{"id":86613,"date":"2025-01-22T01:24:58","date_gmt":"2025-01-22T04:24:58","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=86613"},"modified":"2025-03-18T10:41:04","modified_gmt":"2025-03-18T13:41:04","slug":"cinema-luiz-melodia-no-coracao-do-brasil-apresenta-um-personagem-inesgotavel","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2025\/01\/22\/cinema-luiz-melodia-no-coracao-do-brasil-apresenta-um-personagem-inesgotavel\/","title":{"rendered":"Cinema: Guiado por um rico acervo, &#8220;Luiz Melodia &#8211; No Cora\u00e7\u00e3o do Brasil&#8221; apresenta um personagem inesgot\u00e1vel"},"content":{"rendered":"<h2><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-86615\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/melodia2.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"563\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/melodia2.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/melodia2-300x225.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/h2>\n<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>texto de\u00a0<a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/leandro_luz\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Leandro Luz<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Luiz Carlos dos Santos nasceu no dia 7 de janeiro de 1951. Casou-se com Jane Reis, mulher com quem dividiu toda uma vida &#8211; e teve um filho, Mahal Reis &#8211; at\u00e9 o seu falecimento, aos 66 anos, em decorr\u00eancia de complica\u00e7\u00f5es de um c\u00e2ncer que ataca a medula \u00f3ssea. As informa\u00e7\u00f5es biogr\u00e1ficas mais \u00f3bvias, que podem ser encontradas facilmente em qualquer buscador online, n\u00e3o s\u00e3o de franco interesse da diretora Alessandra Dorgan, nem de Patr\u00edcia Palumbo e Joaquim Castro, roteiristas que trabalharam com ela na feitura de \u201cLuiz Melodia &#8211; No Cora\u00e7\u00e3o do Brasil\u201d (2024). O document\u00e1rio, entretanto, se interessa mesmo \u00e9 pela imagem do artista, pelo brilho que emana de seus poros e de sua voz incans\u00e1vel. Devota-se a tentar compreender e reverenciar a for\u00e7a inesgot\u00e1vel de Luiz Melodia, o que por si s\u00f3 j\u00e1 \u00e9 um excelente ponto de partida para um filme.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Durante pelo menos uma d\u00e9cada, sediado no morro de S\u00e3o Carlos, no Est\u00e1cio, onde nasceu, Luiz Melodia correu atr\u00e1s do sonho de viver de m\u00fasica sem muito sucesso. Quando estava prestes a desistir, Wally Salom\u00e3o e Torquato Neto entram em cena e provocam uma revolu\u00e7\u00e3o em sua vida. O ano \u00e9 1970, tropic\u00e1lia e ditadura, um jovem m\u00fasico preto e pobre circula pela pra\u00e7a. \u00c9 justamente a partir do encontro de Melodia com o universo al\u00e9m-muros do Est\u00e1cio &#8211; e, portanto, al\u00e9m do samba e de todas as suas significantes &#8211; que ele ir\u00e1 se libertar de uma certa ideia de cria\u00e7\u00e3o art\u00edstica e se colocar\u00e1 pela primeira vez diante do abismo, a\u00e7\u00e3o que ele repetir\u00e1 algumas vezes mais ao longo de sua carreira, impulsionada por uma esp\u00e9cie de incompreens\u00e3o por parte da m\u00eddia e do establishment diante de um trabalho movido a base do risco.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Guiado por um rico acervo sonoro, fotogr\u00e1fico e audiovisual em torno do artista e, compreens\u00edvel e inesperadamente, da cidade do Rio de Janeiro, \u201cLuiz Melodia &#8211; No Cora\u00e7\u00e3o do Brasil\u201d prop\u00f5e um mergulho profundo em paisagens, ruas e palcos ao longo de v\u00e1rias d\u00e9cadas nas quais Melodia foi adorado, ovacionado, incompreendido, preterido, esquecido, recuperado e redimido. A narrativa parte, claro, de \u201cP\u00e9rola Negra\u201d (1973), seu primeiro disco lan\u00e7ado e at\u00e9 hoje o mais lembrado e cultuado de sua trajet\u00f3ria profissional, passando pela dificuldade na manuten\u00e7\u00e3o de uma carreira intermitente em virtude, sobretudo, da caretice das gravadoras, at\u00e9 chegar \u00e0s suas turn\u00eas de grande sucesso a partir do final dos anos 1990, bem representadas pelos discos \u201cAc\u00fastico Ao Vivo\u201d (1999) e \u201cLuiz Melodia Convida Ao Vivo\u201d (2002).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um dos principais temas abordados pelo document\u00e1rio \u00e9 o do g\u00eanio inquieto e incompreendido. No in\u00edcio dos anos 1970, ap\u00f3s sair do Est\u00e1cio para viver na companhia dos tropicalistas na zona sul do Rio de Janeiro, ter suas m\u00fasicas imortalizadas nas vozes de Gal Costa e Maria Beth\u00e2nia e colocar no mundo o imenso \u201cP\u00e9rola Negra\u201d, Melodia se viu mais uma vez em um beco sem sa\u00edda. Pressionado pela gravadora a fazer \u201coutro\u201d disco de samba (como se a obra-prima de 1973 se limitasse ao g\u00eanero), Melodia recusa imediatamente e acaba levando tr\u00eas anos para lan\u00e7ar um segundo trabalho, \u201cMaravilhas Contempor\u00e2neas\u201d (1976), n\u00e3o mais na Philips, agora na Som Livre. Este impasse \u00e9 tratado com muito zelo por Alessandra Dorgan e seu montador, Joaquim Castro, que ressaltam, por meio da sele\u00e7\u00e3o das imagens de arquivo e da articula\u00e7\u00e3o de montagem, inclusive o racismo sofrido por Melodia. \u201cPor que um artista negro, oriundo da favela, s\u00f3 poderia fazer sucesso com um disco de samba?\u201d, se perguntava o pr\u00f3prio artista, colocando abertamente a quest\u00e3o em pauta por meio de coment\u00e1rios na m\u00eddia, que insistia &#8211; ainda que subliminarmente, alguns poderiam defender &#8211; em coloc\u00e1-lo no campo minado da marginalidade.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-86616\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/melodia3.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/melodia3.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/melodia3-300x176.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Maldito \u00e0 revelia, como geralmente acontece, Melodia (cujo sobrenome art\u00edstico, o filme nos conta, vem do pai, que tamb\u00e9m era m\u00fasico) acaba trilhando um caminho tortuoso e precisou adotar uma postura ferina diante da vida, coisa que as in\u00fameras entrevistas reproduzidas no document\u00e1rio d\u00e3o conta de mostrar. A insatisfa\u00e7\u00e3o do artista com a incompreens\u00e3o de seu trabalho o colocou em sintonia justamente com um dos cantores e compositores brasileiros que mais sofreram pelo exato mesmo motivo: S\u00e9rgio Sampaio, nascido em Cachoeiro de Itapemirim, no Esp\u00edrito Santo e respons\u00e1vel por uma carreira de poucos, mas grandiosos discos &#8211; incluindo, claro, \u201cEu Quero \u00c9 Botar Meu Bloco na Rua\u201d, lan\u00e7ado no mesmo ano do \u201cP\u00e9rola\u201d. A amizade entre Melodia e Sampaio, no entanto, \u00e9 retratada com brevidade pelo document\u00e1rio, e talvez tenha recebido pouco tempo de tela pela falta de material que apontasse nesse sentido. Outra pessoa importante na vida de Melodia foi Renato Piau, guitarrista espantoso que tocou inclusive no &#8220;Bloco\u201d de Sampaio, sem contar na sua parceria com Tim Maia. Piau \u00e9 daqueles instrumentistas que unem t\u00e9cnica e cora\u00e7\u00e3o como poucos, algo que pode ser averiguado tanto nos discos em que participou quanto nos registros ao vivo abundantemente presentes no filme.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ali\u00e1s, aproveitando a conversa entre amigos, uma pausa no texto para um poema: Perinho Albuquerque, Arthur Verocai, Dominguinhos, Luiz Alves, Robertinho Silva, Hyldon, Rildo Hora, Oberdan Magalh\u00e3es, Chico Batera, Severino Ara\u00fajo, Jo\u00e3o Donato, Marcio Montarroyos, Elza Soares, Itamar Assump\u00e7\u00e3o; todos esses nomes, ao lado de Renato Piau e alguns outros, foram colaboradores de Luiz Melodia ao longo de sua carreira, seja na grava\u00e7\u00e3o dos seus discos, seja nas apresenta\u00e7\u00f5es ao vivo. Como canta Sampaio em \u201cDoce Melodia\u201d, can\u00e7\u00e3o-homenagem presente no \u00e1lbum \u201cSinceramente\u201d (1982), \u201cQuem pode, pode, quem tem medo chupa cana \/ Quem n\u00e3o tem, come banana \/ Que o sutil do Melodia j\u00e1 pintou \/ Dizendo tudo que o malandro n\u00e3o se espanta&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Capricorniano nato, Melodia conduziu a sua vida profissional com uma seguran\u00e7a e uma integridade raras, principalmente se levarmos em considera\u00e7\u00e3o as tantas adversidades pelo caminho. Dorgan abre o document\u00e1rio com o seu personagem se apresentando ao vivo, ilumina\u00e7\u00e3o baixa, uma silhueta magra flutuando pelo palco, os cabelos negros compridos e tran\u00e7ados. Ele fala diretamente com o p\u00fablico presente no show. Logo, na maneira inteligente como a cena \u00e9 montada e apresentada, se direciona tamb\u00e9m a n\u00f3s, espectadores do filme. Melodia disserta a respeito da import\u00e2ncia da dan\u00e7a, de como ela \u00e9 fundamental para que uma pessoa possa alcan\u00e7ar a liberdade. Um discurso agudo e mordaz que se dirigia ao pensamento retr\u00f3grado de muitos \u00e0 \u00e9poca. Nesse \u00ednterim, Melodia dan\u00e7a. E o filme tamb\u00e9m. Ao final do document\u00e1rio, Dorgan retorna ao mesmo assunto, espelhando o seu in\u00edcio, e revela um homem &#8211; desta vez mais velho, ancorado em outro contexto pol\u00edtico de pa\u00eds (e de vida) &#8211; reflexivo, meditando sobre o pr\u00f3prio ato de dan\u00e7ar, sobre como em sua fam\u00edlia h\u00e1 a presen\u00e7a inusitada de muitos bailarinos, como ele sempre gostou de se comportar como um showman nos palcos. Uma passagem brilhante que d\u00e1 conta de reverberar a imagina\u00e7\u00e3o de um grande artista.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cSou um morto que viveu \/ Corpo humano que venceu\u201d. Em \u201cLuiz Melodia &#8211; No Cora\u00e7\u00e3o do Brasil\u201d, nos deparamos com um personagem inesgot\u00e1vel, retratado mediante uma opera\u00e7\u00e3o acertada de deixar que a sua pr\u00f3pria voz fale por si s\u00f3. N\u00e3o temos aqui entrevistas caretas com dinossauros &#8211; no bom e no mal sentido da palavra &#8211; da m\u00fasica brasileira. Os causos e os eventos s\u00e3o contados pelo pr\u00f3prio artista a partir de um arquivo rico, recortado para fazer sentido ora de maneira cronol\u00f3gica, ora mexidos na linha temporal para que determinadas hist\u00f3rias e recortes sejam valorizados. Nessa bel\u00edssima colcha de retalhos escancaram-se algumas limita\u00e7\u00f5es do document\u00e1rio que, ironicamente, tornam a narrativa poss\u00edvel, palp\u00e1vel. Para compreender, basta que vejamos e ou\u00e7amos atentamente.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Luiz Melodia - No Cora\u00e7\u00e3o do Brasil | trailer oficial | estreia em 16 de janeiro\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/lFnYZNilrlU?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u2013 Leandro Luz (<a href=\"https:\/\/twitter.com\/leandro_luz\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">@leandro_luz<\/a>) escreve e pesquisa sobre cinema desde 2010. Coordena os projetos de audiovisual do Sesc RJ desde 2019 e exerce atividades de cr\u00edtica nos podcasts\u00a0<a href=\"https:\/\/podcasters.spotify.com\/pod\/show\/plano-sequencia\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Plano-Sequ\u00eancia<\/a>\u00a0e\u00a0<a href=\"https:\/\/podcasters.spotify.com\/pod\/show\/plano-sequencia\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">1 disco, 1 filme.<\/a><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Capricorniano nato, Melodia conduziu a sua vida profissional com uma seguran\u00e7a e uma integridade raras, principalmente se levarmos em considera\u00e7\u00e3o as tantas adversidades pelo caminho.\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2025\/01\/22\/cinema-luiz-melodia-no-coracao-do-brasil-apresenta-um-personagem-inesgotavel\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":137,"featured_media":86617,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[4,3],"tags":[393],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/86613"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/137"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=86613"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/86613\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":86619,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/86613\/revisions\/86619"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/86617"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=86613"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=86613"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=86613"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}