{"id":864,"date":"2009-03-04T11:48:44","date_gmt":"2009-03-04T14:48:44","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=864"},"modified":"2018-06-05T11:24:28","modified_gmt":"2018-06-05T14:24:28","slug":"amnesiac-a-vanguarda-do-rock","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2009\/03\/04\/amnesiac-a-vanguarda-do-rock\/","title":{"rendered":"&#8220;Amnesiac&#8221;, do Radiohead: a vanguarda do rock"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>por Marco Tomazzoni<\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">No in\u00edcio do s\u00e9culo, o Radiohead era aquele grupo que tinha esculpido um lugar na sant\u00edssima trindade do rock contempor\u00e2neo com o irrefut\u00e1vel &#8220;Ok Computer&#8221;. A soberania n\u00e3o fez com que o grupo pisasse no freio e, na virada da d\u00e9cada, o m\u00edtico ano 2000, apareceu &#8220;Kid A&#8221;, um disco que abria m\u00e3o das guitarras para investir em inquietude, experimento e dor, muita dor. A surpresa foi, apenas oito meses depois, &#8220;Amnesiac&#8221; ter sido lan\u00e7ado, irm\u00e3o em primeiro grau do \u00e1lbum anterior.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ambos foram gravados nas mesmas sess\u00f5es e separados ao nascimento. N\u00e3o s\u00e3o poucas as colet\u00e2neas encontradas na web em que f\u00e3s tentam achar qual seria a ordem correta das faixas se as grava\u00e7\u00f5es tivessem dado origem a um disco duplo. Apesar do parentesco inconteste, cada um tem sua personalidade. &#8220;Amnesiac&#8221; n\u00e3o se trata, como alguns simplistas possam pensar, de uma cole\u00e7\u00e3o posterior de lados B, pelo contr\u00e1rio: os \u00e1lbuns refletem prismas diferentes. Como disse Thom Yorke, &#8220;Kid A&#8221; v\u00ea fogo na floresta; em &#8220;Amnesiac&#8221;, se est\u00e1 na floresta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A filia\u00e7\u00e3o, no entanto, deixa evidente a tentativa de abandonar o rock tradicional, entre aspas, e abra\u00e7ar a vanguarda, onde n\u00e3o se tem fronteiras. Versos quebrados, filosofia e eletr\u00f4nica entram em cena para atirar ao alto a vontade de agradar as massas e agradar, sim, as massas cinzentas. O guitarrista Ed O&#8217;Brien j\u00e1 afirmou que o objetivo do quinteto era trabalhar como um coletivo, subverter o conceito de banda para investir em &#8220;sons&#8221;, por mais abstrato que isso possa parecer. O fato \u00e9 que eles chegaram a algo parecido, uma maturidade interna iniciada no experimentalismo de &#8220;Kid A&#8221;, em que melodias deram espa\u00e7o a texturas perturbadas, herm\u00e9ticas, complexas como harmonias de jazz e circulares como krautrock.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Amnesiac&#8221; abre com &#8220;Packt Like Sardines in a Crushd Tin Box&#8221;, que repercute na percuss\u00e3o met\u00e1lica a lata do t\u00edtulo. A melancolia, desespero e desilus\u00e3o caracter\u00edsticos da pena de Yorke temperam a letra. &#8220;Ap\u00f3s anos de espera, nada aconteceu&#8221;, ele canta, numa linha eletr\u00f4nica t\u00edpica do Aphex Twin, entremeada por distor\u00e7\u00f5es e ru\u00eddos clim\u00e1ticos, origin\u00e1rios de um territ\u00f3rio desconhecido.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na \u00e9poca, Thom Yorke declarou \u00e0 imprensa brit\u00e2nica que o \u00e1lbum transmite a sensa\u00e7\u00e3o de se &#8220;encontrar um velho ba\u00fa no s\u00f3t\u00e3o recheado com notas, mapas e descri\u00e7\u00f5es de um lugar de que voc\u00ea n\u00e3o consegue se lembrar&#8221;. Na contracapa, uma advert\u00eancia na mesma linha: &#8220;Guarde longe da luz direta, preferencialmente numa gaveta escura com seus segredos&#8221;.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/3M_Gg1xAHE4?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"autoplay; encrypted-media\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ecos disso des\u00e1guam na primeira faixa de &#8220;Amnesiac&#8221; e escorrem por todas as outras. &#8220;Pyramid Song&#8221;, a can\u00e7\u00e3o seguinte, trata pura e simplesmente de suic\u00eddio. O piano dita notas melanc\u00f3licas e carregadas de agonia, apenas tr\u00eas, para uma bateria no fundo, firme, acentuar o drama. &#8220;N\u00e3o havia nada para temer e nada para duvidar.&#8221; Com ajuda das orquestra\u00e7\u00f5es de Jonny Greenwood, tenta nos convencer do al\u00edvio da morte. M\u00fasica nada usual para ser escolhida como primeiro single, prova de que, apesar de ligado \u00e0 EMI, o Radiohead n\u00e3o tinha nada de submisso e segurava com garbo as r\u00e9deas da carreira.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Yorke chegou a falar que &#8220;Pyramid Song&#8221; era a melhor coisa que o Radiohead j\u00e1 tinha gravado. Hoje nem ele deve mais acreditar nisso: disse no calor da hora, talvez numa tentativa de autoafirma\u00e7\u00e3o ou valida\u00e7\u00e3o da experi\u00eancia do grupo. At\u00e9 porque o mesmo ar experimental e de efeitos distorcidos passeia por &#8220;Pull\/Pulk Revolving Doors&#8221;, liderada por uma batida eletr\u00f4nica envolvente como as portas da letra, armadilhas que se fecham para n\u00e3o abrir mais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A primeira grande gema reluz em &#8220;You and Whose Army?&#8221;. Um coro cantarolando no in\u00edcio d\u00e1 a entender que vem beleza, e s\u00f3 surge dor. Acompanhado por uma guitarra chorosa, Yorke debocha com voz cambaleante, de algu\u00e9m que j\u00e1 apanhou, a boca cheia de sangue, moral na sarjeta, mas seguro de que estar na pior n\u00e3o quer dizer porcaria nenhuma. &#8220;Pode vir se voc\u00ea acha que consegue encarar todos n\u00f3s&#8221;, desafia, em um recado direto, dizem, ao ent\u00e3o primeiro-ministro brit\u00e2nico, Tony Blair, e a seus companheiros do partido trabalhista.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As guitarras, cuja aus\u00eancia serve de muni\u00e7\u00e3o para a grande maioria dos detratores de &#8220;Kid A&#8221; e &#8220;Amnesiac&#8221;, d\u00e3o seu recado em &#8220;I Might Be Wrong&#8221;, tamb\u00e9m t\u00edtulo do \u00e1lbum ao vivo lan\u00e7ado pouco depois. Levemente dan\u00e7ante, a m\u00fasica d\u00e1 destaque para o baixo de Colin Greenwood e muda de clima rumo ao final, abrindo alas, veja s\u00f3, para um pequeno solo de O&#8217;Brien.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/2Lpw3yMCWro?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"autoplay; encrypted-media\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na sequ\u00eancia, vem a assombrante &#8220;Knives Out&#8221;. Sem experimenta\u00e7\u00f5es, segue uma linha de guitarra que se esgueira do in\u00edcio ao fim. A simplicidade, reza a lenda, fez com que ela levasse mais de um ano para ser conclu\u00edda, j\u00e1 que o grupo nunca parecia estar satisfeito com o resultado. A letra, um primor, \u00e9 aberta o suficiente para ser interpretada como canibalismo, como Yorke j\u00e1 comentou, ou como a perda de um ente querido. \u00c9 mais divertido, claro, imaginar que se trata de uma aventura canibal encerrada com o verso &#8220;coloque ele na panela&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Inclu\u00edda em &#8220;Kid A&#8221;, &#8220;The Morning Bell&#8221; ganhou uma regrava\u00e7\u00e3o diferente, e melhor. Saiu a bateria marcada de Phil Selway para entrar um xilofone, lindo, evocando um desespero angelical, seja l\u00e1 o que isso for. A instrumental &#8220;Hunting Bears&#8221; tamb\u00e9m supera &#8220;Treefingers&#8221;, do disco anterior. Sozinha, acompanhada apenas pelo vento (!) e por um sintetizador discreto, a guitarra de Jonny evoca um clima \u00e1rido t\u00edpico das trilhas sonoras de Ry Cooder.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se &#8220;Amnesiac&#8221; tem seus pontos altos, peca por n\u00e3o ter uma sequ\u00eancia deliberada \u2013 o conjunto de faixas \u00e9 menos coeso do que &#8220;Kid A&#8221; e \u00e9 agrupado de modo arbitr\u00e1rio, dizem at\u00e9 que de forma proposital, para provocar uma estranheza clara entre os dois discos. Especula\u00e7\u00f5es \u00e0 parte, \u00e9 not\u00f3rio que &#8220;Dollars &amp; Cents&#8221;, uma cr\u00edtica gen\u00e9rica de Yorke ao sistema financeiro, e &#8220;Spinning Plates&#8221;, quase inintelig\u00edvel ao brincar com sons ao contr\u00e1rio, seguem o mesmo esp\u00edrito do \u00e1lbum, mas t\u00eam menor quilate no conjunto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O mesmo n\u00e3o se pode dizer de &#8220;Life in a Glass House&#8221;. Gravada no final de 2000, em uma sess\u00e3o de est\u00fadio exclusiva, a m\u00fasica d\u00e1 um passo \u00e0 frente ao flerte com o jazz esbo\u00e7ado em &#8220;The National Anthem&#8221; e, grosso modo, \u00e9 justamente isso: o Radiohead tocando jazz. Na verdade, o cr\u00e9dito \u00e9 mais de Humphrey Lyttelton e sua banda \u2013 o saudoso trompetista, na \u00e9poca com 80 anos, \u00e9 apontado por Greenwood como o principal respons\u00e1vel pela faixa. Ao lado do clarinete, o trompete brilha no refr\u00e3o, em um dos principais destaques do \u00e1lbum. N\u00e3o \u00e9 a despedida sacra e redentora de &#8220;Motion Picture Soundtrack&#8221;, mas fornece a salva\u00e7\u00e3o do mesmo modo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Importa saber para onde pende a balan\u00e7a, se para &#8220;Kid A&#8221; ou &#8220;Amnesiac&#8221;? Nem um pouco. A competi\u00e7\u00e3o entre irm\u00e3os \u00e9 real (quem tem sabe como funciona) e, por mais que os pais digam o contr\u00e1rio, sempre h\u00e1 um preferido. H\u00e1 quem aposte no primog\u00eanito, outros v\u00e3o acabar ficando com o irm\u00e3o menor, tem gosto para tudo. Importa, sim, \u00e9 que juntos os dois \u00e1lbuns demarcam um dos alicerces do que \u00e9 o Radiohead hoje, p\u00f3s &#8220;Hail to the Thief&#8221; e o cheque-mate midi\u00e1tico de &#8220;In Rainbows&#8221;: a banda mais influente do rock mundial, uma mistura de guitarras, melodia e vanguarda. Parece definitivo, presun\u00e7oso demais, como as verdades sempre parecem.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/vOa--Dhu11M?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"autoplay; encrypted-media\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/ih2Ftq3hJoI?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"autoplay; encrypted-media\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/mLPE164XG6E?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"autoplay; encrypted-media\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">*******<br \/>\nMarco Tomazzoni \u00e9 jornalista do <a href=\"http:\/\/musica.ig.com.br\/\">iG M\u00fasica<\/a> e do <a href=\"http:\/\/ultimosegundo.ig.com.br\/cultura\/\">US Cultura<\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>O Scream &amp; Yell faz um retrospectiva da carreira da banda de Thom Yorke detalhando disco a disco a trajetoria de um dos poucos grupos que realmente importam no rock mundial. Semana que vem, \u201cHail To Thief\u201d.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Leia tamb\u00e9m:<\/strong><br \/>\n&#8211; \u201cPablo Honey\u201d, por Eduardo Palandi (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2009\/01\/20\/pablo-honey-obra-prima-do-radiohead\/\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; \u201cThe Bends\u201d, por Renata Honorato (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2009\/02\/04\/the-bends-o-melhor-do-radiohead\/\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; \u201cOk Computer\u201d, por Tiago Agostini (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2009\/02\/11\/ok-computer-um-disco-fundamental\/\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; \u201cKid A\u201d, por Lu\u00eds Henrique Pellanda (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2009\/02\/18\/kid-a-o-radiohead-no-topo-do-mundo\/\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; \u201cAmnesiac\u201d, por Marco Tomazzoni (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2009\/03\/04\/amnesiac-a-vanguarda-do-rock\/\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; \u201cHail To The Thief\u201d, por Marcelo Costa (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2009\/03\/09\/hail-to-the-thief-e-a-volta-das-guitarras\/\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; &#8220;In Rainbows&#8221;, por Alexandre Matias (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2009\/03\/17\/in-rainbows-o-album-da-decada\/\">aqui<\/a>)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"No in\u00edcio do s\u00e9culo, o Radiohead era aquele grupo que tinha esculpido um lugar na sant\u00edssima trindade do rock contempor\u00e2neo&#8230;\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2009\/03\/04\/amnesiac-a-vanguarda-do-rock\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":47826,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[3],"tags":[341],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/864"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=864"}],"version-history":[{"count":14,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/864\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":47828,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/864\/revisions\/47828"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/47826"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=864"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=864"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=864"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}