{"id":8705,"date":"2011-06-12T22:12:36","date_gmt":"2011-06-13T01:12:36","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=8705"},"modified":"2023-03-29T00:55:20","modified_gmt":"2023-03-29T03:55:20","slug":"dancer-equired-e-a-morte-do-lo-fi","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2011\/06\/12\/dancer-equired-e-a-morte-do-lo-fi\/","title":{"rendered":"Dancer Equired! e a morte do lo-fi"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-8706 aligncenter\" title=\"dancer\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/06\/dancer.jpg\" alt=\"\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>por <a href=\"http:\/\/twitter.com\/#!\/andre_medeiros\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Andr\u00e9 Medeiros<\/a><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O som da gravadora Flying Nun \u2014 p\u00f3s-punk insular, nascido no marasmo da Nova Zel\u00e2ndia dos anos 80 \u2014 era considerado, para os padr\u00f5es mercadol\u00f3gicos internacionais da \u00e9poca, simplesmente tosco. Estava em seu cerne, por\u00e9m, a busca por extrair o m\u00e1ximo dos parcos recursos dispon\u00edveis; o j\u00e1 ent\u00e3o distante pop dos anos 60 servia como inspira\u00e7\u00e3o. Em seus melhores momentos, aquelas bandas deram ao mundo parte do que de mais bom gosto e de maior qualidade j\u00e1 foi feito na categoria \u201clo-fi\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Duas d\u00e9cadas mais tarde, na respeit\u00e1vel Columbus, capital do estado norte-americano de Ohio, surge um grupo batizado como Psychedelic Horseshit. A come\u00e7ar pelo nome, \u00e9 dif\u00edcil identificar na banda algo que possa ser apontado como \u201cbom gosto\u201d. Onde neozelandeses como The Clean e Tall Dwarfs lan\u00e7avam m\u00e3o de grelhas bem reguladas, ou banhos-maria, ou ainda de fornos a lenha (escolha sua met\u00e1fora culin\u00e1ria preferida), o Horseshit embebia sua mat\u00e9ria-prima na mais imunda, velha e asquerosa gordura quente imagin\u00e1vel. H\u00e1, sim, muito de familiar na iguaria \u2014 os \u201cmerda de cavalo\u201d s\u00e3o f\u00e3s assumidos da Flying Nun, e alguns cacoetes surgidos l\u00e1 atr\u00e1s nas ilhas s\u00e3o identific\u00e1veis em seu trabalho. Mas, neste caso, em vez de \u201cmais com menos\u201d, do uso criativo do que se tem \u00e0 m\u00e3o, de \u201ctransformar merda em ouro\u201d, a ordem \u00e9 \u201cmerda no ventilador\u201d \u2014 afrontar, ensurdecer, atacar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Voc\u00ea j\u00e1 viu isso antes, \u00e9 claro. Sem precisar voltar no tempo para os Stooges e o punk original, temos os nova-iorquinos do Pussy Galore \u2014 contempor\u00e2neos do p\u00f3s-punk da Nova Zel\u00e2ndia \u2014, de postura escrota e produ\u00e7\u00e3o ridiculamente barulhenta; um ataque \u00e0 autocensura, como definiu Greil Marcus ainda em 1987. Deixando de lado a hist\u00f3ria do lo-fi em Ohio, que por si s\u00f3 j\u00e1 rende muitas e muitas linhas, \u00e9 ineg\u00e1vel a conflu\u00eancia (n\u00e3o necessariamente perfeita ou sequer evolutiva), no Psychedelic Horseshit, de um conjunto de correntes \u2014 entre elas o pop kiwi e a abrasividade consciente da no wave.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Formado pelos graduandos em Artes Jared Phillips (guitarra), Beth Murphy (teclado e voz) e Adam Elliott (bateria e voz), o Times New Viking foi a primeira banda a se associar aos seus conterr\u00e2neos do Horseshit. Para que um r\u00f3tulo tenha qualquer validade, \u00e9 preciso que um grupo m\u00ednimo de artistas o adote, ou seja adotado por ele. Parodiando o shoegaze capitaneado pelo My Bloody Valentine no final da d\u00e9cada de 80, \u201cshitgaze\u201d foi o t\u00edtulo escolhido \u2014 sem qualquer pretens\u00e3o, sen\u00e3o a de criar uma piada inc\u00f4moda e pouco engra\u00e7ada \u2014 por Matt Whitehurst, l\u00edder do Psychedelic Horseshit, para definir seu som. Era, sim, um passo a mais na tradi\u00e7\u00e3o que j\u00e1 teve o Jesus &amp; Mary Chain e o Pussy Galore como bolas da vez: ningu\u00e9m antes, ou de l\u00e1 para c\u00e1, atingiu tal n\u00edvel de estupidez sonora. N\u00e3o h\u00e1 din\u00e2mica, n\u00e3o h\u00e1 variedade relevante de timbres; identificar qualquer tra\u00e7o de groove ou musicalidade \u00e9 um desafio para ouvidos treinados. H\u00e1 distor\u00e7\u00e3o sobre distor\u00e7\u00e3o, levando a s\u00e9rio a m\u00e1xima defendida pelo Dinosaur Jr de que, se a guitarra sempre soa melhor quando distorcida, um disco inteiro tamb\u00e9m deveria soar.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><object classid=\"clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000\" width=\"605\" height=\"400\" codebase=\"http:\/\/download.macromedia.com\/pub\/shockwave\/cabs\/flash\/swflash.cab#version=6,0,40,0\"><param name=\"src\" value=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/iQJvAXOohoU\" \/><embed type=\"application\/x-shockwave-flash\" width=\"605\" height=\"400\" src=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/iQJvAXOohoU\"><\/embed><\/object><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A Siltbreeze surgiu na Philadelphia no in\u00edcio dos anos 90, e desde sua cria\u00e7\u00e3o identificou-se com o lo-fi. Na \u00faltima d\u00e9cada, a pequena gravadora passou por uma ressurrei\u00e7\u00e3o, ao lan\u00e7ar trabalhos n\u00e3o s\u00f3 do Psychedelic Horseshit como tamb\u00e9m de alguns dos melhores e mais entusi\u00e1sticos seguidores do shitgaze \u2014 entre eles Sic Alps, Eat Skull e Pink Reason \u2014, tornando-se a casa &#8216;bona fide&#8217; do sub-subg\u00eanero. Lan\u00e7ando pelo selo seus dois primeiros \u00e1lbuns, foi o Times New Viking a banda que deu in\u00edcio ao ressurgimento da Siltbreeze. &#8220;Dig Yourself&#8221;, de 2005, e &#8220;Present The Paisley Reich&#8221;, de 2007, atra\u00edram certa aten\u00e7\u00e3o no meio indie internacional, com seu n\u00facleo bubblegum espartano sob a quase insuport\u00e1vel crosta de barulho da produ\u00e7\u00e3o anal\u00f3gica caseira de VUs empurrados ao limite.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mais importante: atra\u00edram a aten\u00e7\u00e3o da Matador, gigante do mercado fonogr\u00e1fico independente norte-americano e uma das principais ditadoras de tend\u00eancias desse mercado. A gravadora de Nova York lan\u00e7ou em 2008 o terceiro trabalho do Times New Viking. &#8220;Rip It Off&#8221; marca o salto do trio de Ohio de um gueto underground para o selo que tornou grandes nomes hoje lend\u00e1rios como Pavement, Guided by Voices, Superchunk e muitos outros. O \u00e1lbum traz a melhor cole\u00e7\u00e3o de can\u00e7\u00f5es da banda at\u00e9 ent\u00e3o, e a produ\u00e7\u00e3o \u00e9 ainda mais nociva do que antes, com volume espantosamente alto. O p\u00fablico cresceu exponencialmente, como se esperava, e o quarto disco do Times New Viking, &#8220;Born Again Revisited&#8221; (que traz a can\u00e7\u00e3o acima, &#8220;No Time, No Hope&#8221;), foi recebido com sonoros aplausos em 2009.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Anunciando que a master do sucessor de &#8220;Rip It Off&#8221;, que tamb\u00e9m sairia pela Matador, n\u00e3o era uma fita cassete como nos outros, mas uma VHS \u2014 o que aumentaria em 25%, afirmavam, a qualidade do som (e \u00e9 mesmo essa a impress\u00e3o que se tem) \u2014, o Times New Viking dava o primeiro sinal de que n\u00e3o permaneceria na mesma abordagem para sempre. Nesse momento a proposta do Psychedelic Horseshit j\u00e1 se alastrara, e bandas como as californianas Wavves e No Age, paralela ou derivativamente (h\u00e1 controv\u00e9rsia a este respeito), j\u00e1 eram nomes consagrados. Enquanto as Vivian Girls \u2014 trio punk lo-fi feminino do Brooklyn com influ\u00eancia assumida do som de Columbus \u2014 lan\u00e7avam seu segundo bem-sucedido \u00e1lbum e colecionavam seguidoras e imitadoras, o Horseshit, no seu ritmo, lan\u00e7ava tamb\u00e9m seu segundo \u00e1lbum, consolidando-se frente \u00e0 cr\u00edtica mais bem-informada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Times New Viking passou a maior parte de 2010 em turn\u00ea. Viajaram em suporte aos veteranos do Yo La Tengo e \u00e0s duas bandas que um dia haviam descrito como sua vers\u00e3o pessoal da dupla Beatles\/Rolling Stones \u2014 as redivivas pioneiras do lo-fi americano Pavement e Guided by Voices. A ben\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica os exp\u00f4s a um p\u00fablico muito maior que o que estavam acostumados a enfrentar. O Wavves, que foi tema de camisetas dos membros do Horseshit em 2008 (\u201cWavves Suxx\u201d, dizia a inscri\u00e7\u00e3o, e Matt Whitehurst n\u00e3o perde uma oportunidade de reiterar a afirma\u00e7\u00e3o), lan\u00e7ou seu terceiro trabalho \u2014 o ensolarado &#8220;King Of The Beach&#8221; \u2014, abandonando oportunamente o som lo-fi em troca de uma produ\u00e7\u00e3o pop punk mais palat\u00e1vel e conquistando sucesso estrondoso (para os padr\u00f5es indies) de cr\u00edtica e p\u00fablico, at\u00e9 mesmo entre os hipsters do terceiro mundo. Come\u00e7ou a surgir o boato de que o Times New Viking seria o pr\u00f3ximo a fazer a transi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><object classid=\"clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000\" width=\"605\" height=\"400\" codebase=\"http:\/\/download.macromedia.com\/pub\/shockwave\/cabs\/flash\/swflash.cab#version=6,0,40,0\"><param name=\"src\" value=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/aTJHIfiAKzc\" \/><embed type=\"application\/x-shockwave-flash\" width=\"605\" height=\"400\" src=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/aTJHIfiAKzc\"><\/embed><\/object><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Entre o final de 2010 e o in\u00edcio de 2011, vieram dados expl\u00edcitos. Vendido exclusivamente em shows como uma pr\u00e9via do trabalho seguinte, o single de \u201cNo Room to Live\u201d trazia produ\u00e7\u00e3o limpa, clima suave e at\u00e9 mesmo viol\u00f5es. O clipe da faixa chamou aten\u00e7\u00e3o na internet \u2014 uma colagem de quase 3000 desenhos produzidos por diversos artistas sobre os frames originais do v\u00eddeo; nada parecido com qualquer coisa feita anteriormente pela banda. Junto com o clipe, em janeiro, vieram os an\u00fancios de que o \u00e1lbum, batizado &#8220;Dancer Equired!&#8221;, sairia no final de abril pela Merge \u2014 n\u00e3o mais pela Matador \u2014 e de que o trio trabalhava, pela primeira vez, em um est\u00fadio de verdade. Para completar, a revista Vice publicou em fevereiro um texto de Jared Phillips intitulado \u201cHow to survive the death o Lo-Fi\u201d, em que o guitarrista discorria (ironicamente, \u00e0 moda da publica\u00e7\u00e3o) sobre a morte inevit\u00e1vel do g\u00eanero e dava dicas para quem desejasse sobreviver. A \u00faltima frase: \u201cWatch the Grammys and learn, dumbass.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A mudan\u00e7a de selo pode ser interpretada de formas diferentes. Por um lado, a nova casa \u00e9 aparentemente uma empresa mais \u201cfamiliar\u201d do que a antiga \u2014 a Merge foi fundada no in\u00edcio dos anos 90 na pequena Chapel Hill, na Carolina do Norte, pelo ent\u00e3o casal Mac McCaughan e Laura Ballance, do Superchunk, que ainda hoje a administram. Todavia, a \u00faltima d\u00e9cada viu a gravadora crescer, n\u00e3o obstante o esfor\u00e7o para se afirmar humanizada e simp\u00e1tica, e se transformar em uma ineg\u00e1vel pot\u00eancia. O Grammy conquistado pelo terceiro \u00e1lbum do Arcade Fire \u00e9 um marco simb\u00f3lico (mais de poder de mercado do que de valor art\u00edstico, todos sabem) que a pr\u00f3pria Matador ainda n\u00e3o tem na estante. O fator preponderante na transi\u00e7\u00e3o, por\u00e9m, \u00e9 mais simples: a Merge n\u00e3o impediu que o Times New Viking fechasse acordos isolados para o lan\u00e7amento do disco por diferentes gravadoras na Europa (Wichita), Austr\u00e1lia (Pop Frenzy) e Jap\u00e3o (Big Nothing), um neg\u00f3cio obviamente proveitoso para um grupo no contexto independente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No in\u00edcio de mar\u00e7o, &#8220;Dancer Equired!&#8221; vazou em mp3, rapidamente se espalhando pela internet. Como se esperava, o som estava realmente mais limpo. N\u00e3o t\u00e3o limpo como \u201cNo Room to Live\u201d sugeria, contudo. O single \u00e9 a faixa mais polida do \u00e1lbum \u2014 que, afinal, n\u00e3o foi gravado com luxo em Los Angeles ou Nova York, mas no modesto Columbus Discount Recordings, na terra natal do Times New Viking. Habituado a jingles e locu\u00e7\u00f5es comerciais, o est\u00fadio fica a poucos minutos das casas dos integrantes, e conta com uma cole\u00e7\u00e3o subaproveitada de microfones e equipamentos antigos. O disco foi registrado analogicamente, respeitando uma das regras auto-impostas pelo trio; eles ainda s\u00e3o, sob qualquer par\u00e2metro, uma banda lo-fi. No fim das contas, est\u00e3o ainda t\u00e3o distantes dos padr\u00f5es do grande mercado quanto, em seus dias, as bandas cl\u00e1ssicas da Flying Nun.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Dancer Equired!&#8221; abre sem rodeios. Os vocais de Beth Murphy e Adam Elliott proclamam, logo no in\u00edcio: \u201cWe made it through the winter without noticing\u201d (\u201cN\u00f3s passamos pelo inverno sem perceber\u201d). O inverno passou, \u00e9 o que parece. \u201cHave no doubt, we will surely relate to what we are becoming\u201d (\u201cN\u00e3o tenha d\u00favida, n\u00f3s certamente nos relacionaremos com o que estamos nos tornando\u201d), eles acrescentam \u00e0 frente. \u201cIt\u2019s a Culture\u201d versa sobre a passagem do tempo e as mudan\u00e7as que surgem pelo caminho; a banda n\u00e3o finge que as coisas est\u00e3o como sempre foram. \u201cHave no doubt, we will surely find something worth exploring\u201d (\u201cN\u00e3o tenha d\u00favida, n\u00f3s certamente encontraremos algo que valha a pena explorar\u201d). Eles asseguram o ouvinte de que a mudan\u00e7a n\u00e3o desarma seu esp\u00edrito explorat\u00f3rio, ou seu senso de (palavra fora de moda nos dias atuais) rebeldia. \u201cHave no doubt, we will surely find something worth ignoring\u201d (\u201cN\u00e3o tenha d\u00favida, n\u00f3s certamente encontraremos algo que valha a pena ignorar\u201d).<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><object classid=\"clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000\" width=\"605\" height=\"400\" codebase=\"http:\/\/download.macromedia.com\/pub\/shockwave\/cabs\/flash\/swflash.cab#version=6,0,40,0\"><param name=\"src\" value=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/cUpYfmiTybk\" \/><embed type=\"application\/x-shockwave-flash\" width=\"605\" height=\"400\" src=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/cUpYfmiTybk\"><\/embed><\/object><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Percebe-se logo que, eliminando a pururuca shitgaze, v\u00eam \u00e0 tona refer\u00eancias pouco \u00f3bvias anteriormente nas grava\u00e7\u00f5es. Quem n\u00e3o os viu sobre o palco dificilmente teria notado o qu\u00e3o fr\u00e1gil o grupo na realidade \u00e9. A aus\u00eancia do baixo pela primeira vez chama aten\u00e7\u00e3o, e, dosando bem a distor\u00e7\u00e3o nas guitarras, \u201cIt\u2019s a Culture\u201d traz \u00e0 mente precursores do formato indie rock minimalista como Beat Happening, Pastels e Vaselines. Ao longo do \u00e1lbum, lembramos tamb\u00e9m de nomes mais obscuros \u2014 como o Butterglory, grupo lo-fi que nos anos 90 lan\u00e7ou seus tr\u00eas \u00e1lbuns pela Merge. E ainda veteranos de Ohio como Mike Rep, Don Howland, Ron House, Moviola e, claro, Guided By Voices.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cLimpar\u201d o som, abandonando o truque que em primeira inst\u00e2ncia gerou todo o interesse pela banda, serve tanto para ressaltar conex\u00f5es antes pouco percept\u00edveis e atrair novos f\u00e3s quanto para (diferentemente do que a maioria imaginou antes de ouvir o disco) expor as defici\u00eancias do grupo. A bateria \u00e9 simples ao extremo, muitas vezes desajeitada \u2014 bem como o teclado, que varia entre o irretoc\u00e1vel e o sup\u00e9rfluo. Nem a tecladista nem (principalmente) o baterista s\u00e3o ex\u00edmios cantores. Aqui, eles experimentam mais do que no passado com suas vozes; \u201cEver Falling in Love\u201d traz os dois simultaneamente em linhas e letras diferentes. \u00c9 quando eles cantam em un\u00edssono, por\u00e9m, que a m\u00e1gica acontece. A propulsiva \u201cTry Harder\u201d traz essa terceira persona, delineando a melodia com determina\u00e7\u00e3o: um ser hermafrodita, maior do que as partes que o comp\u00f5em, maior do que Beth ou Adam quando dobram seus pr\u00f3prios vocais (truque usado algumas vezes ao longo do disco). \u00c9 o Times New Viking em sua plenitude.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E temos a guitarra. O canhoto Jared Phillips se abst\u00e9m de cantar, para preencher os espa\u00e7os certos com suas frases t\u00e3o simples, tortas e idiotas quanto bem tocadas e inventivas; mal se nota que raramente h\u00e1 mais do que tr\u00eas acordes. A maioria das m\u00fasicas conta com overdubs de guitarra \u2014 recurso que j\u00e1 existia nos outros discos, mas aqui fica mais claro e funciona para criar os melhores arranjos da discografia da banda. Arranjos n\u00e3o s\u00e3o uma grande preocupa\u00e7\u00e3o quando se est\u00e1 mergulhado em barulho, enfim. Agora que as prioridades mudaram, h\u00e1 erros e acertos no caminho. O trio trabalha justamente nesse limiar, entre corre\u00e7\u00e3o e falha; \u00e9 a\u00ed que eles subitamente crescem para al\u00e9m da fragilidade aparente da forma\u00e7\u00e3o, da inaptid\u00e3o, de toda a tosqueira que os circunda. Assim como no Pavement, mas aqui de uma forma bastante pessoal, h\u00e1 sempre uma instigante interroga\u00e7\u00e3o por perto; a m\u00fasica do Times New Viking nunca \u00e9 completa, perfeita, totalmente fechada, ainda que se aproxime cada vez mais disso. Analisando a trajet\u00f3ria do grupo de Stephen Malkmus, temos uma pista do que essa aproxima\u00e7\u00e3o pode significar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Dancer Equired!&#8221; \u00e9 breve. Sua meia hora \u00e9 suficiente para 14 faixas, seguindo a m\u00e9dia dos quatro discos anteriores. Se sobrevivesse, em sete anos uma banda comum teria lan\u00e7ado dois, tr\u00eas trabalhos; o Times New Viking tem cinco \u00e1lbuns e, de brinde, uma cole\u00e7\u00e3o de EPs, singles, participa\u00e7\u00f5es em colet\u00e2neas etc. Mais de 80 faixas, numa conta r\u00e1pida. Pensando na enorme quantidade de grupos que come\u00e7aram junto com eles, no meio da d\u00e9cada passada \u2014 seja no furor dan\u00e7ante p\u00f3s-Strokes ou mesmo nadando contra a corrente \u2014, e se dissolveram com o tempo, a letra de \u201cNo Room to Live\u201d se distancia da cr\u00f4nica de relacionamento e adquire um sentido quase direto. \u201cI\u2019m awake and you are tired \/ they were smoke and we were fire\u201d (\u201cEu estou desperto e voc\u00ea est\u00e1 cansado \/ eles eram fuma\u00e7a e n\u00f3s \u00e9ramos fogo\u201d). A can\u00e7\u00e3o gira em torno de uma inquieta\u00e7\u00e3o, uma insatisfa\u00e7\u00e3o com o local onde se vive. Por um lado, o trio reside ainda hoje em Columbus e n\u00e3o tem planos de se mudar (a pr\u00e9-venda do \u00e1lbum oferecia uma tatuagem tempor\u00e1ria com o contorno do estado de Ohio preenchido pela sigla TNV). Por outro, eles est\u00e3o chegando \u00e0 terceira gravadora em menos de dez anos, e pela primeira vez arriscando uma reforma substancial em sua sonoridade.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><object classid=\"clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000\" width=\"605\" height=\"400\" codebase=\"http:\/\/download.macromedia.com\/pub\/shockwave\/cabs\/flash\/swflash.cab#version=6,0,40,0\"><param name=\"src\" value=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/fsslWKfsiO4\" \/><embed type=\"application\/x-shockwave-flash\" width=\"605\" height=\"400\" src=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/fsslWKfsiO4\"><\/embed><\/object><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1, ainda, mais uma conseq\u00fc\u00eancia importante da purifica\u00e7\u00e3o do som do Times New Viking: as letras se fazem presentes. Beth, Jared e Adam parecem particularmente aliviados e entusiasmados com a possibilidade de ser compreendidos sem aux\u00edlio do encarte \u2014 eles devem ter consci\u00eancia de que boa parte de sua audi\u00eancia n\u00e3o possui c\u00f3pias f\u00edsicas dos \u00e1lbuns. \u201cWant To Exist\u201d \u00e9 uma declara\u00e7\u00e3o bastante direta sobre a vontade de existir, ser reconhecido, ainda que fora dos padr\u00f5es, seguindo regras pr\u00f3prias. De \u201cIt\u2019s a Culture\u201d a \u201cTry Harder\u201d, de \u201cNo Room to Live\u201d \u00e0 rude \u201cFuck Her Tears\u201d (em que Beth encarna uma front-girl com seguran\u00e7a impressionante), abundam gritos de guerra. O grupo tece frases simples, bem constru\u00eddas, f\u00e1ceis de transpor para diversas situa\u00e7\u00f5es. Da mesma forma que o Quasi moldou a partir de aforismos suas melhores can\u00e7\u00f5es, o Times New Viking \u00e9 uma banda de slogans.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Do Guided by Voices, eles herdam o gosto por desconstru\u00e7\u00f5es, jogos de palavras, nonsense (o pr\u00f3prio nome da banda \u00e9 um trocadilho infeliz, caso voc\u00ea n\u00e3o tenha notado). Por mais que os grupos sejam ambos extremamente prol\u00edficos, o TNV \u2014 diferente do GBV \u2014 n\u00e3o perde tempo com elabora\u00e7\u00f5es excessivas; h\u00e1 um imediatismo quase atropelado em seu encadeamento de id\u00e9ias. Eles n\u00e3o escrevem e-mails, muito menos cartas. Ao contr\u00e1rio do que sugere o visual de suas capas e sua defesa veemente dos formatos anal\u00f3gicos, o trio est\u00e1 muito mais ligado \u00e0 linguagem do SMS e da Web 2.0 do que \u00e0 dos fanzines. Eliminam o contrabaixo e as pe\u00e7as menos essenciais da bateria como quem ignora as letras mai\u00fasculas \u2014 e talvez uma ou outra regra de pontua\u00e7\u00e3o \u2014 ao escrever na internet. Para qu\u00ea complicar, rebuscar, fazer mais do que o necess\u00e1rio, quando seus interlocutores-amigos entender\u00e3o de qualquer forma? A maior parte do conte\u00fado est\u00e1 nas conex\u00f5es que se apontam, nas palavras-chave, na s\u00edntese de conhecimentos pr\u00e9vios. O Times New Viking n\u00e3o fala para um p\u00fablico indeterminado; dispensam-se notas de rodap\u00e9.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Parece evidente que, desse jeito, eles jamais ter\u00e3o o alcance que t\u00eam (cada qual com seu pr\u00f3prio conjunto de refer\u00eancias) o Wavves ou as Vivian Girls. \u00c9 contra os princ\u00edpios e os interesses da banda explicar a piada, e isso os torna, naturalmente, incompreendidos por muitos. Mas, com todas as novas tecnologias, s\u00e3o tempos de piadas internas ganhando asas \u2014 memes, virais e suas surpreendentes muta\u00e7\u00f5es gen\u00e9ticas. A pen\u00faltima m\u00fasica de Dancer Equired!, \u201cSomebody\u2019s Slave\u201d, lembra: \u201cEvery now and then something important gets done\u201d (\u201cVolta e meia, algo importante \u00e9 realizado\u201d).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No dia 10 de maio, o novo disco do Psychedelic Horseshit saiu pela gravadora inglesa FatCat, casa de algumas das bandas pop experimentais mais respeitadas do mundo \u2014 como Sigur R\u00f3s, Animal Collective, Panda Bear e M\u00fam. Transpirando paran\u00f3ia, Laced \u00e9 uma colagem de sons eletr\u00f4nicos registrados em garagens, por\u00f5es, banheiros e outros lugares impr\u00f3prios em Columbus ao longo de 2010. Dificilmente pode ser considerado mais acess\u00edvel do que os trabalhos pr\u00e9vios do grupo (uma dupla, em sua forma\u00e7\u00e3o atual). Beth Murphy canta em \u201cDead On Arrival\u201d, contrapondo-se docemente \u00e0 voz anasalada e agressiva de Matt Whitehurst, que domina as demais faixas. Quando, para atrair aten\u00e7\u00e3o, uma banda deveria obrigatoriamente ter elementos eletr\u00f4nicos ou ser ao menos dan\u00e7ante, o Horseshit lan\u00e7ou algumas das grava\u00e7\u00f5es mais ostensivamente org\u00e2nicas e desconjuntadas j\u00e1 feitas. Agora, no in\u00edcio de uma d\u00e9cada em que as guitarras aos poucos voltam a ficar sujas, o PH lan\u00e7a um \u00e1lbum estranhamente dan\u00e7ante e eletr\u00f4nico. Os planos atuais de Whitehurst s\u00e3o aproveitar as possibilidades da nova casa e viajar o mundo tocando. A primavera \u00e9 ainda mais doce para quem nem mesmo sabia estar no inverno.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-8707 aligncenter\" title=\"times\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/06\/times.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"604\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/06\/times.jpg 600w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/06\/times-150x150.jpg 150w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/06\/times-298x300.jpg 298w\" sizes=\"(max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/p>\n<p>*******<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Andr\u00e9 Medeiros (<a href=\"http:\/\/twitter.com\/#!\/andre_medeiros\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">@andre_medeiros<\/a>) assina o blog <a href=\"http:\/\/lastsplash.wordpress.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Last Splash<\/a>, \u00e9 guitarrista e vocalista da banda <a href=\"http:\/\/www.pugrecords.com\/top-surprise\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Top Surprise<\/a> e um dos capos do selo independente mineiro <a href=\"http:\/\/www.pugrecords.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Pug Records<\/a> (<a href=\"http:\/\/twitter.com\/#!\/pugrecords\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">@pugrecords<\/a>)<\/p>\n<p><strong>Leia tamb\u00e9m:<\/strong><br \/>\n&#8211; \u201cThe Suburbs\u201d, a guerra suburbona de Win Butler em Houston, por Marcelo Costa (<a href=\"..\/2010\/10\/25\/musica-the-suburbs-arcade-fire\/\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; Arcade Fire ao vivo em Chicago, um dos melhores shows de rock da atualidade (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2011\/04\/27\/arcade-fire-ao-vivo-em-chicago\/\">aqui<\/a>)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"por Andr\u00e9 Medeiros\n\u201cDancer Equired!\u201d \u00e9 breve. Sua meia hora \u00e9 suficiente para 14 faixas, seguindo a m\u00e9dia dos discos anteriores do Times New Viking\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2011\/06\/12\/dancer-equired-e-a-morte-do-lo-fi\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[3],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8705"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=8705"}],"version-history":[{"count":12,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8705\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":73664,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8705\/revisions\/73664"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=8705"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=8705"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=8705"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}