{"id":89626,"date":"2025-06-06T00:57:55","date_gmt":"2025-06-06T03:57:55","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=89626"},"modified":"2025-07-07T23:47:05","modified_gmt":"2025-07-08T02:47:05","slug":"entrevista-de-caxias-do-sul-rs-o-quarteto-de-hc-pos-hc-emo-borduna-fala-de-seu-novo-disco-arranjos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2025\/06\/06\/entrevista-de-caxias-do-sul-rs-o-quarteto-de-hc-pos-hc-emo-borduna-fala-de-seu-novo-disco-arranjos\/","title":{"rendered":"Entrevista: de Caxias do Sul (RS), o quarteto (de hc, p\u00f3s-hc, emo) Borduna fala de seu novo disco, &#8220;Arranjos&#8221;"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>entrevista de\u00a0<a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/lvinhas78\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Leonardo Vinhas<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Gravar em ordem cronol\u00f3gica de cria\u00e7\u00e3o, mesmo que sejam necess\u00e1rios seis anos at\u00e9 conseguir entrar em est\u00fadio novamente. Integrar banda, est\u00fadio e selo em um coletivo voltado para a pr\u00f3pria comunidade onde est\u00e3o inseridos. Flertar com g\u00eaneros bastante dogm\u00e1ticos sem se prender ao c\u00e2none de nenhum deles. Esse \u00e9 um resumo fiel, mas ainda insuficiente, do ethos da <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/borduna_hc\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Borduna<\/a>, quarteto de Caxias do Sul (RS) que acaba de lan\u00e7ar \u201c<a href=\"https:\/\/open.spotify.com\/intl-pt\/album\/5nFQHoqHxuyXdXpsTT4P5I\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Arranjos<\/a>\u201d (2025), um \u00e1lbum que merece sua aten\u00e7\u00e3o, seja voc\u00ea f\u00e3 de hardcore, post-hardcore ou emo \u2013 estilo aos quais a banda \u00e9 associada \u2013 ou principalmente se voc\u00ea n\u00e3o gosta desses g\u00eaneros.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Explica-se: \u201cArranjos\u201d \u00e9 um disco que se destaca pelo senso de composi\u00e7\u00e3o da banda, que \u00e9 cancioneiro em meio ao ru\u00eddo e esquisito em meio \u00e0 can\u00e7\u00e3o. Ao ouvir uma vez can\u00e7\u00f5es como \u201cTravessia\u201d, \u201cMantra\u201d ou \u201cJanelas Trancadas (Efeito Colateral)\u201d, voc\u00ea j\u00e1 tem melodias e refr\u00f5es imediatamente registrados na cabe\u00e7a. Mas composi\u00e7\u00f5es que t\u00eam elementos menos reconhec\u00edveis de imediato, explorando tempos quebrados e timbres diferentes nas guitarras, convidam a visitas repetidas. \u00c9 o caso de \u201cO Estrangeiro\u201d (com v\u00e1rias partes, e quase sete minutos de dura\u00e7\u00e3o), \u201cHomem de Lata\u201d e \u201cCondol\u00eancias\u201d, por exemplo. Com essa altern\u00e2ncia, o \u00e1lbum mant\u00e9m sua din\u00e2mica, e se revela como uma grata surpresa roqueira neste 2025.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas \u201cArranjos\u201d \u00e9 a mais recente etapa de uma trajet\u00f3ria que come\u00e7a meio de brincadeira em 2014, com alguns integrantes ainda n\u00e3o tendo ultrapassado os 20 anos de idade, e que ganha tra\u00e7\u00e3o mesmo a partir de 2016. O primeiro EP, que leva o nome da banda, s\u00f3 sairia em 2019, e um ano depois viria \u201c514\/s\u201d, outro EP. Apenas dois singles seriam lan\u00e7ados at\u00e9 que \u201cArranjos\u201d, o primeiro \u00e1lbum completo, sa\u00edsse. E nesse caminho, muita coisa mudou.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A banda montou um pequeno selo, Alforge Records, para lan\u00e7ar suas composi\u00e7\u00f5es. O guitarrista Everton Severo montou o Divisa Studio, e foi gradativamente assumindo um papel mais ativo no desenho do registro sonoro da banda. E em paralelo, a banda foi fortemente sensibilizada pela pandemia, pelas enchentes em seu Estado e pelo descaminho geral da moedeira de almas que \u00e9 o Brasil do s\u00e9culo 21. A partir desse impacto, come\u00e7aram a questionar o que poderiam fazer para a banda n\u00e3o ser s\u00f3 um momento de umbiguismo ou uma ilus\u00e3o comercial.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A ideia foi tentar unir as tr\u00eas coisas \u2013 selo, banda e est\u00fadio. Aos poucos, o Alforge come\u00e7ou a incluir outras bandas em suas fileiras. O Divisa Studio passou a ser uma op\u00e7\u00e3o acess\u00edvel para artistas com poucos recursos. E agora chegou o momento de pensar como a pr\u00f3pria Borduna pode ser parte dessa movimenta\u00e7\u00e3o, e continuar sendo fiel a si mesma.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 nesse momento que a banda \u2013 formada por Severo, Cleber Mignoni Zeferino (baixo e vocais), Bruno Vasconcelos (bateria) e Rudinei Picinini (vocais) \u2013 conversa com o Scream &amp;Y ell. Na charla, Severo e Picinini, tamb\u00e9m letrista, entabularam um papo que incluiu a g\u00eanese de \u201cArranjos\u201d, a cena de Caxias do Sul, e as raz\u00f5es para se ter uma banda.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Sobre Autoritarismo e Atualidade\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/q_uDPVsWKA0?list=OLAK5uy_mYyQMnqqlgRQbg2IDb9Afx67bWYbfsxfo\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Esse disco tem um salto em rela\u00e7\u00e3o aos anteriores, tanto na qualidade das composi\u00e7\u00f5es como da produ\u00e7\u00e3o. Qual foi o ponto de partida para o nascimento de \u201cArranjos\u201d?<\/strong><br \/>\nRudinei Picinini: Todas as m\u00fasicas que est\u00e3o neste disco foram feitas at\u00e9 2018. \u201cTravessia\u201d e \u201cHino dos Esquecidos\u201d foram as \u00faltimas que a gente fez nessa leva. Boa parte delas j\u00e1 estavam feitas quando lan\u00e7amos o primeiro EP. E esse foi um trabalho muito dif\u00edcil de lan\u00e7ar, tanto por quest\u00f5es de estrutura quanto de investimento, mas a gente sempre manteve a ordem cronol\u00f3gica das cria\u00e7\u00f5es. A gente sempre discutiu se ia ser daquelas bandas que ia compor muito e descartar boa parte do que criava para triar o melhor do que fez, ou se \u00edamos registrar tudo que fosse potencialmente interessante para ter nosso pr\u00f3prio hist\u00f3rico de progresso. E no fim, como a gente sempre fez tudo de forma independente e sem dar satisfa\u00e7\u00e3o para ningu\u00e9m, esse segundo caminho foi o mais interessante. Por isso temos gravado em ordem cronol\u00f3gica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00eas pegaram m\u00fasicas feitas em um momento totalmente diferente, tanto do ponto de vista art\u00edstico quanto pessoal. N\u00e3o rola uma assincronia?<\/strong><br \/>\nRudinei: A gente tenta compor de uma maneira mais aberta, e infelizmente a tem\u00e1tica de algumas composi\u00e7\u00f5es s\u00e3o atemporais, muitas das ang\u00fastias e das quest\u00f5es ainda conversam com o momento atual. E eu n\u00e3o tenho uma l\u00f3gica quando vou criar, mas me inspiro muito na literatura, no sentido de n\u00e3o ser t\u00e3o direto, de querer ser mais aberto mesmo. A gente traz informa\u00e7\u00f5es e refer\u00eancias, mas deixa algumas interpreta\u00e7\u00f5es abertas para que o ouvinte possa se identificar. No punk e no hardcore tem quem seja muito mais direto, e isso \u00e9 legal tamb\u00e9m, mas a gente foi para outro lado, e isso traz novos significados para os sons. Por exemplo, \u201cTravessia\u201d foi feita no contexto pol\u00edtico de 2018: a gente sabia que o pior estava vindo, mas que a gente tinha que encarar aquilo como uma travessia, e n\u00e3o como o nosso fim ou como a extin\u00e7\u00e3o do nosso futuro. A pr\u00f3pria pandemia tamb\u00e9m deu outros significados a essa faixa, manter a banda viva foi uma travessia, a gente teve que passar por isso. Depois que o single saiu, outras coisas come\u00e7aram a aparecer, teve quem veio falar comigo e com os guris, dizendo que a m\u00fasica remetia a quest\u00f5es de sa\u00fade mental que essas pessoas viveram nos \u00faltimos anos. Acabou que a can\u00e7\u00e3o virou um lugar para as pessoas poderem existir nos termos delas, algumas outras can\u00e7\u00f5es tamb\u00e9m t\u00eam esse espa\u00e7o, e \u00e9 isso que estamos tentando amadurecer nas nossas experimenta\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Borduna - Travessia\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/UAhspIIbYkQ?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E como fica para o som n\u00e3o ficar datado? Porque as refer\u00eancias musicais tamb\u00e9m mudam ao longo do tempo.<\/strong><br \/>\nRudinei: Pode acontecer, mas a gente sempre trabalhou de forma que o som n\u00e3o parecesse datado. Essa preocupa\u00e7\u00e3o a gente tem desde o come\u00e7o. Mas claro, as nossas percep\u00e7\u00f5es mudam conforme a gente vai ganhando bagagem. A gente n\u00e3o quer ter uma vis\u00e3o ortodoxa de estilos pelos quais a gente trafega, nosso norte de cria\u00e7\u00e3o \u00e9 justamente a escola progressista do hardcore e seus subg\u00eaneros. Mas nunca fizemos ajustes nas letras, a n\u00e3o ser em \u201cMantra\u201d, que tinha um tom mais apaziguador, e quando a gente foi retomar os ensaios e se ouviu, vimos que n\u00e3o era isso que a gente queria falar. Ou melhor, a gente nem acreditava mais naquilo. Mas nas outras tinha uma certa atemporalidade na constru\u00e7\u00e3o l\u00edrica, mesmo que n\u00e3o f\u00f4ssemos mais os mesmos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00c9 interessante voc\u00ea colocar a banda no hardcore. Porque claro, tem coisas que podem ser chamadas assim no som de voc\u00eas, mas tem tamb\u00e9m um lado forte daquela leva do emo como Rites of Spring, Mineral, os primeiros discos do Sunny Day Real Estate\u2026 E tem um bom tanto de post-hardcore, uns ritmos mais quebrados, uns tempos meio malucos (risos). Al\u00e9m disso, voc\u00eas t\u00eam muitas refer\u00eancias musicais que n\u00e3o passam nem perto desses estilos. Como isso deixa a Borduna no cen\u00e1rio hardcore do Rio Grande do Sul?<\/strong><br \/>\nEverton Severo: Na nossa primeira turn\u00ea \u2013 e \u00fanica, at\u00e9 agora \u2013 a gente foi tocar em Florian\u00f3polis com a Budang, uma banda que estava fazendo seu segundo show ali. Eles s\u00e3o de um hardcore mais New York, quase extremo, e a\u00ed a gente percebeu que nosso som n\u00e3o \u00e9 hardcore (risos). O som dos caras era mais direto, mais agressivo, e a nossa personalidade mesmo n\u00e3o \u00e9 pra esse lado. O Rudi, voc\u00ea pode ver, \u00e9 um cara tranquilo, nossa forma de compor n\u00e3o \u00e9 agressiva. A gente procurou fazer uma sonoridade que a gente gostasse, mas que se encaixasse com o que o Rudinei quisesse cantar. Tem quem estranhe o resultado, falando que nosso som \u00e9 agressivo, mas a voz n\u00e3o. Mas a gente procurou abra\u00e7ar isso como algo nosso e fez disso nossa caracter\u00edstica. Isso fez com que a gente se afastasse de ser uma banda hardcore ou uma banda emo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Rudinei: Ainda hoje a gente referencia o hardcore como um ponto de partida, s\u00f3 que hoje a gente o entende mais como um espectro do que como um g\u00eanero espec\u00edfico. Quando se fala em hardcore, as pessoas pensam principalmente no hardcore californiano do fim dos anos 1980 e come\u00e7o de 1990. Mas a gente vai nos festivais e v\u00ea o hardcore punk, o hardcore novaiorquino. o flerte com o crossover, o metal, o emo, o post-hardcore \u2013 que \u00e9 que estamos vendo muito fonte onde beber e buscar refer\u00eancias. Ent\u00e3o o hardcore n\u00e3o \u00e9 um g\u00eanero est\u00e1tico, v\u00e1rias bandas que est\u00e3o circulando hoje na cena dos EUA est\u00e3o misturando o estilo com shoegaze, dream pop, at\u00e9 com a pegada mais arrastada do grunge. O g\u00eanero avan\u00e7ou para outras dire\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Severo: E falar de influ\u00eancias \u00e9 muito dif\u00edcil, porque nossa vida no dia a dia \u00e9 influenciada por algo a todo momento. A gente se inspirou no discurso mais politizado do hardcore, mas a gente sempre ouviu de tudo, de p\u00f3s-MPB a punk, jazz, hip hop. Todos os g\u00eaneros falam, de alguma forma, algo que nos apetece.<\/p>\n<figure id=\"attachment_89628\" aria-describedby=\"caption-attachment-89628\" style=\"width: 750px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-89628\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/ilustracao-Rooosa-e-arte-Cleber-Mignoni-Zeferino-copiar.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"750\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/ilustracao-Rooosa-e-arte-Cleber-Mignoni-Zeferino-copiar.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/ilustracao-Rooosa-e-arte-Cleber-Mignoni-Zeferino-copiar-300x300.jpg 300w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/ilustracao-Rooosa-e-arte-Cleber-Mignoni-Zeferino-copiar-150x150.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-89628\" class=\"wp-caption-text\"><em>Arte da capa de &#8220;Arranjos&#8221;, do Borduna<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O que voc\u00eas querem com a Borduna? Afinal, \u00e9 uma banda que pretende se movimentar tanto no campo art\u00edstico como pol\u00edtico, mas banda \u00e9 um rol\u00ea caro, ningu\u00e9m a\u00ed \u00e9 herdeiro ou est\u00e1 permanentemente atr\u00e1s do pr\u00f3ximo edital. Assim, repito: o que voc\u00eas querem com a Borduna?<\/strong><br \/>\nSevero: Isso \u00e9 muito bom! Teve um dia que a gente parou para conversar sobre isso, mas vou deixar essa para o Rudinei responder, porque ele vai saber sintetizar a melhor. Porque a gente j\u00e1 teve v\u00e1rias formas de pensar sobre a mesma coisa, e hoje a gente est\u00e1 num momento mais pac\u00edfico do neg\u00f3cio, aceitando mais a vida como ela \u00e9, e o Rudi vai saber explicar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Rudinei: A gente precisou pensar bastante nisso durante a pandemia, e tamb\u00e9m com a chegada dos 30 anos, conforme todo mundo foi avan\u00e7ando em alguns pontos da vida. Tem duas coisas: a gente sempre fala que produzir m\u00fasica autoral com a Borduna \u00e9 o modo que a gente encontrou de ser fiel a si mesmo. A vida inteira a gente est\u00e1 produzindo algo sob demanda para ser recompensado monetariamente, para ir atr\u00e1s da pr\u00f3xima lista de compras. Parece que muitas vezes a vida se resume a isso, ent\u00e3o conseguir produzir algo que n\u00e3o est\u00e1 sendo buscado no Google \u00e9 uma das coisas mais gratificantes que a gente tem. \u00c9 uma v\u00e1lvula de escape, \u00e9 uma ferramenta de descoberta e de autodescobrimento. E a outra coisa \u00e9 que, muitas vezes, usamos as m\u00fasicas para falar de temas sobre os quais \u00e9 dif\u00edcil falar, temas dif\u00edceis de expandir numa conversa do dia a dia. Agora, se for pensar em ambi\u00e7\u00f5es, a principal \u00e9 ser relevante localmente. Tudo que for para al\u00e9m disso vai ser um grande b\u00f4nus, mas a gente quer construir esse s\u00edmbolo local de algu\u00e9m que produz e mostra que \u00e9 poss\u00edvel produzir mesmo n\u00e3o estando em um grande centro hegem\u00f4nico cultural. Se a gente n\u00e3o se desloca para esses centros hegem\u00f4nicos, parece que nada vive ou perdura por muito tempo. Ent\u00e3o resistir produzindo no extremo Sul \u00e9 uma forma de transformar o entorno, movimentar em microrrevolu\u00e7\u00f5es o que a gente pensa como o imagin\u00e1rio cultural para a vida. Claro, esse extremo Sul tem certo desenvolvimento econ\u00f4mico, mas n\u00e3o tem uma constru\u00e7\u00e3o art\u00edstica t\u00e3o cristalizado como se v\u00ea no Sudeste ou em algumas capitais. Ent\u00e3o \u00e9 muito interessante quando tu descobre que teu vizinho escreve e est\u00e1 participando de concursos liter\u00e1rios, ou que tua tia distante pintava quadros e tem v\u00e1rios deles espalhados por a\u00ed. Isso vai criando outro est\u00edmulo, outra dire\u00e7\u00e3o de vida, e quero que no futuro a gente seja o vizinho, o tio, que tinha uma banda, que produziu algo al\u00e9m do que aquilo que era uma obriga\u00e7\u00e3o para subsist\u00eancia, e que as pessoas possam espelhar suas ambi\u00e7\u00f5es de projetos de cultura no nosso exemplo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E o quanto o est\u00fadio do Severo se interliga com o trabalho da banda no sentido de fomentar a cena?<\/strong><br \/>\nSevero: Bah, eu acho que o est\u00fadio \u00e9 o in\u00edcio de tudo, no sentido de produ\u00e7\u00e3o. A Borduna surge num por\u00e3o, quando a gente n\u00e3o tinha nenhuma condi\u00e7\u00e3o de gravar e eu n\u00e3o sabia produzir nada. Eu tenho a impress\u00e3o de que o est\u00fadio foi o epicentro para as coisas come\u00e7arem a andar, porque at\u00e9 2018, n\u00e3o tinha est\u00fadio nem dinheiro para come\u00e7ar a produzir, at\u00e9 que em uma conversa com o Rudi ele me disse que eu deveria me arriscar a produzir com algumas pessoas. Na \u00e9poca, eu trabalhava no Sesc e j\u00e1 estava pensando em montar um pequeno est\u00fadio para produzir a Borduna. Mas isso foi escalonando. Quando a gente montou a primeira salinha \u2013 que era no meu quarto \u2013 j\u00e1 come\u00e7amos logo a produzir. T\u00ednhamos gravado o primeiro EP em S\u00e3o Leopoldo e n\u00e3o ficamos felizes com o resultado, ent\u00e3o refizemos uma parte aqui, bem coisa de banda que est\u00e1 iniciando. Com isso, o nosso selo mudou de nome, a gente come\u00e7ou a pegar umas bandas da cidade, como a Teto. Eles n\u00e3o tinham muitas condi\u00e7\u00f5es, ent\u00e3o abra\u00e7amos os guris e gravamos umas coisas com eles, e a gente ainda hoje tenta fomentar isso para as bandas locais, com um valor acess\u00edvel, quase simb\u00f3lico, para que todo mundo consiga circular. Porque a gente tamb\u00e9m tem que pagar as contas, n\u00e9, e no meu caso virou uma profiss\u00e3o, al\u00e9m de uma forma de catapultar o trabalho musical. Mas t\u00e1 dando para formar uma teia cultural de bandas que se apoiam.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Rudinei: Tamb\u00e9m n\u00e3o tinha ningu\u00e9m pr\u00f3ximo que produzisse o tipo de som que a gente faz. Nos \u00faltimos anos, o Severo foi se dedicando a estudar o tipo de som que a gente faz para saber como viabilizar uma sonoridade de acordo com as nossas refer\u00eancias. Isso abriu um leque bem interessante, as bandas v\u00eam para o est\u00fadio sabendo o tipo de som que v\u00e3o encontrar, e isso ajuda a criar uma unidade. Um dos aprendizados que tive com o Severo \u00e9 a vis\u00e3o de escutar muita coisa que vai para al\u00e9m dos subg\u00eaneros que a gente escuta, e \u00e9 por isso que ele tamb\u00e9m tem entrada em outras cenas, como a do hip hop. Isso mostra como o est\u00fadio est\u00e1 se expandindo para outras regi\u00f5es da cidade, chegando a pessoas que se encontram no mesmo patamar que em que a gente se encontrava em 2014, 2016: sem est\u00fadio, sem saber onde come\u00e7ar, sem saber onde buscar apoio. O ritmo ainda \u00e9 embrion\u00e1rio, porque o Severo \u00e9 um s\u00f3, mas isso pode se expandir no futuro para projetos mais robustos, porque Caxias do Sul tem potencial. A cidade s\u00f3 carece de pessoas que tenham o conhecimento necess\u00e1rio e abracem a cena para dar o apoio que a cena precisa para crescer.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Borduna - Postais (full compact)\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/5kpWCCWFloA?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u2013 Leonardo Vinhas (<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/leovinhas\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">@leovinhas<\/a>) \u00e9 produtor e autor do livro \u201c<a href=\"https:\/\/editorabarbante.com.br\/produtos\/o-evangelho-segundo-odair-censura-igreja-e-o-filho-de-jose-e-maria\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">O Evangelho Segundo Odair: Censura, Igreja e O Filho de Jos\u00e9 e Maria<\/a>\u201c.\u00a0<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\u201cArranjos\u201d \u00e9 a mais recente etapa de uma trajet\u00f3ria que come\u00e7a meio de brincadeira em 2014, com alguns integrantes ainda n\u00e3o tendo ultrapassado os 20 anos, e que ganha tra\u00e7\u00e3o a partir de 2016\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2025\/06\/06\/entrevista-de-caxias-do-sul-rs-o-quarteto-de-hc-pos-hc-emo-borduna-fala-de-seu-novo-disco-arranjos\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":6,"featured_media":89627,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[3],"tags":[4040],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/89626"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/6"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=89626"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/89626\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":89630,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/89626\/revisions\/89630"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/89627"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=89626"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=89626"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=89626"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}