u2013 com &#8220;Milk&#8221;, marca, inversamente, o retorno do diretor para a sombra de um filme.<\/p>\n<p style=\"TEXT-ALIGN: justify\">&#8220;Milk&#8221; \u00e9 convencional, de narrativa marcada e mastigada pela narra\u00e7\u00e3o. O personagem de Sean Penn (o ativista gay Harvey Milk), enquanto conta sua hist\u00f3ria diante de um gravador, j\u00e1 come\u00e7a o filme adiantando dados importantes e entregando aonde quer chegar. A partir dali sua hist\u00f3ria se desenrola linear e fluidamente, sem nada que fuja ao previsto \u2013 e ao previs\u00edvel. O \u00fanico momento que foge da linearidade \u00e9 exatamente o momento, ao final, em que Van Sant repete uma cena que resume didaticamente uma das principais id\u00e9ias do filme.<\/p>\n<p style=\"TEXT-ALIGN: justify\">Em diversos momentos da hist\u00f3ria, Harvey Milk agarra um megafone e se p\u00f5e a discursar diante da multid\u00e3o pelas causas gay. A pr\u00f3pria mensagem que ele registra no gravador \u00e9 um discurso para ser repetido em sua posteridade. E \u00e9 articulando essas diversas falas com a hist\u00f3ria pessoal de Milk e de seus companheiros que Gus Van Sant transforma seu filme em um grande discurso.<\/p>\n<p style=\"TEXT-ALIGN: justify\">Se &#8220;Milk&#8221; n\u00e3o \u00e9 um exemplo de primor cinematogr\u00e1fico \u2013 tampouco \u00e9 um contra-exemplo \u2013 \u00e9 o papel que ele representa socialmente que complementa sua import\u00e2ncia. Ele \u00e9, claramente, para o diretor, Sean Penn, e tamb\u00e9m para o roteirista Dustin Lance Black, uma pe\u00e7a pol\u00edtica. Os tr\u00eas s\u00e3o nesse momento t\u00e3o ativistas quanto o pr\u00f3prio personagem que recuperam e reverenciam. E foi em prol de uma causa, e n\u00e3o preocupados em serem considerados g\u00eanios do cinema, que o filme foi constru\u00eddo.<\/p>\n<p style=\"TEXT-ALIGN: justify\">A homofobia j\u00e1 carrega em si uma carga de estigma. \u00c9 um tema de dif\u00edcil digest\u00e3o, principalmente em um pa\u00eds moralista como os EUA, que acabou de recusar aos gays o direito de uni\u00e3o civil. Um filme pesado e taxativo criaria resist\u00eancia e alcan\u00e7aria um p\u00fablico muito restrito. Sem as grandes salas de cinema o filme perderia enormemente seu impacto na promo\u00e7\u00e3o do debate ou mesmo da visibilidade do tema.<\/p>\n<p style=\"TEXT-ALIGN: justify\">Com tal tema em m\u00e3os, para chamar o p\u00fablico e ent\u00e3o conquist\u00e1-lo, ou no m\u00ednimo mant\u00ea-lo sentado at\u00e9 o fim da sess\u00e3o, a forma do filme \u00e9 de maior import\u00e2ncia. Por isso alguns recursos como efeitos de edi\u00e7\u00e3o e trilha sonora pop (que inclui David Bowie e Sly and the Family Stone), aliados a uma estrutura narrativa simples, conferem a leveza e din\u00e2mica que o filme e a situa\u00e7\u00e3o pedem. E por mais que a legitima\u00e7\u00e3o de pr\u00e1ticas afetivas e sexuais esteja em jogo, o filme n\u00e3o for\u00e7a a grandes rupturas. Joga um beijo aqui, uma bunda ali, sugere mais um esfor\u00e7o de naturaliza\u00e7\u00e3o com tais situa\u00e7\u00f5es do que a promo\u00e7\u00e3o de choque no espectador pudico.<\/p>\n<p style=\"TEXT-ALIGN: justify\">Algumas escolhas dos rumos da hist\u00f3ria tamb\u00e9m demonstram essa preocupa\u00e7\u00e3o de acesso ao p\u00fablico. O diretor e o roteirista n\u00e3o foram moralistas ou ing\u00eanuos a ponto de negarem as drogas e a promiscuidade, mas tais aspectos s\u00e3o bastante suavizados. Por outro lado, ainda que a forma do filme tenha pouca gravidade, entram o uso de imagens de arquivo e o tradicional posf\u00e1cio que conta os rumos de cada personagem para garantir a autenticidade do filme, afirmar sua rela\u00e7\u00e3o com a realidade.<\/p>\n<p style=\"TEXT-ALIGN: justify\">A presen\u00e7a de um grande ator como Sean Penn \u00e9 muito importante em &#8220;Milk&#8221;. Em primeiro lugar, ela garante uma grande atua\u00e7\u00e3o, que foge da t\u00edpica representa\u00e7\u00e3o caricatural e exagerada dos homossexuais. Constru\u00eddo com sutileza e intelig\u00eancia, sua atua\u00e7\u00e3o vai em dire\u00e7\u00e3o da id\u00e9ia de que Harvey Milk \u00e9, antes de tudo, uma pessoa que, aos 40 anos, resolveu fazer algo do qual se orgulhasse. Em segundo lugar, grandes astros ajudam a atrair grandes plat\u00e9ias, o que \u00e9 de grande interesse dos realizadores. Al\u00e9m disso, o nome do ator, reconhecidamente militante em diversas causas, agrega ainda mais import\u00e2ncia pol\u00edtica ao filme.<\/p>\n<p style=\"TEXT-ALIGN: justify\">Ao longo de &#8220;Milk&#8221;, com todos esses artif\u00edcios, a pessoa Harvey Milk vai dando lugar a uma entidade coletiva, um conjunto de id\u00e9ias e uma luta, exatamente naquilo que o personagem diz pretender se transformar. E \u00e9 em prol de disso que Gus Van Sant parece recuar. Dificilmente &#8220;Milk&#8221; viria a p\u00fablico com a for\u00e7a que veio, e teria a voz que teve, se o diretor n\u00e3o tivesse feito tantas concess\u00f5es. O filme \u00e9 em primeiro lugar de Harvey Milk, no in\u00edcio o personagem e crescentemente a entidade coletiva. Em segundo, de Sean Penn. Por \u00faltimo, do diretor e do roteirista. &#8220;Milk&#8221; \u00e9 um filme que pretende evidentemente ecoar no mundo, e que sabe das dificuldades que encontrar\u00e1. Se n\u00e3o representa um marco para o Cinema, pelo menos est\u00e1 cumprindo seu papel social com dignidade.<\/p>\n<p style=\"TEXT-ALIGN: justify\"><strong>&#8220;Milk&#8221;, de Gus Van Sant<\/strong> &#8211; Cota\u00e7\u00e3o 3,5\/5<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-899 aligncenter\" title=\"milk_festa\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2009\/03\/milk_festa.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"334\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2009\/03\/milk_festa.jpg 500w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2009\/03\/milk_festa-300x200.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/p>\n<p>&#8211; Nuno Manna \u00e9 jornalista e assina o blog <a href=\"http:\/\/reset.motime.com\/\">Reset<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Por Nuno Manna Logo nos primeiros anos de carreira, ainda no cinema independente, Gus Van Sant fez seu filme mais cultuado, &#8220;Drugstore Cowboy&#8221;, \n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2009\/03\/07\/milk-%e2%80%93-a-voz-da-igualdade\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[4],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/897"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=897"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/897\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":903,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/897\/revisions\/903"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=897"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=897"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=897"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}