{"id":87515,"date":"2025-02-19T10:57:00","date_gmt":"2025-02-19T13:57:00","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=87515"},"modified":"2025-05-20T00:19:11","modified_gmt":"2025-05-20T03:19:11","slug":"entrevista-mia-tome-fala-sobre-ha-um-herbario-no-deserto-disco-em-que-celebra-emily-dickinson","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2025\/02\/19\/entrevista-mia-tome-fala-sobre-ha-um-herbario-no-deserto-disco-em-que-celebra-emily-dickinson\/","title":{"rendered":"Entrevista: Mia Tom\u00e9 fala sobre \u201cH\u00e1 um Herb\u00e1rio no Deserto\u201d, disco em que celebra Emily Dickinson"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>entrevista por&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/pedro.m.salgado.5\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Pedro Salgado<\/a>, especial de Lisboa<\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">O percurso art\u00edstico de <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/miatome\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Mia Tom\u00e9<\/a> \u00e9 rico trafegando entre o papel de atriz, cantora e voice artist, sendo formada em teatro pela Escola Superior de Teatro e Cinema (Lisboa) e pelo The Lee Strasberg Theatre and Film Institute, de Nova Iorque. A poesia ocupou sempre um lugar de destaque na sua vida, bem como a vontade de trabalhar a palavra e o spoken word, abordando o lado feminino e autoras mulheres. Mia tem igualmente uma liga\u00e7\u00e3o antiga \u00e0 m\u00fasica, fruto das li\u00e7\u00f5es de piano e violino que teve em crian\u00e7a, da vertente musical do teatro e das aulas de canto que resultaram da sua forma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando nos encontramos na Cinemateca de Lisboa, a artista estava a poucos dias de lan\u00e7ar seu segundo disco, \u201c<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/playlist?list=OLAK5uy_lBMnv4LBinJboYT32yJGvudGHb1AcHj6k\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">H\u00e1 um Herb\u00e1rio no Deserto<\/a>\u201d (2025), sucessor de \u201cProjeto Nat\u00e1lia\u201d (2023), em que homenageava a obra da escritora e poetisa portuguesa Nat\u00e1lia Correia. No novo trabalho, gravado no Oracle Recording Studio, no deserto de Sonora (Arizona, EUA), e produzido por Francis Kelly, Mia canta e diz a poesia de Emily Dickinson em portugu\u00eas e ingl\u00eas com ambi\u00eancias pop e folk celebrando a natureza que comp\u00f5e o trabalho de Dickinson e incluindo diversas sonoridades do deserto do Arizona, como o som dos coiotes e do vento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O \u00e1lbum, dispon\u00edvel em todas as plataformas e em vinil, resulta num trabalho moment\u00e2neo, por\u00e9m intenso e cativante, composto pelo spoken word e por algumas faixas cantadas onde Mia Tom\u00e9 assimila a poesia de Emily Dickinson, influenciada por todos os est\u00edmulos que a rodearam no deserto, pelos m\u00fasicos com quem colaborou e por um est\u00fadio assombrado por esp\u00edritos bons. Mia assume um tom ora expressivo ora v\u00edvido, destacando-se o pop cat\u00e1rtico de \u201cPudesse eu Infinita Cavalgar\u201d (inspirado no poema \u201cCould I but ride indefinite\u201d), o folk sonhador \u201cWhen Roses Cease To Bloom\u201d ou a elegante \u201cComo as Montanhas Gotejam de Sol-P\u00f4r\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Relativamente ao fato do disco ser falado e cantado em ingl\u00eas e portugu\u00eas, ela justifica a dicotomia por v\u00e1rias raz\u00f5es. \u201cO portugu\u00eas \u00e9 a minha l\u00edngua nativa e n\u00e3o gosto de me descolar dela 100%, seja onde for. Por isso, n\u00e3o quis me afastar da l\u00edngua portuguesa n\u00e3o s\u00f3 porque usei as tradu\u00e7\u00f5es da poetisa Ana Lu\u00edsa Amaral (tradutora do livro \u201cHerbarium\u201d, de Emily Dickinson), mas tamb\u00e9m porque \u00e9 a minha l\u00edngua e adoro celebr\u00e1-la onde for, como for e em que pa\u00eds for. O ingl\u00eas usei-o porque ia gravar na Am\u00e9rica do Norte e mais concretamente nos Estados Unidos e tratava-se de uma poetisa americana. Por esse motivo, fazia sentido diz\u00ea-la na sua l\u00edngua nativa\u201d, diz.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sobre a apresenta\u00e7\u00e3o do \u00e1lbum, Mia refere que \u201c\u00e9 certo que vamos toc\u00e1-lo na Am\u00e9rica com os m\u00fasicos que gravaram o disco\u201d e confirma shows portugueses, entre os quais um no audit\u00f3rio da Biblioteca Almeida Garrett, nos Jardins do Pal\u00e1cio de Cristal, no Porto, a 21 de mar\u00e7o, onde ir\u00e1 estar acompanhada por Clara Lacerda, que far\u00e1 algumas apresenta\u00e7\u00f5es com Mia Tom\u00e9 ao piano e nos sintetizadores. A artista revela ainda que haver\u00e1 uma atua\u00e7\u00e3o na Estufa Fria (Lisboa), a 23 de mar\u00e7o, bem como passagens pelos A\u00e7ores e Viseu e v\u00e1rias escutas de vinis em livrarias com conversas, a primeira das quais ser\u00e1 a 28 de fevereiro na Livraria Buchholz, em Lisboa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em jeito de conclus\u00e3o, Mia Tom\u00e9 elogia a cria\u00e7\u00e3o global da poetisa americana e sublinha o \u00e2mago do seu trabalho presente e futuro: \u201cQuando penso que Emily Dickinson em vida s\u00f3 publicou 10 poemas \u00e9 realmente triste, porque a obra dela \u00e9 gigante. Portanto, se puder escolher, irei trabalhar preferencialmente a obra de uma mulher. Nem sequer vou falar de repara\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica, porque atualmente essas autoras n\u00e3o precisam de mim para nada, mas sinto vontade de faz\u00ea-lo\u201d. De Lisboa para o Brasil, Mia Tom\u00e9 conversou com o Scream &amp; Yell.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"H\u00e1 um Herb\u00e1rio no Deserto\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/videoseries?list=OLAK5uy_lBMnv4LBinJboYT32yJGvudGHb1AcHj6k\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A vontade de fazer o \u00e1lbum \u201cH\u00e1 um Herb\u00e1rio no Deserto\u201d, homenageando Emily Dickinson, foi uma consequ\u00eancia da rela\u00e7\u00e3o profissional que voc\u00ea iniciou em 2021 com o estado do Arizona, onde efetuou uma resid\u00eancia art\u00edstica focada nas \u201cMulheres Artistas do Oeste\u201d, ou uma tentativa de aprofundar esse trabalho?<\/strong><br \/>\nEst\u00e1 tudo ligado. O Arizona entrou na minha vida h\u00e1 muitos anos, por\u00e9m fisicamente s\u00f3 em 2021 quando visitei-o pela primeira vez para fazer a pesquisa que voc\u00ea referiu, as \u201cMulheres Artistas do Oeste\u201d. Nessa altura, ainda n\u00e3o tinha lan\u00e7ado meu primeiro \u00e1lbum e estava a meses de o editar. Mas, encontrava-me no rancho Linda Vista que \u00e9 um espa\u00e7o de cria\u00e7\u00e3o art\u00edstica e tem um est\u00fadio, o Oracle Recording Studio. Fui l\u00e1 e visitei uns amigos, ou melhor, fiz esses amigos e decidi que o meu pr\u00f3ximo disco seria ali. Ainda n\u00e3o tinha lan\u00e7ado meu primeiro \u00e1lbum, mas houve qualquer coisa que me impeliu a fazer um disco nesse local. Essas mulheres artistas que investiguei est\u00e3o de alguma forma ligadas \u00e0 Emily Dickinson. Falamos de mulheres em que historicamente o papel delas nos westerns eram reduzidos a personagens de saloon e havia um pensamento unilateral e muito masculino. Falo de westerns porque foi o g\u00eanero cinematogr\u00e1fico onde me foquei. Portanto, abordar Emily Dickinson est\u00e1 diretamente ligado a uma homenagem a essas mulheres. Sendo que ela era do Massachussets e fui para o Arizona. S\u00f3 que a Emily criou um herb\u00e1rio no Massachussets e n\u00f3s podemos consult\u00e1-lo. O livro que&nbsp; peguei para fazer este projeto \u00e9 esse mesmo, \u201cHerbarium\u201d, em que ela evoca a natureza e quis recri\u00e1-lo noutro estado, neste caso no Arizona, que \u00e9 um estado cheio de deserto. Quando pensamos no deserto imaginamos algo vazio e in\u00f3spito, mas n\u00e3o \u00e9 assim porque a fauna \u00e9 infinita e os cactos e os sagu\u00e1rios est\u00e3o l\u00e1. Por isso, tive essa vontade e decidi que \u00edamos pegar na poesia dela e na sua ideia de natureza do estado do Massachussets e fomos recriar isso no Arizona e criar um herb\u00e1rio sonoro tamb\u00e9m.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O que mais a marcou na poesia de Emily Dickinson e que procurou transportar para o disco?<\/strong><br \/>\nA evoca\u00e7\u00e3o da natureza \u00e9 muito importante e a forma como ela fala da morte e da vida atrav\u00e9s da natureza \u00e9 extremamente bela. Vivemos tempos muito esquisitos. O mundo \u00e9 um lugar bonito, mas \u00e9 bastante feio ao mesmo tempo. Acho que percebemos o qu\u00e3o terr\u00edvel isto pode ser. A natureza est\u00e1 a ser posta em causa e estamos a tratar mal nosso planeta, que \u00e9 a nossa casa. \u00c9 bonita a forma como a Emily d\u00e1 \u00eanfase a uma \u00e1rvore, ao rio, aos p\u00e1ssaros e ao c\u00e9u. N\u00f3s esquecemo-nos disso nesta vida fren\u00e9tica que temos, onde trabalhamos muito e se glamoriza a exaust\u00e3o. Esse amor \u00e0 natureza interessa-me muito. A maneira como ela fala da morte \u00e9 algo muito especial para mim. Sou uma grande visitante de cemit\u00e9rios principalmente pelas pessoas que admiro. Estive em Paris, no Pere Lachaise, e quis muito visitar o t\u00famulo de Jim Morrison e da fant\u00e1stica atriz Sarah Bernhardt. Quando est\u00e1vamos a gravar no Arizona, terminamos a faixa \u201cWhen Roses Cease To Bloom\u201d, em que a Emily Dickinson fala das flores em Auburn. Eu sabia que era um local no Massachussets, mas desconhecia aquilo a que ela se estava a referir. S\u00f3 descobri que ela falava do Cemit\u00e9rio de Auburn ap\u00f3s gravar esse tema. Depois de gravarmos, houve um dia em que decidimos que t\u00ednhamos de ir ao cemit\u00e9rio e o Alex Tighe (l\u00edder e compositor do grupo americano Alex &amp; The Moondaze e que participou na grava\u00e7\u00e3o do \u00e1lbum) disse para irmos. Pegamos no carro e eu, o Alex e a Nicosa (Nico Paco, uma cantora, escritora de can\u00e7\u00f5es e multi-instrumentalista mexicano-americana, igualmente integrante da banda Alex &amp; The Moondaze, e que tamb\u00e9m participou no disco) estivemos num cemit\u00e9rio em Oracle, um local pequeno, se pensarmos num lugar nos Estados Unidos, mas era enorme, extremamente humilde e a terra era seca e n\u00e3o dava para fazer muita coisa. Aquilo situava-se num topo e sent\u00e1mo-nos l\u00e1 os tr\u00eas e foi um momento bastante importante. Ficamos a olhar para o infinito, porque no deserto \u00e9 terra sobre terra e o som do vento fazia com que o poema da Emily estivesse vivo em n\u00f3s. Eu n\u00e3o sabia que a can\u00e7\u00e3o evocava um cemit\u00e9rio e j\u00e1 me disseram que lembra um pouco Lana Del Rey. \u00c9 uma faixa que tem um pouco de folk. Essa \u00e9 a can\u00e7\u00e3o do navio assombrado que rema pela areia no deserto. E era a ideia que eu e o produtor (Francis Kelly) t\u00ednhamos em mente.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Mia Tom\u00e9 | &quot;Pudesse eu Infinita Cavalgar&quot;\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/GAvErRdOcC8?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Como correu a grava\u00e7\u00e3o no Oracle Recording Studio, no Deserto de Sonora, Arizona, EUA, e em que medida o local e a dire\u00e7\u00e3o do produtor Francis Kelly influenciaram o rumo do \u00e1lbum?<\/strong><br \/>\nCorreu muito bem. Estou muito agradecida por tudo o que passei ali. Todas as vezes que visito o Arizona s\u00e3o sempre especiais e esta tamb\u00e9m foi. Poder concretizar este projeto que senti desde a primeira vez que queria fazer l\u00e1 foi uma oportunidade que o universo me deu. Estou muito grata por isso. As pessoas com quem colaborei fazem parte da minha vida e s\u00e3o meus amigos. Eles vivem a 8.000 quil\u00f3metros de mim, mas falo com eles quase diariamente. O Alex Tighe, a Nicosa e o Francis Kelly s\u00e3o artistas muito talentosos. Eu desejava fazer este trabalho com eles e todos tinham algo para acrescentar ao \u00e1lbum. Antes de ir para o Arizona preparei as bases. N\u00e3o sou instrumentista por\u00e9m tenho algumas bases musicais e toco guitarra tamb\u00e9m. Portanto, fui compondo as melodias que queria para cada poema, gravei-as no meu est\u00fadio de forma caseira e enviei essas demos para o Francis e para o Alex. Estive apenas um m\u00eas no Arizona. Isto pode ser intenso quando n\u00e3o est\u00e1s com as pessoas, mas tentei aproveitar o tempo ao m\u00e1ximo. Quando cheguei ao Arizona, depois de enviar as maquetes, eles j\u00e1 tinham pensado em alguns arranjos. Houve uma faixa, \u201cWhen Roses Cease To Bloom\u201d, em que eu n\u00e3o estava muito feliz com o resultado. Embora s\u00f3 saiba alguns acordes b\u00e1sicos de piano, a intui\u00e7\u00e3o guiou-me e sentei-me uma vez ao piano na segunda noite e criei essa melodia e disse ao Francis: \u201cVamos! \u00c9 isto!\u201d. Foi muito importante ter o Francis, a Nicosa e o Alex j\u00e1 que parec\u00edamos crian\u00e7as a divertirem-se no est\u00fadio, ou seja, tudo era poss\u00edvel. Houve um momento em que fomos tocar arco de violino num metalofone, porque aquele som fazia sentido. Era importante quebrar um pouco as regras, uma vez que este disco n\u00e3o era normativo e composto por can\u00e7\u00f5es redondinhas que t\u00eam um refr\u00e3o. Ent\u00e3o sentimos que o processo n\u00e3o podia ser assim e se era para desconstruir fizemo-lo. Abrir o piano e toc\u00e1-lo de outra forma ou usar um arco para o metalofone. Outra coisa que eu quis muito, e como lhe digo pretendi recriar esse arquivo sonoro, era ter um DNA do deserto. Por isso, fomos v\u00e1rias vezes \u00e0 rua recolher sons do deserto. Houve uma madrugada em que o Francis Kelly foi registrar os uivos dos coiotes e em v\u00e1rias faixas conseguem-se ouvir esses uivos l\u00e1 atr\u00e1s. Gravamos tamb\u00e9m o som dos p\u00e1ssaros, do vento a bater nas folhas e o nosso andar na areia. Eu queria bastante ter esses elementos, porque o \u00e1lbum foi feito ali e tinha de incluir todas as impress\u00f5es digitais do deserto de Sonora que eu conseguisse obter. N\u00e3o captei sons do rio Colorado, que fica perto do Grand Canyon, j\u00e1 que est\u00e1vamos a seis horas de dist\u00e2ncia de carro. Por isso, o mais pr\u00f3ximo dos sons de \u00e1gua que recolhi foram os da piscina do rancho Linda Vista onde fomos todos juntos e tentamos simular um rio (risos). Foi fundamental ter como produtor o Francis Kelly, que confiou totalmente em mim. Isto de pegar em poesia e diz\u00ea-la, que podia ser uma determinada coisa, beneficiou do fato de termos confiado um no outro. Como ele \u00e9 t\u00e3o talentoso, senti que ia mesmo correr bem. Foi fundamental ter esta equipa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u201cOr\u00e1culo Para Emily\u201d acaba por funcionar como eulogia e desenlace da viagem iniciada com \u201cWelcome Sonora Desert\u201d. Concorda?<\/strong><br \/>\nConcordo em absoluto e fico extremamente feliz que voc\u00ea tenha lido assim. Imaginei o trabalho como uma pequena pe\u00e7a de teatro. H\u00e1 uma abertura, um &#8220;welcome&#8221; ao deserto, um \u201csejam bem-vindos\u201d, este \u00e9 o meu mundo, da Emily e dos meus amigos, estamos no deserto e vamos viajar por diversas raz\u00f5es e depois terminamos. A faixa \u201cOr\u00e1culo Para Emily\u201d foi escrita por mim, consiste em v\u00e1rios poemas que eu reescrevi e misturei e \u00e9 um agradecimento tamb\u00e9m. Quando estava a prepar\u00e1-la disse: \u201cQuero que isto soe a uma reza boa ou uma bruxaria boa\u201d. Porque queimaram-se demasiadas mulheres por serem bruxas ou por dizerem que o eram. Ser bruxa para mim \u00e9 algo de bom j\u00e1 que significa ser livre, ser mulher e acreditar em direitos iguais. Por isso \u00e9 que temos a voz da Nicosa a sussurrar e de uma amiga que tamb\u00e9m colaborou. A Nicosa tocou flauta e fez um spoken word muito interessante nessa can\u00e7\u00e3o. A flauta transversal dela deu-nos uma \u2018vibe\u2019 de \u00f3pera, mas tamb\u00e9m a ideia de encantar a serpente com a flauta. No in\u00edcio de \u201cOr\u00e1culo Para Emily\u201d, temos um som de sino que traz o imagin\u00e1rio da igreja e da espiritualidade que a Emily Dickinson tem, tal como a religiosidade. Gostaria de referir que h\u00e1 uma faixa da Lana Del Rey de 2012 que eu gosto bastante (\u201cVideo Games\u201d) que come\u00e7a com um sino e isso perseguiu-me durante muitos anos. Por isso, pedi para ter um som igual e disse: \u201cVamos a uma igreja!\u201d. Acabamos por encontrar um carrilh\u00e3o que estava no mesmo tom desse sino que eu procurava e gravei-o para o disco. No fundo, \u00e9 o momento punk do \u00e1lbum (risos).<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Mia Tom\u00e9 - &quot;Como as montanhas Gotejam de Sol-P\u00f4r&quot;\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/C15X-T4Wj-U?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea j\u00e1 colaborou com a banda americana Alex &amp; The Moondaze e o m\u00fasico portugu\u00eas <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2020\/10\/23\/tres-discos-noiserv-samuel-uria-selma-uamusse\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Noiserv<\/a>, entre outros. Existe algum m\u00fasico brasileiro com quem gostasse de estabelecer uma parceria?<\/strong><br \/>\nAdoro o Tim Bernardes e gostaria de fazer uma parceria com ele. Tenho uma hist\u00f3ria com o Tim que nunca se resolve. Em 2023 fiz o tour do \u00e1lbum anterior, \u201cProjeto Nat\u00e1lia\u201d, e fomos a Washington DC e a Boston. Quando estava em Washington, e ia ter uma apresenta\u00e7\u00e3o nesse dia e encontrava-me na rua com um colega a ter uma discuss\u00e3o sobre um problema que surgiu sobre o concerto, passou por n\u00f3s o Tim Bernardes muito perto da Casa Branca. Dsse ao meu colega: \u201cMeu Deus est\u00e1 ali o Tim Bernardes!\u201d, porque gosto muito dele. N\u00e3o era o momento certo para o ir cumprimentar, mas fiquei muito chateada por n\u00e3o o ter feito. O Tim tamb\u00e9m tinha um show nesse dia em Washington. Depois disso eu vim para Portugal, ao fim de duas apresenta\u00e7\u00f5es nos Estados Unidos, e o Tim Bernardes tamb\u00e9m veio. Encontrava-me eu no Lisboa Ao Vivo (sala de espet\u00e1culos lisboeta) a ver um show do Kevin Morby e Tim Bernardes estava ao meu lado e contei ao meu companheiro. Ele disse para o cumprimentar e dizer-lhe que o vi h\u00e1 tr\u00eas semanas na Casa Branca. Mas n\u00e3o o quis incomodar mais uma vez. Em 2024 estive no Brasil a dar um concerto e estava hospedada em frente \u00e0 Arena Jockey, no Rio de Janeiro, e o Tim Bernardes fazia um show na mesma altura e n\u00e3o nos cruz\u00e1mos a\u00ed, tamb\u00e9m. \u00c9 quase uma coisa k\u00e1rmica. Portanto, na Am\u00e9rica, Portugal e Brasil o Tim est\u00e1 sempre perto de mim e nunca falamos. Ele \u00e9 o artista brasileiro com quem eu mais quero colaborar. Adoro mesmo o trabalho dele. Tim \u00e9 um poeta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Gostaria de deixar uma mensagem aos leitores do Scream &amp; Yell?<\/strong><br \/>\nEu estive no Brasil apenas uma vez e mais concretamente durante 48 horas, no fim de novembro passado, no Rio de Janeiro, e fiquei encantada. Aquele lugar \u00e9 um portal, um portal de luz, alegria e de bons cora\u00e7\u00f5es. A minha apresenta\u00e7\u00e3o aconteceu em um pequeno festival chamado \u201cDesdobramentos da Palavra\u201d, que se desdobrou em diversos lugares, eu atuei no palco da PUC com dois m\u00fasicos brasileiros maravilhosos: o Marcello Magdaleno e o Vinicius Magdaleno. Foi espetacular, porque eles fizeram vers\u00f5es e escolhemos poemas de autoras da l\u00edngua portuguesa, tal como angolanas e s\u00e3o-tomenses. Foi no Brasil que eu toquei pela primeira vez \u201cPudesse eu infinita Cavalgar\u201d e eles fizeram uma releitura linda e muito tropical dela. Recordo-me de dizer: \u201cAgora eu s\u00f3 quero esta vers\u00e3o (risos)\u201d. Por isso, este herb\u00e1rio nasce na Am\u00e9rica do Norte, mas tamb\u00e9m nasceu no Brasil. Fizemos um belo trio e foi uma alegria estar no Rio. Gostaria tamb\u00e9m de deixar o meu cora\u00e7\u00e3o com os brasileiros e desejo que haja disponibilidade para me escutarem e de ouvir o que tenho para dizer neste meu sotaque mais duro e n\u00e3o t\u00e3o bonito como o vosso. Espero que possamos colaborar, porque isto de partilharmos uma l\u00edngua \u00e9 a coisa mais bela e poderosa do mundo. \u00c9 importante unir for\u00e7as pela arte. Acho que \u00e9 mesmo muito bonito.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/02\/MIATOME1.jpg\"><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u2013 Pedro Salgado (siga&nbsp;<a href=\"http:\/\/twitter.com\/woorman\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">@woorman<\/a>) \u00e9 jornalista, reside em Lisboa e colabora com o Scream &amp; Yell desde 2010 contando novidades da m\u00fasica de Portugal. Veja outras entrevistas de Pedro Salgado&nbsp;<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/author\/pedro-salgado\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">aqui<\/a>.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"O percurso de Mia Tom\u00e9 trafega entre o papel de atriz, cantora e voice artist, sendo formada pela Escola Superior de Teatro e Cinema (Lisboa) e pelo The Lee Strasberg Theatre and Film Institute\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2025\/02\/19\/entrevista-mia-tome-fala-sobre-ha-um-herbario-no-deserto-disco-em-que-celebra-emily-dickinson\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":7,"featured_media":87791,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[3],"tags":[7596,47],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/87515"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/7"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=87515"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/87515\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":87792,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/87515\/revisions\/87792"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/87791"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=87515"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=87515"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=87515"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}