{"id":89045,"date":"2025-05-08T00:01:03","date_gmt":"2025-05-08T03:01:03","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=89045"},"modified":"2025-07-19T01:14:21","modified_gmt":"2025-07-19T04:14:21","slug":"entrevista-olavo-rocha-repassa-a-carreira-do-lestics-danca-o-bolero-9-e-adia-a-hora-de-parar-de-fazer-musica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2025\/05\/08\/entrevista-olavo-rocha-repassa-a-carreira-do-lestics-danca-o-bolero-9-e-adia-a-hora-de-parar-de-fazer-musica\/","title":{"rendered":"Entrevista: Olavo Rocha repassa a carreira do Lestics, dan\u00e7a o \u201cBolero #9\u201d e adia a hora de parar de fazer m\u00fasica"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\">por <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/noacapelas\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Bruno Capelas<\/a> e <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/screamyell\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Marcelo Costa<\/a><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 bandas que t\u00eam uma carreira curta e s\u00e3o extremamente populares. Outras, por sua vez, conseguem ter uma trajet\u00f3ria longeva a despeito de chegarem a poucos ouvidos. O <a href=\"http:\/\/www.lestics.com.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Lestics<\/a> pertence ao segundo grupo de maneira singular \u2013 at\u00e9 mesmo para quem acompanha o cen\u00e1rio independente brasileiro com afinco a banda tem certa aura de \u201csegredo bem guardado\u201d. Um segredo que j\u00e1 dura quase duas d\u00e9cadas e, ao final de 2024, chegou ao nono disco de carreira. Lan\u00e7ado seis anos ap\u00f3s \u201cBreu\u201d, no maior intervalo de sil\u00eancio da banda, \u201c<a href=\"https:\/\/lestics.bandcamp.com\/album\/bolero-9\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Bolero #9<\/a>\u201d reflete os tempos de pandemia e brinca com a ideia de que n\u00e3o h\u00e1 mais m\u00fasica velha nem nova ao abra\u00e7ar o tango, os instrumentos ac\u00fasticos e \u201cum bolero meio lounge music\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cChegamos num certo lugar em que \u00e9 preciso mudar um pouco o paradigma. \u00c9 um lugar em que n\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o tem novo, como n\u00e3o tem velho: tudo soa contempor\u00e2neo\u201d, filosofa <a href=\"https:\/\/bsky.app\/profile\/olavorocha.bsky.social\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Olavo Rocha<\/a>, vocalista e letrista do grupo, que volta a ser um trio \u2013 al\u00e9m dele, completam a forma\u00e7\u00e3o Marcelo Patu (baixo) e Umberto Serpieri (viol\u00e3o e teclados), membro fundador que retorna \u00e0 banda ap\u00f3s quase uma d\u00e9cada. \u201cO disco nos deu a oportunidade de nos encontrarmos, a m\u00fasica \u00e9 o nosso terreno comum. Isso \u00e9 uma sorte: poder encontrar as pessoas\u201d, diz o artista, num papo de quatro horas regado a cerveja, azeitona e homus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Concebido ao longo de quase dois anos, \u201cBolero #9\u201d traz um Lestics mais econ\u00f4mico. Tal caracter\u00edstica \u00e9 fruto das grava\u00e7\u00f5es feitas em S\u00e3o Roque, no interior paulista, onde Umberto foi morar em 2014, e tamb\u00e9m da escolha por registrar as can\u00e7\u00f5es com base em viol\u00e3o de nylon. \u201cEu queria ter uma singeleza, uma simplicidade, por mais que as composi\u00e7\u00f5es talvez n\u00e3o sejam t\u00e3o simples\u201d, afirma Olavo, que revela um senso de humor muito especial ao longo da conversa. \u201cN\u00e3o acho que eu fa\u00e7a letras com profundidade. Mas quando voc\u00ea olha pro escuro, n\u00e3o d\u00e1 para saber qu\u00e3o profundo aquilo \u00e9. \u00c0s vezes, \u00e9 uma tapea\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o tenho problema em lidar com o lado escuro da vida.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 o tom que define letras como \u201cElogio ao Desfibrilador\u201d, que poderia ser uma HQ (forma de arte tamb\u00e9m praticada pelo vocalista), ou \u201cCorrenteza\u201d, feita na pandemia, mas cujos versos podem se encaixar antes ou depois da covid-19. \u201cEssa letra est\u00e1 configurada. Ainda vamos viver isso ainda incont\u00e1veis vezes\u201d, diz Olavo, a respeito de versos como \u201cno cora\u00e7\u00e3o das trevas n\u00e3o existe tr\u00e9gua\u201d ou \u201co que n\u00e3o t\u00e1 em chamas est\u00e1 debaixo d\u2019\u00e1gua\u201d. O tom cinza com que se pode ver o futuro tamb\u00e9m \u00e9 outra t\u00f4nica da conversa, que passa por temas como educa\u00e7\u00e3o, consci\u00eancia pol\u00edtica e mudan\u00e7as clim\u00e1ticas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nem tudo, por\u00e9m, \u00e9 escurid\u00e3o nesse papo que vem a seguir. \u201cGosto mais quando a gente consegue ter essa dualidade mais evidente\u201d, diz Olavo, que tamb\u00e9m aproveita para contar hist\u00f3rias de crian\u00e7a e de adolescente em Uberl\u00e2ndia, elencar suas m\u00fasicas favoritas de cada disco da banda e contar como descobriu alguns de seus artistas favoritos \u2013 Beatles, Legi\u00e3o Urbana, R.E.M. e Tom Waits est\u00e3o entre eles. \u201cO Legi\u00e3o era a nossa Beatlemania poss\u00edvel. Vi o Legi\u00e3o em 1988 fazendo show no Uberl\u00e2ndia T\u00eanis Clube. Se aquilo n\u00e3o muda a vida de um fulano, nada mais muda\u201d, recorda-se, em meio a uma discuss\u00e3o sobre sua gera\u00e7\u00e3o de artistas e tamb\u00e9m sobre o ato de escutar m\u00fasica hoje em dia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com 13 discos no curr\u00edculo (<a href=\"https:\/\/lestics.bandcamp.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">al\u00e9m dos 9 do Lestics<\/a>, h\u00e1 mais dois do <a href=\"https:\/\/osgianoukaspapoulas.bandcamp.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Gianoukas Papoulas<\/a> e outros dois da <a href=\"https:\/\/doloresfantasma.bandcamp.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Dolores Fantasma<\/a> prontos para serem descobertos), alguns singles e participa\u00e7\u00f5es em tributos (o Lestics participou dos \u00e1lbuns em homenagem ao <a href=\"https:\/\/open.spotify.com\/intl-pt\/album\/7xfhZVXF8Stw7ZczHB9BG4?si=qP6EaqLiSgyIMYwkLuqlVg&amp;nd=1&amp;dlsi=bd1f5e0706fc45be\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Superguidis<\/a> e aos\u00a0<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2015\/11\/24\/download-tributo-aos-paralamas-do-sucesso\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Paralamas<\/a>; j\u00e1 o Gianoukas est\u00e1 presente nos tributos ao <a href=\"https:\/\/open.spotify.com\/intl-pt\/album\/0XuitosCM6yxGX7C2WKGDv\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Fellini<\/a> e <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2018\/05\/03\/download-um-grito-que-se-espalha-tributo-a-walter-franco-2\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Walter Franco<\/a>) Olavo mira a hora da aposentadoria. \u201cSe eu pudesse parar, eu parava. Tenho a impress\u00e3o que eu podia viver feliz s\u00f3 recebendo, \u2018manda pra dentro\u2019. Mas n\u00e3o consegui essa paz ainda\u201d, brinca o m\u00fasico, que, \u00e0 moda do \u00eddolo Thomas Pappon, diz gostar de ouvir os discos que faz.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por outro lado, como algu\u00e9m que j\u00e1 escreveu que a eternidade vai um pouco al\u00e9m do que costuma planejar, Olavo n\u00e3o acredita na perman\u00eancia de suas obras ou num legado. \u201cN\u00e3o boto muita f\u00e9 nisso. N\u00e3o sou uma pessoa nost\u00e1lgica. Mas poder trombar com essas coisas [a arte] nesse tempinho e ter uma epifaniazinha, uma ilumina\u00e7\u00e3ozinha, \u00e9 uma sorte\u201d, diz, com brilho nos olhos. Vale a pena aproveitar enquanto houver tempo, caro leitor. D\u00ea play no disco abaixo e mergulhe nessa longa conversa agrad\u00e1vel.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Lestics \u2013 Commedia de bolso\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/zhmAYRYh3ug?list=PLnfJcxjJkYTjnkTzRCbeY8eExfhgftrMu\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Marcelo: (A cidade de) S\u00e3o Roque \u00e9 muito longe?<\/strong><br \/>\nOlavo: D\u00e1 uma hora e pouco, pegando a [rodovia] Castelo Branco. Mas \u00e9 a Castelo: pode ser uma hora, \u00e9 tranquilo para ir, mas para voltar no doming\u00e3o\u2026 pode ser at\u00e9 mais. Fato \u00e9 que foi longe o bastante para que, em 2014, o Umberto sa\u00edsse da banda quando foi morar em S\u00e3o Roque. Era \u201clonge\u201d (faz o sinal de aspas com as m\u00e3os).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Marcelo: Mas ele tinha virado pai tamb\u00e9m, n\u00e3o tinha?<\/strong><br \/>\nOlavo: \u00c9 por isso que estou falando que tem umas \u201caspinhas\u201d nesse longe. Havia toda uma situa\u00e7\u00e3o que provocou essa dist\u00e2ncia. A vida anda e a gente queria continuar com a banda, como continuamos\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Bruno: \u201cLonge demais \u00e9 um lugar que a gente vai pelo prazer de se arrepender\u201d (frase da can\u00e7\u00e3o \u201c\u00daltima Palavra\u201d, presente no \u00e1lbum \u201c<a href=\"https:\/\/lestics.bandcamp.com\/album\/les-tics\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">les tics<\/a>\u201d, de 2007)<\/strong><br \/>\nOlavo: (risos) Essa \u00e9 das antigas, n\u00e9? Mas a verdade \u00e9 que o Umberto precisava viver todo um processo l\u00e1 em S\u00e3o Roque. Foi algo que fez tanto sentido para ele a ponto de que ele continua morando l\u00e1. E a gente precisava continuar com a banda. Quando o Umbinha saiu, depois do \u201cHist\u00f3ria Universal do Esquecimento\u201d (2012), ficamos eu, o Patu e o Xuxa [Marcos \u2018Xuxa\u2019 Muela, baterista]. A verdade \u00e9 que eu tenho dificuldade de me localizar no tempo e os discos do Lestics me ajudam a saber o que aconteceu quando na minha vida (risos). A\u00ed fizemos o \u201cSeis\u201d (2014), que \u00e9 um disco de uma cozinha [baixo e bateria] e um vocalista. Quem tocou a guitarra foi o Digo [Rodrigo Pedrosa], um cara muito gente boa, mas ele n\u00e3o era exatamente da banda. O Patu fez as m\u00fasicas no viol\u00e3o e a gente ensaiava com viol\u00e3o, bateria e voz, at\u00e9 chegar num ponto que tinha tudo estruturado. O Patu toca baixo muito bem, mas ele n\u00e3o \u00e9 guitarrista. A\u00ed chamamos o Digo para gravar os viol\u00f5es e guitarras. E claro, chamamos uma galera: tem as cordas do Neymar Dias, tem o Bocato. Depois, a banda \u00e9 muito h\u00edbrida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Marcelo: Vamos voltar no tempo. Com certeza j\u00e1 falamos disso em outras entrevistas, mas \u00e9 bom atualizar porque tem leitores novos chegando sempre. O Lestics nasceu com voc\u00ea e com o Umberto. Quando ele saiu, voc\u00ea chegou a pensar em acabar com tudo?<\/strong><br \/>\nOlavo: N\u00e3o. Pensei \u201cdeu\u201d v\u00e1rias vezes, mas antes disso. [Ter uma banda, gravar discos] \u00e9 muito cansativo, \u00e9 muito desgastante, mas \u00e9 bom pra burro. N\u00f3s continuamos porque \u00e9 t\u00e3o bom, que acaba sendo melhor do que os perrengues que a gente passa. Voc\u00ea p\u00f5e na balan\u00e7a e o lado legal \u00e9 mais legal do que o perrengue \u2013 mas \u00e9 muito perrengue. Na \u00e9poca do \u201cAos Abutres\u201d (2010), n\u00f3s fizemos um doc sobre o Lestics. Olho para as minhas imagens no document\u00e1rio e parece que eu tinha tomado uma sova, cara. Eu estava amando o processo, mas estava muito cansado. Sempre d\u00e1 vontade de parar e a gente nunca para, porque \u00e9 bom fazer m\u00fasica. Quando o Umberto saiu, n\u00e3o consideramos essa possibilidade. N\u00e3o sab\u00edamos como ia continuar, mas n\u00e3o vimos a possibilidade de parar. Banda independente \u00e9 foda, a recompensa \u00e9 muito pouca. Voc\u00ea n\u00e3o consegue ter ritmo de estar sempre no palco, o nosso p\u00fablico \u00e9 muito pequeno, e \u00e9 um fen\u00f4meno que n\u00f3s j\u00e1 discutimos. Por que t\u00e3o pouca gente? N\u00e3o sei, nunca vou saber, mas \u00e9 pouca repercuss\u00e3o\u2026 mas a pouca repercuss\u00e3o para mim \u00e9 do caralho. Assim como voc\u00ea mandava o fanzine antigamente pra uma galera que voc\u00ea curtia, mando os discos do Lestics pra galera que curto e respeito e que eu queria que curtisse tamb\u00e9m. Quando voc\u00ea escreve a respeito do disco, \u00e9 do caralho: \u201csaiu uma resenha massa num site que eu leio e que respeito\u201d. Foda-se que tem meia d\u00fazia de pessoas ouvindo, porque \u00e9 uma meia d\u00fazia que respeito, numa esp\u00e9cie de irmandade especial pela m\u00fasica. Se o Maur\u00edcio Valladares toca\u2026 cara, eu ou\u00e7o o \u201c<a href=\"https:\/\/www.roncaronca.com.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Ronca Ronca<\/a>\u201d. Eu aprendo ouvindo o \u201cRonca Ronca\u201d. Eu lia o <a href=\"https:\/\/senhorf.com.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Fernando Rosa<\/a> sempre. Ent\u00e3o \u00e9 assim: n\u00e3o podendo ter tudo, que \u00e9 ter um p\u00fablico grande, eu tenho um pouco, que s\u00e3o pessoas que eu respeito curtindo o que eu fa\u00e7o. P\u00f4, eu consegui fazer m\u00fasica com o <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2021\/06\/25\/entrevista-fellini-ou-tudo-que-voce-queria-saber-sobre-a-banda-e\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Thomas Pappon<\/a> ou com o <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2011\/05\/17\/andre-mendes-rubinho-troll-continental\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Rubinho Troll,<\/a> que s\u00e3o caras que respeito pra caralho. A m\u00fasica me permitiu isso, me colocou perto dessas pessoas. Ent\u00e3o \u00e9 uma das recompensas importantes, mas n\u00e3o \u00e9 a recompensa. A recompensa, na real, \u00e9 fazer. A m\u00fasica n\u00e3o existe e, de repente, ela existe: isso \u00e9 de longe a coisa mais do caralho.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Lestics (o filme)\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/zBbu3IoR1PY?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Marcelo: No texto de divulga\u00e7\u00e3o do \u201cBolero #9\u201d, voc\u00ea diz que pensava numa coisa para o disco e que ele terminou indo para outro caminho. O que voc\u00ea pensava sobre o \u201cBolero #9\u201d?<\/strong><br \/>\nOlavo: O que eu pensava\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Bruno: (interrompe) Vou interromper s\u00f3 adicionando uma coisa: de toda a obra do Lestics, o maior intervalo \u00e9 o do \u201cBreu\u201d para o \u201cBolero #9\u201d. Claro que no meio disso tem a pandemia, mas \u00e9 legal pensar: o que voc\u00ea pensava quando acabou o \u201cBreu\u201d e quando foi come\u00e7ar o \u201cBolero\u201d?<\/strong><br \/>\nOlavo: \u00c9. Na real, Bruno, s\u00e3o duas respostas diferentes para cada pergunta. A primeira resposta, para a pergunta do Marcelo, \u00e9 bem mais singela. Eu esperava um disco ainda mais minimalista do que ele acabou saindo \u2013 e ele saiu bem minimalista, bem lo-fi, bem b\u00e1sico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Marcelo: Isso n\u00e3o \u00e9 algo que vem da sua experi\u00eancia com a Dolores Fantasma?<\/strong><br \/>\nOlavo: N\u00e3o \u00e9. Sabe o que \u00e9? O \u201cBolero #9\u201d tem algumas m\u00fasicas do Patu e outras do Umberto. Quando a gente come\u00e7ou a arranjar, usamos um viol\u00e3o de nylon \u2013 que tamb\u00e9m usamos para gravar. Uma parte importante das m\u00fasicas no disco tem uma coisa muito confessional, at\u00e9 mais do que costumo colocar. A coisa do viol\u00e3o de nylon, com a voz, com os arranjos de baixo que o Patu fez\u2026 eu queria ter uma singeleza, uma simplicidade. As composi\u00e7\u00f5es talvez n\u00e3o sejam t\u00e3o simples, mas eu queria uma simplicidade na entrega, na reprodu\u00e7\u00e3o. No fim das contas, a base do disco \u00e9 viol\u00e3o, baixo e voz. Depois o Umbinha come\u00e7ou a colocar as coisas dele, que s\u00e3o lindas, e que acabaram ficando. Ele tem uma sensibilidade de colocar temperos no arranjo, mas dessa vez ele n\u00e3o botou muito. O disco ficou sim, singelo e minimalista, mas era em fun\u00e7\u00e3o de estar gravando lo-fi, na casa do Umberto, sem grandes microfones ou equipamentos, sem muita infraestrutura, de uma forma muito simples. Mal comparando, eu queria ter algo como aquela galera gravando blues antigamente, chegando com o microfone na frente do artista e tal. Muito numa linha \u201c\u00e9 isso que temos para o momento\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Marcelo: \u00c9 que isso \u00e9 meio imposs\u00edvel. N\u00e3o sei o que o Bruno acha, mas n\u00e3o vejo esse lo-fi. Acho um disco muito bem acabado. A capta\u00e7\u00e3o pode parecer lo-fi se voc\u00ea comparar com o \u201cSeis\u201d, que foi gravado em est\u00fadio, e talvez voc\u00ea tenha esse ouvido. Como ouvinte, n\u00e3o acho lo-fi.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Bruno: Acho um disco econ\u00f4mico. \u00c9 um disco de poucos elementos \u2013 o que \u00e9 um contraste enorme quando voc\u00ea pensa justamente no \u201cSeis\u201d, que j\u00e1 abre com os metais do Bocato. Parece que a inten\u00e7\u00e3o \u00e9 um di\u00e1logo ao p\u00e9 do ouvido. \u00c9 como encontrar uma turma de amigos e, num determinado momento, voc\u00ea chama um deles pra fumar um cigarro na porta.<\/strong><br \/>\nOlavo: Obrigado por essa defini\u00e7\u00e3o. Acho do caralho. \u00c9 exatamente isso (respira). Vamos falar da pandemia, vai. Antes da pandemia, o Caio [Monfort, guitarrista e violonista] decide sair da banda, em mais um dos movimentos incont\u00e1veis de entra-e-sai da banda. E todo mundo saiu muito na boa. S\u00e3o processos que se encerram. O Caio \u00e9 um querida\u00e7o, mas ele entendeu que tinha acabado o ciclo dele. Ali ficamos meio perdidos, batendo cabe\u00e7a\u2026 experimentamos algumas coisas, mas n\u00e3o definimos exatamente pra onde a gente ia e vem a pandemia. Nessa \u00e9poca, quem estava na banda era eu, o Patu e o Pep\u00ea [Sylvio Martins], que gravou a bateria do \u201cBreu\u201d com a gente. Nessa \u00e9poca, o Pep\u00ea tamb\u00e9m vai fazer outros rol\u00eas, a coisa d\u00e1 uma desorganizada e a\u00ed vem a pandemia. Nesse meio do caminho, eu tinha escrito duas letras novas, que n\u00e3o eram remanescentes do per\u00edodo anterior: \u201cCicatriz\u201d e \u201cCorrenteza\u201d. A primeira n\u00f3s lan\u00e7amos como um single em 2021. Era uma m\u00fasica sobre m\u00fasica, justamente uma m\u00fasica sobre parar de tocar. \u201cEu quero uma sa\u00edda, mas n\u00e3o posso responder \/ seria ainda vida a vida que eu levasse sem voc\u00ea?\u201d. Era uma dor declarada sobre esse assunto. E tinha \u201cCorrenteza\u201d, que era sobre a pandemia: \u201cafundando e ressurgindo mais adiante \/ respirando sempre menos que o bastante\u201d. Meu pai ficou meses numa UTI entubado. Mas eu n\u00e3o conseguia gravar a m\u00fasica por causa do meu velho. N\u00e3o consegui gravar naquela \u00e9poca. O barco precisou andar para eu poder avan\u00e7ar\u2026 tempos depois, eu terminei a letra, porque a letra n\u00e3o tinha refr\u00e3o, n\u00e3o tinha o \u201cque n\u00e3o t\u00e1 em chamas \/ t\u00e1 debaixo d\u2019\u00e1gua\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Bruno: Quando veio essa parte?<\/strong><br \/>\nOlavo: Veio um pouco em seguida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Bruno: \u00c9 muito doido isso. Na minha primeira audi\u00e7\u00e3o, saquei de cara que era uma m\u00fasica sobre 2024. Era sobre um Brasil que estava debaixo d\u2019\u00e1gua \u2013 o Rio Grande do Sul \u2013 ou est\u00e1 pegando fogo.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Marcelo: \u00c9 super premonit\u00f3rio.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Bruno: Foi engra\u00e7ado, porque quando o disco chegou, fui ouvir e n\u00e3o consegui nem avan\u00e7ar muito, porque fiquei preso nesse verso.<\/strong><br \/>\nOlavo: Pois \u00e9, mas isso \u00e9 de antes. \u00c9 de quando a gente come\u00e7ou a trabalhar o disco de novo com o Umberto. Deve ser em 2022, no final de 2022. Mas cara, essa letra est\u00e1 configurada. Ainda vamos viver isso ainda incont\u00e1veis vezes. Uma vez, eu estava indo para Uberl\u00e2ndia sem saber se ia encontrar meu pai vivo, quando ele estava internado. Passando ali por Ribeir\u00e3o Preto, tenho uma foto apocal\u00edptica. Era s\u00f3 fuma\u00e7a, cara. N\u00e3o dava para ver o Sol \u00e0s 3 da tarde, era s\u00f3 uma bolinha vermelha em meio a um monte de fuma\u00e7a. Serviu para 2020, servia para antes, serve para agora. \u201cNo cora\u00e7\u00e3o das trevas n\u00e3o existe tr\u00e9gua\u201d \u00e9 exatamente por isso: \u201cn\u00e3o vai ter boa\u201d. N\u00e3o estamos fazendo nenhum movimento relevante para ter boa daqui para frente. (risos nervosos).<\/p>\n<figure id=\"attachment_89101\" aria-describedby=\"caption-attachment-89101\" style=\"width: 750px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/lestics.bandcamp.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-89101 size-full\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/lestics1.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"829\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/lestics1.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/lestics1-271x300.jpg 271w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-89101\" class=\"wp-caption-text\"><em>A discografia completa do Lestics (at\u00e9 o momento)<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Marcelo: Nesse sentido, acho o \u201cBreu\u201d um disco pr\u00e9-pand\u00eamico bem mais afundado. Ainda que o \u201cBolero #9\u201d seja um retrato de pandemia, ele talvez n\u00e3o seja t\u00e3o denso quanto o \u201cBreu\u201d.<\/strong><br \/>\nOlavo: Sim. Tenho um jeito de escrever que tem isso a\u00ed. Eu gosto de contrapor [esse pessimismo] com algum senso de humor. Gosto que tenha uma gra\u00e7a, isso \u00e9 sinal de vida \u2013 e \u00e9 mais exato com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 nossa experi\u00eancia de viver. Preferencialmente, a gente chora e a gente ri. Eu tamb\u00e9m escrevia quadrinhos, n\u00e3o sou uma pessoa que n\u00e3o gosta de dar risada. Na verdade, gosto de acreditar que tenho um bom senso de humor e gosto de fazer palha\u00e7ada. Na minha escrita para a m\u00fasica, \u00e0s vezes consigo trazer isso de um jeito mais legal, mas \u00e0s vezes, como no \u201cBreu\u201d, \u00e9 um senso de humor muito peculiar \u2013 como na \u201cBalada do Fundo do Bar\u201d, aquela coisa do \u201cvoc\u00ea s\u00f3 reza pro cen\u00e1rio melhorar \/ eu s\u00f3 tor\u00e7o para que o gelo n\u00e3o acabe\u201d. O \u201cBreu\u201d \u00e9 mesmo um disco mais sombrio. No \u201cBolero #9\u201d, eu soltei mais a m\u00e3o: tem o tango, n\u00e9. \u201cElogio ao Desfibrilador\u201d \u00e9 uma palha\u00e7ada. Podia ser um quadrinho. Na verdade, escrevi sem saber pra onde aquela hist\u00f3ria ia. Fui escrevendo a letra sem fazer a menor ideia. T\u00e1, ela quase morre no infarto, mas por qu\u00ea? Fui indo, avan\u00e7ando, e quando achei o prot\u00e9tico argentino, me diverti. Ou \u201cDesculpe Qualquer Coisa\u201d, que eu chamo de \u201cBuster Keaton Song\u201d. \u201cSair correndo atr\u00e1s do trem, desce a corda pela janela\u201d, aquilo \u00e9 um filme mudo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Bruno: Quando a gente est\u00e1 no breu, o pr\u00f3ximo passo \u00e9 o olho se acostumar e enxergar luz em alguma coisa, por mais escuro que seja.<\/strong><br \/>\nOlavo: Acho que sim. Na verdade, trato de alguns temas que s\u00e3o razoavelmente superficiais. Tem uma letra da Dolores Fantasma que acho super exata: \u201cse voc\u00ea ainda quiser se aventurar nesse mergulho \/ aceite que vai ser pouco profundo e muito escuro\u201d. N\u00e3o acho que eu fa\u00e7a letras com profundidade. N\u00e3o ambiciono isso. Mas quando voc\u00ea olha pro escuro, n\u00e3o d\u00e1 pra saber qu\u00e3o profundo aquilo \u00e9. Saca? \u00c0s vezes, \u00e9 uma tapea\u00e7\u00e3o: minhas letras d\u00e3o impress\u00e3o de ter mais profundidade do que elas t\u00eam, porque elas lidam com coisas que s\u00e3o ruins, que t\u00eam uma escurid\u00e3o. N\u00e3o tenho problema em lidar com o lado escuro das coisas. \u00c9 uma parte importante da vida. O breu \u00e9 importante, mas n\u00e3o h\u00e1 s\u00f3 breu \u2013 e acho que o \u201cBolero #9\u201d tem bastante luz. Sempre fa\u00e7o m\u00fasica para a Dea [Andrea Tedesco, atriz e esposa de Olavo]. \u201cVoc\u00ea me faz sorrir \/ me tira para dan\u00e7ar \/ me obriga a ser feliz \/ quando tudo que eu queria era sofrer sem me cansar\u201d, de \u201cA Dan\u00e7a\u201d, \u00e9 a Dea. \u00c9 um fato da vida: \u00e0s vezes eu t\u00f4 meio ali, ela literalmente me tira para dan\u00e7ar, acho m\u00f3 bom, e \u00e9 luz. E isso vira m\u00fasica. Mas gosto mais quando a gente consegue ter essa dualidade mais evidente. N\u00e3o acho legal a coisa sombria, sombria e s\u00f3 sombria, sabe?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Marcelo: \u00c9 aquela piada que abre o \u201c<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2023\/04\/26\/filmografia-todo-o-cinema-de-woody-allen\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Annie Hall<\/a>\u201d: tem duas velhinhas falando da comida. Uma reclama que \u00e9 ruim, a outra fala que \u00e9 min\u00fascula. Ou seja, a vida \u00e9 uma merda, mas o problema \u00e9 que ela passa r\u00e1pido demais. Essa coisa absurda de acordar todo dia \u00e9 um desafio quase eterno. O Nick Cave tem o filme dele, \u201c<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2015\/10\/09\/video-quatro-documentarios-na-integra\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">20 mil dias sobre a terra<\/a>\u201d. \u00c9 dia pra cacete&#8230;<\/strong><br \/>\nOlavo: O Nick Cave \u00e9 um cara que tem o senso de humor dele tamb\u00e9m. Os caras que eu mais admiro t\u00eam isso: eles t\u00eam uma sombra importante, mas t\u00eam uma gra\u00e7a, nem que seja muito particular. Os escritores, os cineastas, os m\u00fasicos que gosto mais, eles t\u00eam um olhar para a sombra, mas no m\u00ednimo eles tiram uma onda disso. Obviamente, voc\u00ea faz o que voc\u00ea d\u00e1 conta. S\u00e3o afinidades eletivas: tem as refer\u00eancias, os artistas que voc\u00ea gosta. N\u00e3o \u00e9 se comparar com ningu\u00e9m, mas \u00e9 afinidade. Pedalo no que fa\u00e7o para, de algum jeito, tentar chegar perto do que esses caras fazem, ter essa complexidade. \u00c9 uma riqueza de possibilidades: n\u00e3o \u00e9 sobre profundidade, mas \u00e9 sobre riqueza de possibilidades.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Bruno: Como \u00e9 que o Umberto volta para a banda?<\/strong><br \/>\nOlavo: O Umbinha voltou porque a gente andou se cruzando e porque a gente nunca se afastou. N\u00f3s nos falamos menos com os anos, mas sempre estivemos em contato.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Marcelo: Voc\u00ea o conhece desde quando?<\/strong><br \/>\nOlavo: Desde 1995, por a\u00ed. O <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2016\/09\/28\/tres-perguntas-os-gianoukas-papoulas\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Gianoukas<\/a> faz 30 anos esse ano. N\u00f3s demoramos muito para gravar o primeiro EP oficial, mas j\u00e1 t\u00ednhamos umas fitas, umas coisas assim, e faz\u00edamos muito show, toc\u00e1vamos muito ao vivo. O Gianoukas come\u00e7ou, da\u00ed a pouco o Umbinha era conhecido de adolesc\u00eancia do Luiz [Miranda, guitarrista], e ele veio pro Gianoukas em 1995 ou 1996. N\u00e3o tenho bem essa timeline.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Bruno: N\u00e3o tem disco pra saber a linha do tempo\u2026<\/strong><br \/>\nOlavo: Tem que procurar nas fitas! Mas a gente se conhece desde ent\u00e3o e tinha muita afinidade musical. O Gianoukas andou, andou, e n\u00f3s resolvemos fazer um primeiro disco juntos, que a gente nem sabia que era Lestics. Chamamos os caras do Gianoukas para fazer, mas a banda estava meio dispersa na \u00e9poca e o Lestics virou Lestics porque o Gianoukas estava disperso. Fizemos os discos juntos, ele foi embora, mas um dia a gente se encontrou, j\u00e1 depois da pandemia. Cheguei at\u00e9 a falar para o Patu: \u201ccara, eu t\u00f4 tendo umas conversas com o Umberto e t\u00f4 achando que ele est\u00e1 querendo colar de novo. Vou dar uma tacada para ver se ele encara\u201d. Quis ir meio light, mas quis tentar. Tanto o Patu quanto o Umberto t\u00eam filhos pequenos. \u00c9 dif\u00edcil ter tempo para poder parar, fazer um disco, arranjar, d\u00e1 m\u00f3 trampo. \u00c9 aquilo: voc\u00ea trabalha, se tem tempo de folga com filho pequeno, \u00e9 dif\u00edcil disponibilizar tempo para isso. \u201cN\u00e3o, Umbinha, vamos light, no seu tempo\u201d, falei. Ele olhou meio torto pra mim, jurei que n\u00e3o ia ficar apertando ele. Decidimos ir na boa, e o disco demorou pra ser gravado. Come\u00e7amos o processo no come\u00e7o de 2023 e fiquei me segurando para n\u00e3o apavorar. Na verdade, o processo foi longo, mas o disco foi gravado r\u00e1pido.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Marcelo: Demora no seu mundo, n\u00e9, porque na escala \u201cChinese Democracy\u201d \u00e9 r\u00e1pido (risos).<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Bruno: P\u00f4, mas s\u00e3o seis anos entre o \u201cBreu\u201d e o \u201cBolero #9\u201d.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Marcelo: Mas quando voc\u00ea come\u00e7a o processo, um ano\u2026<\/strong><br \/>\nOlavo: Um ano e meio n\u00e3o \u00e9 tanto, na real. N\u00f3s faz\u00edamos as coisas r\u00e1pido: era chegar l\u00e1 em S\u00e3o Roque, tocar e chutar pro gol. \u00c9 isso, sabe? Poucas coisas ficaram sendo redesenhadas, mas basicamente a gente chegava, fazia e boa. \u00c9 um disco que foi gravado razoavelmente r\u00e1pido. As horas dedicadas para isso n\u00e3o foram muitas, dentro do per\u00edodo de um ano e meio que ele levou. Mas sim, havia esse gap grande de seis anos entre um disco e outro, que, felizmente para mim, foi intercalado com dois discos da Dolores Fantasma, em que eu pude colocar energia para fazer outras coisas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Marcelo: \u201cElogio ao Desfibrilador\u201d \u00e9 um tango. O disco tem bolero no nome. \u00c9 um n\u00edtido \u00e1lbum de influ\u00eancia argentina. De onde vem isso? Quadrinhos, cinema, m\u00fasica\u2026<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Bruno: \u2026voc\u00ea foi pra Buenos Aires?<\/strong><br \/>\nOlavo: Cara, at\u00e9 fui pra Buenos Aires, mas o disco j\u00e1 estava sendo feito (risos). O prot\u00e9tico argentino \u00e9 de antes da viagem, por exemplo. A verdade \u00e9 que manjo pouco de m\u00fasica argentina, de m\u00fasica latina. Algumas coisas eu gosto bastante, mas n\u00e3o sou um conhecedor. Sempre fico pagando pau porque acho importante: tem coisas legais rolando que eu acompanho via Scream &amp; Yell e acompanhava via Fernando Rosa, mas fui pouco capturado por esses sons. Tem l\u00e1 uns <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2013\/07\/12\/entrevista-los-tres\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Los Tres<\/a> da vida\u2026<\/p>\n<figure id=\"attachment_89104\" aria-describedby=\"caption-attachment-89104\" style=\"width: 750px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-89104\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/Bolero9-_-Capa-copiar.png\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"750\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/Bolero9-_-Capa-copiar.png 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/Bolero9-_-Capa-copiar-300x300.png 300w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/Bolero9-_-Capa-copiar-150x150.png 150w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-89104\" class=\"wp-caption-text\"><em>Capa de &#8220;Bolero #9&#8221;, o disco mais recente do Lestics<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Bruno: \u00c9 engra\u00e7ado porque, no <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/programadeindie\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Programa de Indie<\/a>, tocamos \u201cCicatriz\u201d dobrando com \u201cViernes 3AM\u201d, do Charly Garc\u00eda.<\/strong><br \/>\nOlavo: Ent\u00e3o, <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2024\/06\/06\/os-40-anos-do-album-piano-bar-a-consolidacao-de-charly-garcia-como-lenda\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Charly Garc\u00eda<\/a> eu ouvi pouco, mas n\u00e3o manjo, <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2023\/11\/01\/discografia-comentada-todos-os-discos-do-soda-stereo\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Soda Stereo<\/a> conhe\u00e7o pouco, uns <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2013\/02\/27\/entrevista-cafe-tacvba\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Caf\u00e9 Tacvba<\/a> da vida, ouvi o Los Fabulosos Cadillacs, mas n\u00e3o manjo. E \u00e9 engra\u00e7ado que cinema argentino tamb\u00e9m n\u00e3o manjo. Conhe\u00e7o s\u00f3 as coisas que chegam para absolutamente todo mundo, apesar de amar cinema e saber que tem uma produ\u00e7\u00e3o interessante l\u00e1. O lance do bolero, do tango, na real, \u00e9 porque acho divertid\u00edssimo. Adoro tango, n\u00e3o manjo muito, ou\u00e7o as coisas mais \u00f3bvias, mas a coisa que mais me interessava era a m\u00fasica velha. O tango como m\u00fasica velha, o bolero meio lounge music, o meu interesse ali era lidar com \u201cformas ultrapassadas\u201d, que n\u00e3o s\u00e3o mais mainstream. Ainda tem gente fazendo tango, assim como tem gente fazendo rock, mas s\u00e3o linguagens musicais que j\u00e1 tiveram seu auge e passaram. Tem um neg\u00f3cio que acho legal de explorar nessa recupera\u00e7\u00e3o e nessa provoca\u00e7\u00e3o de que o rock tamb\u00e9m \u00e9 um bolero. J\u00e1 foi o tempo do rock. A matriz do que a gente faz basicamente \u00e9 rock, se precisar dar um nome para a coisa. \u00c9 um som que o auge j\u00e1 passou faz um tempo, n\u00e3o \u00e9 um som que est\u00e1 rolando. Ent\u00e3o por que n\u00e3o meter um tango na hist\u00f3ria, brincando com essa falta de validade do som que a gente est\u00e1 fazendo? N\u00e3o sei se estou falando bosta, inventei agora a explica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Bruno: Eu gosto da provoca\u00e7\u00e3o.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Marcelo: Nem acho que \u00e9 provoca\u00e7\u00e3o, por mais que possa ter surgido como provoca\u00e7\u00e3o. Passei o dia todo pensando nisso. Participei de um debate esses tempos sobre a nova m\u00fasica brasileira. O que raios \u00e9 a nova m\u00fasica brasileira? Talvez n\u00e3o exista nada mais novo. E a\u00ed lembrei de uma <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2010\/04\/01\/entrevista-do-mes-romulo-froes\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">conversa com o R\u00f4mulo Fr\u00f3es<\/a>, que diz que quando ele lan\u00e7a um disco hoje, ele n\u00e3o compete s\u00f3 com quem est\u00e1 lan\u00e7ando disco no mesmo dia, mas com Batatinha, com Pixinguinha\u2026 Quem vai ouvir o R\u00f4mulo n\u00e3o tem s\u00f3 aquele disco pra ouvir, tem o mundo. Paralelamente a tudo isso, tem gente que n\u00e3o conhece Elis Regina, provavelmente. E a gente pode at\u00e9 duvidar, mas o cara do Interpol fala que nunca tinha ouvido Joy Division antes de ter a banda.<\/strong><br \/>\nOlavo: Acredita quem quer. (risos).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Marcelo: Naquela \u00e9poca, eu achava dif\u00edcil. Hoje, acho totalmente plaus\u00edvel algu\u00e9m falar que n\u00e3o conhece Beatles.<\/strong><br \/>\nOlavo: Super.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Marcelo: Mas paralelamente, eu vejo isso no jornalismo dos anos 1980 ou 1990, que parecia que a eletr\u00f4nica era o pr\u00f3ximo passo. Quando chega o sampler e as baterias eletr\u00f4nicas, os discos acabam ficando datados, todo mundo fez merda naquela \u00e9poca, mas para a cr\u00edtica era o pr\u00f3ximo passo. E a\u00ed a gente chega no \u00e1pice com o pessoal do final dos anos 1990, <a href=\"https:\/\/www.screamyell.com.br\/outros\/macsete.htm\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">come\u00e7o dos 2000<\/a>, Flaming Lips, Mercury Rev, Spiritualized, Radiohead. \u00c9 claro que existe o novo de gente que est\u00e1 compondo agora, mas \u00e9 at\u00e9 injusto olhar para um garoto e falar que ele est\u00e1 no pa\u00eds de Tom Jobim, Jo\u00e3o Gilberto, Caetano, Chico, Renato Russo. Quando voc\u00ea fala que olha para estilos velhos, eu acho interessante porque \u00e9 dif\u00edcil pensar em fazer um estilo novo.<\/strong><br \/>\nOlavo: \u00c9 porque n\u00e3o tem novo e n\u00e3o tem velho. Chegamos num certo lugar em que \u00e9 preciso mudar um pouco o paradigma. \u00c9 um lugar em que n\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o tem novo, como n\u00e3o tem velho: tudo soa contempor\u00e2neo. Se voc\u00ea vai ouvir Charlie Patton \u2013 e eu ainda vou fazer um disco soando que nem Charlie Patton, que \u00e9 essa tosqueira que a gente fala \u2013, \u00e9 novo o suficiente. A coisa ficou meio chapada. Essa hiper disponibilidade e esse hiper acesso \u00e0 informa\u00e7\u00e3o equalizou tudo. N\u00e3o \u00e9 que tudo se equivale, mas a percep\u00e7\u00e3o do que \u00e9 velho ou novo foi pras cucuias. Quanto tempo faz que a gente ouve bandas novas fazendo p\u00f3s-punk? P\u00f4, vai ouvir Mission of Burma e soa igual. Posso ouvir o Fontaines DC ou ouvir o Mission of Burma. As possibilidades de escape \u2013 que \u00e9 de m\u00fasica n\u00e3o pop \u2013 tamb\u00e9m soam novas pra caralho. Adoro o programa do Jos\u00e9 J\u00falio do Esp\u00edrito Santo (<a href=\"https:\/\/www.mixcloud.com\/NTRFRZ\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">NTRFRNZ<\/a>): ali sempre tem coisa boa pra caralho rolando, sempre muito pouco convencional, mas n\u00e3o soam novas. N\u00e3o \u00e9 defeito de fabrica\u00e7\u00e3o: \u00e9 que n\u00e3o d\u00e1 mais para soar novo. \u00c9 um papo de gente velha. N\u00e3o estou interessado nas coisas velhas, estou interessado nas coisas contempor\u00e2neas, mas preciso admitir isso. Estou adorando o disco do English Teacher, que \u00e9 uma gracinha. Mas ele soa antigo! E tudo bem! Esse desafio \u00e9 uma mudan\u00e7a de paradigma para quem faz, para quem ouve e para quem pensa ou escreve a respeito. A ideia de que precisa do novo, \u00e9 uma ideia de progresso, que a gente comprou em algum momento. \u00c9 um paradigma que a gente comprou e ficou com uma mercadoria na m\u00e3o tentando saber o que fazer. \u00c9 algo que n\u00e3o serve mais pra mim, pelo menos. Herdamos uma s\u00e9rie de no\u00e7\u00f5es que n\u00e3o fazem sentido mais e tentar atochar essas pe\u00e7as num mundo em que elas n\u00e3o funcionam mais n\u00e3o adianta. Sou mais algu\u00e9m que ouve do que faz m\u00fasica. Quando n\u00e3o estou escrevendo, estou ouvindo m\u00fasica, coisas novas e coisas velhas, passando por peneiras e criando meus desafios. Ando ouvindo muito a Julia Holter, que oferece algum desafio para a audi\u00e7\u00e3o. Crescemos na mesma \u00e9poca, Marcelo, querendo ouvir a pr\u00f3xima coisa nova, algo que vai nos dar uma rasteira. Fomos mais ou menos bem enganados at\u00e9 um ponto em que a produ\u00e7\u00e3o musical ficou superabundante \u2013 que sempre existiu, mas a gente n\u00e3o tinha acesso. Na verdade, os meios de produ\u00e7\u00e3o de m\u00fasica se democratizaram muito, ent\u00e3o o volume aumentou muito, mas a gente j\u00e1 n\u00e3o conseguia ouvir tudo que existia em 1980, 1985, 1990. Tinha muita coisa sendo feita. N\u00f3s t\u00ednhamos impress\u00e3o que a gente sacava tudo, mas n\u00e3o sac\u00e1vamos porra nenhuma, s\u00f3 uma fra\u00e7\u00e3o rid\u00edcula. Era uma bolha. Agora a gente caiu na real. Gosto de me relacionar com o que \u00e9 feito no meu tempo, claro. Mas como algu\u00e9m que comp\u00f5e, perder esse paradigma \u00e9 libertador: nenhuma banda minha tentou ser inovadora ou estabelecer uma linguagem. Sempre quisemos ter identidade. Acredito que conseguimos isso tanto com o Gianoukas, quanto com o Lestics e com a Dolores Fantasma. N\u00e3o \u00e9 novo, mas n\u00e3o \u00e9 gen\u00e9rico. N\u00e3o queremos ser gen\u00e9ricos, nem ser banais. N\u00e3o precisa ser profundo, mas n\u00e3o precisa ser banal. Em algum lugar, l\u00e1 no fundo, um bichinho que foi inoculado em mim quando eu era moleque, sempre me diz: \u201cfoda mesmo \u00e9 quem faz um neg\u00f3cio muito novo\u201d. (risos). E obviamente tem um Jorge Ben, tem um Jo\u00e3o Gilberto, tem um Chico Science\u2026 e n\u00e3o sou nenhum Jorge Ben, mas dou minhas cacetadas com a minha identidade. Nunca fizemos m\u00fasica tentando soar assim ou assado, nos parametrando. Talvez individualmente, quando o Patu faz um baixo ou quando fa\u00e7o uma melodia vocal, voc\u00ea pode ter uma refer\u00eancia, mas a gente n\u00e3o tenta fazer isso junto. E quando junta, a coisa bagun\u00e7a e vira uma coisa com identidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Marcelo: Mas h\u00e1 um molde. E quando falo de molde, falo dessa ideia que o disco soasse velho.<\/strong><br \/>\nOlavo: E a\u00ed ele soa diferente, mas voc\u00ea sai de um lugar e vai andando at\u00e9 chegar em outro lugar. Se der tudo certo, a gente gosta tamb\u00e9m desse outro lugar. No \u201cBolero #9\u201d, eu queria muito isso que voc\u00eas falaram: \u201ccola aqui\u201d, o jeito de cantar, falando coisas muito ruins, muito ruins, mas com uma do\u00e7ura, imprimindo alguma beleza naquele horror. Beleza mesmo, vamos usar essa palavra. \u201cCorrenteza\u201d \u00e9 um horror, mas eu queria cantar. \u00c9 como contar um neg\u00f3cio muito ruim, mas eu vou cantar docemente pra voc\u00ea. (respira fundo)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Bruno: \u00c9 falar \u201ccoisas belas e et\u00e9reas\u201d.<\/strong><br \/>\nOlavo: \u00c9. \u201cCorrenteza\u201d \u00e9 uma m\u00fasica que eu ligo muito com o meu pai. Perdi o meu velho faz pouco mais de um ano. \u00c9 um baque. \u00c9 muito foda, muito do\u00eddo. Durante a pandemia eu viajei algumas vezes para Uberl\u00e2ndia sem saber se eu ia chegar l\u00e1 e meu pai ia estar vivo. Eu viajava, chorando, sozinho, e achava que aquilo era uma ante-sala dessa perda. Que, de algum jeito, eu tinha me avizinhado da morte dele. Mas quando meu pai foi embora, eu n\u00e3o sabia, eu n\u00e3o tinha ideia, n\u00e3o tinha no\u00e7\u00e3o. Acho que \u00e9 um fato da vida, tudo certo, e eu gosto de lembrar dele, gosto de sonhar e chorar pensando nele. Acho que ele ia achar OK, faz parte da vida essa dor, esse luto. N\u00e3o d\u00e1 pra gente se poupar disso, nem se resguardar. N\u00e3o faz sentido. Racionalmente e n\u00e3o racionalmente, procuro lidar com essa l\u00f3gica de que \u00e9 algo da vida. E de entender a sorte de ter um ciclo assim: algu\u00e9m nasceu, passou por perrengues, encontrou pessoas, viveu com as pessoas. Ainda me incomoda um pouco o fato dele ter morrido com sequelas da covid-19. E tem um lance importante aqui: n\u00f3s falamos muito na \u00e9poca, parece que o tema saturou um pouco e o barco andou, mas n\u00e3o d\u00e1 para tratar a pandemia de maneira leviana.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Marcelo: De maneira alguma.<\/strong><br \/>\nOlavo: Tem uma quest\u00e3o pol\u00edtica importante pra caralho vinculada ao que aconteceu no Pa\u00eds durante esse per\u00edodo, que precisa sempre ser endere\u00e7ada, sempre ser lembrada. N\u00f3s pagamos os pre\u00e7os de termos um governo negacionista, criminosamente negacionista, e continuamos pagando esses pre\u00e7os psicol\u00f3gicos, estruturais para o pa\u00eds, importantes. Mas \u00e0s vezes parece que \u201cbeleza, passou\u201d. Passou o caralho. Ainda vamos pagar um pre\u00e7o disso por muito tempo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Marcelo: A minha hist\u00f3ria com o meu pai \u00e9 o inverso da sua. Quando meu pai falou que ia votar no Bolsonaro, eu o bloqueei. J\u00e1 n\u00e3o t\u00ednhamos uma rela\u00e7\u00e3o pr\u00f3xima, uma centena de traumas, mas havia amor \u2013 e h\u00e1. N\u00e3o sigo ele, mas de vez em quando ele comenta alguma coisa. Na \u00e9poca, falei que ele estava colocando a minha vida em risco. Sou pai com filho pequeno, n\u00e3o sei o que esse cara [Bolsonaro] ia fazer no governo. Ele podia querer me matar.<\/strong><br \/>\nOlavo: Essa tamb\u00e9m \u00e9 uma quest\u00e3o que precisa voltar para a pauta. Tinha uma galera que \u201cestava na fila\u201d para tomar tiro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Marcelo: Tem a hist\u00f3ria de que o Bolsonaro falou que para o Brasil ter dado certo, \u201ctinha que ter matado 30 mil\u201d. \u00c9 uma fala dele mesmo. E o Ant\u00f4nio Prata escreveu: \u201cSe fosse 3 mil, 5 mil, talvez n\u00e3o chegasse em mim. Mas 30 mil? Como eu n\u00e3o ia estar no pared\u00e3o?\u201d Dessa forma, quem votou no Bolsonaro colocou o meu na reta. \u00c9 inaceit\u00e1vel para mim. E vindo do meu pai, sobretudo: n\u00e3o aceito colocar a minha vida ou a vida do meu filho em risco.<\/strong><br \/>\nOlavo: E como \u00e9 que a gente faz com esse n\u00f3?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Marcelo: Acho indissoci\u00e1vel. Meu primeiro trabalho foi numa biblioteca de Direito, em 1992. Todas as discuss\u00f5es sobre os problemas do Brasil que rolavam l\u00e1 terminavam em educa\u00e7\u00e3o. Esse pa\u00eds s\u00f3 vai para a frente quando as pessoas tiverem acesso \u00e0 educa\u00e7\u00e3o de uma maneira real.<\/strong><br \/>\nOlavo: Essa \u00e9 a sua utopia. A gente precisa de alguma utopia. E\u00a0a utopia da educa\u00e7\u00e3o \u00e9 uma boa utopia. Embora se precise entender qual \u00e9 a educa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Bruno: \u00c9 engra\u00e7ado voc\u00ea falar isso. Recentemente eu entrevistei uma especialista em educa\u00e7\u00e3o, e fizemos um balan\u00e7o dos \u00faltimos 30 anos. Ela passou mais de meia hora falando mal da educa\u00e7\u00e3o. Mas no final, ela lembra que nos anos 1990 era muito pior. E eu vejo isso na fam\u00edlia: minha m\u00e3e d\u00e1 aula em escola particular e s\u00f3 reclama. O clima na sala de aula piorou, a permissividade dos alunos. Mas existem conquistas nesses 30 anos \u2013 do Plano Real, de tudo que o Lula fez. A educa\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m melhorou. Mas quando a gente pensa no futuro, parece que n\u00e3o funciona bem assim<\/strong><br \/>\nOlavo: Chegamos nesse lugar. Qual \u00e9 a educa\u00e7\u00e3o que a gente quer? H\u00e1 uma crise de paradigmas na educa\u00e7\u00e3o. \u00c9 preciso entrar em crise do que se entende como educa\u00e7\u00e3o, para, utopicamente, andar para frente. A educa\u00e7\u00e3o como a gente conhece e entende \u00e9 estruturada de uma forma que vai fazer cada vez menos sentido. As habilidades, os valores que est\u00e3o na estrutura da educa\u00e7\u00e3o s\u00e3o valores ultrapassados, que precisam ser substitu\u00eddos, o conte\u00fado precisa ser reavaliado. Eu super concordo com voc\u00ea: sem educa\u00e7\u00e3o, n\u00e3o vai. Mas qual educa\u00e7\u00e3o? Essa que est\u00e1 a\u00ed n\u00e3o vai rolar.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Lestics - G\u00eanio (Ao vivo no Sesc Consola\u00e7\u00e3o 18\/01\/2011)\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/7S8_pxRUPKw?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Bruno: Hoje voc\u00ea mudaria o verso de \u201cShakespeare e os gregos j\u00e1 disseram tudo antes?\u201d (frase da can\u00e7\u00e3o &#8220;G\u00eanio&#8221;).<\/strong><br \/>\nOlavo: (risos). Super mudaria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Bruno: A m\u00fasica n\u00e3o \u00e9 sobre isso, n\u00e9.<\/strong><br \/>\nOlavo: Mas a piada \u00e9 \u00f3tima! \u00c9 um clichez\u00e3o, mas vou lan\u00e7ar mesmo assim: aprender \u00e9 aprender sobre a vastid\u00e3o da sua ignor\u00e2ncia. Admiro quem quer dar o pr\u00f3ximo passo e aprender um pouco mais, mesmo conformado que a ignor\u00e2ncia n\u00e3o \u00e9 ultrapass\u00e1vel e que a gente vai morrer sem saber porra nenhuma. A quest\u00e3o \u00e9 que, no processo, voc\u00ea se diverte e se tudo der certo, voc\u00ea se torna algu\u00e9m um pouco menos tosco. Al\u00e9m de ter a oportunidade de perceber como a gente vive aprisionado em f\u00f3rmulas, em amarras, em modelos. \u201cAh, mas o que acontece se eu sair do modelo?\u201d. N\u00e3o sei, mas deixa eu pensar para al\u00e9m desse modelo t\u00e3o pr\u00e9-fabricado que a gente aceita confortavelmente. \u00c0s vezes a gente passa muita vergonha, fala muita bosta, critica o outro na ignor\u00e2ncia. \u00c0s vezes algu\u00e9m pode falar um clich\u00ea, mas \u00e9 um clich\u00ea que tem a ver. Shakespeare e os gregos disseram coisas excelentes (risos), muito mais do que eu poderia ambicionar falar\u2026 mas a coisa vai muito al\u00e9m. \u00c9 legal tentar, de novo, dentro da nossa inescap\u00e1vel ignor\u00e2ncia, tentar ser um pouco menos tosco. Faz bem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Marcelo: Quando a gente estava falando de todos os desastres cotidianos, lembrei que <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?s=Haneke\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">abro todos os meus textos sobre Michael Haneke<\/a> falando que se o mundo fosse perfeito, n\u00e3o existiria Haneke. Por outro lado, ele s\u00f3 existe porque o mundo \u00e9 essa merda \u2013 e Haneke vai existir durante muito tempo porque estamos cada vez mais longe da chance de melhorar. Dito isso: quantos discos o Lestics tem pela frente?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Olavo: Eu tinha uma marca que em algum momento eu quis chegar. Tenho muita dificuldade com quest\u00f5es m\u00edsticas, tendo a ser mais materialista, pouco m\u00edstico, tamb\u00e9m diante da aceita\u00e7\u00e3o de que o transcendente \u00e9 transcendente demais. Mas tem uma coisa que acho muito divertida, que s\u00e3o os n\u00fameros. Uma das grandes ignor\u00e2ncias que eu tenho \u00e9 sobre Matem\u00e1tica \u2013 essa linguagem que a gente descobriu, que parece exterior \u00e0 gente, que opera alheia \u00e0 l\u00f3gica humana. Onde a gente capturou essa possibilidade de organizar e comunicar determinados valores? A Matem\u00e1tica \u00e9 um neg\u00f3cio interessant\u00edssimo e acho divertido brincar com a ideia de n\u00fameros. Tenho o 13 como um n\u00famero muito divertido. 13 \u00e9 um dia que eu gosto muito. Fiquei com a Dea num 13 de agosto \u2013 \u00e9 a data mais improv\u00e1vel do mundo, n\u00e9? E eu queria chegar no 13\u00ba disco, que foi o \u201cDF2\u201d, da Dolores Fantasma. Em algum momento, olhei e pensei: \u201cp\u00f4, cara, acho que eu podia parar de fazer disco agora, podia largar m\u00e3o de fazer esta merda\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Bruno: \u00c9 engra\u00e7ado voc\u00ea falar isso, porque eu lembro dessa conversa, mas de um jeito mais pessimista. Durante a pandemia, no Twitter, lembro que voc\u00ea falava que dava tanto trabalho fazer disco que n\u00e3o ia fazer mais \u2013 e eu respondia enchendo o saco pra fazer, claro.<\/strong><br \/>\nOlavo: \u00c9 sofrido, d\u00e1 trabalho pra caralho, mas \u00e9 gostoso. E acabei fazendo mais discos: tem o \u201cBolero #9\u201d e tamb\u00e9m um disco pendurado do Gianoukas Papoulas que quero fazer. N\u00e3o quero mais fazer, mas provavelmente ainda vou ficar fazendo disco. Na hora H, acabo fazendo. Eu n\u00e3o me programo. Se eu pudesse parar de fazer, parava \u2013 de verdade! Quando puder parar, vou parar, sem a menor d\u00favida. At\u00e9 porque antes de ser algu\u00e9m que faz m\u00fasica, sou algu\u00e9m que ouve m\u00fasica. Gosto muito de ouvir m\u00fasica, gosto muito de ler, de ver filmes. Gosto muito de ir ao teatro. Tem coisas do caralho sendo feitas no teatro. Tenho a impress\u00e3o que eu podia viver feliz s\u00f3 recebendo, \u201cmanda pra dentro\u201d. Mas n\u00e3o consegui essa paz ainda.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Marcelo: Esses dias eu estava lendo o \u201c<a href=\"https:\/\/www.terrenoestranho.com.br\/pagina-de-produto\/f%C3%A9-esperan%C3%A7a-e-carnificina\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">F\u00e9, Esperan\u00e7a e Carnificina<\/a>\u201d, do Nick Cave, e em determinado trecho ele diz que n\u00e3o queria mais compor. Ele reclama que nunca tem m\u00fasica pronta quando marca para gravar o disco, bate p\u00e2nico, d\u00e1 tremedeira. Ele at\u00e9 tem milh\u00f5es de anota\u00e7\u00f5es, mas n\u00e3o tem nada. Mas, diz ele, que quando ele v\u00ea, a m\u00fasica estava ali e essa m\u00fasica trouxe mais umas quatro ou cinco\u2026 e a\u00ed surge um disco. Parece a coisa mais f\u00e1cil do mundo, mas n\u00e3o \u00e9.<\/strong><br \/>\nOlavo: \u00c9 uma merda, mas \u00e9 gostoso escrever.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Marcelo: Gosto de escrever. Mas n\u00e3o acho que seja necess\u00e1rio. Acho que tem gente muito melhor do que eu \u2013 mas se parasse agora, eu ia sentir falta, uns cinco ou seis iam sentir falta\u2026<\/strong><br \/>\nOlavo: Vai ter uma galera que vai sentir falta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Marcelo: \u2026mas vai passar uns tr\u00eas ou quatro meses e ningu\u00e9m vai sentir mais falta.<\/strong><br \/>\nOlavo: A quest\u00e3o \u00e9 que n\u00e3o tem ningu\u00e9m pedindo para eu fazer m\u00fasica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Marcelo: A quest\u00e3o \u00e9 que eu gosto de me ler (risos).<\/strong><br \/>\nOlavo: \u00c9 legal! (risos). Quem fala isso tamb\u00e9m \u00e9 o Thomas Pappon. Ele uma vez escreveu no Facebook dizendo que faz disco porque gosta de ouvir os discos em casa. De alguma maneira, a ideia existiu em v\u00e1rios est\u00e1gios. Mas fico pensando se o Nick Cave ouve os discos dele em casa, porque tem artista que ouve e artista que n\u00e3o ouve. Thomas Pappon \u00e9 um que eu sei que ouve. O Scott Walker faz o oposto: \u201cmal acabei de gravar, nunca mais quero ouvir isso na minha vida\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Bruno: A Clarice Lispector tinha isso.<\/strong><br \/>\nOlavo: O Woody Allen diz que n\u00e3o v\u00ea de novo os filmes que fez.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Marcelo: O Woody Allen (novamente) tem uma coisa pior, que \u00e9 a quest\u00e3o do processo. Ele acha que o filme \u00e9 a ideia, e tudo entre a ideia e o filme pronto tende a diminuir o brilho dessa ideia . Ent\u00e3o se ele est\u00e1 selecionando o elenco e percebe que selecionou errado, ele acha que o filme j\u00e1 era. Ele at\u00e9 termina o filme, mas d\u00e1 pra perceber que ele largou l\u00e1 atr\u00e1s. <a href=\"https:\/\/www.screamyell.com.br\/blog\/?s=GODARD\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Tem uma entrevista do [Jean-Luc] Godard com ele<\/a>, em que o Godard at\u00e9 argumenta: \u201cna sala de edi\u00e7\u00e3o voc\u00ea conserta tudo\u201d. E o Woody diz que n\u00e3o: pra ele, o filme j\u00e1 est\u00e1 condenado&#8230;<\/strong><br \/>\nOlavo: Quem \u00e9 o cara da Nova Hollywood que entrou numa pira que resolveria tudo na edi\u00e7\u00e3o? Era o [Peter] Bogdanovich? Ele entrou numa viagem dessa\u2026 e a\u00ed bateu uma certa arrog\u00e2ncia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Bruno: Deve ser o Bogdanovich ou o Hal Ashby, que tamb\u00e9m era maluco da edi\u00e7\u00e3o.<\/strong><br \/>\nOlavo: E a\u00ed tem uma hora que cai a casa total!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Marcelo: O Coppola fez v\u00e1rios assim! O Coppola deu muita sorte.<\/strong><br \/>\nOlavo: N\u00e3o existe sorte, vai.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Marcelo: \u201cApocalypse Now\u201d \u00e9 um puta acaso. Aquilo tudo n\u00e3o deveria existir. Na cabe\u00e7a dele deveria ser algo maior, mas ele juntou o que tinha e ficou espetacular.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Bruno: Tem o document\u00e1rio da Eleanor Coppola, \u201c<a href=\"https:\/\/mubi.com\/pt\/br\/films\/hearts-of-darkness-a-filmmakers-apocalypse\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Hearts of Darkness<\/a>\u201d, que \u00e9 maravilhoso. Todo mundo enlouqueceu ali, mas ela filma os bastidores de como o filme \u00e9 feito \u2013 e \u00e9 lindo de t\u00e3o ca\u00f3tico.<\/strong><br \/>\nOlavo: Todo mundo completamente alucinado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Marcelo: N\u00e3o tinha como dar certo, mas deu. \u00c9 muito surreal. Essa coisa do processo \u00e9 muito maluca. Numa gest\u00e3o pequena, como voc\u00ea, Patu e Umbinha, a coisa j\u00e1 foge do controle.<\/strong><br \/>\nOlavo: Mas voc\u00ea tem uma confian\u00e7a nas outras pessoas. Voc\u00ea sabe que de algum jeito vai chegar em algum lugar. E por falar em sorte, porque sem sorte voc\u00ea n\u00e3o atravessa nem a rua, tive muita sorte na verdade. Sorte \u00e9 encontrar as pessoas. \u00c0s vezes, a gente acha que \u00e9 assim (estala os dedos), que isso \u00e9 normal, e voc\u00ea n\u00e3o d\u00e1 o devido valor para esse fato de encontrar algu\u00e9m. N\u00e3o d\u00e1 o devido valor para o fato de que algu\u00e9m cruzou sua vida em determinado momento e caminhou dez metros, um quil\u00f4metro, uma vida juntos. Aconteceu muito pouco uma \u201cperturba\u00e7\u00e3o na for\u00e7a\u201d na minha hist\u00f3ria com m\u00fasica. Aconteceu raramente que alguma coisa n\u00e3o flu\u00edsse. Voc\u00ea at\u00e9 leva um susto de que pode n\u00e3o rolar, n\u00e9? Pode acontecer de n\u00e3o dar certo, de n\u00e3o rolar. E tem gente que passa a vida tentando encontrar seus pares e n\u00e3o flui. Tem gente que n\u00e3o tem a sorte de achar os seus pares. Na real, a possibilidade de dar errado \u00e9 maior. Por isso que eu falo de sorte. A gente n\u00e3o pode tratar com desd\u00e9m essa sorte que voc\u00ea deu na vida de estar com as pessoas.<\/p>\n<figure id=\"attachment_89103\" aria-describedby=\"caption-attachment-89103\" style=\"width: 750px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-89103 size-full\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/lestics2012.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"487\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/lestics2012.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/lestics2012-300x195.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-89103\" class=\"wp-caption-text\"><em>Lestics em 2012: Marcelo Patu, Umberto Serpieri, Olavo Rocha e Marcos \u2018Xuxa\u2019<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Marcelo: Nessa coisa de sorte\u2026 quando \u00e9 que o Patu entra na sua hist\u00f3ria musical?<\/strong><br \/>\nOlavo: Eu conhecia o Patu muito superficialmente porque ele chegou a tocar com o meu cunhado. Ele tinha uma banda, bem quando conheci a Dea, e sabia que ele tinha um gosto musical parecido, tinha uns discos parecidos. Isso \u00e9 fundamental, n\u00e9? Isso \u00e9 2000 e pouco, eu estava s\u00f3 no Gianoukas. A\u00ed veio o lance do Lestics, fizemos os dois primeiros discos \u2013 o \u201c9 Sonhos\u201d e o \u201cLes Tics\u201d \u2013 bizarramente r\u00e1pido, sem ter banda. S\u00f3 eu e o Umbinha num cub\u00edculo fazendo os discos. E a\u00ed voc\u00ea, Marcelo, tem uma participa\u00e7\u00e3o importante nessa hist\u00f3ria: <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2007\/11\/23\/dois-discos-para-voce-baixar-agora\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">voc\u00ea publicou uma resenha muito legal<\/a> sobre os dois discos do Lestics. E aquilo, de algum jeito, foi um detonador para outras pessoas, outros jornalistas, se ligarem no que a gente estava fazendo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Bruno: Eu sou um deles \u2013 e eu nem era jornalista na \u00e9poca!<\/strong><br \/>\nOlavo: E foi muito importante pra gente aquilo. A banda era uma \u201cbrincadeira\u201d. N\u00e3o era brincadeira, era o som, mas n\u00e3o esper\u00e1vamos transformar aquilo numa banda de verdade, com gente tocando junto. Quando voc\u00ea gerou aten\u00e7\u00e3o com aquela resenha, achamos que tinha um neg\u00f3cio ali. E a\u00ed decidimos fazer uns shows \u2013 mas n\u00e3o dava pra ir para o palco s\u00f3 com viol\u00e3o e voz, percebemos que precis\u00e1vamos trazer gente. Muito rapidamente lembrei do Patu. Era um cara com quem eu tinha pouca rela\u00e7\u00e3o, falava um al\u00f4 de vez em nunca, mas sabia que tinha uma afinidade. E resolvi chamar esse cara que toca baixo e gosta de uns sons. Ele veio em 2008, logo depois que a gente gravou os dois discos, pra gente fazer uns shows. Chamamos um baterista, depois chamamos o Lirinha pra tocar guitarra, e a\u00ed se estabelece a primeira forma\u00e7\u00e3o do Lestics como banda. E a gente toca junto desde ent\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Marcelo: Sorte. A banda mudou, mas voc\u00eas dois formaram um n\u00facleo, que eu n\u00e3o sei se seria a mesma coisa se fosse voc\u00ea sozinho.<\/strong><br \/>\nOlavo: N\u00e3o seria. A gente se apoia muito. Teve uma \u00e9poca em que pensei em parar. E ele: \u201cN\u00e3o, Olavinho, vem c\u00e1, respira. N\u00e3o vai parar n\u00e3o, cola aqui, vamos fazer mais um disco\u201d. A\u00ed ele me traz de volta, chegou a rolar esse papo, exatamente assim. Talvez tenha sido antes do \u201cBreu\u201d. Acho massa que, de algum jeito, a m\u00fasica acaba sendo para algumas pessoas um subterf\u00fagio pra gente se ver. Tem uma certa irmandade de alma que \u00e9 mediada pela m\u00fasica, at\u00e9 com pessoas que eu toco.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Marcelo: Meu c\u00edrculo de amizades \u00e9 99% formado por gente de m\u00fasica. As pessoas com quem converso o dia inteiro tem a ver com m\u00fasica. Cada um com gostos diferentes, mas \u00e9 sempre m\u00fasica.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Bruno: Vou al\u00e9m: eu e o Marcelo temos facilidade de se ver porque vamos nos mesmos shows. N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 que a gente \u00e9 amigo e se encontra sempre, mas tamb\u00e9m porque somos amigos e vamos nos encontrar nos shows. Tem amigos t\u00e3o importantes quanto, mas que n\u00e3o v\u00e3o nos shows.<\/strong><br \/>\nOlavo: \u00c9 igual ao lance do Umbinha e do Patu. Temos um parafuso a menos. N\u00f3s nos gostamos demais, temos uma rela\u00e7\u00e3o muito boa. Mas o disco que a gente fez? O disco d\u00e1 a oportunidade da gente se encontrar. A m\u00fasica \u00e9 o nosso terreno comum. A gente se entende e se fala pela m\u00fasica. \u00c9 do caralho, cara. Deu m\u00f3 trampo para fazer o disco porque o Umberto est\u00e1 l\u00e1 em S\u00e3o Roque.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Bruno: O Scream &amp; Yell \u00e9 com certeza <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?s=LESTICS\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">o meio que mais entrevistou o Lestics<\/a>. Tem duas entrevistas minhas, mais uma do Mac na \u00e9poca do \u201cBreu\u201d. \u00c9 muito engra\u00e7ado reler essas entrevistas \u2013 que s\u00e3o do \u201cSeis\u201d e do \u201cEsquecimento\u201d \u2013 e eu bato muito na tecla do mercado, de tocar no Faust\u00e3o\u2026<\/strong><br \/>\nOlavo: A gente quase termina essa entrevista sem falar disso, hein?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Bruno: \u00c9 engra\u00e7ado porque olhei para essas entrevistas\u2026 e na \u00e9poca n\u00e3o dava para saber, mas elas j\u00e1 deixavam muito claro uma rela\u00e7\u00e3o que hoje muita gente tem com a m\u00fasica que faz. Naquela \u00e9poca, tinha uma gera\u00e7\u00e3o p\u00f3s-MTV que ainda acreditava em fazer dar certo, de largar emprego em Cuiab\u00e1 ou Rio Branco para dar certo em S\u00e3o Paulo. Lembro que voc\u00ea tinha uma clareza muito grande que isso n\u00e3o ia acontecer com o Lestics. Hoje, mesmo quem ambiciona ter uma carreira no sentido mercadol\u00f3gico sabe que n\u00e3o vai largar o emprego. Lembro de insistir nas perguntas e at\u00e9 achar esquisito que voc\u00eas n\u00e3o iam tentar isso.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Marcelo: E paralelamente a isso, esse talvez tenha sido o segredo para voc\u00eas terem uma discografia enquanto v\u00e1rias dessas bandas acabaram e est\u00e3o voltando hoje em dia. <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2025\/02\/20\/tres-shows-ou-mais-circuito-nova-musica-papangu-pullovers\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Pullovers<\/a>, por exemplo.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Bruno: O Pullovers \u00e9 uma banda contempor\u00e2nea de voc\u00eas, mas tem um disco em portugu\u00eas. Voc\u00eas t\u00eam nove.<\/strong><br \/>\nOlavo: O Pullovers \u00e9 muito massa. Mas n\u00e3o sei o quanto a galera ali decidiu \u201ctentar\u201d e, de alguma maneira, a coisa n\u00e3o virou. Provavelmente n\u00e3o aconteceu.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Marcelo: Acho que isso aconteceu com todas as bandas desse per\u00edodo. Estou falando do Pullovers, do <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2025\/03\/20\/ao-vivo-superguidis-encerra-silencio-com-show-de-duas-horas-e-30-musicas-em-sao-paulo\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Superguidis<\/a>, que talvez seja o exemplo mais claro. Era uma banda altamente elogiada, mas que faz dois shows no Ita\u00fa Cultural meio vazios e descobre que n\u00e3o tem para onde ir. Tocando de gra\u00e7a na Paulista, em S\u00e3o Paulo, e n\u00e3o aparece ningu\u00e9m.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Bruno: Naquele m\u00eas \u201centerrei\u201d duas bandas. Uma foi a Superguidis e a outra foi o <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2024\/09\/12\/selo-scream-yell-ouca-e-baixe-trilhas-sonoras-para-coracoes-solitarios-da-hotel-avenida\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Hotel Avenida<\/a>, num show que voc\u00eas [Lestics] dividiram com eles na Livraria da Esquina.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Marcelo: Tem uma porrada de bandas voltando agora, o <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2024\/09\/05\/entrevista-de-volta-apos-mais-de-uma-decada-ecos-falsos-promete-disco-para-2024-e-poe-geracao-2000-no-diva\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Ecos Falsos<\/a>, o Ludovic. O Ecos Falsos tinha um olhar para o mercado.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Bruno: O Ludovic nunca teve muito\u2026<\/strong><br \/>\nOlavo: Mas o Ludovic tinha uma possibilidade de nicho, n\u00e9? Diferentemente do Ecos Falsos, do Hotel Avenida, do pr\u00f3prio Superguidis, o Ludovic tem uma determinada cena. N\u00e3o sei se segura uma galera para viver de banda, mas seguraria para ter uma certa carreira. E \u00e9 engra\u00e7ado: eu curto muito o <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2022\/06\/06\/entrevista-jair-naves-se-redescobre-no-caos-sonoro-de-seu-novo-disco-ofuscante-a-beleza-que-eu-vejo\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Jair Naves<\/a>, mas a gente n\u00e3o se conhece bem. Uma vez encontrei ele e falei: \u201cp\u00f4, mano, que do caralho, voc\u00ea \u00e9 de Araguari\u201d&#8230; e ele \u201c\u00e9, pois \u00e9\u201d. (risos).<\/p>\n<figure id=\"attachment_89102\" aria-describedby=\"caption-attachment-89102\" style=\"width: 750px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-89102 size-full\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/LesticsBolero9-3-copiar.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"530\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/LesticsBolero9-3-copiar.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/LesticsBolero9-3-copiar-300x212.jpg 300w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/LesticsBolero9-3-copiar-120x85.jpg 120w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-89102\" class=\"wp-caption-text\"><em>Lestics em 2024: Olavo, Patu e Umberto<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Bruno: Mas voc\u00ea se d\u00e1 bem com Uberl\u00e2ndia?<\/strong><br \/>\nOlavo: Eu sa\u00ed de Uberl\u00e2ndia com 21. Sabe o que acontece? Quando eu era adolescente, eu s\u00f3 queria sair fora. Eu gostava muito de S\u00e3o Paulo. E quando passou a adolesc\u00eancia mais adolescente, entrei na faculdade de Engenharia l\u00e1. Um pouco antes da faculdade, quando cheguei no terceiro colegial, conheci uma galera que gostava de m\u00fasica \u2013 e que gostava das coisas que eu gostava: R.E.M., Tom Waits, Public Enemy. O primeiro disco do R.E.M. que eu comprei foi o \u201cLife\u2019s Rich Pageant\u201d. Lembro de ver numa revista de rock qualquer uma notinha que tinha duas bandas fodas soltando disco novo: Jason and the Scorchers (risos) e o R.E.M.. Saio em Uberl\u00e2ndia, chego numa loja furreca, cheio de disco sertanejo\u2026 e tinha os dois discos. O Jason and the Scorchers tinha uns covers de Stones. (risos). Comprei os dois. A hist\u00f3ria do Tom Waits \u00e9 legal tamb\u00e9m, porque mostra o quanto dar a segunda chance \u00e9 uma coisa fundamental quando voc\u00ea vai lidar com m\u00fasica. Cara, o quanto n\u00e3o ouvi o \u201cRain Dogs\u201d at\u00e9 gostar e ele passar a ser o meu disco favorito da vida? Eu sabia que era bom, era moleque, tinha um repert\u00f3rio muito restrito, mas eu sabia que aquilo era bom. Eu ia na loja de discos, na Discol\u00e2ndia, e botava para ouvir. \u201cQue merda \u00e9 essa?\u201d. N\u00e3o tinha coragem de levar para casa. A\u00ed voltava \u00e0 loja, botava, e ficava sem coragem daquilo ser bom. At\u00e9 que um dia comprei e ouvi esse disco doentiamente. Fiquei completamente louco pelo Tom Waits.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Marcelo: Era uma \u00e9poca que tinha que dar chance. Se voc\u00ea n\u00e3o gostasse do seu disco novo, n\u00e3o iria ter outro pelos pr\u00f3ximos tr\u00eas meses.<\/strong><br \/>\nOlavo: Voc\u00ea era obrigado a fazer isso funcionar. Mas bem: nessa \u00e9poca, eu conheci um cara que tinha um programa na r\u00e1dio da Universidade [Federal de Uberl\u00e2ndia, a UFU], que ia para a gringa e trazia umas coisas. Um dia o cara chega l\u00e1 para mim e tem o vinil do The La\u2019s. Ele vai e me mostra, tem uma coisa meio pop, meio Beatles, meio Velvet. Ele gravou a fitinha e ouvi at\u00e9 destruir. A real \u00e9 que achei uma galera em Uberl\u00e2ndia com a qual eu me relacionava, e depois entrei na Engenharia, e a\u00ed festa, eu estava achando a cidade \u00f3tima. Nada ruim mesmo. Mas acabei largando o curso e vim pra S\u00e3o Paulo fazer Comunica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Bruno: Voltando \u00e0 clareza sobre o potencial de mercado do Lestics. Talvez por ter essa clareza, produzir m\u00fasica talvez seja algo intr\u00ednseco pra voc\u00ea.<\/strong><br \/>\nOlavo: De novo: se eu puder escapar, escapo. N\u00e3o sei se isso vai acontecer. Tenho v\u00e1rios planos de sair de S\u00e3o Paulo, de ter uma vida mais tranquila. E a\u00ed tem a balan\u00e7a: S\u00e3o Paulo \u00e9 uma cidade muito massacrante, mas se voc\u00ea tem o privil\u00e9gio de poder acessar um tanto do que a cidade devolve, com um esp\u00edrito interessado em m\u00fasica, arte, de algum jeito, \u00e9 dif\u00edcil escapar da cidade. Isso tamb\u00e9m acontece por causa do c\u00edrculo que voc\u00ea cria em torno de voc\u00ea: gente que voc\u00ea ama, que voc\u00ea n\u00e3o quer sair de perto. Mas o pre\u00e7o que a cidade cobra \u00e9 muito alto, e por isso \u00e0s vezes eu tenho vontade de sair. Sem ingratid\u00e3o, sou grato para caralho de conseguir viver aqui.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Bruno: Mas voc\u00ea voltaria para Uberl\u00e2ndia?<\/strong><br \/>\nOlavo: Nunca se pode dizer n\u00e3o porque \u00e9 cuspir pra cima. Quem cospe pra cima, o cuspe cai na cara. Mas acho que Uberl\u00e2ndia resolve pouco meu problema. A cidade \u00e9 grande. \u00c9 praticamente sair pros mesmos problemas sem ter todo esse acesso \u00e0s coisas que s\u00e3o importantes para mim \u2013 e longe das pessoas, da galera que a gente gosta. Se for pra sair daqui, tem que ser uma captura mais importante, ir para um lugar realmente no meio do mato, que deve ser uma experi\u00eancia de vida massa. Mas n\u00e3o vejo isso num horizonte de vida pr\u00f3ximo. Ent\u00e3o, enquanto n\u00e3o saio de S\u00e3o Paulo, acho dif\u00edcil parar de fazer m\u00fasica. Porque \u00e9 uma das coisas que me seguram em p\u00e9 com alguma sa\u00fade mental. Em algum momento da pandemia, achei que estava tudo t\u00e3o diferente que achei que ia parar de fazer m\u00fasica. A Dea me olhou assim\u2026 (risos)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Bruno: Eu queria voltar na discuss\u00e3o de carreira do Lestics, na clareza que voc\u00eas t\u00eam sobre o processo. Para mim, essa clareza \u00e9 o que vai fazer voc\u00eas gravarem discos at\u00e9 o final da vida, como o Mac vai escrever at\u00e9 o final da vida.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Marcelo: Para mim, o Pullovers poderia ter gravado mais discos, o Superguidis poderia ter gravado mais discos, mas havia um cen\u00e1rio que impulsionava as bandas a desejar mais \u2013 e esse desejo frustrado fez as bandas acabarem.<\/strong><br \/>\nOlavo: \u201cNingu\u00e9m deu em nada\u201d (uma m\u00fasica do \u201cBolero #9\u201d). Mas nessa m\u00fasica eu n\u00e3o estava falando dessa galera.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Bruno: Sei que n\u00e3o, mas esse \u00e9 o t\u00edtulo perfeito para um livro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Marcelo: O \u201cdeu em nada\u201d \u00e9 uma coisa muito relativa.<\/strong><br \/>\nOlavo: A m\u00fasica \u00e9 sobre fazer as pazes com a hist\u00f3ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Marcelo: Essas bandas est\u00e3o voltando porque n\u00e3o tem mais a &#8216;obriga\u00e7\u00e3o&#8217; de ter que dar em algo. \u00c9 divers\u00e3o.\u00a0<\/strong><br \/>\nOlavo: Mas \u00e9 normal ter uma curiosidade por aquilo que voc\u00ea n\u00e3o tem. Essa pessoa que parece super resolvida de v\u00e1rias entrevistas, na verdade, \u00e9 uma pessoa mais ou menos resolvida. \u00c9 \u00f3bvio. A quest\u00e3o \u00e9 que leio o cen\u00e1rio e eu jogo com as cartas que eu tenho. \u00c9 o que eu sempre fiz. Mas claro que penso como \u00e9 que seria conseguir fazer um circuito de shows, tocar em tudo que \u00e9 lugar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Marcelo: Mas voc\u00eas fazem m\u00fasica pop. Voc\u00ea sabe disso.<\/strong><br \/>\nOlavo: \u00c9, de algum jeito sim.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Marcelo: Poderia tocar no r\u00e1dio. \u201cCorrenteza\u201d tem tudo a ver com \u201cH\u00e1 Tempos\u201d. Se o cara colocou uma m\u00fasica dizendo \u201cparece coca\u00edna mas \u00e9 s\u00f3 tristeza\u201d na r\u00e1dio, por que n\u00e3o?<\/strong><br \/>\nOlavo: Mas isso foi em outro tempo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Marcelo: O problema ent\u00e3o n\u00e3o \u00e9 a m\u00fasica, mas o tempo-espa\u00e7o. O formato das m\u00fasicas est\u00e1 l\u00e1. At\u00e9 porque \u201cH\u00e1 Tempos\u201d toca at\u00e9 hoje na r\u00e1dio.<\/strong><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Lestics - &quot;Um Jeito Especial de Dar Errado&quot; (Ao vivo na Serralheria)\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/somfBWMkmPQ?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Bruno: A frase que o Marcelo n\u00e3o est\u00e1 lembrando, mas que ele j\u00e1 me disse v\u00e1rias vezes, \u00e9 que ele botaria dinheiro para \u201cUm Jeito Especial de Dar Errado\u201d tocar no r\u00e1dio. Se voc\u00ea pensar que \u00e9 a Mar\u00edlia Mendon\u00e7a cantando, d\u00e1 certo. N\u00e3o muito longe, \u00e9 o Leonardo cantando \u201cLonge\u201d, do Marcelo Jeneci.<\/strong><br \/>\nOlavo: (risos). \u00c9, pode ser.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Marcelo: E eu n\u00e3o imagino o Superguidis assim, ou o Jair Naves assim. Pullovers sim.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Bruno: O Pullovers j\u00e1 tocou em novela!<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Marcelo: Mas tem m\u00fasicas aqui [no \u201cBolero #9\u201d] que uma pessoa comum, um f\u00e3 de classic rock que vai no show do Eric Clapton, poderia ouvir na r\u00e1dio e n\u00e3o mudar de esta\u00e7\u00e3o. Talvez ele n\u00e3o entendesse a mensagem, mas olhando para a m\u00fasica enquanto conjunto, aqueles tr\u00eas-quatro minutos, ela \u00e9 totalmente toc\u00e1vel e grud\u00e1vel no ouvido. A coisa est\u00e1 toda muito pr\u00f3xima.<\/strong><br \/>\nOlavo: Pegando o gancho da Legi\u00e3o Urbana: \u00e9 uma banda fundamental para minha forma\u00e7\u00e3o \u2013 e que eu ou\u00e7o muito pouco hoje. Tem bandas que eu comecei a ouvir l\u00e1 na adolesc\u00eancia e ou\u00e7o at\u00e9 hoje. Um bom tanto, na verdade. Legi\u00e3o acaba n\u00e3o sendo uma dessas bandas. \u00c0s vezes, eu ou\u00e7o o \u201cO Descobrimento do Brasil\u201d, mas n\u00e3o muito.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Marcelo: Que \u00e9 o melhor disco deles porque \u00e9 a Legi\u00e3o soando Legi\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 o primeiro que parece U2, nem o segundo que parece Smiths, nem o terceiro que parece Ramones ou o quarto que \u00e9 quase Simple Minds (risos). O \u201cV\u201d \u00e9 anos 1970 pra cacete, mas o \u201cDescobrimento\u201d \u00e9 onde a Legi\u00e3o \u00e9 Legi\u00e3o.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Bruno: O Legi\u00e3o \u00e9 um buraco que eu me enfio uma vez por ano, que nem \u201cCasablanca\u201d.<\/strong><br \/>\nOlavo: P\u00f4, mas pensa assim: 1988, Legi\u00e3o fazendo show no Uberl\u00e2ndia T\u00eanis Clube, ainda no show do \u201cDois\u201d. Se aquilo n\u00e3o muda a vida de um fulano, nada mais muda.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Marcelo: Vi em Taubat\u00e9 e S\u00e3o Jos\u00e9 dos Campos&#8230; era muito Beatlemania. At\u00e9 porque ningu\u00e9m tamb\u00e9m ouvia os Beatles.<\/strong><br \/>\nOlavo: O Legi\u00e3o era a nossa Beatlemania poss\u00edvel. Mas a\u00ed tem um per\u00edodo de rejei\u00e7\u00e3o e um per\u00edodo de reconcilia\u00e7\u00e3o. E as letras do Renato Russo s\u00e3o muito fora da m\u00e9dia. Mesmo, mesmo. Muito boas. E ali naquele per\u00edodo, 1989 ou 1990, pintava j\u00e1 Mulheres Negras, Fellini. Tenho at\u00e9 hoje o \u201c<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=lGX282YEN58\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Sanguinho Novo<\/a>\u201d, que tinha v\u00e1rias bandas incr\u00edveis, o Vzyadoq Moe, aquelas paradas mais quebradas. \u00c9 muito formativo para mim, aquele som e aquele per\u00edodo, o Paralamas para caralho. O show do \u201cBang Bang\u201d no Uberl\u00e2ndia T\u00eanis Clube? Foda, muito foda. Paralamas \u00e9 ainda uma banda que voc\u00ea continua ouvindo, \u00e9 uma banda consistente, mas fiquei d\u00e9cadas sem ouvir Legi\u00e3o. Mas \u00e9 formativo para mim, pra caralho. E Beatles: tenho um tio, Olavo, que foi embora para a Alemanha e deixou para mim uma caixa com todos os discos dos Beatles em vinil. Era 1980, eu tinha nove anos. Comecei a ouvir pela sequ\u00eancia. De cara, fui nos discos do come\u00e7o, no \u201cBeatles for Sale\u201d, no \u201cPlease Please Me\u201d, que era mais para crian\u00e7a, e fui ouvindo a discografia. Dali um ano, eu era uma crian\u00e7a beatleman\u00edaca. Tenho esses discos at\u00e9 hoje.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Marcelo: Que inveja. S\u00f3 herdei o \u201cBeatles Ballads\u201d\u2026 e durante muito tempo achei que os Beatles eram uma banda que s\u00f3 fazia baladas. O que me lembra o livro do Jarvis Cocker, \u201c<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2025\/01\/08\/tres-livros-eu-fui-traficante-de-keith-richards-nacao-tomada-pelo-medo-good-pop-bad-pop-um-inventario\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Good Pop, Bad Pop<\/a>\u201d. Tem uma passagem em que ele conta quando descobriu Velvet Underground \u2013 ele diz que foi s\u00f3 depois de montar o Pulp, porque algu\u00e9m numa resenha falou que a banda lembrava Velvet. Ele pegou uma colet\u00e2nea e na primeira m\u00fasica vem um rock. Depois vem uma balada. Depois uma doideira tipo \u201cSister Ray\u201d. \u00c9 uma banda que n\u00e3o d\u00e1 para colocar numa caixinha.<\/strong><br \/>\nOlavo: \u00c9 engra\u00e7ado, porque uma das coisas que rolaram com o Gianoukas \u00e9 o fato de que as bandas que a gente mais adora s\u00e3o bandas que n\u00e3o d\u00e1 para colocar numa caixinha s\u00f3. \u00c9 Beatles, \u00e9 Velvet, \u00e9 Ween\u2026 (respira) <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2024\/08\/07\/agora-em-versao-expandida-chocolate-and-cheese-do-ween-e-um-totem-do-periodo-mais-idilico-da-musica-alternativa\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">O Ween \u00e9 uma banda que eu amo<\/a>, mas que tem disco de country, tem disco fazendo umas coisas latinas calhord\u00edssimas. \u00c9 a diferen\u00e7a de jogar um videogame de mundo aberto ou um que tem roteiro. Na m\u00fasica, voc\u00ea pode fazer qualquer coisa. Ningu\u00e9m manda em voc\u00ea, a menos que voc\u00ea tenha algum contrato com algu\u00e9m. Mas na m\u00fasica independente, ningu\u00e9m manda em voc\u00ea e n\u00e3o est\u00e1 nem a\u00ed para o que voc\u00ea faz.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Marcelo: Tem bandas que poderiam ser eu, coisas pop guitarreiras tipo Ash, Idlewild, Sebadoh, Wedding Present\u2026 bandas pop at\u00e9 a medula, mas com um veneninho. O Teenage no auge, o <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2024\/04\/17\/entrevista-tommy-stinson-fala-sobre-novo-disco-solo-os-anos-com-o-guns-n-roses-e-o-legado-do-replacements\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Replacements<\/a> do final&#8230;<\/strong><br \/>\nOlavo: Dream Syndicate! \u00c9 engra\u00e7ado porque escrevi isso esses dias no Bluesky: a banda que eu queria ser era o Velvet. Zero originalidade da minha parte! Mas p\u00f4, fazer \u201cBlack Angel\u2019s Death Song\u201d e depois \u201cWho Loves the Sun?\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Marcelo: Ter liberdade para fazer isso \u00e9 do caralho. E a\u00ed a gente vai voltar para um ponto (que a gente sempre discorda &#8211; risos)\u2026 A gra\u00e7a nessa coisa toda \u00e9 a perenidade. Que \u00e9 uma coisa\u2026<\/strong><br \/>\nOlavo: \u00c9 uma bobagem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Marcelo: Voc\u00ea acha uma bobagem. Mas <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=akvi-8MzwtY\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">eu estava vendo a St. Vincent tocando<\/a> na sala das <a href=\"https:\/\/www.museodelprado.es\/en\/the-collection\/art-works?searchObras=pinturas%20de%20la%20quinta%20del%20sordo%20(pinturas%20negras)\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Pinturas Negras do Goya<\/a>. \u00c9 uma coisa que n\u00e3o era para existir. Aquilo ali era a casa que o Goya tinha. Ele era pintor da Corte, mas na casa dele ele pintou as coisas mais depressivas que d\u00e1 pra imaginar \u2013 e s\u00f3 descobriram depois que ele morreu, e a\u00ed levaram as paredes da casa pro Museu do Prado. Aquilo n\u00e3o existe na cabe\u00e7a do Goya enquanto arte. Mas \u00e9 uma sala de chorar, ela te engole. Ele fez pros dem\u00f4nios dele, que \u00e9 o que eu fa\u00e7o com o Scream.<\/strong><br \/>\nOlavo: \u00c9 o Kafka pedindo pro amigo queimar os rascunhos dele. \u00c9 voc\u00ea bater no peito e fazer o que voc\u00ea queria fazer. \u00c9 a afinidade eletiva. Todos temos afinidades eletivas. Pra voc\u00ea faz sentido o Goya, o Francis Bacon\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Marcelo: Mas voc\u00ea vai ter o Goya, o Velvet &#8211; <a href=\"https:\/\/www.screamyell.com.br\/blog\/2012\/02\/05\/o-minimalismo-e-o-rock-and-roll\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">o cap\u00edtulo do Velvet no livro \u201cO Resto \u00e9 Ru\u00eddo\u201d \u00e9 lindo<\/a> &#8211; a <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2015\/04\/25\/exposicao-vivian-maier-em-sao-paulo\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Vivian Maier<\/a>&#8230;<\/strong><br \/>\nOlavo: Tenho o livro dela e \u00e9 foda. \u00c9 uma observa\u00e7\u00e3o humana, transcendente, ch\u00e3 pra caralho, concreta e ao mesmo tempo gigantesca. \u00c9 bom que a gente possa ter essa possibilidade na nossa pequena trajet\u00f3ria. Essa coisa de perman\u00eancia, n\u00e3o boto muita f\u00e9, mas nesse tempinho em que voc\u00ea possa trombar com essas coisas [a arte] e o teu momento ali ter uma epifaniazinha, uma ilumina\u00e7\u00e3ozinha, \u00e9 uma sorte.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Marcelo: Transpondo isso pro Lestics: tem a mesma chance!<\/strong><br \/>\nOlavo: Eu me alegro com essa possibilidade. At\u00e9 porque gosto de ouvir os discos que fiz. Estava ouvindo o \u201cPanor\u00e2mica\u201d, do Gianoukas Papoulas, esses dias. E estava achando do caralho. Tenho v\u00e1rias cr\u00edticas com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 minha parte no disco, do que pude entregar, mas a despeito dessas quest\u00f5es, acho um puta trampo legal, de verdade. Subestimado de algum jeito. Sei l\u00e1 se \u00e9 uma palavra que cabe, n\u00e3o d\u00e1 para ficar se elogiando assim, mas \u00e9 um disco que chegou em muito pouca gente. At\u00e9 para os meus par\u00e2metros! \u00c9 algo que vai virar esquecimento e p\u00f3. Mas durante um tempo, vou poder voltar e ouvir. \u00c9 gostoso. Quando eu estiver bem velhinho, sem dentes, vou poder contar que teve uma hora que acendeu uma luzinha e veio tal coisa. N\u00e3o penso em posteridade.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Gianoukas Papoulas toca &quot;Ela se foi&quot; no Est\u00fadio Showlivre - 3\/5 - HQ\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/bjgOpiafYF8?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Marcelo: P\u00f4, mas daqui a sei l\u00e1 quantos anos uma banda que nem existe ainda pode regravar \u201c<a href=\"https:\/\/osgianoukaspapoulas.bandcamp.com\/album\/panor-mica\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Ela Se Foi<\/a>\u201d.<\/strong><br \/>\nOlavo: Estou cuspindo de novo para cima, mas isso me interessa menos. Acho mais legal eu mesmo poder ouvir e lembrar. N\u00e3o sou uma pessoa nost\u00e1lgica. At\u00e9 tenho problemas com isso: \u00e0s vezes precisava ter uma mem\u00f3ria melhor das coisas, mas acho que sou t\u00e3o pilhado em ver o que tem pra frente que acabo negligenciando. Nessa altura do campeonato, at\u00e9 que \u00e9 legal poder revisitar e ouvir \u2013 at\u00e9 porque as coisas n\u00e3o s\u00e3o mais velhas. Isso ajuda a contar uma hist\u00f3ria minha para mim mesmo \u2013 e \u00e9 legal poder contar sua hist\u00f3ria sem ser nost\u00e1lgico. Mas pode ser que eu me torne uma pessoa nost\u00e1lgica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Bruno: O Lestics \u00e9 uma banda que fez mais discos do que a m\u00e9dia da gera\u00e7\u00e3o, mas que fez poucos shows. Pessoas que eu conhe\u00e7o que amam o Lestics viram um show, talvez dois. Eu vi tr\u00eas \u2013 e sei que vi muitos. Como \u00e9 a sua rela\u00e7\u00e3o com o palco? Por que houve t\u00e3o poucos shows do Lestics nesses 20 anos de banda?<\/strong><br \/>\nOlavo: Vou ter que voltar um pouco para responder. O Gianoukas Papoulas come\u00e7ou em 1994, mas o primeiro registro oficial \u00e9 s\u00f3 de 2003. \u00c9 quase uma d\u00e9cada. Mas, nesses nove anos, n\u00f3s fizemos shows pra caralho. Havia uma configura\u00e7\u00e3o que favorecia. Muita gente fala que era ruim tocar nos anos 1990. N\u00e3o era n\u00e3o! N\u00f3s \u00edamos e os lugares eram cheios de gente que estava indo ver bandas que elas n\u00e3o sabiam quais eram! Elas s\u00f3 sabiam que naquele lugar tinha algo legal. Na Torre do Dr. Zero, no Blen Blen, no Matrix. N\u00f3s \u00edamos tocar e tinha gente para assistir. Quando come\u00e7ou o Lestics, j\u00e1 era outra realidade, mas ainda havia bastante lugar para tocar \u2013 e um pouco de p\u00fablico dos locais. Mas n\u00e3o consegu\u00edamos viajar porque eu tinha filho pequeno, tinha trampo, tinha responsabilidades pr\u00e1ticas. Havia at\u00e9 um certo conflito: o Xuxa falava para a gente marcar um monte de show e eu simplesmente n\u00e3o podia tocar em Sorocaba num dia e em Taubat\u00e9 no dia seguinte. N\u00e3o dava, eu precisava bater ponto. E tem outra coisa: eu n\u00e3o tinha me encontrado no palco. S\u00f3 fui saber quem era o Olavo Rocha no palco em 2016. Passei a vida tocando sempre muito encanado. O palco n\u00e3o era o lugar em que eu me sentia mais \u00e0 vontade \u2013 e quando eu finalmente me encontro, \u00e9 quando a gente tem menos shows, porque os rol\u00eas diminuem. Acho que devo ter feito uma dezena de shows feliz. \u00c9 muito doido. Hoje, a configura\u00e7\u00e3o \u00e9 de uma banda bastante desmantelada, tem a quest\u00e3o da dist\u00e2ncia, mas para 2025 estamos conversando para conseguir estruturar um esquema para fazer shows.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Lestics - Elefantes\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/leDDEWiBGtU?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Marcelo: Pra fechar, quero que voc\u00ea escolha uma m\u00fasica de cada disco do Lestics. A sua favorita de cada disco e o porqu\u00ea. \u201c9 Sonhos\u201d?<\/strong><br \/>\nOlavo: Do \u201c9 Sonhos\u201d&#8230; (pensa). \u00c9 foda, mas \u00e9 \u201cElefantes\u201d. \u00c9 a primeira m\u00fasica que n\u00f3s fizemos para a banda e \u00e9 uma m\u00fasica totalmente verdadeira: \u00e9 um sonho \u2013 e eu escrevi o que eu sonhei. \u00c9 uma m\u00fasica que captura minha simpatia, tem uma alegria que gosto. Do \u201cLes Tics\u201d, eu acho que \u00e9\u2026 (respira)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Marcelo: Eu teria dificuldade de escolher.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Bruno: \u00c9 um disco que para mim \u00e9 bem dif\u00edcil tamb\u00e9m.<\/strong><br \/>\nOlavo: Cara, \u00e9 \u201cLuz do Outono\u201d, porque ela \u00e9 um reflexo do meu amor pela Dea. Tem um dos versos que mais curto ter escrito, que \u00e9 \u201ca eternidade vai um pouco al\u00e9m do que eu costumo planejar\u201d. Diz muito respeito ao meu sentimento, ao modo como vivo a vida. N\u00e3o sou uma pessoa que fica esperando grandes coisas, mas quero saber o que a gente pode viver de bacana agora.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Lestics - Luz do outono\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/ZUvV3_A_JAY?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Bruno: Quais s\u00e3o as m\u00fasicas que voc\u00ea fez para a Dea?<\/strong><br \/>\nOlavo: \u201cLuz do Outono\u201d, evidentemente. \u201cMetamorfose\u201d. Ela \u00e9 atriz, claramente \u00e9 para ela. \u201cA Dan\u00e7a\u201d, true story: teve um dia que eu estava para baixo e ela me puxou pra dan\u00e7ar, e enfim\u2026 No \u201c9 Sonhos\u201d tem uma m\u00fasica para ela, que \u00e9 \u201cO Mundo Acaba\u201d. Quase todo disco tem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Bruno: Depois do \u201cLestics\u201d, vem o \u201cHoje\u201d.<\/strong><br \/>\nOlavo: Do \u201cHoje\u201d, acho que \u00e9 \u201cPlano de Fuga\u201d. \u00c9 muito malvada, gosto da malvadeza dessa m\u00fasica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Marcelo: Como ela surgiu?<\/strong><br \/>\nOlavo: \u201cPlano de Fuga\u201d sou eu contando uma hist\u00f3ria para mim mesmo e tentando saber onde ia dar. Vem uma primeira imagem, \u201co fiapo de fuma\u00e7a se desprende dos escombros do seu \u00faltimo projeto\u201d, vem esses versos iniciais, e depois vou seguindo. Eu n\u00e3o sabia que era uma m\u00fasica sobre uma coisa t\u00e3o menor, que \u00e9 algu\u00e9m que sai de casa e bola um puta plano\u2026 sendo que \u00e9 s\u00f3 ir l\u00e1 e abrir a porta.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Plano de Fuga\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/E6g99mhA7wk?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Marcelo: O Hanif Kureishi <a href=\"https:\/\/www.screamyell.com.br\/literatura\/intimidade.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">escreveu um livro<\/a> inteiro sobre isso!<\/strong><br \/>\nOlavo: Mas gosto de saber onde a coisa vai dar e vou fazendo. \u00c9 uma malvadeza e gosto bastante.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Bruno: O pr\u00f3ximo \u00e9 o \u201cAos Abutres\u201d.<\/strong><br \/>\nOlavo: Do \u201cAos Abutres\u201d \u00e9 bem dif\u00edcil de sacar uma m\u00fasica que eu gosto mais, mas \u00e9 \u201cTudo \u00e9 Mem\u00f3ria\u201d. Fiz \u201cTudo \u00e9 Mem\u00f3ria\u201d pensando numa pessoa, mas ela ultrapassou essa pessoa, ela me engoliu e ela engole mais coisas. A m\u00fasica nasce de uma forma muito mesquinha, pensando em algo espec\u00edfico, mas depois a carapu\u00e7a serve para mim mesmo e ela ganha outro tamanho. Depois vem o \u201cHist\u00f3ria Universal do Esquecimento\u201d, e a\u00ed a favorita \u00e9 \u201cQuinze Mil Dias\u201d. Mas se a gente fizesse a entrevista daqui a uma hora, talvez mudasse. O \u201cHist\u00f3ria Universal\u201d \u00e9 um disco que ficou um pouco longo, mas \u00e9 um disco que eu gosto muito. Ele veio depois do \u201cAos Abutres\u201d, um disco que foi razoavelmente celebrado, e o \u201cHist\u00f3ria\u201d \u00e9 um disco mais dif\u00edcil. Acho que ele \u00e9 melhor do que ele foi recebido, mas entendo a dificuldade porque ele \u00e9 mais pesado. \u201cQuinze Mil Dias\u201d \u00e9 de quando eu estava prestes a fazer 40 anos, e isso me abalou. Acho que passei por uma certa crise a\u00ed, mas essa mesma crise tem um contraponto, o verso \u201cenquanto isso, meus amigos e irm\u00e3os v\u00e3o cantar comigo\u201d.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Lestics -  Tudo \u00e9 mem\u00f3ria\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/cAiDAxiFrPU?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Marcelo: A\u00ed tem o \u201cSeis\u201d.<\/strong><br \/>\nOlavo: \u00c9, o \u201cSeis\u201d (folheia o disco). Tenho dificuldade de escolher. A pessoa gosta do que ela fez (risos). Que idiota, n\u00e9, cara? Hoje \u00e9 \u201cO Lado de L\u00e1\u201d, n\u00e3o s\u00f3 por causa da letra, que \u00e9 singela, talvez das menos elaboradas. Esse disco tem letras que gosto bastante. Acho que s\u00e3o algumas letras particularmente caprichadas, mas o \u201cO Lado de L\u00e1\u201d n\u00e3o \u00e9 uma dessas letras. Gosto muito do sentido delas, do arranjo de cordas do Neymar Dias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Bruno: Tem uma hist\u00f3ria boa desses arranjos de cordas, n\u00e9?<\/strong><br \/>\nOlavo: N\u00e3o sei se ela \u00e9 public\u00e1vel.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Lestics - O lado de l\u00e1\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/EnpiJ2di3FA?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Bruno: Conta para o Marcelo e a gente decide.<\/strong><br \/>\nOlavo: Quando chamamos o Neymar para fazer os arranjos de cordas, ele combinou uma data para gravar. Ele \u00e9 um querido, um cara foda \u2013 e um m\u00fasico monstruoso. Mas nessa de combinar, perguntei quando ele ia mandar uma pr\u00e9via dos arranjos. E a\u00ed ele: \u201cp\u00f4, cara, n\u00e3o, n\u00e3o precisa mandar para voc\u00eas o arranjo\u201d. Eu respondi: \u201cP\u00f4, Neymar, mas eu queria ouvir antes o que voc\u00ea pensou antes\u201d. E a\u00ed ele, sem carteirada, na boa\u2026 \u201cp\u00f4, cara, eu fa\u00e7o os arranjos pro Ivan Lins e n\u00e3o mando para ele os arranjos antes de gravar\u2026\u201d. \u201cP\u00f4, Neymar, mas vou te pedir para me mandar\u201d. N\u00e3o tem cabimento uma compara\u00e7\u00e3o do Ivan Lins comigo, claro, mas na minha humildade disse que eu queria saber o que ele escreveu. E a\u00ed ele mandou os arranjos para \u201cO Lado de L\u00e1\u201d e \u201cDesvario\u201d. E eu chorei. Passei mal ouvindo os arranjos.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Lestics - Divers\u00e3o dominical\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/YvENlcPFec8?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Bruno: Conste nos autos que nesta casa tem mais discos de Olavo Rocha do que de Ivan Lins.<\/strong><br \/>\nOlavo: (risos). Do \u201cTorto\u201d, \u00e9 \u201cDivers\u00e3o Dominical\u201d, muito por causa da letra. Vou puxar a sardinha para o meu lado. \u00c9 uma m\u00fasica que, nessa fase em que eu passei a gostar de fazer show, tinha uma vers\u00e3o ao vivo legal demais. Do \u201cBreu\u201d, a favorita \u00e9 \u201cMais Do Que Isso\u201d. Ela \u00e9 meio que um pl\u00e1gio, na real. \u00c0s vezes a gente se engana, a mem\u00f3ria falha. Mas se n\u00e3o me engano, tem um poema do pai do Tarkovsky que diz algo como \u201ca vida precisa de mais do que isso\u201d. E isso ficou na minha cabe\u00e7a. Enfim, \u00e0s vezes a gente copia as coisas com mais intencionalidade ou n\u00e3o. No meu caso, prefiro ser um plagiador n\u00e3o intencional, n\u00e3o fa\u00e7o muita cita\u00e7\u00e3o. Sei que j\u00e1 fizeram, sei que Shakespeare e os gregos j\u00e1 disseram antes. Mas prefiro n\u00e3o buscar a cita\u00e7\u00e3o intencional. Semana passada, eu estava ouvindo aquele disco do Dylan ao vivo de 1975, o \u201cRolling Thunder Revue\u201d. E depois de mil anos, l\u00e1 estava eu ouvindo \u201cBlowin\u2019 in the Wind\u201d, que tem um verso que fala de montanhas e mares. Tem isso tamb\u00e9m na letra de \u201cEnquanto Houver Tempo\u201d. Mas juro por Deus que eu n\u00e3o copiei. E \u201cEnquanto Houver Tempo\u201d \u00e9 a que eu gosto mais do \u201cBolero #9\u201d.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Lestics \u2013 Enquanto houver tempo\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/8MB0UlLIrEc?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Bruno: Dos rebentos todos, qual \u00e9 o favorito?<\/strong><br \/>\nOlavo: S\u00e9rio? N\u00e3o tem como. N\u00e3o tem a menor possibilidade de escolher.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Bruno: Tem um patinho feio?<\/strong><br \/>\nOlavo: O patinho feio \u00e9 o \u201cHoje\u201d. Todos os discos eu ou\u00e7o gostando, mas em todos eles boto algum defeito. \u00c9 igual ler um texto teu, achar legal, mas pensar que d\u00e1 pra mexer em alguma coisa. O \u201cHoje\u201d \u00e9 um disco que eu mexeria em mais coisas. N\u00e3o no repert\u00f3rio, mas eu mexeria em mais coisas. Fomos um pouco precipitados na produ\u00e7\u00e3o, poder\u00edamos ter amadurecido um pouco mais e tamb\u00e9m ter resolvido algumas coisas na produ\u00e7\u00e3o. Fiz um pouco as pazes com o disco, ele n\u00e3o estava nos streamings durante um tempo, at\u00e9 porque eu tinha uma trava. Nesses dias, eu estava ouvindo o \u201cBreu\u201d e achei que faria o disco de outro jeito. Mas pode passar um tempo e eu achar tudo isso uma bobagem. Mas n\u00e3o, n\u00e3o consigo escolher um favorito.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Bruno: Mas tem favoritos?<\/strong><br \/>\nOlavo: Gosto muito do \u201cSeis\u201d e do \u201cAos Absutres\u201d. Acho que os dois se sobressaem um pouco. Mas, por exemplo, no disco novo, tem uma certa descoberta de como comunicar que acho muito legal. Foi experimentar um pouco a ideia de ser mais \u00edntimo, com uma delicadeza. E todo artista tem sempre um carinho grande pelo \u00faltimo disco. Gosto bastante da mix do \u201cBolero #9\u201d, dos arranjos e desse jeito mais intimista que tem um gosto especial. N\u00e3o gosto de usar adjetivos para falar de discos. Acho bobo. Como um artista vai adjetivar o trabalho dele, seja para elogiar ou criticar? Autoelogio \u00e9 sempre um neg\u00f3cio muito lament\u00e1vel, voc\u00ea n\u00e3o tem que ficar se congratulando. Autocongratula\u00e7\u00e3o \u00e9 um neg\u00f3cio\u2026 Toda vez que eu ou\u00e7o o disco, ou\u00e7o com prazer, mesmo achando que deveria mexer em algo. Mas se mexer, a chance de mexer e ficar pior \u00e9 enorme.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Lestics -  Travessia\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/a-QJVDbhVSU?list=PLnfJcxjJkYTipD1E07zTFRneSIUZUroiv\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Seis\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/videoseries?list=OLAK5uy_kUt6Hs6xUvMMVF3LVwe9zd7pwUCczYm74\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Lestics - Breu\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/Pe4jl8pqby0?list=PLnfJcxjJkYTiDMCXOfCKTL2wXznur_a8D\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u2013 Bruno Capelas (<a href=\"https:\/\/twitter.com\/noacapelas\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">@noacapelas)<\/a>\u00a0\u00e9 jornalista. Apresenta o\u00a0<a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/programadeindie\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Programa de Indie<\/a>\u00a0e escreve a newsletter\u00a0<a href=\"https:\/\/meusdiscosmeusdrinks.substack.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Meus Discos, Meus Drinks e Nada Mais<\/a>. Colabora com o Scream &amp; Yell desde 2010.<br \/>\n\u2013 Marcelo Costa (<a href=\"https:\/\/twitter.com\/screamyell\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">@screamyell<\/a>) \u00e9 editor do Scream &amp; Yell e assina a\u00a0<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/blog\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Calmantes com Champagne<\/a>.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Concebido ao longo de quase dois anos, \u201cBolero #9\u201d traz um Lestics mais econ\u00f4mico. 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