{"id":89039,"date":"2025-05-07T00:10:03","date_gmt":"2025-05-07T03:10:03","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=89039"},"modified":"2025-05-28T01:31:00","modified_gmt":"2025-05-28T04:31:00","slug":"homem-com-h-a-lagrima-do-pai-e-o-cinema-nacional-maiuscula","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2025\/05\/07\/homem-com-h-a-lagrima-do-pai-e-o-cinema-nacional-maiuscula\/","title":{"rendered":"&#8220;Homem com H&#8221;, a l\u00e1grima do pai e o cinema nacional mai\u00fasculo"},"content":{"rendered":"<h2><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-89042 aligncenter\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/ney3.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"1096\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/ney3.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/ney3-205x300.jpg 205w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/h2>\n<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>texto de Ismael Machado<\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">No dia em que tentei &#8211; e n\u00e3o consegui &#8211; assistir a &#8220;Homem com H&#8221;, um jovem rapaz, certamente n\u00e3o-heteronormativo, atendia a pedidos de posar para fotos. Isso porque ele estava com o rosto pintado como Ney Matogrosso na \u00e9poca dos Secos &amp; Molhados. \u00c9 f\u00e1cil entender a identifica\u00e7\u00e3o de Ney Matogrosso com as novas gera\u00e7\u00f5es que, pelo menos em Bel\u00e9m, correram ao cine L\u00edbero Luxardo para assistir ao badalado filme escrito e dirigido por Esmir Filho. Ney, mesmo superando a casa dos 80 anos, exala uma rebeldia libert\u00e1ria sexual e comportamental muito necess\u00e1ria em \u00e9poca de um neoconservadorismo violento e castrador. A figura perform\u00e1tica de Ney, que atravessou gera\u00e7\u00f5es, \u00e9 sempre aliada em tempos obscuros.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Digo n\u00e3o ter conseguido assistir porque os ingressos esgotaram rapidamente. \u00c9 uma frustra\u00e7\u00e3o alegre a que me acometeu, afinal, ingressos esgotados a uma obra nacional \u00e9 de comemorar. Dois dias depois conseguimos. E a pergunta que se imp\u00f5e de cara \u00e9 se o longa-metragem vale o burburinho e a exalta\u00e7\u00e3o entusiasmada proliferadas em textos e v\u00eddeos Brasil afora?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sim, \u00e9 a resposta imediata, afinal, \u00e9 quase imposs\u00edvel n\u00e3o se deixar levar pela trajet\u00f3ria singular de Ney que se apresenta na tela. O cantor j\u00e1 faz parte de nossas vidas e quem foi ao cinema traz essa simpatia arraigada e que se transforma em cumplicidade diante da hist\u00f3ria apresentada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas, ao mesmo tempo, o bom filme de Esmir n\u00e3o \u00e9, longe disso, uma obra-prima, ou mesmo t\u00e3o superior a outras cinebiografias nacionais j\u00e1 vistas anteriormente, como os longas sobre Cazuza, Tim Maia e <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2023\/10\/12\/cinema-meu-nome-e-gal-e-um-retrato-delicado-sobre-os-anos-iniciais-de-gal-costa\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Gal<\/a>, para ficar em tr\u00eas exemplos. Claro, cada um tem sua especificidade e at\u00e9 o risco comparativo pode ser injusto e ingl\u00f3rio, mas \u00e9 apenas para ressaltar que, sim, &#8220;Homem com H&#8221;, \u00e9 muito interessante e vale cada centavo suado, ainda assim, \u00e9 necess\u00e1rio se ter mais comedimento com os adjetivos lan\u00e7ados a ele nos \u00faltimos dias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Homem com H&#8221; busca a sensorialidade. Logo de in\u00edcio, o rico som da mata absorve o pequeno Ney. Esmir busca essa proximidade de espectador com o que se apresenta na tela. As tomadas bem pr\u00f3ximas ao rosto, ao corpo, aos movimentos de Ney s\u00e3o constantes ao longo do filme. Para dar conta de tanta vida, tanta hist\u00f3ria, fases da vida do artista s\u00e3o pin\u00e7adas muito rapidamente. \u00c9 assim na transi\u00e7\u00e3o do jovem militar para a capital Bras\u00edlia. E \u00e9 assim que se desenham os saltos de S\u00e3o Paulo para o Rio de Janeiro e &#8211; para os f\u00e3s, at\u00e9 um pouco frustrante, mas compreens\u00edvel &#8211; bem pouco dos Secos &amp; Molhados.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-89041 aligncenter\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/ney2.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/ney2.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/ney2-300x176.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O filme foi um presente para Jesu\u00edta Barbosa. \u00c9 comovente o quanto se percebe o mergulho do ator sobre um personagem t\u00e3o complexo. Nem sempre, no entanto, Jesu\u00edta acerta o tom. H\u00e1 um certo exagero em alguns momentos, quando beira o caricato, mas \u00e9 ineg\u00e1vel que a simbiose ator-personagem teve mais pontos altos que falhos. N\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil ser Ney Matogrosso, convenhamos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 duas coisas que chamam a aten\u00e7\u00e3o de uma forma mais profunda. A primeira \u00e9 a constata\u00e7\u00e3o de que, aos poucos, estamos novamente nos libertando da pris\u00e3o e do medo de mergulhar em cenas de sexo. O medo do cerceamento &#8211; inclusive de setores militantes da esquerda &#8211; retraiu bastante o sexo nas telas. Receio de cancelamentos, boicotes, den\u00fancias etc havia travado o corpo nu no cinema brasileiro. &#8220;<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2024\/08\/22\/cinema-sexo-desejo-e-desassossego-se-misturam-em-motel-destino-de-karim-ainouz\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Motel Destino<\/a>&#8221; j\u00e1 tinha se mostrado um pouco uma ant\u00edtese a isso, uma rea\u00e7\u00e3o. &#8220;Homem com H&#8221; aprofunda esse destemor. Ainda bem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O outro elemento \u00e9 que, inevitavelmente, nossas a\u00e7\u00f5es e transgress\u00f5es sempre acabam tendo como pano de fundo, cen\u00e1rio original, a fam\u00edlia, a rela\u00e7\u00e3o entre filhos e pais e m\u00e3es. A necessidade do afeto, da aceita\u00e7\u00e3o, do abra\u00e7o, da palavra de apoio, do reconhecimento, do carinho e do olhar compreensivo, \u00e0s vezes at\u00e9 c\u00famplice de nossos pais e nossas m\u00e3es, sempre nos acompanha ao longo de nossa trajet\u00f3ria. Faz parte de nosso crescimento. Com dor ou sem. Com cicatrizes ou feridas abertas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Isso se mostra em &#8220;Homem com H&#8221;. D\u00e1 at\u00e9 para pensar que se o filme fosse todo centrado nessa rela\u00e7\u00e3o entre o Matogrosso pai e o Matogrosso filho que incorpora aquele sobrenome t\u00e3o pesado em sua trilha err\u00e1tica no mundo art\u00edstico, ele n\u00e3o perderia em nada. R\u00f4mulo Braga e Jesu\u00edta Barbosa entregam muito, muito, nessas cenas. O filho quer, sim, o aceite do pai que, por sua vez, quer aceitar o filho. E esses caminhos que circulam violentamente em paralelo se encontram como um desague de um rio que leva esse nome Matogrosso, lavando feridas, curando certas dores, limpando o que de sujo ficou na mem\u00f3ria. \u00c9 nesse sentido que &#8220;Homem com H&#8221; mais toca, como a l\u00e1grima que mal consegue abandonar o olho de Matogrosso pai.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Homem com H&#8221; reafirma o bom momento que o cinema nacional vem passando. Ele estreou praticamente na mesma semana que o devorador de mundos Donald Trump anunciou tarifas de 100% para filmes estrangeiros nos Estados Unidos. E n\u00f3s, sucumbindo a lobbies de grandes plataformas de streaming para se livrar de taxas e obriga\u00e7\u00f5es em nosso territ\u00f3rio. Que sobrevivamos a tudo isso. Com a for\u00e7a de hist\u00f3rias como a de Ney Matogrosso e tantos mais.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Homem com H | Trailer Oficial\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/Zg-Cmj5wXnw?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u2013 Ismael Machado \u00e9 escritor, jornalista e, por que n\u00e3o, cineasta. Publicou cinco livros e \u00e9 ganhador de 12 pr\u00eamios jornal\u00edsticos. Roteirista dos longas document\u00e1rios \u201c<a href=\"https:\/\/www.videocamp.com\/pt\/movies\/soldados-do-araguaia-2017\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Soldados do Araguaia<\/a>\u201d e \u201c<a href=\"https:\/\/amazoniareal.com.br\/ismae-machado\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Na Fronteira do Fim do Mundo<\/a>\u201d e da s\u00e9rie documental \u201c<a href=\"https:\/\/canaisglobo.globo.com\/assistir\/futura\/ubuntu-a-partilha-quilombola\/t\/ZPScpgvvJ8\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Ubuntu, a partilha quilombola<\/a>\u201c.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"&#8220;Homem com H&#8221; busca a sensorialidade. Logo de in\u00edcio, o rico som da mata absorve o pequeno Ney. 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