{"id":87362,"date":"2025-02-06T11:08:45","date_gmt":"2025-02-06T14:08:45","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=87362"},"modified":"2025-04-12T02:38:01","modified_gmt":"2025-04-12T05:38:01","slug":"cinema-trilha-sonora-para-um-golpe-de-estado-cria-intrincado-panorama-documental-que-mescla-jazz-guerra-fria-e-colonialismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2025\/02\/06\/cinema-trilha-sonora-para-um-golpe-de-estado-cria-intrincado-panorama-documental-que-mescla-jazz-guerra-fria-e-colonialismo\/","title":{"rendered":"Cinema: \u201cTrilha sonora para um golpe de estado\u201d cria um intrincado panorama que mescla jazz, guerra fria e colonialismo"},"content":{"rendered":"<h2><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-87364\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/02\/soundtracks2.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"1107\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/02\/soundtracks2.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/02\/soundtracks2-203x300.jpg 203w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/h2>\n<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>texto de\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/renan.machadoguerra\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Renan Guerra<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Refletir o s\u00e9culo XX a partir do jazz \u00e9 um caminho riqu\u00edssimo e que sempre nos ajudou a repensar constru\u00e7\u00f5es raciais e sociais dos Estados Unidos e, por conseguinte, dos pa\u00edses e artistas impactados por esse g\u00eanero transformador da m\u00fasica moderna. O document\u00e1rio \u201cTrilha sonora para um golpe de estado\u201d (&#8220;Soundtrack to a Coup d&#8217;\u00c9tat&#8221;, 2024), do belga Johan Grimonprez, por\u00e9m, coloca o jazz em um outro espa\u00e7o: o de capital pol\u00edtico e cultural em uma trama que une a ONU, a CIA, a B\u00e9lgica e, o personagem mais afetado de todos, o Congo, numa narrativa que envolve personagens como Louis Armstrong, Dizzy Gillespie e Maya Angelou at\u00e9 o de outros espectros, como Patrice Lumumba e Dwight Eisenhower. Indicado ao Oscar 2025 na categoria de Melhor Document\u00e1rio e em cartaz nos cinemas brasileiros via Pandora Filmes, o longa-metragem \u00e9 uma constru\u00e7\u00e3o suntuosa que nos leva por um emaranhado pol\u00edtico e sonoro cheio de impacto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O filme se inicia em 1960 com a elei\u00e7\u00e3o de Patrice Lumumba, primeiro presidente democraticamente eleito do rec\u00e9m-independente Congo. Paralelamente, acompanhamos os meandros que envolvem um amplo jogo pol\u00edtico para dep\u00f4-lo. Pa\u00edses como a B\u00e9lgica (de quem o Congo era col\u00f4nia) e os Estados Unidos se unem em uma cruzada que busca evitar uma crescente expans\u00e3o pan-africanista da regi\u00e3o, bem como \u201cproteger\u201d o Congo do fantasma do comunismo e, obviamente, proteger todos os projetos explorat\u00f3rios dos recursos naturais do pa\u00eds perpetrados pela Europa e pelos Estados Unidos. Para isso, se inicia uma trama que envolve CIA, ONU e importantes agentes pol\u00edticos da \u00e9poca; junto a isso \u00e9 posta em pr\u00e1tica uma bem planejada cortina de fuma\u00e7a: uma turn\u00ea de Louis Armstrong pela \u00c1frica, com shows especiais no Congo. Tudo isso culmina no assassinato de Lumumba em 1961, gerando a revolta dos movimentos negros em diferentes pa\u00edses, especialmente nos EUA. Em protesto, os m\u00fasicos Abbey Lincoln e Max Roach organizaram uma invas\u00e3o ao Conselho de Seguran\u00e7a da ONU. Estes acontecimentos t\u00eam como pano de fundo a Guerra Fria em um momento de acontecimentos hist\u00f3ricos, como o discurso de Fidel Castro na ONU e seu encontro com Malcom X em Nova York, ou mesmo a visita de Nikita Khrushchev, ent\u00e3o primeiro secret\u00e1rio do Partido Comunista, aos Estados Unidos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esse resumo do par\u00e1grafo anterior \u00e9 uma esp\u00e9cie de delimita\u00e7\u00e3o da espinha dorsal do filme, por\u00e9m vale avisar algum desavisado: nada acima \u00e9 considerado spoiler, estamos aqui falando de um document\u00e1rio hist\u00f3rico, tudo a\u00ed est\u00e1 nos livros (e na Wikip\u00e9dia). E mesmo se algu\u00e9m considerar spoiler, nada desse texto se compara a experi\u00eancia audiovisual que \u00e9 assistir a \u201cTrilha sonora para um golpe de estado\u201d. N\u00e3o espere um filme documental b\u00e1sico, com a sequ\u00eancia de narra\u00e7\u00e3o off-imagens de arquivo-entrevista, no qual o didatismo impera. Grimonprez prop\u00f5e um outro tipo de imers\u00e3o: em seu filme, as can\u00e7\u00f5es de jazz dialogam com as imagens e ajudam a criar o ritmo narrativo, nos levando por um mar de informa\u00e7\u00f5es, cabendo ao espectador ir montando esse quebra-cabe\u00e7a e conectando personagens; para al\u00e9m disso, o roteiro n\u00e3o se furta em quebrar as perspectivas temporais e entrev\u00ea em breves incurs\u00f5es os impactos dessa hist\u00f3ria na atualidade, criando conex\u00f5es e links que apenas expandem as possibilidades externas \u00e0 obra.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-87365\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/02\/soundtracks3.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"500\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/02\/soundtracks3.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/02\/soundtracks3-300x200.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tudo isso se sustenta em dois aspectos primorosos: pesquisa e montagem. Para sua base textual\/narrativa, o document\u00e1rio usa o livro \u201cMy Country, Africa: Autobiography of the Black Pasionaria\u201d, de Andr\u00e9e Blouin, ativista revolucion\u00e1ria considerada durante os anos 1960 a mulher mais \u201cperigosa\u201d da \u00c1frica; o livro \u201cCongo Inc.:Bismarck\u2019s Testament\u201d, do congol\u00eas In Koli Jean Bofane; \u201cTo Katanga and Back\u201d, do diplomata irland\u00eas Conor Cruise O\u2019Brien; e as mem\u00f3rias em \u00e1udio do sovi\u00e9tico Nikita Khrushchev. Para ilustrar e complementar estes textos e falas, o document\u00e1rio se utiliza de um amplo acervo de imagens, entrevistas e apresenta\u00e7\u00f5es musicais, que v\u00e3o desde arquivos televisivos e jornal\u00edsticos, filmes caseiros, campanhas publicit\u00e1rias at\u00e9 outros experimentos audiovisuais. Tudo isso ganha vida com uma montagem absurda, em que uma apresenta\u00e7\u00e3o de Max Roach e Abbey Lincoln, por exemplo, pode ser o fio condutor para debates no Conselho de Seguran\u00e7a da ONU. A edi\u00e7\u00e3o de \u201cTrilha sonora para um golpe de estado\u201d possibilita um di\u00e1logo entre som e imagem, entre jazz e pol\u00edtica, assumindo uma ousada liberdade, como que bebendo da fonte do free jazz: can\u00e7\u00f5es s\u00e3o cortadas, remontadas, imagens ressonorizadas e apresenta\u00e7\u00f5es musicais silenciadas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">S\u00f3 esse trabalho de edi\u00e7\u00e3o j\u00e1 seria por si s\u00f3 um indicativo de que este \u00e9 um filme imperd\u00edvel para quem ama cinema, por\u00e9m o filme de Johan Grimonprez se amplifica em diferentes frentes, pois seria f\u00e1cil se perder em tantas informa\u00e7\u00f5es e acabar construindo um filme grandiloquente, por\u00e9m an\u00f3dino, mas o sucesso deste document\u00e1rio se encontra realmente em sua capacidade de navegar por in\u00fameros fatos e personagens e ainda assim ser consistente em seu fio narrativo. A hist\u00f3ria de Patrice Mulumba, a chaga do colonialismo sobre o Congo e a discuss\u00e3o sobre o papel colonizador e explorat\u00f3rio da Europa e dos Estados Unidos sobre os pa\u00edses africanos: tudo \u00e9 bem estabelecido e desenhado, construindo um panorama desse imbr\u00f3glio e de como diferentes interesses se encontram, deixando bem claro como todas essas a\u00e7\u00f5es diplom\u00e1ticas sempre t\u00eam suas raz\u00f5es e seus mist\u00e9rios.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Johan Grimonprez cria um document\u00e1rio grandioso, em forma e tese, e isso salta da tela para o espectador. \u00c9 imposs\u00edvel sair indiferente de uma sess\u00e3o de \u201cTrilha sonora para um golpe de estado\u201d, um filme que nos enche de questionamentos, de d\u00favidas e de incertezas. Trata-se de um filme essencial para quem minimiza a arte enquanto capital pol\u00edtico, para quem busca pensar o mundo por perspectivas decoloniais e para quem entende a arte como espa\u00e7o para questionar as nossas pr\u00f3prias cren\u00e7as. \u00c9 obra que nos relembra o horror e os dissabores de existir em nosso tempo, mas que tamb\u00e9m refor\u00e7a a pot\u00eancia que \u00e9, em algum momento, existirmos no mesmo espa\u00e7o-tempo que tantas figuras art\u00edsticas e pol\u00edticas t\u00e3o fortes que habitaram o nosso imagin\u00e1rio no s\u00e9culo XX. Enfim, esta resenha pode ser vista como um texto de superlativos, mas acreditamos que voc\u00ea entender\u00e1 o porqu\u00ea ap\u00f3s assistir este filme.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Trilha Sonora pra um Golpe de Estado - Trailer Oficial\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/Aib5z2elhGY?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u2013\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/renan.machadoguerra\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Renan Guerra<\/a>\u00a0\u00e9 jornalista<\/em>\u00a0e<em>\u00a0escreve para o Scream &amp; Yell desde 2014. Faz parte do\u00a0<a href=\"http:\/\/vamosfalarsobremusica.com.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" data-saferedirecturl=\"https:\/\/www.google.com\/url?q=http:\/\/vamosfalarsobremusica.com.br\/&amp;source=gmail&amp;ust=1630729890879000&amp;usg=AFQjCNGttyQx5OWOAKRyi7iGq8E4oacvuw\">Podcast Vamos Falar Sobre M\u00fasica<\/a>\u00a0e colabora com o\u00a0<a href=\"https:\/\/monkeybuzz.com.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" data-saferedirecturl=\"https:\/\/www.google.com\/url?q=https:\/\/monkeybuzz.com.br\/&amp;source=gmail&amp;ust=1630729890879000&amp;usg=AFQjCNFjG1FOw9vBGrawiUhocH4mshwTtw\">Monkeybuzz<\/a>\u00a0e a\u00a0<a href=\"https:\/\/revistabalaclava.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" data-saferedirecturl=\"https:\/\/www.google.com\/url?q=https:\/\/revistabalaclava.com\/&amp;source=gmail&amp;ust=1630729890879000&amp;usg=AFQjCNFqHswo4qEcyg8fw9VPM8IWsRH5oQ\">Revista Balaclava<\/a>.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Indicado ao Oscar, document\u00e1rio coloca o jazz em um outro espa\u00e7o: o de capital pol\u00edtico e cultural em uma trama que une a ONU, a CIA, a B\u00e9lgica e, o personagem mais afetado de todos, o Congo!\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2025\/02\/06\/cinema-trilha-sonora-para-um-golpe-de-estado-cria-intrincado-panorama-documental-que-mescla-jazz-guerra-fria-e-colonialismo\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":3,"featured_media":87363,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[4],"tags":[3465],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/87362"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=87362"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/87362\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":87368,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/87362\/revisions\/87368"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/87363"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=87362"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=87362"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=87362"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}