{"id":87973,"date":"2025-03-06T06:02:51","date_gmt":"2025-03-06T09:02:51","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=87973"},"modified":"2025-06-05T00:17:13","modified_gmt":"2025-06-05T03:17:13","slug":"entrevista-arto-lindsay-fala-sobre-o-projeto-afonia-e-afeto-onde-discute-arte-tecnologia-e-o-que-surgir-na-conversa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2025\/03\/06\/entrevista-arto-lindsay-fala-sobre-o-projeto-afonia-e-afeto-onde-discute-arte-tecnologia-e-o-que-surgir-na-conversa\/","title":{"rendered":"Entrevista: Arto Lindsay fala sobre o projeto \u201cAfonia e Afeto\u201d, onde discute arte, tecnologia e o que surgir na conversa"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>entrevista de\u00a0<\/strong><strong><a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/_renanguerra\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Renan Guerra<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/artolindsay\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Arto Lindsay<\/a> poderia ser apresentado como quem faz uma descri\u00e7\u00e3o de LinkedIn: \u201c\u00c9 m\u00fasico, compositor, produtor, artista multim\u00eddia; traz em seu curr\u00edculo colabora\u00e7\u00f5es com nomes como Caetano Veloso, Laurie Anderson e Ryuichi Sakamoto e projetos ao lado de artistas como Jean-Michel Basquiat, Matthew Barney e Brian Eno\u201d. Seria uma bela introdu\u00e7\u00e3o, ainda que formulaica, e que poderia seguir acrescentando nomes, parcerias e cria\u00e7\u00f5es, tudo que qualquer pessoa encontra no Google com muita facilidade. Se voc\u00ea n\u00e3o conhece Arto, talvez valesse a pena come\u00e7ar ouvindo coisas diversas, como os discos \u201cGreed\u201d (1988) e \u201cLust\u201d (1991), do Ambitious Lovers, ou a parceria com Caetano em \u201cCirculad\u00f4\u201d (1991). Tudo isso faria sentido, por\u00e9m a entrevista que voc\u00ea ler\u00e1 abaixo n\u00e3o necessita de todas essas credenciais, pois Arto se apresenta aos poucos em cada resposta, em cada digress\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 2024, Arto come\u00e7ou o projeto \u201c<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=2XtzLwlGO-s&amp;list=PLVNrhAKtJ65NcjKUjETQ3CPGnJezMVF5I\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Afonia e Afeto<\/a>\u201d, uma s\u00e9rie de conversas com sua curadoria e media\u00e7\u00e3o, com figuras diversas, de \u00e1reas de pesquisa e pensamento amplas. As conversas s\u00e3o disponibilizadas no YouTube e se permitem ser longas, diversas e, por isso mesmo, muito interessantes. \u201cAfonia e Afeto\u201d \u00e9 uma realiza\u00e7\u00e3o do <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/@auroras\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">espa\u00e7o de arte Auroras<\/a> e do Promac &#8211; Secretaria Municipal de Cultura, informa\u00e7\u00e3o que parece um tanto burocr\u00e1tica, mas voc\u00eas ver\u00e3o que tamb\u00e9m se fala sobre possibilidades de produ\u00e7\u00e3o e financiamento em nosso papo abaixo. Conversa que tem como ponto de partida o programa de YouTube e sua apresenta\u00e7\u00e3o, prel\u00fadio que Arto segue direitinho: ele apresenta o programa, explica sua log\u00edstica e convida aos primeiros epis\u00f3dios, dispon\u00edveis at\u00e9 o momento desta entrevista &#8211; realizada no final de 2024. Depois disso, ele nos prop\u00f5e um jogo muito parecido com o de seu programa, em que os temas v\u00e3o surgindo e outras discuss\u00f5es se imp\u00f5em, num cen\u00e1rio em que aquilo que seria considerado como uma digress\u00e3o se torna uma parte essencial da narrativa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para muitos jornalistas, Arto \u00e9 um sonho, o entrevistado ideal: ele segue os protocolos que nos levaram aquele papo, mas tamb\u00e9m permite que outros caminhos se imponham \u2013 e isso \u00e9 ouro aqui para o Scream &amp; Yell, somos f\u00e3s das entrevistas sem limite de caracteres. Nesse papo, Arto Lindsay fala sobre arte, produ\u00e7\u00e3o de conte\u00fado, cria\u00e7\u00e3o independente, tecnologia e o impacto da intelig\u00eancia artificial, e, claro, sua experi\u00eancia de norte-americano adotado pelo Brasil e pelos brasileiros. Trata-se de uma grande apresenta\u00e7\u00e3o da mente de Arto, seu fluxo de pensamento, sua mente sempre ativa, seu olhar constantemente inquieto sobre o mundo e sua forma de nos questionar sobre diferentes temas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Artista inventivo, Arto \u00e9 tamb\u00e9m uma voz pulsante para pensar nosso tempo e nossa arte. Tire um tempo para mergulhar nesse fluxo de pensamentos, ideias e questionamentos propostos por ele, tanto aqui quanto em seu \u201cAfonia e Afeto\u201d. Aproveitem nosso papo na \u00edntegra abaixo:<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Afonia e Afeto I \u2013\u00a0Escala\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/DEe5eGD-9mM?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Para come\u00e7ar, queria falar um pouco sobre \u201cAfonia e Afeto\u201d. Entender um pouco como surgiu essa ideia de criar esse programa de di\u00e1logos e entender qual \u00e9 a proposta? Como voc\u00ea construiu esse projeto?<\/strong><br \/>\nOlha, estou envolvido com o <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/@auroras\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Auroras<\/a> desde o in\u00edcio. Sou amigo do Rica Kugelmas, que \u00e9 o Auroras. E achei que seria legal interagir com pessoas de outras \u00e1reas, cientistas, escritores, e n\u00e3o s\u00f3 gente de artes pl\u00e1sticas. Ent\u00e3o, foi uma vontade, uma ideia muito abrangente, muito geral. N\u00e3o foi espec\u00edfico em nenhum sentido. E at\u00e9 agora tivemos duas conversas e eu t\u00f4 aprendendo a liderar, moderar, n\u00e3o sei (direito) qual \u00e9 a express\u00e3o, as conversas. At\u00e9 agora, quando assisto, acho muitas falhas na minha parte, de como encaminhar a conversa, jogar um verde, sabe? Atrapalhar um pouco ou incentivar um pouco. Estou aprendendo. Mas pretendemos continuar no ano que vem (2025). At\u00e9 agora foram dois.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Sim. Voc\u00ea falou um pouco dessa quest\u00e3o do aprendizado. Entendo que o di\u00e1logo \u00e9 um processo muito importante no seu trabalho. E se colocar nesse lugar \u00e9 tamb\u00e9m se colocar em um lugar novo, n\u00e3o? Nesse espa\u00e7o de mediador desses di\u00e1logos.<\/strong><br \/>\nSim, com certeza. Eu funciono muito na base do di\u00e1logo. No meu pr\u00f3prio trabalho musical ou espacial, ou seja, visual. E voc\u00ea tem raz\u00e3o. \u00c9 um pouco diferente essa rela\u00e7\u00e3o, sendo o terceiro ponto do trip\u00e9, \u00e9 diferente, sim.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Esse projeto do Auroras est\u00e1 sendo divulgado no YouTube, voc\u00eas t\u00eam um tempo maior, s\u00e3o epis\u00f3dios longos. \u00c9 um caminho bastante interessante de ser assumido no momento em que a gente v\u00ea muitas pessoas acelerando os conte\u00fados ou diminuindo o tempo das coisas. Eu queria entender um pouco sobre essa perspectiva de abrir o tempo para o espa\u00e7o de di\u00e1logo e para a conversa.<\/strong><br \/>\nA gente assume um certo risco da conversa perder a gra\u00e7a, n\u00e3o \u00e9? Porque ela \u00e9 direcionada de uma maneira bem geral. Primeiro, n\u00f3s at\u00e9 consideramos fazer um podcast. Mas acho que os podcasts s\u00e3o um formato mais preso e mais formatado. E acho que as pessoas teriam mais paci\u00eancia para deixar rolar um v\u00eddeo no YouTube e prestar aten\u00e7\u00e3o ou n\u00e3o prestar aten\u00e7\u00e3o, sabe? Ficam com aquilo ali. O podcast&#8230; Os que eu conhe\u00e7o s\u00e3o&#8230; Tem alguns que s\u00e3o bem direcionados, alguns que eu escuto de vez em quando, um amigo que \u00e9 cientista do clima, tem uns de filosofia que de vez em quando eu escuto, mas, para falar a verdade, eu n\u00e3o tenho muita paci\u00eancia para isso. Prefiro ler. Tenho um filho de 20 anos, e ele n\u00e3o gosta de absorver informa\u00e7\u00e3o lendo. Ele \u00e9 uma gera\u00e7\u00e3o que cresceu olhando para o telefone. Ent\u00e3o, ele prefere muito v\u00eddeo e assiste a muitos v\u00eddeos. E me pergunto se esses v\u00eddeos s\u00e3o confi\u00e1veis, se \u00e9 mais um filtro. Se o escritor j\u00e1 \u00e9 um filtro frente a hist\u00f3ria, ou alguma t\u00e9cnica, ou algum assunto que n\u00e3o seja completamente objetivo, ou seja considerado objetivo, como a matem\u00e1tica. Mas ele e a gera\u00e7\u00e3o dele, \u00e9 assim que eles aprendem. Interessante. Outra coisa que, no podcast, n\u00e3o que seja o caso desse \u201cAfonia e Afeto\u201d, mas no podcast voc\u00ea tem que, voc\u00ea tem que pedir autoriza\u00e7\u00e3o para tocar uma m\u00fasica e muitas vezes at\u00e9 pagar antes de divulgar. E isso \u00e9 muito limitador. Tamb\u00e9m tenho um programa de r\u00e1dio com um amigo meu, Ben Radcliffe, que \u00e9 DJ, professor, cr\u00edtico de m\u00fasica nos Estados Unidos, escritor, e a gente tamb\u00e9m continuou a fazer um podcast, mas a\u00ed quando a gente viu, a gente foi escutar alguns, e a gente n\u00e3o pode tocar m\u00fasica, e n\u00e3o sei se voc\u00ea faz podcast ou escuta muito podcast, mas sempre vem com aquela trilhazinha an\u00f3dina, sabe? Uma m\u00fasica que n\u00e3o \u00e9 m\u00fasica, parece que \u00e9 m\u00fasica de supermercado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00c9 isso mesmo, porque voc\u00ea realmente n\u00e3o pode usar as m\u00fasicas. Se voc\u00ea est\u00e1 falando de m\u00fasica, \u00e9 muito dif\u00edcil voc\u00ea utilizar a m\u00fasica, porque sen\u00e3o eles retiram das plataformas de \u00e1udio. Isso \u00e9 um caminho complicado.<\/strong><br \/>\nMas muita gente se d\u00e1 bem com isso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea falou um pouco dessa quest\u00e3o do formato de v\u00eddeo. Voc\u00ea sempre experimentou com diferentes formatos e diferentes possibilidades. Entendo que estar nesse formato de v\u00eddeo no YouTube tamb\u00e9m \u00e9 um tipo de experimenta\u00e7\u00e3o para voc\u00ea dentro dessa caminhada, n\u00e3o?<\/strong><br \/>\n\u00c9, com certeza. N\u00e3o estou acostumado a esse tipo de v\u00eddeo e tamb\u00e9m n\u00e3o estou acostumado a esse tipo de exposi\u00e7\u00e3o de uma ideia. Meus di\u00e1logos, geralmente, de trabalho ou com os amigos, com as pessoas com quem eu converso, s\u00e3o mais especulativos. S\u00e3o mais no sentido de, e se tal coisa acontecesse, daria qual resultado? Se a gente fizesse assim, o que \u00e9 que ia ocorrer? \u00c9 mais nesse sentido, geralmente, que a gente conversa. Sim. Claro que a gente tamb\u00e9m \u00e9 bastante cr\u00edtico e adora falar mal dos outros, mas acho que isso \u00e9 humano.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea falou dessa diversidade de pessoas que tem dentro do Afonia e Afeto. Voc\u00ea re\u00fane outras figuras de outros universos e traz para discutir tamb\u00e9m a partir dessa perspectiva da arte. Como que foi essa formata\u00e7\u00e3o de trazer esses nomes? Como voc\u00ea chegou nesses nomes que participam do projeto?<\/strong><br \/>\nO primeiro foi com a Renata Lucas, que \u00e9 uma artista que admiro muito, e com o Pedro Meira Monteiro, professor de literatura de l\u00edngua portuguesa na Universidade de Princeton, nos Estados Unidos. Eu quis trazer uma perspectiva liter\u00e1ria para o trabalho dela, entendeu? E eles tinham alguns pontos em comum, o interesse no imagin\u00e1rio ind\u00edgena, na urban\u00edstica tamb\u00e9m brasileira. E come\u00e7amos por a\u00ed. Eu apresentei uma ideia, a ideia da escala. Pequeno, m\u00e9dio, grande, dist\u00e2ncias grandes, intimidade, microssistemas, pouco no microsc\u00f3pico, etc. Mas foi a primeira e eu n\u00e3o consegui andar muito longe com a minha ideia, e a conversa foi por outros lados. O que tamb\u00e9m \u00e9 bom, n\u00e9? Ali\u00e1s, \u00e9 sempre bom. Mas o segundo, eu convidei o Marcelo Knobel, professor de f\u00edsica da Unicamp, e um amigo meu, m\u00fasico, o Louren\u00e7o Rebetez, para discutir o tempo dentro da m\u00fasica. Voc\u00ea deve saber que na f\u00edsica, os f\u00edsicos dizem que o tempo n\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio para descrever o universo. As equa\u00e7\u00f5es que descrevem o mundo, tanto o mundo qu\u00e2ntico, que \u00e9 das part\u00edculas, e o mundo cosmol\u00f3gico, os inversos, as constela\u00e7\u00f5es, etc., buracos negros e tal, para descrever tanto de um como do outro, n\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio incluir o tempo. O tempo, nessas equa\u00e7\u00f5es, ele pode ir e vir. Essas equa\u00e7\u00f5es s\u00e3o iguais de um lado e do outro. Isso \u00e9 uma grande quest\u00e3o na f\u00edsica, a existencia ou n\u00e3o do tempo. Se o tempo \u00e9 uma consequ\u00eancia, se a nossa experi\u00eancia do tempo \u00e9 simplesmente uma consequ\u00eancia dos limites dos nossos sentidos, ou n\u00e3o. Ent\u00e3o, foi uma conversa nesse sentido. E o Louren\u00e7o est\u00e1 fazendo uma pesquisa, tem um disco que estou ajudando, que \u00e9 um disco muito focado sobre microrritmos e pequenas mudan\u00e7as r\u00edtmicas. E voc\u00ea pode interpretar de uma maneira ou de outra, sabe? Ent\u00e3o, essa conversa \u00e9 mais t\u00e9cnica, porque eu acho que essas conversas mais t\u00e9cnicas fazem bem \u00e0s artes visuais. N\u00e3o que sirvam simplesmente como met\u00e1foras para voc\u00ea utilizar para colocar o t\u00edtulo de uma pintura, mas os m\u00e9todos das disciplinas diferentes e as rela\u00e7\u00f5es entre os elementos com que eles mexem, eu acho que isso \u00e9 muito interessante para a arte.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Arto Lindsay - Combust\u00edvel _Feat. Cortejo Afro_Remix Dj Gug\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/M7yUUhYFOp4?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Sim. Voc\u00ea falou desse processo de rela\u00e7\u00e3o entre artes visuais e esse processo que voc\u00ea est\u00e1 tendo com o Louren\u00e7o de m\u00fasica. Eu acho que a m\u00fasica \u00e9 um ponto muito importante na sua carreira. Uma parte do p\u00fablico conhece muito o seu trabalho a partir do seu lado musical. Como voc\u00ea tem dividido todos esses processos atualmente? Esse caminho de estar nas artes visuais, esse processo de estar pensando outros formatos e de continuar experimentando com a m\u00fasica.<\/strong><br \/>\nQuando comecei a fazer m\u00fasica, eu me inspirei muito nas artes visuais e nos procedimentos. E eu percebi desde o in\u00edcio que o som poderia ser um material escultural e que aquilo que a gente fazia musicalmente poderia ser entendido como uma escultura, enquanto n\u00e3o deixasse de ser intelig\u00edvel como m\u00fasica, ou que n\u00e3o tivesse um impacto como m\u00fasica. E sempre me relacionei com artistas visuais e acho que eles tamb\u00e9m sentiam essa simpatia estrutural no meu trabalho. Fiz muitas colabora\u00e7\u00f5es com artistas nesses anos todos. Chegou uma hora que comecei a esbo\u00e7ar algumas instala\u00e7\u00f5es sonoras aqui e ali, mas fiz um desfile no Carnaval de Salvador com um artista chamado Matthew Barney, dentro do carnaval, com a colabora\u00e7\u00e3o do Grupo Cortejo Afro. E isso foi um desfile em que a gente desfilou no circuito Barra-Ondina, no meio dos outros grupos. E, por ser t\u00e3o poroso e criativo, e sempre inovador, isso n\u00e3o causou espanto nenhum nos baianos e nos turistas. Era mais um desfile maluco. Depois disso, come\u00e7aram a me chamar para fazer esses desfiles. Ent\u00e3o, tenho feito esses desfiles como uma performance. Porque tem o lado escultural, tem o lado musical, \u00e9 claro, tem o lado narrativo, e pode pensar que tem o lado cinem\u00e1tico. Ent\u00e3o, o desfile, para mim, \u00e9 uma forma parecida com a forma da \u00f3pera, que pode incluir muitas artes dentro de uma arte s\u00f3. Aprendi muito nesses anos, porque colaborei com muita gente bacana, que me desafiou de v\u00e1rias formas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea falou um pouco dessa perspectiva de uni\u00e3o de v\u00e1rias artes dentro desses desfiles, e eu entendo que, al\u00e9m disso, voc\u00ea tamb\u00e9m continua com projetos experimentais de m\u00fasica. Voc\u00ea continua se apresentando. Recentemente, voc\u00ea se apresentou aqui em S\u00e3o Paulo no Matiz, ao lado de outros artistas, e eu queria entender um pouco como t\u00eam funcionado essas trocas mais recentes na sua carreira.<\/strong><br \/>\n\u00c9 porque fa\u00e7o uma m\u00fasica denominada de mais experimental, mas tamb\u00e9m fa\u00e7o a m\u00fasica mais&#8230; eu me interesso pela forma da can\u00e7\u00e3o, sabe? E como sou um m\u00fasico que decidiu n\u00e3o aprender v\u00e1rias t\u00e9cnicas convencionais l\u00e1 atr\u00e1s, quando comecei, para me diferenciar e tamb\u00e9m com aquela bela arrog\u00e2ncia de um jovem de 20 e poucos anos, tentei fazer uma coisa poss\u00edvel, uma coisa absoluta, tocar m\u00fasica sem entender a m\u00fasica, saber tocar a m\u00fasica. A\u00ed, para mim, construir uma can\u00e7\u00e3o \u00e9 um desafio grande. Chegou uma hora que eu escolhi tentar fazer can\u00e7\u00f5es. N\u00e3o deixar de lado a pr\u00e1tica mais experimental, mas tamb\u00e9m tentar construir can\u00e7\u00f5es. E a\u00ed v\u00e1rias medidas, can\u00e7\u00f5es mais ou menos experimentais, mais ou menos tradicionais, cantar sambas, cantar m\u00fasicas do solo americano, aprender a cantar melhor. Tudo isso \u00e9 um projeto de educa\u00e7\u00e3o ao ar livre, digamos assim. Estou me educando em cima do palco, estou me educando junto com as pessoas, estou apresentando um processo de me educar ali. Ent\u00e3o, continua esse&#8230; Eu tenho um disco pronto, que estou agora procurando uma gravadora, um disco de can\u00e7\u00f5es, eu tenho feito uma s\u00e9rie de discos de can\u00e7\u00f5es nesses anos. Uma carreira, de alguma forma, meio paradoxal, porque durante uma \u00e9poca, por exemplo, nos anos 1970, na Europa, e na Alemanha em particular, existia muita grana para a m\u00fasica experimental e para uma arte mais s\u00e9ria. Ent\u00e3o, eu trabalhava l\u00e1 e usava esse dinheiro para financiar minhas experi\u00eancias com uma m\u00fasica mais convencional, que geralmente \u00e9 o oposto. Geralmente, a pessoa que tem uma carreira convencional e depois, com o que sobra, vai para o experimental. Mas s\u00e3o esses elementos que a gente fica reutilizando em propor\u00e7\u00f5es, em rela\u00e7\u00f5es diferentes o tempo inteiro. O fato de eu ser americano, mas tamb\u00e9m de alguma forma brasileiro, de ser bil\u00edngue, de&#8230; \u00c9 mais uma dualidade que a gente vai mexendo, entendeu? \u00c9 um dado, sabe? A gente joga com o time que tem, n\u00e9?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Sim. Voc\u00ea falou que tem um disco pronto e est\u00e1 procurando esse meio de lan\u00e7ar. Como tem sido essa sua produ\u00e7\u00e3o, que eu imagino que caminhe por um caminho mais independente. Como funciona. Se tem uma temporalidade, se voc\u00ea vai trabalhando, de repente tem um projeto pronto, e a\u00ed voc\u00ea vai em busca de como lan\u00e7ar, como que funciona essa ordem?<\/strong><br \/>\nDe v\u00e1rias maneiras, sabe. N\u00e3o tem uma maneira. Teve uma \u00e9poca que uma banda minha chamada Ambitious Lovers, que eu tinha com um colega, o Peter Scherer, trabalhou com gravadoras grandes, multinacionais. E como produtor tamb\u00e9m sempre trabalhei com, ou nem sempre, mas trabalhei bastante tamb\u00e9m com gravadoras multinacionais, etc. Mas, recentemente, eu tenho uma maneira de conseguir gravar esses discos. Eu fa\u00e7o um pr\u00e9-licenciamento para v\u00e1rias gravadoras independentes. Uma no Jap\u00e3o, uma na It\u00e1lia, uma nos Estados Unidos. Cada uma dessas gravadoras me d\u00e1 um pouco, portanto, junto esse tanto e \u00e9 o meu or\u00e7amento para fazer o disco, certo? Mas os direitos do disco continuam comigo, o fonograma, o direito da grava\u00e7\u00e3o, n\u00e3o s\u00f3 da composi\u00e7\u00e3o, mas o direito da grava\u00e7\u00e3o em si retorna para mim, eventualmente, entendeu? E hoje em dia isso \u00e9 cada vez mais comum. Voc\u00ea v\u00ea, por exemplo, Tyler, The Creator, que eu sou muito f\u00e3, ele \u00e9 um rapper e um produtor muito interessante, eu adoro esse cara. Eu n\u00e3o sei se ele tem um contrato diretamente com uma multinacional, como os artistas tinham antigamente. Acho que ele deve ter uma gravadora dele, ele tem um contrato, pessoa f\u00edsica com essa empresa, e essa empresa faz um licenciamento com a Universal, Warner, BMG, Sony, uma dessas grandes (para distribuir o disco). Mas a verdade \u00e9 que o mercado musical muda bastante. \u00c9 quase imposs\u00edvel hoje em dia uma pessoa que n\u00e3o seja uma estrela viver de venda de discos, porque j\u00e1 foi poss\u00edvel. Voc\u00ea tinha aquele seu p\u00fablico restrito, voc\u00ea vendia um certo n\u00famero de discos, pagava os impostos, o aluguel, a conta de luz, tudo certo. Mas hoje em dia, voc\u00ea deve saber disso, YouTube e streaming n\u00e3o pagam nada. Pagam uma mixaria. os m\u00fasicos basicamente vivem de shows, n\u00e9?<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Ambitious Lovers - Copy Me + Admit It [1989]\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/ChPPW6NbsFk?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Sim. No caso do Tyler, The Creator, ele tem uma esp\u00e9cie de label dele, que \u00e9 a Odd Future, que fica abaixo da Sony Music. E a\u00ed a Sony ajuda ele a fazer esses caminhos, esses tr\u00e2nsitos maiores, mas ele trabalha de uma forma mais independente dentro disso.<\/strong><br \/>\nIsso, com o Odd Future ele mant\u00e9m a posse do fonograma, faz esse contrato com a Sony e a Sony provavelmente entra com distribui\u00e7\u00e3o de produto f\u00edsico e tamb\u00e9m com divulga\u00e7\u00e3o. Essa \u00e9 a chave de tudo. Sim. \u00c9 a divulga\u00e7\u00e3o, que \u00e9 a parte mais dif\u00edcil hoje em dia. Se voc\u00ea n\u00e3o acertar no TikTok, ferrou. Isso est\u00e1 mudando. Dois anos atr\u00e1s, as gravadoras grandes s\u00f3 chamavam artistas que tinham n\u00fameros bons no TikTok. E a\u00ed \u00e9 uma roleta russa. Se sua m\u00fasica aparecer num v\u00eddeo que viralizar, n\u00e3o sei o que. Ou se voc\u00ea j\u00e1 \u00e9 famoso, \u00e9 outra coisa, mas se voc\u00ea est\u00e1 come\u00e7ando, \u00e9 dif\u00edcil. Mas isso tamb\u00e9m est\u00e1 arrefecendo, est\u00e1 diminuindo para as pessoas se apoiarem tanto nos n\u00fameros do TikTok. Voc\u00ea \u00e9 m\u00fasico?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>N\u00e3o, sou jornalista s\u00f3 de m\u00fasica.<\/strong><br \/>\nDeve saber mais dessas coisas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Um pouco. Eu queria entender se para voc\u00ea, como artista independente que faz uma m\u00fasica que muitas vezes foi lida por essa ind\u00fastria como uma margem, se essas coisas impactam no seu trabalho, como impactam para voc\u00ea lan\u00e7ar, distribuir as coisas?<\/strong><br \/>\nN\u00e3o impactam completamente. O meu trabalho \u00e9 nicho de nicho de nicho. \u00c9 dif\u00edcil. Mas \u00e9 engra\u00e7ado porque&#8230; Eu tenho um p\u00fablico ao redor do mundo, n\u00e3o \u00e9 um p\u00fablico grande, mas ele cobre a Terra. Na \u00c1sia, nos Estados Unidos, na Europa, no Brasil, um pouco no resto da Am\u00e9rica Latina. Eu gostaria muito de poder viajar na \u00c1frica, mas \u00e9 um continente que n\u00e3o conhe\u00e7o ainda. Na Isl\u00e2ndia, sabe? Tem gente que gosta de m\u00fasica, que procura m\u00fasica. Para gostar ou para se interessar. Ainda existem essas pessoas espalhadas pelo mundo. Agora, ao mesmo tempo, eu n\u00e3o sou contra a situa\u00e7\u00e3o musical contempor\u00e2nea. Estou muito interessado nesse momento da chegada da intelig\u00eancia artificial no cinema e na m\u00fasica. Acho que \u00e9 poss\u00edvel que, daqui a pouco, a intelig\u00eancia artificial pode ser vista como mais um instrumento. Quando chegou o sintetizador, meu Deus do c\u00e9u! Quando chegou o toca-disco, meu Deus do c\u00e9u! Quando chegou a pr\u00f3pria grava\u00e7\u00e3o, meu Deus do c\u00e9u! Para inventar alguma coisa nova, uma m\u00fasica que ningu\u00e9m nunca ouviu. E a gente tamb\u00e9m est\u00e1 aprendendo&#8230; Acho que as pessoas t\u00eam demasiado medo. Acho que a intelig\u00eancia artificial vai ter um impacto grande na economia, mas na criatividade ela. Acho que ela n\u00e3o vai fazer tantos danos, essa \u00e9 a minha opini\u00e3o,.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Isso j\u00e1 \u00e9 uma discuss\u00e3o que tem aparecido, surgiram esse ano alguns filmes (no Oscar, inclusive) que j\u00e1 utilizaram intelig\u00eancia artificial e alguns m\u00fasicos tamb\u00e9m come\u00e7aram a experimentar com isso, se n\u00e3o me engano, tem um artista que fez um disco que brincava um pouco com isso. E tem alguns artistas j\u00e1 experimentando, mas existe essa discuss\u00e3o, acho, muito em torno dos limites do uso e at\u00e9 onde isso fica claro para o p\u00fablico. Como que isso foi utilizado, porque acho que, \u00e0s vezes, as pessoas t\u00eam um medo, porque a gente sabe que, de algum modo, isso, em determinadas m\u00e3os, \u00e9 usado mais como uma forma de tirar certos trabalhadores desse meio de campo. Ent\u00e3o, acho que \u00e9 uma discuss\u00e3o complexa.<\/strong><br \/>\n\u00c9 uma discuss\u00e3o complexa, e meu amigo Ben, de quem eu falei antes, ele falou que, para ele, ele acha que os m\u00fasicos v\u00e3o se adaptar, v\u00e3o achar maneiras de usar, mas ele tem medo da rela\u00e7\u00e3o do m\u00fasico com o p\u00fablico, porque o p\u00fablico n\u00e3o vai saber se tem uma pessoa atr\u00e1s daquilo. Mas j\u00e1 passei por alguma coisa parecida e eu acho que&#8230; eu me lembro de&#8230; voc\u00ea conhece m\u00fasica eletr\u00f4nica, n\u00e9? Dos anos 70? Ent\u00e3o, eu conhecia a m\u00fasica eletr\u00f4nica que veio da m\u00fasica cl\u00e1ssica contempor\u00e2nea com os osciladores, bl\u00e1, bl\u00e1, bl\u00e1, mas tamb\u00e9m com fita, cortando fita, esses m\u00e9todos da m\u00fasica eletroac\u00fastica dos anos 1940, 1950 e 1960. Mas por trabalharem com materiais abstratos, a gente n\u00e3o sentia muito a m\u00e3o do m\u00fasico, o gosto, o corpo, as coxas do autor, do compositor. Depois veio a m\u00fasica eletr\u00f4nica, o que chamam no Brasil de m\u00fasica eletr\u00f4nica, que \u00e9 m\u00fasica para dan\u00e7ar, m\u00fasica repetitiva, \u00e0 base de loops&#8230; Isso tudo. Mas a\u00ed eu ouvi um disco do Brian Eno chamado \u201cAnother Green World\u201d (1975), e foi a primeira vez que eu senti que o cara tava mexendo ali no dispositivo eletr\u00f4nico, seja qual for, de qual faixa, eu senti uma pessoa humana atr\u00e1s daquelas decis\u00f5es. Porque a m\u00fasica dan\u00e7ante era tipo quatro compassos, a\u00ed entra um outro som, a\u00ed vai, a\u00ed depois de oito compassos entra um outro som, a\u00ed tira alguma coisa. Era muito linear. E o prazer daquilo n\u00e3o era o prazer do inesperado e tamb\u00e9m n\u00e3o era o prazer da antecipa\u00e7\u00e3o ou o prazer da melodia. Uma coisa que a gente acha que vai pra c\u00e1, mas n\u00e3o vai, ou vai, sabe? Qual ser\u00e1 a pr\u00f3xima nota? Ela vai ser o que a gente espera ou a outra? S\u00e3o dois prazeres diferentes. Na m\u00fasica eletr\u00f4nica para dan\u00e7ar, o prazer dele \u00e9 outro. \u00c9 o prazer da&#8230; for\u00e7a da m\u00fasica, da compress\u00e3o. Sonhos que realmente uma pessoa n\u00e3o pode fazer, uma pessoa pode iniciar, pode ligar uma m\u00e1quina, mas uma pessoa n\u00e3o consegue fazer o que a m\u00e1quina consegue fazer. Ent\u00e3o \u00e9 toda uma outra discuss\u00e3o a\u00ed.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Sim. Conferi aqui, e o artista que citei antes se chama Caribou. Ele lan\u00e7ou um disco chamado \u201cHoney\u201d, que utiliza na m\u00fasica uma intelig\u00eancia artificial para ajuda-lo na composi\u00e7\u00e3o. E a\u00ed tem essa outra artista, da Holly Herndon, que ela tinha criado uma intelig\u00eancia artificial que respondia a voz dela e criava um di\u00e1logo entre ela e essa voz. Ent\u00e3o, acho que a gente tem possibilidades de artistas experimentando&#8230;<\/strong><br \/>\nIsso. Agora, vou te falar aqui, j\u00e1 que \u00e9 muito improv\u00e1vel que o rapaz do Caribou ou a Holly Herndon escutem esse programa, mas as m\u00fasicas dos dois, em geral, s\u00e3o muito chatas. Especialmente da Holly Herndon, o Caribou \u00e9 profissional, s\u00e3o aquelas batidas&#8230; Ent\u00e3o, isso tamb\u00e9m \u00e9 uma coisa que acontece com a chegada de tecnologia nova, as pessoas usam a tecnologia pela novidade e n\u00e3o t\u00eam exatamente uma ideia. E essa ideia da Holly Herndon, por exemplo, isso existe h\u00e1 muito tempo, programas de computador que respondem aos m\u00fasicos dentro do \u00e2mbito da m\u00fasica cl\u00e1ssica contempor\u00e2nea. J\u00e1 ouviu falar dos projetos de George Lewis? Um colega meu, que hoje em dia \u00e9 professor laureado l\u00e1 nos Estados Unidos, mas \u00e9 um trombonista de jazz, que tamb\u00e9m trabalhou muito com improvisa\u00e7\u00e3o livre, George Lewis, ele criou um programa que respondia a gente. A gente tocava uma frase, esperava, e o programa respondia, entende? \u00c9 muito primitivo. Mas toda essa quest\u00e3o da intera\u00e7\u00e3o da tecnologia e de uma pessoa \u00e9 super interessante, porque muito rapidamente a gente perde a refer\u00eancia e vira uma esp\u00e9cie de efeito corriqueiro. Ent\u00e3o o m\u00fasico pode achar e pode at\u00e9 te explicar que ele construiu o sistema intricado, etc., n\u00e3o sei o que, mas quando a gente ouve, parece, sei l\u00e1, Jimi Hendrix. Fazendo os p\u00e3es com a guitarra e com um pouco de microfonia, sabe? A intera\u00e7\u00e3o disso tudo com o nosso corpo, com os nossos ouvidos, com a nossa resposta, \u00e9 uma coisa que muitas vezes as pessoas se esquecem. Mesma coisa com a espacializa\u00e7\u00e3o, tamb\u00e9m mexo com essa coisa de multidimensionalidade no sentido de muitas fontes de som. Eu acho superinteressante e mexo bastante com isso. Mas isso tamb\u00e9m \u00e9 a gente chegar num ponto de, digamos, ficcionalizar a experi\u00eancia, n\u00e3o tentar reproduzir muitas vezes essas tecnologias tentando reproduzir nossa experi\u00eancia normal. Voc\u00ea vai ao cinema, aquele surround \u00e9 para voc\u00ea se sentir naquele lugar. E eles tamb\u00e9m t\u00eam muito medo da espacializa\u00e7\u00e3o nos filmes, porque eles querem que a gente siga aquele ponto, aquela linha vermelha, como dizem no alem\u00e3o, a hist\u00f3ria, a emo\u00e7\u00e3o, eles querem que a gente siga aquilo. E, durante anos, existia uma tecnologia muito bacana, mas s\u00f3 se usava para foguetes e balas. E carros passando. Agora que eles est\u00e3o come\u00e7ando a investigar mais a atmosfera, o som de um lugar, etc.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Voc\u00ea n\u00e3o entende nada, Caetano Veloso e Arto Lindsay ao vivo no FIG 2013\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/zxwbUqZUVbk?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea entende que essas perspectivas, por exemplo, de pensar na intelig\u00eancia artificial, nessa outra rela\u00e7\u00e3o que as pessoas t\u00eam com as telas, de algum modo ela vai ser muito modificadora, por exemplo, para a m\u00fasica que a gente conhece hoje em dia?<\/strong><br \/>\nOlha, eu acho que enquanto a gente tiver o mesmo corpo, a m\u00fasica tem que chegar de alguma maneira na gente e tem que satisfazer a gente, tem que instigar a gente. Acho que s\u00e3o outros meios&#8230; enquanto o Zuckerberg imagina um mundo que a gente queira passar n\u00e3o sei quantas horas por dia dentro de um capacete, n\u00e3o sei se aquilo vai ser mais interessante do que a vida em si, sabe? E falta muito ainda. E eu tamb\u00e9m tenho um movimento contr\u00e1rio, que eu acho que, e isso \u00e9 muito comentado, as pessoas t\u00eam fome de uma experi\u00eancia ao vivo, as pessoas querem ficar juntas, etc. E isso \u00e9 uma coisa que&#8230; \u00c9 imposs\u00edvel, voc\u00ea pode estar ali dentro daquele mundo, os avatares dos seus amigos est\u00e3o ali, mas ali \u00e9 um videogame,! N\u00e3o \u00e9 uma&#8230; Digamos, voc\u00ea n\u00e3o vai beijar ningu\u00e9m ali dentro. Eu n\u00e3o tenho tanto medo disso, eu acho que talvez, em vez desse mundo totalizante, a gente desenvolva mais pr\u00e1ticas que misturam um com o outro. Por exemplo, como \u00e9 que chama? A realidade aumentada. Que voc\u00ea olha no telefone e voc\u00ea v\u00ea o que est\u00e1 na sua frente, mas tem alguma coisa aparecendo ali, s\u00f3 na tela do telefone. N\u00e3o sei se isso \u00e9&#8230; Mas esses h\u00edbridos, eu acho que talvez sejam mais interessantes. Essa \u00e9 a minha opini\u00e3o. Mas&#8230; acho que a rea\u00e7\u00e3o das pessoas que escutam, por exemplo, uma m\u00fasica feita ali na hora \u00e9 bem diferente da rea\u00e7\u00e3o das pessoas que ficam vendo, por exemplo, um DJ tocar, sabe? N\u00e3o que n\u00e3o exista tamb\u00e9m ali um fator muito est\u00e9tico, sei l\u00e1, muitas escolhas sendo feitas ali. Mas eu acho que&#8230; N\u00e3o sei, talvez eu fui longe demais, talvez n\u00e3o devia falar assim dos DJs, porque eu j\u00e1 tive experi\u00eancias com DJs incr\u00edveis, sabe? Incr\u00edveis. Faz bastante tempo, mas teve uma \u00e9poca que eu sa\u00eda todo dia para dan\u00e7ar. Todo dia. Muitas vezes sozinho. Encontrava os amigos, as amigas. Mas eu sa\u00eda pra dan\u00e7ar, ia nos lugares, dan\u00e7ava sozinho. Dan\u00e7ava com n\u00e3o sei quem. Era um grupo, era uma pessoa. Rolava ou n\u00e3o rolava, mas eu sa\u00eda todo dia. E nessa \u00e9poca, cara, tinha uns DJs que parecia que explodia a cabe\u00e7a das pessoas, sabe? Porque come\u00e7ava, aumentava, aumentava, a\u00ed voltava um pouco. A\u00ed come\u00e7ava de novo, come\u00e7ava, a\u00ed vai um pouquinho mais, a\u00ed tem uma pausa, a\u00ed para a\u00ed, n\u00e3o para n\u00e3o, para n\u00e3o, a\u00ed vai, de repente, muito mais intenso, sabe? E o p\u00fablico era uma loucura.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Eu acho que tem a ver com essa perspectiva de experi\u00eancia coletiva que voc\u00ea falou. \u00c9, e \u00e9 super importante. Eu acho que a gente tamb\u00e9m modificou o nosso olhar para essas experi\u00eancias coletivas ap\u00f3s a pandemia de Covid-19. Acho que isso tamb\u00e9m fez a gente repensar um pouco como a gente quer lidar com essas experi\u00eancias coletivas.<\/strong><br \/>\n\u00c9, mas ao mesmo tempo tem essa vontade maluca de experi\u00eancias coletivas. Voc\u00ea v\u00ea esse surto de festivais aqui no Brasil, que \u00e9 hil\u00e1rio, porque s\u00e3o todos car\u00edssimos, Para mim, n\u00e3o tinha tanto playboy no Brasil para pagar esses custos, sabe? Mas o p\u00fablico \u00e9 muito homog\u00eaneo. Independente do que aparecer no palco. E agora est\u00e3o come\u00e7ando a aparecer as estrelas nacionais nesses festivais, que antes n\u00e3o era assim, n\u00e9? Eram getaways. S\u00f3 apareciam em grupos tem\u00e1ticos. Eu n\u00e3o podia botar uma estrela brasileira, tinha que ser duas ou tr\u00eas e tinha que ter uma raz\u00e3o ali. Mas ent\u00e3o, isso est\u00e1 mudando, e isso \u00e9 bom. Mas eu ainda acho que s\u00e3o muito caros. E as manifesta\u00e7\u00f5es como o Carnaval, que \u00e9 uma coisa brasileira que tem uma for\u00e7a incr\u00edvel, que \u00e9 um dos dons do p\u00fablico brasileiro. Quando voc\u00ea bota mil brasileiros juntos, eles j\u00e1 est\u00e3o&#8230; eles j\u00e1 lembram de como \u00e9 o carnaval, da possibilidade orgi\u00e1stica daquilo ali, sabe? Isso \u00e9 uma coisa bem nossa, isso n\u00e3o tem nos outros lugares, entendeu? O movimento dos blocos afros nos anos 90 foi uma coisa incr\u00edvel. Os bailes funks! Que n\u00e3o tem seguran\u00e7a! Que s\u00e3o experi\u00eancias comunit\u00e1rias, por excel\u00eancia, sabe? Toda aquela energia adolescente. E aquela loucura. N\u00e3o tem seguran\u00e7a nenhuma! Voc\u00ea v\u00ea que os governos n\u00e3o ligam para aquilo, acham aquilo errado. \u00c9 dif\u00edcil. Mas a gente se re\u00fane, n\u00e9?<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Afonia e afeto II: O tempo dentro e fora da m\u00fasica (libras)\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/2XtzLwlGO-s?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u2013\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/renan.machadoguerra\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Renan Guerra<\/a>\u00a0\u00e9 jornalista<\/em>\u00a0e<em>\u00a0escreve para o Scream &amp; Yell desde 2014. Faz parte do\u00a0<a href=\"http:\/\/vamosfalarsobremusica.com.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" data-saferedirecturl=\"https:\/\/www.google.com\/url?q=http:\/\/vamosfalarsobremusica.com.br\/&amp;source=gmail&amp;ust=1630729890879000&amp;usg=AFQjCNGttyQx5OWOAKRyi7iGq8E4oacvuw\">Podcast Vamos Falar Sobre M\u00fasica<\/a>\u00a0e colabora com o\u00a0<a href=\"https:\/\/monkeybuzz.com.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" data-saferedirecturl=\"https:\/\/www.google.com\/url?q=https:\/\/monkeybuzz.com.br\/&amp;source=gmail&amp;ust=1630729890879000&amp;usg=AFQjCNFjG1FOw9vBGrawiUhocH4mshwTtw\">Monkeybuzz<\/a>\u00a0e a\u00a0<a href=\"https:\/\/revistabalaclava.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" data-saferedirecturl=\"https:\/\/www.google.com\/url?q=https:\/\/revistabalaclava.com\/&amp;source=gmail&amp;ust=1630729890879000&amp;usg=AFQjCNFqHswo4qEcyg8fw9VPM8IWsRH5oQ\">Revista Balaclava<\/a>. 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