{"id":87356,"date":"2025-02-06T10:47:09","date_gmt":"2025-02-06T13:47:09","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=87356"},"modified":"2025-04-10T15:05:51","modified_gmt":"2025-04-10T18:05:51","slug":"cinema-misericordia-de-alain-guiraudie-se-ergue-gigantesco-e-esfingico-diante-de-nos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2025\/02\/06\/cinema-misericordia-de-alain-guiraudie-se-ergue-gigantesco-e-esfingico-diante-de-nos\/","title":{"rendered":"Cinema: \u201cMiseric\u00f3rdia\u201d, de Alain Guiraudie, se ergue gigantesco e esf\u00edngico diante de n\u00f3s"},"content":{"rendered":"<h2><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-87357\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/02\/misericorde1.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"1000\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/02\/misericorde1.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/02\/misericorde1-225x300.jpg 225w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/h2>\n<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>texto de\u00a0<a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/leandro_luz\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Leandro Luz<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">O cineasta franc\u00eas Alain Guiraudie, diretor de \u201cMiseric\u00f3rdia\u201d (\u201cMis\u00e9ricorde\u201d, 2024), vem realizando, h\u00e1 mais de duas d\u00e9cadas, obras que se debru\u00e7am sobre os perigos e os mist\u00e9rios da paix\u00e3o. Neste seu \u00faltimo trabalho, indicado \u00e0 Queer Palm no Festival de Cannes e em oito categorias no C\u00e9sar (o Oscar franc\u00eas), o desejo se mistura com a melancolia de uma paisagem &#8211; geogr\u00e1fica e emocional &#8211; acachapante. Seja pelos conflitos internos do protagonista ou pelos caminhos densos da floresta pelos quais a c\u00e2mera se esgueira muitas vezes durante o filme, somos confrontados com mudan\u00e7as de rota inesperadas. Nada \u00e9 o que parece. E tudo pode acontecer na medida do imposs\u00edvel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Assistir a um filme desse tipo, capaz de carregar essa intempestividade em seu cerne, est\u00e1 cada vez mais raro no cinema hegem\u00f4nico mundial. Em \u201cMiseric\u00f3rdia\u201d, assim como em \u201cUm Estranho no Lago\u201d (2013), por exemplo, as a\u00e7\u00f5es das personagens e as revela\u00e7\u00f5es de uma trama intrincada e certamente mais complexa do que a superf\u00edcie consegue dar a ver s\u00e3o modeladas pelo diretor de maneira a preservar um qu\u00ea de charada, quase impenetr\u00e1vel, que se desvela aos poucos aos olhos e aos ouvidos do espectador. A longa sequ\u00eancia inicial de J\u00e9r\u00e9mie, nosso protagonista, chegando \u00e0 cidade nos prepara relativamente para o que est\u00e1 por vir. A c\u00e2mera \u00e9 colocada no para-brisas do carro que trafega por uma estrada verde e sinuosa. A paisagem buc\u00f3lica da floresta que cerca a pequena comuna francesa (Saint-Martial) ao mesmo tempo seduz e incomoda. Do ponto de vista psicol\u00f3gico, descobriremos mais adiante na trama que ela tamb\u00e9m trar\u00e1 uma dimens\u00e3o aterradora para o protagonista.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em resumo, a trama se passa em um curto per\u00edodo de tempo &#8211; alguns dias, talvez algumas semanas, j\u00e1 que as elipses s\u00e3o t\u00e3o misteriosas quanto o que \u00e9 efetivamente filmado &#8211; e acompanha Jer\u00e9mie, um homem que volta para a sua cidade de origem para comparecer ao funeral de seu falecido empregador, um padeiro local conhecido por toda a comunidade. A princ\u00edpio, o protagonista prev\u00ea o seu retorno para o mesmo dia, mas a receptividade que encontra na casa da vi\u00fava e solit\u00e1ria Martine, que o acolhe como um filho, o faz querer ficar um pouco mais. O problema \u00e9 que o filho de Martine, Vincent, parece n\u00e3o aceitar muito bem as emo\u00e7\u00f5es que a presen\u00e7a do colega de inf\u00e2ncia o causam, transformando com muita rapidez o que era nost\u00e1lgico e divertido em uma amea\u00e7a est\u00fardia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As rela\u00e7\u00f5es entre pares s\u00e3o muito importantes para o roteiro e para a encena\u00e7\u00e3o de Guiraudie, que adota uma composi\u00e7\u00e3o dual desde o princ\u00edpio: J\u00e9r\u00e9mie e Vincent em sua rela\u00e7\u00e3o nost\u00e1lgica, explosiva e violenta; j\u00e1 Jer\u00e9mie e o vizinho dan\u00e7am entre o medo e o desejo; a rela\u00e7\u00e3o plat\u00f4nica entre Jer\u00e9mie e o padre, por sua vez, \u00e9 um ponto de ebuli\u00e7\u00e3o do filme; por fim, Jer\u00e9mie e a vi\u00fava Martine se conectam em um prisma complexo e repleto de reviravoltas. A passividade demonstrada pelo ator F\u00e9lix Kysyl, ao mesmo tempo que preserva uma tonalidade libertina ou no m\u00ednimo lasciva em sua interpreta\u00e7\u00e3o, \u00e9 fundamental para que consigamos absorver o conflito, o medo, a ang\u00fastia e, por fim, o prazer do protagonista. Guiraudie se concentra nesse jogo em duo, mais interessado no que cada uma das liga\u00e7\u00f5es podem provocar em termos de fric\u00e7\u00e3o e ac\u00famulo do que no que um conjunto, uma coletividade poderia trazer de maci\u00e7o, de compacto.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-87358\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/02\/misericorde3.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"336\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/02\/misericorde3.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/02\/misericorde3-300x134.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um exemplo curioso de como essas rela\u00e7\u00f5es v\u00e3o se dando aos poucos, uma ap\u00f3s a outra, s\u00e3o os passeios que Jer\u00e9mie empreende pela floresta com o suposto objetivo de colher cogumelos. No in\u00edcio, esse pretexto serve para desenvolver o elo entre ele e Vincent, e \u00e9 bonito ver como a pr\u00f3pria paisagem colabora na mudan\u00e7a de temperatura desse relacionamento, que evolui rapidamente de uma fr\u00e1gil amizade para uma raiva acumulada e desmedida. Depois, Jer\u00e9mie passa a cruzar o espa\u00e7o tamb\u00e9m na companhia do padre, e a cada vez em que se encontram a repeti\u00e7\u00e3o do cen\u00e1rio revela o interesse pelo atrito, nunca pela conformidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para quem assistiu ao filme &#8211; e a partir daqui pode ser que alguns spoilers atrapalhem a sua experi\u00eancia, caso ainda n\u00e3o tenha assistido -, \u00e9 muito evidente como a pr\u00f3pria busca pelos cogumelos \u00e9 um elemento desestabilizador muito bem usado pelo roteiro, pois s\u00e3o nessas cenas em que o desenvolvimento de uma atmosfera aterradora se torna ainda maior. Os cogumelos passam a crescer na superf\u00edcie do terreno no qual Vincent foi enterrado por J\u00e9r\u00e9mie. A culpa e o medo de ser descoberto se misturam. A adrenalina \u00e9 alimentada por uma sexualidade que permeia todas essas duplas que, em comum, possuem apenas a presen\u00e7a de Jer\u00e9mie. Uma sexualidade, ali\u00e1s, representada de forma muito direta, intelig\u00edvel, ainda que nunca descomplicada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se voc\u00ea mora em uma cidade do interior, provinciana por natureza, o que h\u00e1 de mais interessante para ser feito? A tens\u00e3o sexual, quase sempre unilateral, cresce entre J\u00e9r\u00e9mie e o vizinho, entre ele e o padre, ele e a vi\u00fava. E se confunde com puls\u00e3o de morte quando o centro emocional da rela\u00e7\u00e3o entre Jer\u00e9mie e Vincent ocupa o interesse principal da hist\u00f3ria &#8211; h\u00e1 qualquer coisa no di\u00e1logo entre os dois que deixa subentendido algum acontecimento mais \u00edntimo no passado. Em determinada cena, o protagonista precisa se esconder debaixo dos cobertores da cama do padre, que Guiraudie n\u00e3o se furta de filmar com frontalidade (o esconderijo \u00e9 esdr\u00faxulo, o pau duro do padre mais ainda). Em outra, l\u00e1 para o final do filme, a vi\u00fava se deixa seduzir por Jer\u00e9mie &#8211; apreens\u00e3o demonstrada logo no in\u00edcio por Vincent, cozinhada em banho maria por Guiraudie at\u00e9 que a brecha \u00e9 transformada em cachoeira, jorrando n\u00edveis alt\u00edssimos de excita\u00e7\u00e3o l\u00e1 para os 15 minutos finais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por fim, um \u00faltimo ponto incontorn\u00e1vel de \u201cMiseric\u00f3rdia\u201d. O roteiro se estrutura em torno de uma a\u00e7\u00e3o recorrente do protagonista: ele acorda na p\u00e1lida e modorrenta madrugada da cidade, em uma cama que n\u00e3o \u00e9 sua, em um corpo que sofre amotina\u00e7\u00e3o por onde circula. Em determinado instante do terceiro ato, o filme parece espelhar o primeiro, mas logo d\u00e1 uma guinada para outra dire\u00e7\u00e3o. Na primeira encarna\u00e7\u00e3o da sequ\u00eancia, J\u00e9r\u00e9mie \u00e9 acordado com Vincent entrando sem aviso &#8211; e sem consentimento &#8211; em seu quarto. Em seguida, em outra noite, Jer\u00e9mie tranca a porta para evitar que o amigo entre. Depois, em outra noite subsequente, ele se esconde para surpreender Vincent. Vemos quase as mesmas a\u00e7\u00f5es se repetirem com outra personagem depois, o policial que desconfia que Jer\u00e9mie poderia ter assinado Vincent. O modus operandi \u00e9 o mesmo, mas as pequenas oscila\u00e7\u00f5es, os m\u00ednimos deslocamentos nos fazem pensar que talvez estejamos dentro de um sonho. O policial que visita J\u00e9r\u00e9mie, assim como Vincent o visitou alguns dias antes, se aproxima de uma ideia de sonho ou de realidade? Estaria o filme nos enganando de maneira t\u00e3o descarada? O filme, na verdade, est\u00e1 mais engajado em brincar com essa no\u00e7\u00e3o on\u00edrica, ainda que d\u00ea muitos ind\u00edcios para uma leitura realista. A ambiguidade, declaradamente perseguida por Guiraudie, inunda, em retrospecto, o filme inteiro. \u201cMiseric\u00f3rdia\u201d, enfim, se ergue gigantesco e esf\u00edngico diante de n\u00f3s.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Miseric\u00f3rdia (trailer oficial)\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/fyKPg5T-23E?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u2013 Leandro Luz (<a href=\"https:\/\/twitter.com\/leandro_luz\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">@leandro_luz<\/a>) escreve e pesquisa sobre cinema desde 2010. Coordena os projetos de audiovisual do Sesc RJ desde 2019 e exerce atividades de cr\u00edtica nos podcasts\u00a0<a href=\"https:\/\/podcasters.spotify.com\/pod\/show\/plano-sequencia\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Plano-Sequ\u00eancia<\/a>\u00a0e\u00a0<a href=\"https:\/\/podcasters.spotify.com\/pod\/show\/plano-sequencia\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">1 disco, 1 filme.<\/a><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Assistir a um filme como \u201cMiseric\u00f3rdia\u201d (\u201cMis\u00e9ricorde\u201d, 2024),, capaz de carregar essa intempestividade em seu cerne, est\u00e1 cada vez mais raro no cinema hegem\u00f4nico mundial.\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2025\/02\/06\/cinema-misericordia-de-alain-guiraudie-se-ergue-gigantesco-e-esfingico-diante-de-nos\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":137,"featured_media":87359,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[4],"tags":[7593],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/87356"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/137"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=87356"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/87356\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":87360,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/87356\/revisions\/87360"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/87359"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=87356"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=87356"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=87356"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}