{"id":88761,"date":"2025-04-20T10:29:29","date_gmt":"2025-04-20T13:29:29","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=88761"},"modified":"2025-05-28T01:31:05","modified_gmt":"2025-05-28T04:31:05","slug":"cinema-pecadores-une-o-genero-vampiresco-ao-blues","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2025\/04\/20\/cinema-pecadores-une-o-genero-vampiresco-ao-blues\/","title":{"rendered":"Cinema: &#8220;Pecadores&#8221; une o g\u00eanero vampiresco ao blues"},"content":{"rendered":"<h2><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-88762 aligncenter\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/pecadores1.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"938\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/pecadores1.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/pecadores1-240x300.jpg 240w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/h2>\n<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>texto de <a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/PeliculaVirtual\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Jo\u00e3o Paulo Barreto<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Reza a lenda que Robert Johnson, um dos precursores do blues e um dos mais ex\u00edmios instrumentistas que j\u00e1 passaram por esse planeta, adquiriu sua per\u00edcia no viol\u00e3o ap\u00f3s um encontro inusitado com o diabo em uma encruzilhada localizada na regi\u00e3o do delta do rio Mississipi. No acordo feito com o sete-peles, o jovem Johnson, que viria a morrer aos 27 anos em 1938, teria recebido a proposta do tinhoso pela posse de sua alma em troca de todo talento musical que o bluesman demonstrou em sua curta vida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em \u201cPecadores\u201d (\u201cSinners\u201d, 2025), nova e, mais uma vez, proveitosa parceria do diretor de \u201cCreed\u201d (2015) e \u201cPantera Negra\u201d (2018), Ryan Coogler com o astro Michael B. Jordan, uma das cenas trazem o personagem de um pastor vivido Saul Williams alertando seu filho, Sammie Moore, outro ex\u00edmio instrumentista, ao lhe dizer: &#8220;Filho, se voc\u00ea continuar dan\u00e7ando com o diabo, um dia ele vai lhe seguir at\u00e9 sua casa\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nesse momento, que surge logo no come\u00e7o da trama, se torna evidente a proposta de Coogler de louvar as origens do blues, bem como seu alcance e influ\u00eancia cultural atrav\u00e9s dos s\u00e9culos, desde sua origem como ritmo oriundo da \u00c1frica at\u00e9 a sua assimila\u00e7\u00e3o e desenvolvimento na planta\u00e7\u00f5es de algod\u00e3o nos Estados Unidos. Quando se chega ao per\u00edodo da primeira metade do s\u00e9culo XX, fase no qual o nome de Robert Johnson se fez not\u00f3rio e sua lenda de d\u00e9bito sat\u00e2nico ganhou fama at\u00e9 sua precoce morte, o longa referencia essa famosa anedota blueseira de forma a criar esse direto elo com um dos pilares folcl\u00f3ricos do estilo musical.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No entanto, quando o filme traz a presen\u00e7a do dem\u00f4nio, ele n\u00e3o surge para cobrar uma d\u00edvida do jovem Sammie, nosso paralelo a Johnson em termos de impressionante talento musical, mas, sim, para lhe oferecer um acordo. E em tal acordo, o poder que o rapaz j\u00e1 possui de fazer uma m\u00fasica que se comunica atrav\u00e9s de eras por um dom\u00ednio not\u00e1vel do viol\u00e3o e sem qualquer necessidade de troca sat\u00e2nica, \u00e9 o que seduz a entidade que, aqui, surge na figura do vampiro irland\u00eas vivido por Jack O&#8217;Connell.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cPecadores\u201d aborda esse poder do blues tanto de forma aleg\u00f3rica como concreta. A concretude se d\u00e1 ao vermos como Sammie (vivido pelo prodigioso bluesman Miles Caton) tem em sua m\u00fasica seu basti\u00e3o de esperan\u00e7a pela mudan\u00e7a em sua vida para algo al\u00e9m das planta\u00e7\u00f5es de algod\u00e3o e dos dogmas religiosos de seu pai. Mas \u00e9 no espet\u00e1culo visual e sonoro com os quais Coogler desenha a citada alegoria de seu filme que a obra ganha sua principal for\u00e7a. Com as liberdades narrativas que a proposta do g\u00eanero do terror permite ao seu roteiro, o cineasta cria uma ode de respeito \u00e0 m\u00fasica como express\u00e3o cultural de suas diversas ra\u00edzes.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-88765 aligncenter\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/pecadores4.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/pecadores4.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/pecadores4-300x176.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em determinado momento, durante uma catarse sonora, o diretor flui sua c\u00e2mera por entre um grupo de pessoas a dan\u00e7ar ao som do viol\u00e3o de Sammie. A barreira do tempo cai belissimamente de forma visual e a m\u00fasica como express\u00e3o cultural de v\u00e1rios povos a percorrer passado, presente e futuro dentro daquela hist\u00f3ria surge em uma cena constru\u00edda a partir da citada fluidez da alegoria das imagens de Coogler. \u00c9 quando se entende a ideia do diretor em usar o cinema de terror como pano de fundo para algo muito mais potente. Nessa constru\u00e7\u00e3o narrativa, relaciona-se a cr\u00edtica \u00e0 sociedade historicamente racista dos Estados Unidos \u00e0 perenidade do blues como um estilo de resist\u00eancia diante do sofrimento de um povo, mas, acima disso, \u00e0 resposta aguerrida de Coogler a tais mazelas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na hist\u00f3ria dos g\u00eameos Elijah e Elias (ambos vividos por Michael B. Jordan), que retornam ao Mississipi ap\u00f3s uma violenta e prol\u00edfica passagem pela Chicago de Al Capone, Coogler traz uma potente narrativa sobre a brutalidade oriunda do racismo, mas, acima disso, coloca os dois personagens como pessoas que n\u00e3o t\u00eam planos de ceder a outra face para a mesma brutalidade. Quando um dos irm\u00e3os escuta a hist\u00f3ria que o pianista Delta Slim, vivido por Delroy Lindo, traz sobre um dos crimes cometidos pela Ku Klux Klan, apenas os sons da viol\u00eancia e do horror dos assassinatos s\u00e3o trazidos \u00e0 tona para o espectador. E de alguma forma, esse terror se evidencia e ressoa de maneira ainda mais forte do que se o roteiro optasse por ilustrar tal momento com imagens.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas a resposta contra a viol\u00eancia racista deve ser sempre a da mesma moeda, e a forma como o longa ilustra isso em seu ep\u00edlogo deixa evidente o que o diretor de Pantera Negra buscava como pertinente mensagem central em seu novo trabalho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na jun\u00e7\u00e3o dos elementos musicais com o aprofundamento das quest\u00f5es de luta racial, Coogler, diante da oportunidade de brincar com as possibilidades do cinema de g\u00eanero de terror, n\u00e3o decepciona ao inserir de modo gradativo os aspectos vampirescos que os filmes com essa tem\u00e1tica trazem em sua estrutura. Assim, est\u00e3o l\u00e1 as instru\u00e7\u00f5es relacionadas ao uso do alho como defesa, a luz solar como \u00faltimo aliado, as estacas de madeira fincadas no peito como resolu\u00e7\u00e3o brutal e a limita\u00e7\u00e3o de poder das criaturas se as mesmas n\u00e3o forem convidadas a entrar em recintos que n\u00e3o lhes pertencem. Este \u00faltimo item, inclusive, sendo usado de maneira brilhante na cria\u00e7\u00e3o de tens\u00e3o pela obra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Repleto de riqueza religiosa dentro de uma t\u00e3o familiar cultura advinda do candombl\u00e9, o filme de Ryan Coogler, da mesma forma que aconteceu com \u201cPantera Negra\u201d, dialoga muito bem com o p\u00fablico brasileiro e, sobretudo, baiano. Isso se d\u00e1 por trazer tais elementos religiosos e culturais de forma a inseri-los em sua narrativa como inteligentes armas contra o mal que aqueles personagens se v\u00eaem diante. E nessa jun\u00e7\u00e3o cultural, vemos, tamb\u00e9m, representa\u00e7\u00f5es do folclore musical oriundo da Irlanda e, nisso, o filme demonstra muito das ra\u00edzes imigrantes que os Estados Unidos possuem e que, hoje, sua (necro)pol\u00edtica busca extirpar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cPecadores\u201d, em seu t\u00edtulo simb\u00f3lico a definir v\u00e1rios de seus personagens, se firma como um dos trabalhos que melhor utilizam o cinema de g\u00eanero de terror como met\u00e1fora para abordagens reais do mal advindo da humanidade. Mas \u00e9 em seu encerramento, quando surgem a imagem, a voz e o instrumento musical de Buddy Guy, um dos \u00faltimos representantes de uma era de ouro do estilo, \u00e9 que nos percebemos, de fato, diante de um filme preciso em sua homenagem ao blues como pilar musical.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Pecadores | Trailer Oficial\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/QboHClfMu0k?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u2013\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/profile.php?id=100009655066720\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Jo\u00e3o Paulo Barreto\u00a0<\/a>\u00e9 jornalista, cr\u00edtico de cinema e curador do\u00a0<a href=\"http:\/\/coisadecinema.com.br\/xiii-panorama\/apresentacao\/panorama-2017\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Festival Panorama Internacional Coisa de Cinema<\/a>. Membro da Abraccine, colabora para o Jornal A Tarde, de Salvador, e \u00e9 autor de \u201c<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2024\/11\/11\/entrevista-mitico-guitarrista-baiano-alvaro-assmar-ganha-biografia-joao-paulo-barreto-fala-sobre-uma-vida-blues\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Uma Vida Blues<\/a>\u201d, biografia de \u00c1lvaro Assmar.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Nova parceria de Ryan Coogler e Michael B. Jordan une com maestria o g\u00eanero vampiresco ao blues como s\u00edmbolo da cultura musical evolutiva e antirracista.\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2025\/04\/20\/cinema-pecadores-une-o-genero-vampiresco-ao-blues\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":21,"featured_media":88763,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[4],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/88761"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/21"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=88761"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/88761\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":88766,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/88761\/revisions\/88766"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/88763"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=88761"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=88761"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=88761"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}