{"id":88183,"date":"2025-03-17T00:01:08","date_gmt":"2025-03-17T03:01:08","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=88183"},"modified":"2025-04-22T10:22:57","modified_gmt":"2025-04-22T13:22:57","slug":"cinema-em-amizade-cao-guimaraes-navega-calmamente-em-direcao-ao-desconhecido","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2025\/03\/17\/cinema-em-amizade-cao-guimaraes-navega-calmamente-em-direcao-ao-desconhecido\/","title":{"rendered":"Cinema: Em \u201cAmizade\u201d, Cao Guimar\u00e3es navega calmamente em dire\u00e7\u00e3o ao desconhecido"},"content":{"rendered":"<h2><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-88188 aligncenter\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/amizade1.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"1110\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/amizade1.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/03\/amizade1-203x300.jpg 203w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/h2>\n<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>texto de <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/leandro_luz\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Leandro Luz<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Artista inquieto e curioso, o mineiro Cao Guimar\u00e3es vem realizando, desde o final dos anos 1980, uma investiga\u00e7\u00e3o formal sem-par com as artes pl\u00e1sticas e o audiovisual. Algumas de suas obras podem ser encontradas em cole\u00e7\u00f5es como as do <a href=\"https:\/\/www.screamyell.com.br\/blog\/2008\/08\/06\/ruby-tuesday\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Tate Modern<\/a>, no Reino Unido, do <a href=\"https:\/\/www.screamyell.com.br\/blog\/2011\/06\/15\/top-15-museus\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">MoMA e do Museu Guggenheim<\/a>, nos Estados Unidos, da Fondation Cartier, na Fran\u00e7a, de <a href=\"https:\/\/www.screamyell.com.br\/blog\/2009\/01\/12\/sao-joao-de-rey-e-o-inesquecivel-inhotim\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Inhotim<\/a>, aqui no Brasil, dentre v\u00e1rias outras. A partir dos anos 2000 a sua produ\u00e7\u00e3o art\u00edstica ganha f\u00f4lego junto ao cinema. Acostumado a trabalhar desde sempre em uma l\u00f3gica de produ\u00e7\u00e3o familiar, dom\u00e9stica, com equipes pequenas que n\u00e3o raro se repetem, Guimar\u00e3es gestou um corpo consistente de 12 longas-metragens que circularam pelo Brasil e pelo mundo ao longo das \u00faltimas tr\u00eas d\u00e9cadas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O mais recente filme do artista \u00e9 um convite \u00e0 camaradaria. Antes de qualquer outra coisa, \u201cAmizade\u201d (Cao Guimar\u00e3es, 2023) \u00e9 uma viagem no tempo, um deslocamento pela hist\u00f3ria dos aparatos t\u00e9cnicos da imagem e do som. Pel\u00edcula, v\u00eddeo, digital, fita de rolo, secret\u00e1ria eletr\u00f4nica e whatsapp se misturam em uma cacofonia tecnol\u00f3gica absurda que nos revela o quanto mudamos e, consequentemente, o quanto o mundo mudou de 2000 para c\u00e1. As imagens de arquivo que comp\u00f5em o filme &#8211; nenhuma delas produzidas em fun\u00e7\u00e3o deste objetivo, vale destacar &#8211; foram coletadas ao longo desse tempo no qual Guimar\u00e3es estabeleceu parcerias profissionais &#8211; e de vida &#8211; que o trouxeram at\u00e9 aqui.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Roteirizado e montado pelo pr\u00f3prio diretor, \u201cAmizade\u201d precisou de cerca de cinco anos na ilha de edi\u00e7\u00e3o para existir. Em entrevistas a respeito do seu processo de cria\u00e7\u00e3o, Guimar\u00e3es afirma que este foi o seu filme mais dif\u00edcil, sobretudo pelo \u00e1rduo trabalho de montagem, que exigiu a digitaliza\u00e7\u00e3o de in\u00fameros arquivos antigos registrados em diversos formatos e um olhar atento e sens\u00edvel para a decupagem desse vasto material. \u201cO diferente de mim era eu. O outro era eu mesmo\u201d, declara o cineasta quando questionado a respeito de seu novo filme. Acostumado a investir na alteridade, Guimar\u00e3es acaba, desta vez, realizando um gesto interno que todos n\u00f3s pudemos um dia reconhecer quando ouvimos a nossa pr\u00f3pria voz ou vimos a nossa imagem capturada por uma c\u00e2mera. O efeito espelho muito pr\u00f3prio do cinema e intensificado pela l\u00f3gica documental \u00e9 ativado com muito interesse por Guimar\u00e3es, consciente de que, filosoficamente, o cora\u00e7\u00e3o do filme est\u00e1 exatamente nisso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma das coisas que mais chama a aten\u00e7\u00e3o do ponto de vista do estilo adotado em \u201cAmizade\u201d \u00e9 o expediente sonoro concebido pelo duo de artistas Marcos Moreira e Nelson Soares, mais conhecidos pela alcunha O Grivo. O design de som e a trilha sonora original percorrem um caminho nada \u00f3bvio, pouco interessados em perseguir as imagens, e sim em confront\u00e1-las, em \u201cdar um perdido\u201d nas inten\u00e7\u00f5es narrativas mais evidentes. Em determinado segmento do filme, por exemplo, Guimar\u00e3es direciona o seu olhar para os letreiros dos \u00f4nibus (em Belo Horizonte, provavelmente). Sem a trilha sonora, en\u00e9rgica, viva, com sons que remetem \u00e0s experimenta\u00e7\u00f5es sonoras contempor\u00e2neas, as imagens daqueles \u00f4nibus e de uma cidade que hoje n\u00e3o existe mais (pelo menos n\u00e3o da mesma maneira) poderiam sugerir uma busca pela nostalgia. No entanto, a cria\u00e7\u00e3o sonora d\u2019O Grivo aponta para outra dire\u00e7\u00e3o, para uma verdadeira viagem entre o passado, o presente e o futuro, algo que Guimar\u00e3es parece perseguir com afinco.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o \u00e9 tamb\u00e9m por um sentimento nost\u00e1lgico que Guimar\u00e3es filma o seu amigo e produtor de longa data dirigindo um carro e cantando m\u00fasicas do Clube da Esquina e dos Novos Baianos. A c\u00e2mera parece hipnotizada pela imagem do homem, as suas m\u00e3os inquietas, o di\u00e1logo constante com o r\u00e1dio do carro, a paisagem que emoldura essa rela\u00e7\u00e3o de amizade que existiu em um determinado instante no tempo. A amizade em oposi\u00e7\u00e3o e resist\u00eancia \u00e0 barb\u00e1rie que tomou conta do Brasil a partir de 2016. A obra tamb\u00e9m revela um interesse profundo em refletir a respeito do nosso pa\u00eds, sobretudo o da \u00faltima d\u00e9cada &#8211; incluindo a pandemia, que acaba tendo um protagonismo grande tamb\u00e9m na segunda metade do filme, com o seu deserto de rostos, como frisa a narra\u00e7\u00e3o. Imagens de telas inundam o quadro: computadores e celulares permitem as v\u00eddeo-chamadas; as telas servem aos momentos de relaxamento e festa, mas tamb\u00e9m de reflex\u00e3o e conscientiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cAmigos a gente n\u00e3o escolhe. Amigos acontecem (ser\u00e1 mesmo?).\u201d Quando atento aos detalhes no uso desse arquivo rico e improv\u00e1vel, Cao Guimar\u00e3es consegue tirar do \u201cgrande tema\u201d uma sa\u00edda poss\u00edvel para algo de interesse coletivo. O tempo dilatado e os corpos humanos recortados d\u00e3o conta dessa abstra\u00e7\u00e3o, por exemplo. Em contrapartida, quando se det\u00e9m excessivamente nas imagens mais concretas de um passado entre amigos, incluindo medita\u00e7\u00f5es a respeito de quest\u00f5es geracionais e do princ\u00edpio do conceito de amizade, o filme perde um pouco o embalo e se confunde com um di\u00e1rio pessoal. De qualquer maneira, at\u00e9 que ponto algo t\u00e3o \u00edntimo pode ser de interesse comum \u00e9 o que norteia o filme, que entre acertos e imprecis\u00f5es navega calmamente em dire\u00e7\u00e3o ao desconhecido. Essa \u00e9 a beleza do cinema de Cao Guimar\u00e3es e de seu novo longa-metragem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para quem quiser mergulhar fundo no cinema de Cao Guimar\u00e3es, est\u00e1 em exibi\u00e7\u00e3o na Emba\u00faba Play <a href=\"https:\/\/embaubaplay.com\/foco-cao-guimaraes\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">um conjunto de 10 obras do cineasta<\/a>, entre elas \u201cAndarilho\u201d (Cao Guimar\u00e3es, 2006), \u201cO Homem das Multid\u00f5es\u201d (Cao Guimar\u00e3es e Marcelo Gomes, 2013) e \u201cEspera\u201d (Cao Guimar\u00e3es, 2018).<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Amizade | trailer oficial | estreia em 13 de mar\u00e7o de 2025\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/d7Pdjs3OVP0?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u2013 Leandro Luz (<a href=\"https:\/\/twitter.com\/leandro_luz\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">@leandro_luz<\/a>) escreve e pesquisa sobre cinema desde 2010. Coordena os projetos de audiovisual do Sesc RJ desde 2019 e exerce atividades de cr\u00edtica nos podcasts\u00a0<a href=\"https:\/\/podcasters.spotify.com\/pod\/show\/plano-sequencia\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Plano-Sequ\u00eancia<\/a>\u00a0e\u00a0<a href=\"https:\/\/podcasters.spotify.com\/pod\/show\/plano-sequencia\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">1 disco, 1 filme.<\/a><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\u201cAmizade\u201d \u00e9 uma viagem no tempo, um deslocamento pela hist\u00f3ria dos aparatos t\u00e9cnicos. 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