{"id":88215,"date":"2025-03-19T00:01:49","date_gmt":"2025-03-19T03:01:49","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=88215"},"modified":"2025-04-10T13:59:51","modified_gmt":"2025-04-10T16:59:51","slug":"cinema-em-better-man-robbie-williams-expoe-suas-cicatrizes-de-modo-descontraido-e-tocante","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2025\/03\/19\/cinema-em-better-man-robbie-williams-expoe-suas-cicatrizes-de-modo-descontraido-e-tocante\/","title":{"rendered":"Cinema: Em &#8220;Better Man&#8221;, Robbie Williams exp\u00f5e suas cicatrizes de modo descontra\u00eddo (e tocante)"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\">\u00a0<img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-88220\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/betterman3.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"1102\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/betterman3.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/betterman3-204x300.jpg 204w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/h2>\n<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>texto de\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/caro.davii\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Davi Caro<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cQuem \u00e9 Robbie Williams? Um narcisista, digno de socos\u201d, come\u00e7a a narra\u00e7\u00e3o. A voz, claro, \u00e9 do pr\u00f3prio Robbie, que surge como o relator de sua pr\u00f3pria trajet\u00f3ria ainda antes do fim dos cr\u00e9ditos iniciais de \u201cBetter Man: A Hist\u00f3ria de Robbie Williams\u201d. Todo espectador que se disponha a ver o novo filme de Michael Gracey, lan\u00e7ado em 2024 no exterior e que finalmente chega \u00e0s salas brasileiras, consegue, de fato, responder esta pergunta fundamental. Afinal, o cantor e compositor brit\u00e2nico \u00e9 uma das figuras mais inescap\u00e1veis (e, porque n\u00e3o dizer, controversas) dos \u00faltimos 30 anos de cultura pop. De uma ascens\u00e3o mete\u00f3rica como o coadjuvante em uma boyband at\u00e9 uma carreira solo grande o suficiente para eclipsar seus modestos passos iniciais, passando por uma vida p\u00fablica turbulenta e recheada de rumores dignos de tabloides, n\u00e3o s\u00e3o poucas as possibilidades de resolu\u00e7\u00e3o deste enigma. E, ainda assim, a mesma contesta\u00e7\u00e3o ecoa, repetidas vezes, de formas cifradas \u2013 e, \u00e0s vezes, nem tanto \u2013 ao longo das pouco mais de duas horas do novo longa. Ent\u00e3o, quem, de fato, \u00e9 Robbie Williams?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A maneira c\u00e2ndida com a qual o tema \u00e9 endere\u00e7ado por seu personagem principal come\u00e7a a surpreender a partir de uma curiosa escolha est\u00e9tica: no filme que dramatiza sua pr\u00f3pria hist\u00f3ria de vida, Williams \u00e9 representado como um macaco. O que poderia ser apenas uma forma sutil de endere\u00e7ar distanciamento social pode ser, na verdade, interpretado como uma esp\u00e9cie de auto-cr\u00edtica da parte do artista em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 sua pr\u00f3pria personalidade. \u201cMe tornei famoso aos 15 anos\u201d, ele relata, em um ponto do filme. \u201cEu ainda n\u00e3o era evolu\u00eddo quanto \u00e0s outras pessoas\u201d. A selvageria, outro atributo que pode ser associado tanto aos primatas quanto ao pr\u00f3prio Robbie, n\u00e3o chega perto de explicar a sutileza e a fragilidade que os efeitos computadorizados, embora falhos em alguns momentos, s\u00e3o capazes de transparecer. Ao fim, d\u00e1 para dizer que o motivo pelo qual Williams aprovou e incentivou a decis\u00e3o tem mais a ver com a tend\u00eancia a seguir os pr\u00f3prios instintos \u2013 sejam quais forem as consequ\u00eancias disso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Desde a inf\u00e2ncia prolet\u00e1ria na cinzenta cidade inglesa de Stoke-On-Trent dos anos 80, o sonho de fama de Robert Williams j\u00e1 se mostra um conceito muito mais instintivo do que adquirido. \u201cOu voc\u00ea o tem, ou voc\u00ea n\u00e3o \u00e9 ningu\u00e9m\u201d, diz o pai do futuro cantor, Peter (Steve Pemberton), cuja fantasia com o estrelato (inspirada por \u00edcones como Frank Sinatra) o leva a adotar o pseud\u00f4nimo Peter Conway em suas parcas atua\u00e7\u00f5es como comediante e entertainer. O abandono da fam\u00edlia por parte deste \u00faltimo leva o desajustado jovem a estreitar ainda mais a rela\u00e7\u00e3o com a m\u00e3e, Janet (Kate Mulvany) e sobretudo com a av\u00f3, Betty (Alison Stedman). Os prospectos acad\u00eamicos e a voca\u00e7\u00e3o para o estrelato acabam por afastar o rapaz dos estudos e o levam a uma audi\u00eancia com o empres\u00e1rio Nigel Martin-Smith (Damon Herriman), que acaba por contratar o promissor artista como membro do quinteto que, logo em frente, seria conhecido como Take That.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A jornada do grupo at\u00e9 o estrelato, contada principalmente por meio de uma bem coreografada montagem ao som de \u201cRock DJ\u201d (em um formato que se repete algumas vezes ao longo do filme) \u00e9 um dos acertos do roteiro, \u00e0 medida que os cinco jovens saem do circuito de bares gay e alcan\u00e7a alguns dos maiores palcos do Reino Unido. A inseguran\u00e7a de Robbie como membro da banda, assim como seu esfor\u00e7o em se afirmar como letrista frente ao carisma dos colegas \u2013 e ao talento musical de Gary Barlow (Jake Simmance) \u2013 o empurra para o abuso de \u00e1lcool e drogas, e acaba por n\u00e3o s\u00f3 cultivar uma reputa\u00e7\u00e3o de \u201cgaroto-problema\u201d diante da m\u00eddia como tamb\u00e9m por resultar em sua sa\u00edda do grupo. E, mesmo em suas interjei\u00e7\u00f5es como narrador, Williams n\u00e3o procura em momento algum se isentar da culpa ou de seu incontrol\u00e1vel comportamento nesta \u00e9poca. A s\u00fabita reaproxima\u00e7\u00e3o do pai, e a exposi\u00e7\u00e3o das mulheres que o criaram ao ass\u00e9dio que a fama traz, apenas faz aumentar a aliena\u00e7\u00e3o do jovem popstar. Mesmo o in\u00edcio de um relacionamento com a tamb\u00e9m cantora, e integrante do All Saints, Nicole Appleton (Raechelle Banno) n\u00e3o v\u00eam sem suas prova\u00e7\u00f5es \u2013 sobretudo com um aborto, aludido por meio de outra montagem musical, do filho dos dois, em prol da carreira desta \u2013 e os abusos de subst\u00e2ncias, somados \u00e0 infidelidade, abrem um abismo emocional (e, aos poucos, definitivo) no casal.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-88221 aligncenter\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/betterman4.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/betterman4.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/betterman4-300x176.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O encontro de Williams com Guy Chambers (Tom Budge) acentua o desejo instigado no cantor pelos irm\u00e3os Gallagher, do Oasis, por se tornar um sucesso solo grande o suficiente para encher o festival anual de Knebworth (que a banda de Manchester lotou duas vezes em 1996). O pre\u00e7o a se pagar, no entanto, \u00e9 caro, e a rota de autodestrui\u00e7\u00e3o na qual Robbie embarca acaba o distanciando das principais figuras em sua vida. O rompimento das rela\u00e7\u00f5es com o pai oportunista e a subsequente morte da av\u00f3 fazem com que a batalha interna do cantor em busca de aprova\u00e7\u00e3o o leve, logo ap\u00f3s a realiza\u00e7\u00e3o de seu sonho, \u00e0s prova\u00e7\u00f5es da reabilita\u00e7\u00e3o \u2013 da qual emerge, vitorioso, ap\u00f3s um acerto de contas consigo mesmo e com seu passado (em um dos poucos momentos menos inspirados do longa, onde a sutileza d\u00e1 lugar a efeitos visuais que podem desconectar o espectador).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Apesar de algumas situa\u00e7\u00f5es onde o uso de efeitos visuais \u00e9 mais destoante, tudo trabalha em favor do l\u00fadico e (como n\u00e3o) do entretenimento. Al\u00e9m das performances de apoio (em especial da fam\u00edlia de Robbie, com destaque para o quase sempre inconveniente Peter vivido por Steve Pemberton), o filme marca outro ponto com o bom uso das muitas can\u00e7\u00f5es de sucesso da carreira de Williams, solo ou n\u00e3o. A passagem que representa a triunfal performance de Knebworth, embalada por \u201cLet Me Entertain You\u201d, \u00e9 memor\u00e1vel em sua riqueza de detalhes, refletindo o caos mental pelo qual o artista passava no momento. A perda da av\u00f3, sonorizada por \u201cAngels\u201d, \u00e9 t\u00e3o tocante quanto a resolu\u00e7\u00e3o do luto, ao som da hom\u00f4nima \u201cBetter Man\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mesmo os menos entusiastas da m\u00fasica de Robbie podem achar dif\u00edcil conter l\u00e1grimas em alguns momentos, ou ao menos reconhecer o potencial das can\u00e7\u00f5es que o homem coleciona em seu cat\u00e1logo. Por mais \u00f3bvio que possa parecer, s\u00f3 isso j\u00e1 seria capaz de diferenciar o trabalho de Michael Gracey (cujo outro cr\u00e9dito cinematogr\u00e1fico de grande or\u00e7amento \u00e9 \u201c<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2018\/03\/12\/tres-filmes-o-rei-do-show-marshall-e-uma-especie-de-familia\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">O Rei do Show<\/a>\u201d, de 2017) das v\u00e1rias cinebiografias lament\u00e1veis que outros astros pop j\u00e1 receberam.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas o grande diferencial est\u00e1 mesmo no protagonista, e em sua irrestrita participa\u00e7\u00e3o como narrador de sua jornada: Robbie Williams nunca foi o tipo de artista que se leva muito a s\u00e9rio, e seu papel aqui definitivamente solidifica essa impress\u00e3o. Por\u00e9m, ao inv\u00e9s de glorificar as muitas atribula\u00e7\u00f5es pelas quais passou em favor da pr\u00f3pria arte, o cantor exp\u00f5e suas cicatrizes de modo descontra\u00eddo, por\u00e9m n\u00e3o menos tocante por causa disso. Suas can\u00e7\u00f5es s\u00e3o enfileiradas para que seus muitos seguidores e detratores possam testemunhar o qu\u00e3o ineg\u00e1vel seu legado \u00e9, mas sem nunca esconder os sacrif\u00edcios f\u00edsicos e psicol\u00f3gicos que o acometeram no caminho. Ainda que pelos olhos de uma esp\u00e9cie t\u00e3o diferente, e ao mesmo tempo t\u00e3o semelhante a n\u00f3s, Williams n\u00e3o consegue se esconder de seu p\u00fablico, ou de si mesmo. E o resultado \u00e9 digno da aten\u00e7\u00e3o tanto de seus f\u00e3s quanto de espectadores mais curiosos. A pergunta do in\u00edcio do filme encontra, finalmente, sua resposta mais perfeita: \u201cO que eu fa\u00e7o \u00e9 apenas cabar\u00e9\u201d, ele diz ao final, \u201cmas \u00e9 cabar\u00e9 de primeira classe. E nisso eu sou o melhor.\u201d Mesmo para os mais c\u00e9ticos, \u00e9 dif\u00edcil de duvidar.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"BETTER MAN - A HIST\u00d3RIA DE ROBBIE WILLIAMS | Trailer Legendado Oficial\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/KjABoRGOtTo?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><em>\u2013\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/caro.davii\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Davi Caro<\/a>\u00a0\u00e9 professor, tradutor, m\u00fasico, escritor e estudante de Jornalismo. Leia mais textos dele\u00a0<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/author\/davi-caro\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">aqui<\/a>.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Robbie Williams nunca foi o tipo de artista que se leva muito a s\u00e9rio, e seu papel aqui &#8211; como narrador de sua pr\u00f3pria histdefinitivamente solidifica essa impress\u00e3o.\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2025\/03\/19\/cinema-em-better-man-robbie-williams-expoe-suas-cicatrizes-de-modo-descontraido-e-tocante\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":134,"featured_media":88219,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[4],"tags":[7630],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/88215"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/134"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=88215"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/88215\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":88222,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/88215\/revisions\/88222"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/88219"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=88215"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=88215"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=88215"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}