{"id":86412,"date":"2025-01-10T11:28:18","date_gmt":"2025-01-10T14:28:18","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=86412"},"modified":"2025-02-06T10:47:52","modified_gmt":"2025-02-06T13:47:52","slug":"cinema-babygirl-apresenta-diversos-assuntos-importantes-com-exagerado-desequilibrio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2025\/01\/10\/cinema-babygirl-apresenta-diversos-assuntos-importantes-com-exagerado-desequilibrio\/","title":{"rendered":"Cinema: &#8220;Babygirl&#8221; apresenta diversos assuntos importantes com exagerado desequ\u00edlibrio"},"content":{"rendered":"<h2><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-86413\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/babygirl1.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"551\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/babygirl1.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/babygirl1-300x220.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/h2>\n<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>texto de\u00a0<a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/leandro_luz\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Leandro Luz<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se \u201cBabygirl\u201d (Halina Reijn, 2024) fosse uma obra madura, algo que rapidamente desconfiamos n\u00e3o ser o caso, poder\u00edamos testemunhar mais ou menos dois ou tr\u00eas caminhos poss\u00edveis para a sua trama. Romy (Nicole Kidman), CEO de uma empresa gen\u00e9rica que acaba de criar um novo produto sem import\u00e2ncia cuja mec\u00e2nica automatizada pouco se explora, vive uma vida de princesa com a sua fam\u00edlia at\u00e9 que conhece Samuel (Harris Dickinson), o novo estagi\u00e1rio que logo fareja os seus desejos reprimidos e prop\u00f5e um jogo er\u00f3tico e periculoso capaz de impact\u00e1-la para sempre. Diante do affaire iminente, a aventura que se vislumbra para a protagonista n\u00e3o \u00e9 marcada pelo sarcasmo, nem pelo pastiche e muito menos pelo risco. Romy \u00e9 uma personagem complexa, mas que a roteirista, diretora e produtora Halina Reijn pena at\u00e9 mesmo para arranhar a superf\u00edcie. O seu filme, ao contr\u00e1rio do que sugerem os promissores quinze minutos iniciais, mal consegue manter-se de p\u00e9 esgotada a curiosidade introdut\u00f3ria do tema central e n\u00e3o se decide pelo tom que ir\u00e1 nortear o restante de suas quase duas horas de dura\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Toda a campanha de marketing que circundou o longa-metragem desde o seu lan\u00e7amento no Festival de Veneza esteve focada no erotismo supostamente atrevido e na coragem demonstrada pela sua principal estrela para interpretar uma mulher com desejos sexuais que fugiriam \u00e0 norma social. O futuro do pret\u00e9rito utilizado para conjugar o verbo \u201cfugir\u201d cabe aqui porque h\u00e1 um abismo entre a maneira como \u00e9 vendido e como de fato as suas pe\u00e7as s\u00e3o conduzidas narrativamente &#8211; curiosamente, vale lembrar de como um dos trailers de \u201c50 Tons de Cinza\u201d (Sam Taylor-Johnson, 2015) apresentava uma voz sedutora que reiterava, na narra\u00e7\u00e3o, o fato de ser \u201crated r\u201d (ou seja, proibido para menores de 17 anos nos Estados Unidos), n\u00e3o como um aviso para os menores incautos e os pais zelosos, e sim como um chamariz para o lado \u201cpicante\u201d de sua abordagem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Leitores, n\u00e3o interpretem mal: n\u00e3o cabe, neste texto, uma compara\u00e7\u00e3o entre os dois filmes, sobretudo porque \u201cBabygirl\u201d passa longe da breguice manhosa das obras baseadas nos romances er\u00f3ticos de E. L. James. Muito pelo contr\u00e1rio, a produ\u00e7\u00e3o tem toda a pompa de um t\u00edpico exemplar da A24, distribuidora e produtora estadunidense que acumula sucesso atr\u00e1s de sucesso desde o seu surgimento no in\u00edcio da d\u00e9cada de 2010, e se leva t\u00e3o a s\u00e9rio que este, com efeito, acaba sendo o seu maior problema. Apesar de haver, sim, humor, sobretudo nas brincadeiras de sedu\u00e7\u00e3o entre Romy e Samuel, a diretora e sua equipe ainda assim carregam a sua narrativa com as m\u00e3os pesadas demais para que a proposta funcione.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-86415\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/nicole2.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/nicole2.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/nicole2-300x176.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De fato, fazendo jus ao pr\u00eamio de melhor atriz em Veneza, Nicole Kidman parece bem confort\u00e1vel no papel da executiva poderosa cujas fragilidades s\u00e3o expostas a partir da rela\u00e7\u00e3o que estabelece com um amante muito mais jovem. Como ela mesmo vem afirmando em entrevistas, n\u00e3o se trata de um papel arriscado, mas sim de uma grande oportunidade: aos 57 anos de idade, Kidman n\u00e3o se op\u00f5e a mostrar o seu corpo, e Reijn a filma com detalhes, de diversos \u00e2ngulos e com certa frequ\u00eancia em momentos de extrema intimidade &#8211; h\u00e1 o corpo nu, os seios, a bunda, mas h\u00e1 principalmente o rosto de Kidman em close, os seus inesquec\u00edveis olhos azuis, as rugas que sobrevivem \u00e0s interven\u00e7\u00f5es est\u00e9ticas; para a atriz, que j\u00e1 atuou em diversos filmes ditos \u201csexuais\u201d &#8211; sendo \u201cDe Olhos Bem Fechados\u201d (Stanley Kubrick, 1999) o mais not\u00f3rio deles -, trabalhar com Reijn foi diferente, pois, segundo ela, ambas podiam \u201ccompartilhar tudo uma com a outra\u201d. N\u00e3o neguemos o quanto essa experi\u00eancia pode ter sido enriquecedora para a atriz (e \u00e9 \u00f3timo ter mais mulheres produzindo obras desse tipo no mundo), entretanto, o que vemos em tela \u00e9 menos intrigante do que o discurso anuncia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A complexidade sugerida pela protagonista poderia ser digna de materiais do n\u00edvel de trabalhos de cineastas como Catherine Breillat e David Cronenberg, para ficar em dois exemplos relativamente distantes do \u201ccinem\u00e3o hollywoodiano\u201d de obras frequentemente citadas como \u201cAtra\u00e7\u00e3o Fatal\u201d (Adrian Lyne, 1987) e \u201cInstinto Selvagem\u201d (Paul Verhoeven, 1992), por exemplo. No entanto, a cineasta insiste em se manter presa nas discuss\u00f5es rasas acerca das dissid\u00eancias sexuais apresentadas e acaba por retratar de forma quase adolescente as aventuras de uma mulher rica com o seu estagi\u00e1rio. A maneira como o fot\u00f3grafo Jasper Wolf filma praticamente todas as cenas com a mesma profundidade de campo reduzida ou como o montador Matthew Hannam escolhe picotar as sequ\u00eancias com ansiedade aprisionam tudo no pr\u00f3prio registro paranoico da protagonista, ganhando em concentra\u00e7\u00e3o, mas deixando de lado quaisquer nuances que porventura poderiam ser articuladas pelo ritmo interno dos planos.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-86416\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/nicole3.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/nicole3.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/nicole3-300x176.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 comum nos deparamos, tanto na vida real quanto na fic\u00e7\u00e3o, com casos de homens que seduzem mulheres mais jovens e ing\u00eanuas no ambiente corporativo. A invers\u00e3o de pap\u00e9is \u00e9 interessante porque n\u00e3o \u00f3bvia, uma vez que Samuel \u00e9 quem parece estar no comando da situa\u00e7\u00e3o &#8211; Dickinson, ali\u00e1s, \u00e9 um ator cheio de carisma e faz um bom trabalho, mesmo com uma dist\u00e2ncia grande do talento de Kidman. Ainda assim, Reijn n\u00e3o consegue aproveitar desse descompasso para fazer de \u201cBabygirl\u201d um filme menos previs\u00edvel e superficial. A pr\u00f3pria onipresen\u00e7a distra\u00edda da personagem do marido, Jacob, interpretado por Antonio Banderas \u00e9 um exemplo n\u00edtido disso. Se, por um lado, \u00e9 fascinante termos um ator como o Banderas representando esse homem belo, maduro e viril incapaz de satisfazer sexualmente a sua mulher (a discuss\u00e3o \u00e9 menos sobre performance e mais sobre o quanto ambos est\u00e3o em total desconex\u00e3o quanto ao que cada um entende por tes\u00e3o), por outro a sua presen\u00e7a ilustre irrita em virtude do vazio da personagem. Para que pud\u00e9ssemos mergulhar no drama de Romy, t\u00e3o ligado \u00e0 maneira como ela lida com o sexo, o seu casamento de 19 anos deveria ser muito melhor trabalhado do que a frase \u201ceu nunca gozei com voc\u00ea\u201d permite resumir. A sequ\u00eancia de Jacob confrontando essa incompatibilidade, j\u00e1 no ter\u00e7o final da trama, \u00e9 t\u00e3o constrangedoramente filmada e atuada que faz de seu casting algo ainda mais incompreens\u00edvel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Voltando ao aspecto mais cr\u00edtico de \u201cBabygirl\u201d, a sua dificuldade em se decidir pela simplicidade das pol\u00eamicas que causa ou pela sisudez na qual retrata o sofrimento de Romy, uma compara\u00e7\u00e3o mais imediata poderia ser feita com \u201c<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2024\/09\/25\/cinema-evocando-o-body-horror-a-substancia-arrebata-esmiucando-a-pressao-social-pela-perfeicao\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">A Subst\u00e2ncia<\/a>\u201d (Coralie Fargeat, 2024), que apesar de n\u00e3o ser o trabalho mais profundo do mundo e de ter as suas doses de didatismo e de superficialidade, pelo menos parece ter a exata consci\u00eancia disso, optando, ao contr\u00e1rio do filme de Reijn, por um escalada cada vez mais bagaceira em busca da divers\u00e3o, do choque e do absurdo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esta \u00e9 a segunda parceria de Halina Reijn com a A24. Anteriormente, a diretora lan\u00e7ou \u201cMorte, morte, morte\u201d (2022), com Rachel \u201cShiva Baby\u201d Sennott no elenco, um thriller adolescente que tem a sua dose de interesse, ainda que t\u00e3o fr\u00edvolo quanto esta nova empreitada. A diferen\u00e7a entre os filmes, na verdade, \u00e9 que enquanto o anterior era protagonizado por jovens adultos e tinha a ambi\u00e7\u00e3o moderada de uma fita indie, \u201cBabygirl&#8221;, ao contr\u00e1rio, surge com outro tamanho, estrelado por dois grandes atores veteranos, cotado para o Oscar e propondo quest\u00f5es muito mais profundas. Apesar de trazer \u00e0 baila diversos assuntos importantes, sendo o principal deles uma bem-vinda contracorrente \u00e0 maneira como o prazer das mulheres costuma ser socialmente negado e interditado, h\u00e1 exagerado desequil\u00edbrio entre a rima de orgasmos &#8211; entre a trag\u00e9dia e a farsa &#8211; que abre e fecha a obra.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"BABYGIRL | Trailer Oficial Legendado\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/X6_gQkZDl5U?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u2013 Leandro Luz (<a href=\"https:\/\/twitter.com\/leandro_luz\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">@leandro_luz<\/a>) escreve e pesquisa sobre cinema desde 2010. Coordena os projetos de audiovisual do Sesc RJ desde 2019 e exerce atividades de cr\u00edtica nos podcasts\u00a0<a href=\"https:\/\/podcasters.spotify.com\/pod\/show\/plano-sequencia\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Plano-Sequ\u00eancia<\/a>\u00a0e\u00a0<a href=\"https:\/\/podcasters.spotify.com\/pod\/show\/plano-sequencia\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">1 disco, 1 filme.<\/a><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Se \u201cBabygirl\u201d (Halina Reijn, 2024) fosse uma obra madura, algo que rapidamente desconfiamos n\u00e3o ser o caso, poder\u00edamos testemunhar mais ou menos dois ou tr\u00eas caminhos poss\u00edveis para a sua trama.\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2025\/01\/10\/cinema-babygirl-apresenta-diversos-assuntos-importantes-com-exagerado-desequilibrio\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":137,"featured_media":86414,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[4],"tags":[7577,3465],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/86412"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/137"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=86412"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/86412\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":86418,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/86412\/revisions\/86418"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/86414"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=86412"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=86412"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=86412"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}