{"id":8726,"date":"2011-06-15T11:53:38","date_gmt":"2011-06-15T14:53:38","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=8726"},"modified":"2019-04-06T17:50:38","modified_gmt":"2019-04-06T20:50:38","slug":"cd-no-na-orelha-criolo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2011\/06\/15\/cd-no-na-orelha-criolo\/","title":{"rendered":"CD: N\u00f3 na Orelha, Criolo"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2011\/06\/criolononaorelha.jpg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"408\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>p<\/strong><strong>or <a href=\"http:\/\/twitter.com\/noacapelas\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Bruno Capelas<\/a><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 1997, com o clipe de &#8220;Di\u00e1rio de Um Detento&#8221; e o disco \u201cSobrevivendo no Inferno\u201d, que al\u00e9m da j\u00e1 citada, contava com petardos como &#8220;Cap\u00edtulo 4, Vers\u00edculo 3&#8221; e &#8220;F\u00f3rmula M\u00e1gica da Paz&#8221;, os Racionais MCs apresentaram ao Brasil o rap na l\u00edngua p\u00e1tria. Muitos rappers e MCs vieram antes, mas com os Racionais a coisa tomou propor\u00e7\u00f5es grandiosas (\u201cSobrevivendo\u201d vendeu 500 mil c\u00f3pias na ra\u00e7a, sem gravadora grande enfiando jab\u00e1 e TV Globo inflando \u2013 s\u00f3 com o apoio da \u201cfam\u00edlia\u201d), uma surpresa apenas para aqueles que n\u00e3o perceberam o grupo que j\u00e1 vinha beliscando outra fatia de p\u00fablico desde a dobradinha poderosa do \u00e1lbum \u201cRaio X Brasil\u201d (1993): \u201cFim de Semana no Parque\u201d e \u201cHomem na Estrada\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Marcados por um estilo que conquistou n\u00e3o s\u00f3 o p\u00fablico j\u00e1 habituado ao rap, mas tamb\u00e9m &#8220;os branquinho de shopping&#8221; \u2013 mesmo que estes n\u00e3o tenham sido o alvo inicial da banda \u2013 contando hist\u00f3rias sobre drogas, pris\u00f5es, roubos e preconceito, Mano Brown e seus companheiros acabaram tamb\u00e9m, talvez inconscientemente, deixando a impress\u00e3o na cultura do brasileiro m\u00e9dio que o estilo das rimas vers\u00e1teis e batidas secas equivalia a narrar apenas hist\u00f3rias de viol\u00eancia. Poucos n\u00e3o foram os rappers que lutaram contra essa ideal \u2013 e neles se insere Criolo, que em 2011 solta um \u00e1lbum capaz de quebrar mais algumas barreiras para o g\u00eanero. \u201cN\u00f3 na Orelha\u201d (que pode ser baixado gratuitamente <a href=\"http:\/\/criolo.art.br\/criolononaorelhahotsite\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">aqui<\/a>), produzido por Daniel Ganjaman e Marcelo Cabral, pode ser a pedra de toque para que muita gente passe a abrir seus ouvidos para o rap, sem len\u00e7o nem preconceito.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em seu primeiro disco, \u201cAinda H\u00e1 Tempo\u201d, Criolo fez um bom trabalho, seguindo \u00e0 risca a tradi\u00e7\u00e3o do estilo no Brasil, procurando narrar a vida na periferia e levando em frente a tentativa de se estabelecer uma cultura de paz, mesmo quando esta se assemelha muito mais a uma utopia perante um cotidiano de velada guerra civil. Em \u201cN\u00f3 na Orelha\u201d, por\u00e9m, ele se apresenta mais como cantor do que como rapper: n\u00e3o s\u00e3o todas as faixas as quais ele aparece rimando, e nem todas as em que ele rima s\u00e3o exclusivamente raps.  Na maior parte do \u00e1lbum, ele trafega entre bonitos sambas, reggaes e at\u00e9 pelo formato tradicional da can\u00e7\u00e3o. \u00c9 poss\u00edvel, por\u00e9m, que essa escolha seja para mostrar que o rap \u00e9 n\u00e3o apenas um g\u00eanero, mas um estilo de compor que trespassa o ritmo musical \u2013 percebe-se, em muitas das rimas do \u00e1lbum, uma constru\u00e7\u00e3o t\u00edpica do g\u00eanero. Como ele mesmo cantou em uma releitura que fez de &#8220;C\u00e1lice&#8221;, cl\u00e1ssico de Gil &amp; Chico: &#8220;Me chamam Criolo e o meu ber\u00e7o \u00e9 o rap \/ mas n\u00e3o existe fronteira pra minha poesia, pai\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando segue o c\u00e2none do rap, Criolo atrai o ouvinte n\u00e3o acostumado ao estilo brincando com sonoridades, comprimindo e\/ou esticando palavras at\u00e9 n\u00e3o poder mais ou enveredando por rimas ousadas, em termina\u00e7\u00f5es complicadas. \u00c9 o caso, por exemplo, de &#8220;Grajauex&#8221;, cujos versos acabam sempre em &#8220;-ex&#8221;: &#8220;sab\u00e3o de coco n\u00e3o \u00e9 Pompom com protex\/no almo\u00e7o o sodex, meu advogado \u00e9 o Alex\/e se jogo do bicho \u00e9 contraven\u00e7\u00e3o, mega sena \u00e9 ilus\u00e3o pra colar com durex&#8221;. Ou em &#8220;Subirusdoistiozin&#8221;, cuja descri\u00e7\u00e3o do ambiente da favela \u00e9 muito bem feita, com riqueza de detalhes, incluindo at\u00e9 a incorpora\u00e7\u00e3o de determinados sotaques &#8211; &#8220;pleno doming\u00e3o\/flango ou macal\u00e3o\/se o negocio \u00e9 b\u00e3o\/c\u00ea fica chineizin&#8221;. E mais: \u00e9 poss\u00edvel se entender o que o cantor fala, mesmo que talvez o entendimento real de certas palavras ou g\u00edrias seja limitado a poucos ouvintes. A certa altura, em &#8220;Mari\u00f4&#8221;, o cantor versa: &#8220;eu odeio explicar g\u00edria&#8221;, de maneira a parecer que seu universo n\u00e3o \u00e9 acess\u00edvel para qualquer um, mas, ao mesmo tempo, ao escrever algo como \u201cDi Cavalcanti, Oiticica e Frida Kahlo \/ t\u00eam o mesmo valor \/ que a benzedeira do bairro\u201d, \u00e9 poss\u00edvel que Criolo esteja tentando aproximar e dar valor a elementos d\u00edspares que costumeiramente n\u00e3o s\u00e3o tratados em um mesmo patamar.<\/p>\n<p align=\"center\"><object classid=\"clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000\" width=\"600\" height=\"340\" codebase=\"http:\/\/download.macromedia.com\/pub\/shockwave\/cabs\/flash\/swflash.cab#version=6,0,40,0\"><param name=\"src\" value=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/xmNxTYjCU74\" \/><embed type=\"application\/x-shockwave-flash\" width=\"600\" height=\"340\" src=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/xmNxTYjCU74\"><\/embed><\/object><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Olhando ainda para o conjunto de raps do disco, outra quest\u00e3o interessante a ser observada nas letras de Criolo \u00e9 a maneira como ele procura desmitificar estere\u00f3tipos que retratam a periferia e exibir a sua vis\u00e3o sobre o ambiente em que vive. \u00c9 o caso de passagens como &#8220;cientista social, Casas Bahia e trag\u00e9dia \/ gosta de favelado mais que nutella&#8221; (&#8220;Sucrilhos&#8221;), ou &#8220;e covarde s\u00e3o quem tem tudo de bom \/ e fornece o mal, pra favela morrer&#8221; (&#8220;Subirusdoistiozin&#8221;). Em outros momentos, ele procura deixar clara sua miss\u00e3o como artista, ou pelo menos, exibir as dificuldades de faz\u00ea-lo. Tal ideia aparece de maneira mais clara em ao menos dois momentos do disco: em \u201cSucrilhos\u201d, quando ele canta \u201c\u00e9 que cantar rap nunca foi pra homem fraco\u201d, e em \u201cLion Man\u201d: \u201ce se fosse pra ter medo \/ dessa estrada \/ eu n\u00e3o taria tanto tempo \/ nessa caminhada \/ artista independente \/ leva no peito a responsa, tiuz\u00e3o&#8221;. Nessa \u00faltima faixa, ainda se sente presente uma consci\u00eancia global do MC: &#8220;e j\u00e1 era \/ sua rainha t\u00e1 ciscando \/ j\u00e1 era \/ o pa\u00eds t\u00e1 no abandono \/ j\u00e1 era \/ o planeta t\u00e1 morrendo \/ j\u00e1 era \/ vai cair o rei\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Entretanto, \u00e9 pelas m\u00fasicas fora do contexto de seu ber\u00e7o como artista que Criolo pode soar mais convidativo a ouvidos principiantes: seja num samba de respeito, na tradi\u00e7\u00e3o l\u00edrica de Paulinho da Viola, mas com a refer\u00eancia pop da Turma da M\u00f4nica (&#8220;Linha de Frente&#8221;), num dub esperto (&#8220;Samba Sambei&#8221;), num aut\u00eantico afrobeat que versa sobre contrabando e cita Manuel Bandeira sem soar fora de lugar (\u201cBogot\u00e1\u201d) ou transportando-se para a d\u00e9cada de 70 ao emular Odair Jos\u00e9 e outros craques da &#8220;m\u00fasica de bordel&#8221; (&#8220;Fregu\u00eas da Meia Noite&#8221;). Ou ainda na bonita balada &#8220;N\u00e3o Existe Amor em SP&#8221;, que merece por si s\u00f3 um coment\u00e1rio \u00e0 parte.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 at\u00e9 dif\u00edcil acreditar que o rapper do resto do disco \u00e9 tamb\u00e9m o crooner desta faixa, gra\u00e7as \u00e0 suavidade e ao lirismo que se encontra aqui. Trata-se de uma das cr\u00f4nicas mais apaixonadas j\u00e1 feitas sobre a capital paulista, apesar do t\u00edtulo que parece negar tal fato. Em pouco menos de cinco minutos, h\u00e1 uma sucess\u00e3o de cenas, cortes cinematogr\u00e1ficos, que se sucedem formando e desdobrando imagens na cabe\u00e7a de um impass\u00edvel ouvinte: &#8220;numa linda frase \/ de um postal t\u00e3o doce \/ cuidado com doce \/ S\u00e3o Paulo \u00e9 um buqu\u00ea \/ buqu\u00eas s\u00e3o flores mortas\u201d. Ao final da can\u00e7\u00e3o, amparado por um bonito arranjo tramado por Ganjaman, o cantor Criolo sola: &#8220;n\u00e3o precisa morrer pra ver Deus \/ n\u00e3o precisa sofrer pra saber o que \u00e9 melhor pra voc\u00ea&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cN\u00f3 na Orelha\u201d n\u00e3o \u00e9 um disco regular em sua integridade \u2013 talvez justamente por misturar diferentes ritmos, o compositor se sai melhor em uns que em outros \u2013 mas que faz uma conex\u00e3o entre estilos de ouvintes diferentes. \u00c9 um \u00e1lbum capaz de agradar tanto \u00e0quele tradicional apreciador de rap quanto a um p\u00fablico \u201cbranco de classe m\u00e9dia-alta cat\u00f3lico\u201d \u2013 o equivalente mais pr\u00f3ximo da sociedade brasileira ao WASP estadunidense \u2013 com ouvido mais aberto \u00e0 m\u00fasica em geral, mas n\u00e3o ao rap em si. Ele tamb\u00e9m n\u00e3o se encontra sozinho: outros artistas, cujo caso mais conhecido \u00e9 Emicida, tem feito essa liga\u00e7\u00e3o entre o rap e o indie de maneira interessante \u2013 vale a pena ver a sampleada que este deu em \u201cQuero te Encontrar\u201d, do duo Claudinho e Buchecha. Criolo, por\u00e9m, mostra aqui que \u00e9 o respons\u00e1vel pela melhor tentativa feita nesse sentido at\u00e9 agora. Na linha de frente da quebra de preconceitos, esse \u00e9 um disco que pode, literalmente, deixar a quem o ouve com um n\u00f3 na orelha.<\/p>\n<p align=\"center\"><object classid=\"clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000\" width=\"600\" height=\"340\" codebase=\"http:\/\/download.macromedia.com\/pub\/shockwave\/cabs\/flash\/swflash.cab#version=6,0,40,0\"><param name=\"src\" value=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/Q347h3om2t0\" \/><embed type=\"application\/x-shockwave-flash\" width=\"600\" height=\"340\" src=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/Q347h3om2t0\"><\/embed><\/object><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">*******<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">&#8211; Bruno Capelas \u00e9 estudante de jornalismo e assina o blog <a href=\"http:\/\/pergunteaopop.blogspot.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Pergunte ao Pop<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"por Bruno Capelas\nNa linha de frente da quebra de preconceitos, esse \u00e9 um disco que pode deixar a quem o ouve com um n\u00f3 na orelha.\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2011\/06\/15\/cd-no-na-orelha-criolo\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":14,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[3],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8726"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/14"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=8726"}],"version-history":[{"count":11,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8726\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":51034,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8726\/revisions\/51034"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=8726"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=8726"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=8726"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}