{"id":86140,"date":"2024-12-20T03:11:08","date_gmt":"2024-12-20T06:11:08","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=86140"},"modified":"2025-02-16T23:40:49","modified_gmt":"2025-02-17T02:40:49","slug":"nigeria-futebol-clube-o-afroexperimentalismo-turvo-que-quer-matar-o-rock","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2024\/12\/20\/nigeria-futebol-clube-o-afroexperimentalismo-turvo-que-quer-matar-o-rock\/","title":{"rendered":"Nig\u00e9ria Futebol Clube: afroexperimentalismo turvo que quer matar o rock"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>entrevista de <a href=\"https:\/\/twitter.com\/ociocretino\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Alexandre Lopes<\/a> e <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/amusicadofabio\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">F\u00e1bio Machado<\/a><br \/>\ntexto de abertura de <\/strong><strong><a href=\"https:\/\/twitter.com\/ociocretino\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Alexandre Lopes<\/a> <\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 imposs\u00edvel n\u00e3o esperar algo no m\u00ednimo intrigante ao se deparar com uma banda chamada <a href=\"https:\/\/linktr.ee\/nigeriafutebolclube\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Nig\u00e9ria Futebol Clube<\/a>. Formada h\u00e1 quase dois anos por Raphael &#8220;PH&#8221; Concei\u00e7\u00e3o (bateria e vocais), Rodrigo (guitarra e vocais) e Cau\u00e3 de Souza (baixo), todos jovens negros e perif\u00e9ricos na casa dos 20 anos, a banda j\u00e1 apresenta uma identidade forte e um som desafiador. Sua proposta audaciosa mistura punk, jazz e o caos do no wave, com o objetivo de n\u00e3o apenas questionar o rock independente brasileiro, mas tamb\u00e9m de reinvent\u00e1-lo radicalmente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas rock? A banda prefere se distanciar desse r\u00f3tulo. &#8220;Tem que acabar o rock, entendeu? Tem que deixar morrer, tem que ficar em paz&#8221;, descarta Raphael. Com uma vis\u00e3o cr\u00edtica sobre o que o g\u00eanero se tornou, ele v\u00ea o rock como uma etiqueta saturada, que foi sendo dilu\u00edda em uma s\u00e9rie de subg\u00eaneros e significados vazios. &#8220;O rock, como conceito, est\u00e1 ultrapassado. Ele foi apropriado, especialmente por brancos. O rock que importa \u00e9 o rock negro, mas ele foi roubado e destronado&#8221;, denuncia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas se a banda renega o rock, como explicar sua identifica\u00e7\u00e3o com subg\u00eaneros como o punk e a no wave, elementos que est\u00e3o contidos nesse universo? Pode parecer arrog\u00e2ncia e presun\u00e7\u00e3o t\u00edpicas da juventude, mas para os integrantes do NFC, a quest\u00e3o \u00e9 simples: o rock perdeu a for\u00e7a de subvers\u00e3o e transgress\u00e3o que teve em seus prim\u00f3rdios e a proposta deles \u00e9 resgatar uma m\u00fasica crua, energ\u00e9tica e intuitiva, com uma forte carga pol\u00edtica e social. Em suas palavras, a ideia \u00e9 &#8220;matar o rock&#8221; para abrir espa\u00e7o para algo mais aut\u00eantico e n\u00e3o elitista, que seja da periferia e que transite entre o ancestral e o futurista, inspirado no jazz experimental, no afrobeat e em outras formas de m\u00fasica negra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao tentar criar uma am\u00e1lgama disso tudo, a sonoridade do Nig\u00e9ria Futebol Clube pode soar ca\u00f3tica e imprevis\u00edvel, mas tamb\u00e9m carregada de intensidade crua. Seus sons s\u00e3o uma experi\u00eancia na qual improvisa\u00e7\u00e3o, microfonia, guitarras sujas e um baixo repetitivo se misturam com uma percuss\u00e3o fren\u00e9tica e vocais espont\u00e2neos. &#8220;A gente est\u00e1 em um momento mais punk, mas isso vai mudar. N\u00e3o sabemos onde vamos estar em dois anos&#8221;, afirma Rodrigo, com a despreocupa\u00e7\u00e3o de quem encara o futuro da banda com a mesma flexibilidade com que cria suas m\u00fasicas na base da improvisa\u00e7\u00e3o livre.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Embora o conceito de &#8220;rock&#8221; seja rejeitado, \u00e9 dif\u00edcil n\u00e3o associar o som da banda ao post-punk ferino que o PIL fazia em seus dois primeiros discos. Mas um amigo do trio encontrou um termo que sintetiza melhor a abordagem do grupo: \u201cAfroexperimentalismo Turvo\u201d. Nesse contexto, o &#8220;turvo&#8221; n\u00e3o seria apenas uma refer\u00eancia \u00e0 sujeira ou \u00e0 complexidade das m\u00fasicas, mas tamb\u00e9m \u00e0 vida nas periferias brasileiras, marcada por um jogo de contrastes, ambiguidades e resist\u00eancia negra. Uma met\u00e1fora para um som \u00e1spero e dif\u00edcil de digerir, mas que ao mesmo tempo reflete a est\u00e9tica de um estado de constante transforma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O nome do grupo tamb\u00e9m faz uma conex\u00e3o direta com as influ\u00eancias culturais e hist\u00f3ricas africanas, que s\u00e3o uma presen\u00e7a constante, embora n\u00e3o expl\u00edcita, na m\u00fasica do trio. A refer\u00eancia de artistas como John Coltrane, Miles Davis e Fela Kuti servem de combust\u00edvel para seus shows e composi\u00e7\u00f5es. Cau\u00e3 explica: &#8220;O nome &#8216;Nig\u00e9ria Futebol Clube&#8217; j\u00e1 tem esse v\u00ednculo com a cultura afrodescendente. A gente quer trazer essas influ\u00eancias, mas de uma maneira \u00fanica, que n\u00e3o seja uma c\u00f3pia.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esse clima de inquietude aparece em registros como a session gravada no Est\u00fadio Por\u00e3o Perus, \u00fanico registro oficial do trio at\u00e9 o momento e lan\u00e7ado no YouTube em agosto de 2024 (assista mais abaixo). Tr\u00eas faixas d\u00e3o um gostinho do que a banda pode fazer ao vivo: a primeira, &#8220;Lurdes&#8221;, em homenagem \u00e0 cachorrinha de Raphael, come\u00e7a com uma batida densa de samba, mas que logo toma outra dire\u00e7\u00e3o, mergulhando em uma viagem punk com ecos inusitados. &#8220;Preto M\u00eddia&#8221;, por sua vez, parece se apropriar de um riff do Minutemen para questionar as imagens reais na sociedade enquanto &#8220;Nerds x Punks&#8221; critica est\u00e9ticas do punk, trazendo uma vis\u00e3o sarc\u00e1stica sobre a figura do rebelde que define sua identidade por meio de roupas compradas na Galeria do Rock.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esse registro simples serve como um aperitivo para o que est\u00e1 por vir \u2013 a banda tem planos de lan\u00e7ar uma grava\u00e7\u00e3o mais completa ao vivo no pr\u00f3ximo ano. &#8220;A ideia \u00e9 lan\u00e7ar esse \u00e1lbum no Spotify, com as grava\u00e7\u00f5es feitas de forma mais crua, mas que capturem a energia do nosso show&#8221;, explica Rodrigo. &#8220;Mas l\u00e1 para o meio do ano que vem, a gente quer come\u00e7ar a trabalhar em um \u00e1lbum mais complexo, com v\u00e1rias camadas e elementos novos, al\u00e9m de n\u00f3s tr\u00eas tocando&#8221;, completa<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">At\u00e9 existem outros v\u00eddeos amadores registrando shows e algumas m\u00fasicas individualmente. Mas o som da Nig\u00e9ria Futebol Clube \u00e9 algo dif\u00edcil de capturar. Cau\u00e3 explica que o desafio est\u00e1 em transmitir a energia do show para o p\u00fablico, algo que muitas vezes se perde na grava\u00e7\u00e3o. &#8220;Gravar ao vivo \u00e9 muito dif\u00edcil, tanto pela qualidade do som quanto pela energia, que muitas vezes \u00e9 imposs\u00edvel de capturar em v\u00eddeo. Mas a session que a gente gravou serve mais como um convite para que as pessoas venham ver a gente ao vivo&#8221;, avalia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O show da banda tamb\u00e9m \u00e9 exatamente isso: uma mistura por vezes ca\u00f3tica, que n\u00e3o se limita a conven\u00e7\u00f5es, uma energia que contamina os m\u00fasicos e o p\u00fablico. \u201cCada show tem uma brisa diferente, tem algo de performance quase teatral. N\u00e3o tem muito planejamento, as coisas simplesmente acontecem\u201d, explica Raphael. \u201cEu acho que a Nig\u00e9ria tem esse caos, mas tamb\u00e9m traz um ar de arrebatamento. A gente se perde um pouco nesse mundo e o p\u00fablico acaba entrando nesse espa\u00e7o com a gente.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um dos exemplos dessa abordagem perform\u00e1tica inusitada p\u00f4de ser presenciada no Porta Maldita, casa underground no bairro de Pinheiros, em S\u00e2o Paulo, em meados de julho, quando Raphael introduziu \u201cLurdes\u201d com uma performance que parecia um live mix com samples repetitivos, mas na verdade ele estava fazendo tudo apenas com a pr\u00f3pria voz e microfone, como se fosse uma crian\u00e7a apresentando sua cachorrinha e se deixando levar por um del\u00edrio espont\u00e2neo. &#8220;A gente sempre busca transformar o show em algo que vai al\u00e9m da m\u00fasica&#8221;, ele diz, rindo. &#8220;A energia do p\u00fablico \u00e9 o que nos alimenta para essas loucuras.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se h\u00e1 algo que permeia as a\u00e7\u00f5es e o som do Nig\u00e9ria Futebol Clube \u00e9 a cr\u00edtica pol\u00edtica. Mas o engajamento da banda n\u00e3o se limita \u00e0s letras. &#8220;Desde o primeiro show a gente tenta passar uma mensagem pol\u00edtica&#8221;, conta Rodrigo. Em algumas apresenta\u00e7\u00f5es, o trio utiliza \u00e1udios de discursos do ativista Abdias Nascimento e do guerrilheiro Marighella, para fortalecer seu compromisso com uma vis\u00e3o socialista e revolucion\u00e1ria. Raphael vai al\u00e9m: &#8220;Acredito em uma sociedade socialista. N\u00e3o me importo com o nome que colocam nas coisas. S\u00f3 queria que a sociedade fosse mais justa. E o Nig\u00e9ria \u00e9 sobre agir, sobre fazer algo pol\u00edtico de fato.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por fim, a pol\u00edtica da cena tamb\u00e9m se reflete na maneira como o Nig\u00e9ria Futebol Clube v\u00ea o futuro das bandas independentes. &#8220;O que n\u00e3o falta \u00e9 show, o que n\u00e3o falta \u00e9 banda, \u00e9 muita gente&#8221;, diz Raphael. Para ele, a internet foi essencial para fazer conex\u00f5es, mas a verdadeira for\u00e7a vem das pessoas que fazem a cena acontecer pessoalmente. &#8220;A cena \u00e9 muito mais sobre a galera se ajudar e fazer coisas malucas. Se eu vejo algu\u00e9m diferente na rua em Itaqu\u00e1 [Itaquaquecetuba, cidade onde moram o baterista e o guitarrista] , eu vou l\u00e1 e falo: &#8216;E a\u00ed, tudo bem?&#8217;. E as pessoas t\u00eam que fazer isso, se conectar&#8221;, brinca.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;A cena est\u00e1 a\u00ed, e tem que ser mais conectada. Tem que se apoiar, ajudar as bandas novas a se encontrarem, a fazerem essas conex\u00f5es&#8221;, diz Cau\u00e3, lembrando que, apesar das dificuldades, a cena continua forte, especialmente em S\u00e3o Paulo. Cau\u00e3 complementa: &#8220;N\u00e3o d\u00e1 mais para ver a cena de maneira isolada. Cada banda tem que se enxergar como parte de um todo. Precisamos ser vistos como uma cena, uma cultura que continua existindo&#8221;. A ideia \u00e9 fugir do isolamento e entender que a uni\u00e3o das bandas \u00e9 decisiva para a sobreviv\u00eancia e fortalecimento de todo o movimento. O futuro pode ser incerto, mas para eles, a m\u00fasica sempre ser\u00e1 uma ferramenta de resist\u00eancia, cria\u00e7\u00e3o e liberdade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em uma longa conversa com o Scream &amp; Yell ap\u00f3s um show, Raphael, Rodrigo e Cau\u00e3 contaram sobre a banda, suas motiva\u00e7\u00f5es e (ins)pira\u00e7\u00f5es, em meio a piadas, uma infinidade de &#8220;salves\u201d ao longo da entrevista (que foram agrupados no final das perguntas para melhor entendimento do texto) e tamb\u00e9m deram a entender que esta pode ser a \u00fanica entrevista que o Nig\u00e9ria Futebol Clube dar\u00e1 na carreira. Ser\u00e1 mesmo? Confira o papo!<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"NIG\u00c9RIA FUTEBOL CLUBE - Ao Vivo no por\u00e3o perus\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/iNqKNnqsMIU?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Antes de qualquer coisa, gostaria que voc\u00eas se apresentassem&#8230;<\/strong><br \/>\nCau\u00e3: Eu sou Cau\u00e3 de Souza, baixista, venho l\u00e1 do ABC Paulista, Santo Andr\u00e9.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Raphael: Sou Raphael &#8220;PH&#8221; Concei\u00e7\u00e3o, Rafael da Silva Concei\u00e7\u00e3o [baterista e vocalista]. Sou de Itaquaquecetuba, moro na Vila Monte Belo. Lugarzinho bom de morar, \u00e9 isso!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Rodrigo: Eu sou Rodrigo, sou guitarrista, moro em Itaqu\u00e1 tamb\u00e9m, na Vila Gepina.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00eas ainda n\u00e3o tem um lan\u00e7amento 100% oficial. Qual a ideia? Voc\u00eas pretendem fazer algo para lan\u00e7ar de forma f\u00edsica ou em todas as plataformas?<\/strong><br \/>\nRodrigo: Ent\u00e3o, a ideia \u00e9 pegar essa session que est\u00e1 no YouTube (acima) e uma outra que a gente ainda vai gravar, juntar as duas em um \u00e1lbum pra lan\u00e7ar no spotify. Essa \u00e9 a ideia principal: lan\u00e7ar um \u00e1lbum gravado ao vivo e a\u00ed mais pra frente, l\u00e1 pro primeiro primeiro semestre do ano que vem, a gente come\u00e7a a trabalhar em um \u00e1lbum com v\u00e1rias camadas, outras coisas al\u00e9m de s\u00f3 n\u00f3s tr\u00eas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Antes de ver ao vivo, fui procurar sons da banda e achei alguns v\u00eddeos no YouTube com uma qualidade de \u00e1udio bem bruta e imagem meio estourada. Deu pra ver que tem coisas interessantes, mas ver ao vivo \u00e9 outra coisa; d\u00e1 para sentir melhor a energia de voc\u00eas. O que voc\u00eas t\u00eam a dizer sobre isso?<\/strong><br \/>\nCau\u00e3: Acho que muitas bandas j\u00e1 sofreram desse problema, n\u00e9? Tem certos sons que s\u00e3o um pouco dif\u00edceis de capturar. Talvez n\u00e3o o som em si, mas a energia que rola toda durante o show. Acho que a gente \u00e9 uma dessas bandas. Mesmo a session que a gente gravou, por mais que tenha ficado muito legal, n\u00e3o faz jus ao que eu diria que \u00e9 um show nosso. Serve mais como um convite, n\u00e9? Tudo que a gente grava, tanto em \u00e1udio como v\u00eddeo, e posta na internet, joga pro mundo, serve mais como um convite mesmo para as pessoas irem ver a gente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Rodrigo: Mas \u00e9 isso: acho que a gente fazer essas performances no show \u00e9 o ponto alto, \u00e9 o que faz as pessoas gostarem mesmo da banda. Se algu\u00e9m v\u00ea um v\u00eddeo no YouTube, n\u00e3o vai gostar tanto quanto se conhecer a banda no show. A grande maioria das pessoas que ouviu a gente pela primeira vez em show sem ter visto alguma coisa antes, chegou em mim e falou que se surpreendeu demais. Porque a gente sempre t\u00e1 correndo atr\u00e1s de fazer uma parada diferente, isso surpreende as pessoas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Raphael: eu vou fazer uns sons mais diferentes porque a gente \u00e9 muito diferente, uns sons mais Nig\u00e9ria Futebol Clube. (rindo)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Rodrigo: A experi\u00eancia Nig\u00e9ria Futebol Clube (risos)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Raphael: Mas \u00f3, a gente fez a grava\u00e7\u00e3o ao vivo porque a gente queria justamente pegar essa energia do ao vivo, mas gravado de um jeito bom. Mas realmente \u00e9 muito dif\u00edcil voc\u00ea conseguir gravar ao vivo por causa das limita\u00e7\u00f5es de equipamento, por\u00e9m nosso grandios\u00edssimo anjo e maestro do Jow Marques do Espa\u00e7o \u00c1urias e do Est\u00fadio Por\u00e3o Peruz nos ajudou nisso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Ele \u00e9 o <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2010\/07\/16\/entrevista-steve-albini\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Steve Albini<\/a> de voc\u00eas? (risos)<\/strong><br \/>\nCau\u00e3: De certa forma. Ele deu uma puta oportunidade pra gente, abrindo o espacinho l\u00e1 do est\u00fadio caseiro dele pra gente gravar essa session. E tamb\u00e9m ajudou na parte da mixagem, sem custos. A gente s\u00f3 tem a agradecer por essa ajuda.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Eu percebo que as m\u00fasicas tem uma vibe muito ao vivo mesmo. Elas saem de improviso? Como funciona o m\u00e9todo de composi\u00e7\u00e3o?<\/strong><br \/>\nRodrigo: Depende bastante da m\u00fasica, mas a maioria vem de improviso mesmo. Mais da metade das nossas m\u00fasicas veio do nosso primeiro ensaio, quando nos reunimos pela primeira vez e criamos v\u00e1rias m\u00fasicas assim, improvisando. Teve outras que fizemos parte por parte, mas a grande maioria \u00e9 improvisada mesmo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Cau\u00e3: Geralmente quando elas n\u00e3o vem diretamente de uma jam, vem de uma ideia que come\u00e7amos a fazer jam em cima e a\u00ed a gente vai depois colocando certos elementos estrat\u00e9gicos em cada m\u00fasica. Mas de uma maneira geral, elas vem mesmo da improvisa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<figure id=\"attachment_86237\" aria-describedby=\"caption-attachment-86237\" style=\"width: 750px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-86237\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/nigeria.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"669\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/nigeria.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/nigeria-300x268.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-86237\" class=\"wp-caption-text\"><em>Foto de <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/bruninhoaudiovisual\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Bruno Vasconcellos<\/a><\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O show de voc\u00eas \u00e9 meio ca\u00f3tico n\u00e9? Voc\u00eas gostam disso?<\/strong><br \/>\nRaphael: \u00c9 o que a gente gosta! (risos).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Rodrigo: \u00c9 o intuito principal. \u00c9 esse caos mesmo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Cau\u00e3: Eu acho que \u00e9 natural assim. Eu particularmente sinto como se virasse outra pessoa no palco, a\u00ed tudo sai naturalmente. Aquele caos da banda que acaba infectando o p\u00fablico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Quando vi o show de voc\u00eas no Porta Maldita, teve um lance que voc\u00ea fez ali no microfone durante &#8220;Lurdes\u201d\u2026 parecia que voc\u00ea estava fazendo um live mix com sample, umas repeti\u00e7\u00f5es e tal. Mas era apenas voc\u00ea fazendo tudo com voz no microfone. E na session no YouTube n\u00e3o tinha aquilo.<\/strong><br \/>\nRaphael: Na session n\u00e3o tem, a gente n\u00e3o chegou a fazer dessa forma. Fizemos de uma maneira chamando a Lurdes, n\u00e9. Tem que chamar &#8220;Lurdes, Lurdes&#8221; (risos). Tem que chamar ela (risos).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Lurdes \u00e9 o cachorro de algu\u00e9m da banda?<\/strong><br \/>\nRaphael: \u00c9 minha cachorra, mano. Tem a Fiona agora vindo com tudo tamb\u00e9m. Fioninha, a gente tem cachorros e a\u00ed a Lurdes ela \u00e9 min\u00fascula\u2026 a Lourdes ela parece o Cau\u00e3, mano (risos)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Rodrigo: a Lurdes \u00e9 o primeiro e \u00fanico pintcher calmo da hist\u00f3ria!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Raphael: Parece que voc\u00ea entra num mundinho Lurdes, t\u00e1 ligado? Mas nesse ao vivo da Porta Maldita a gente fez essa atua\u00e7\u00e3o a\u00ed por umas quest\u00f5es lun\u00e1ticas. Cada show tem uma brisa, parece que \u00e9 um esp\u00edrito diferente que vem te visitar assim\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Rodrigo: A verdade \u00e9 que ele n\u00e3o planejou, ele decidiu fazer na hora e saiu aquilo. E \u00e9 assim em todo show: a gente n\u00e3o planeja essas coisas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Raphael: Comentando brevemente, esse \u00e9 um barato que eu acho que ainda vai acontecer muito nos nossos shows, \u00e9 uma brisa meio perform\u00e1tica de voc\u00ea realmente entrar num outro mundo, como se voc\u00ea do nada estivesse conversando com uma crian\u00e7a. Naquele caso foi isso: uma crian\u00e7a que tem uma cachorra e vai apresent\u00e1-la e falar como essa cachorra \u00e9 linda. E a\u00ed voc\u00ea entra naquele mundo assim. Ao mesmo tempo que a Nig\u00e9ria Futebol Clube tem um caos como voc\u00ea falou, sinto que ela tamb\u00e9m traz um ar meio de arrebatamento, sabe? (risos) Sai arrebatadinho (risos).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E como foi que voc\u00eas se conheceram?<\/strong><br \/>\nRaphael: Eu tava na esta\u00e7\u00e3o de trem e vejo um cara com a camisa da Sophia Chablau e Uma Enorme Perda de Tempo. Est\u00e1vamos indo no show da banda e nesse dia a gente se conheceu, mais um pessoal da Desconhecido Juvenal, aconteceram muitas coisas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Rodrigo: Nesse dia mesmo a gente voltou trocando uma ideia no trem e acabou que uma ou duas semanas depois, encontrei o PH no trem duas ou tr\u00eas vezes na mesma semana. A\u00ed foi Deus assim colocando a gente pra trocar aquela ideia. A gente falou de tocar junto, teve um dia que fui na casa dele, tocamos e saiu &#8220;Lurdes&#8221;. A gente tocou mais uns improvisos que n\u00e3o chegaram a virar outras m\u00fasicas, mas depois disso criou toda uma discuss\u00e3o em volta do que seria o Nig\u00e9ria. A gente come\u00e7ou a pensar em todo esse neg\u00f3cio de ter mais coisas al\u00e9m da m\u00fasica. Sempre foi tipo uma ideia que a gente ficou conversando por muito tempo e a\u00ed em 2023 a gente se reuniu com o Cau\u00e3 para come\u00e7ar a tocar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Raphael: O Cau\u00e3 j\u00e1 era a pessoa que a gente pensava em chamar desde o in\u00edcio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Rodrigo: A gente poderia chamar algu\u00e9m ali da nossa regi\u00e3o [Itaquaquecetuba], mas o cara era uma pessoa que a gente sempre pensava porque ele ouvia umas coisas que mais ningu\u00e9m ouvia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Raphael: O Cau\u00e3 tamb\u00e9m tem toda uma est\u00e9tica que se encaixa com o nome Nig\u00e9ria Futebol Clube.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Cau\u00e3: Eu conheci os caras em 2023, atrav\u00e9s da <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/dartagnannaomoramaisaqui\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">D&#8217;Artagnan N\u00e3o Mora Mais Aqui<\/a>, que \u00e9 a outra banda do PH. E a\u00ed a gente passou a trocar umas ideias, via os stories uns dos outros, o que cada um andava escutando. A\u00ed num dos shows da D&#8217;Artagnan, a gente teve que virar a noite no centro de S\u00e3o Paulo e acabou conversando mais. Eles me falaram &#8220;p\u00f4, voc\u00ea n\u00e3o gostaria de ensaiar com a gente um dia?&#8221; e eu falei &#8220;p\u00f4, vamos&#8221;. E passou meses assim, at\u00e9 que a gente conseguiu finalmente se encontrar para ensaiar. E como o Rodrigo falou, daquele primeiro ensaio saiu a grande maioria das m\u00fasicas. Acho que a gente sentiu uma conex\u00e3o muito forte ali e come\u00e7amos a tocar, basicamente isso.<\/p>\n<figure id=\"attachment_86154\" aria-describedby=\"caption-attachment-86154\" style=\"width: 750px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-86154 size-full\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/nigeria3.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"750\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/nigeria3.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/nigeria3-300x300.jpg 300w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/nigeria3-150x150.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-86154\" class=\"wp-caption-text\"><em>Foto de @todos<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Quando vi voc\u00eas pela primeira vez no Porta Maldita e fui elogiar a apresenta\u00e7\u00e3o depois, falei que voc\u00eas eram a coisa mais rock que eu j\u00e1 tinha visto ali, mas voc\u00eas n\u00e3o gostaram muito, dizendo que voc\u00eas s\u00e3o mais jazz. O que voc\u00eas consideram como influ\u00eancias e o tipo de sonoridade que fazem?<\/strong><br \/>\nRaphael: Mano, eu acho que tem que acabar o rock, entendeu? T\u00f4 partindo desse pressuposto que tem que morrer o neg\u00f3cio de rock.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Rodrigo: O Nig\u00e9ria tem muitas influ\u00eancias, mas nenhuma delas \u00e9 somente rock.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Raphael: Tem forr\u00f3 (risos).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Eu reparei no show que voc\u00ea estava com uma camiseta do Stereolab.<\/strong><br \/>\nRodrigo: Eu sou fascinado por eles. \u00c9 minha maior influ\u00eancia para tudo. Mas eu acho que pro som do Nig\u00e9ria, a gente vai pra umas influ\u00eancias bem mais esquisitas, assim tipo No Wave, Free Jazz, essas coisas assim mesmo, bem Steve Albini das ideias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Nesse lance de trocar ideias e refer\u00eancias de som, voc\u00eas falam de alguma banda espec\u00edfica?<\/strong><br \/>\nCau\u00e3: Eu lembro claramente que nesse dia que eles me chamaram para tocar pela primeira vez, rolaram papos sobre <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2023\/12\/01\/primavera-sound-black-midi-vai-do-inferno-a-broadway-em-show-insano-e-divertido\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Black Midi<\/a>, talvez US Maple, que \u00e9 uma banda de uns esquisit\u00f5es do indie dos anos 90. Umas coisas assim meio math rock e mais experimentais tamb\u00e9m. Afrobeat obviamente, Fela Kuti e tal. Apesar de n\u00e3o ser um neg\u00f3cio claramente presente no nosso som, \u00e9 uma influ\u00eancia grande. Que at\u00e9 j\u00e1 come\u00e7a pelo nome Nig\u00e9ria Futebol Clube. E cada um vai trazendo as suas refer\u00eancias pr\u00f3prias e a gente vai misturando para tentar deixar com a cara do Nig\u00e9ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Raphael: Assim a gente est\u00e1 denunciando o nosso plano, mano. \u00c0s vezes ia ser interessante se essa fosse literalmente nossa \u00fanica entrevista de todas. Ent\u00e3o j\u00e1 que vai ser a \u00fanica\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Cau\u00e3: Eu acho que a gente ainda vai conversar bastante sobre isso\u2026 [apaziguando]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Raphael: N\u00e3o, vamos conversar sim, vamos conversar. Mas por um bom tempo. Sei l\u00e1, talvez a entrevista mais\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Rodrigo: Vai ser a \u00fanica pelo menos nos pr\u00f3ximos 30 anos (risos)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Raphael: \u00c9, por a\u00ed! Uns 30 aninhos depois a gente conversa! Enfim, na verdade o Nig\u00e9ria \u00e9 um experimento, n\u00e3o \u00e9 uma banda. \u00c9 \u00f3bvio que \u00e9 uma banda, um power trio, mas n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 isso. Inclusive no dia do A Porta Maldita a gente colocou o Linguini pra tocar com a gente, colocamos Jos\u00e9 para tocar tamb\u00e9m. Mas assim, eu acho que essa coisa do jazz est\u00e1 justamente na parte que \u00e9 quando a gente se despreocupa do som que a gente est\u00e1 fazendo, mas se preocupa com a vibra\u00e7\u00e3o dele. No geral, nossos sons s\u00e3o muito simples. E como eu tamb\u00e9m canto, \u00e9 uma coisa dif\u00edcil de fazer. Mas a gente est\u00e1 aprendendo, quer fazer muitas coisas, muitos tipos de som. Na experi\u00eancia atual que a gente se prop\u00f5e a fazer, nessa roupagem, eu acho que ela tem uma vibe de &#8220;n\u00e3o lugar&#8221;. Como se fosse &#8220;uma coisa que n\u00e3o \u00e9 uma coisa&#8221;. Como se n\u00e3o fossem pessoas, como se a gente n\u00e3o existisse. Eu realmente queria que fosse isso. Estamos nessa brisa agora, mas pensamos seriamente no futuro mudar e fazer coisas completamente diferentes. A gente se influencia muito por m\u00fasica ambiente, por jazz. Eu particularmente escuto muito John Coltrane, Miles Davis, sou fissurado nesse cara. Escuto muito Fela Kuti. Ele tem isso de ficar numa coisa ritmada que vai mudando sempre e se torna um ritmo infinito. E a gente tenta fazer nosso som para o nosso show ser infinito, sabe? Uma coisa meio tribal, resgatando essas influ\u00eancias afrodescendentes. E dentro dessa coisa toda que justamente houve um massacre. Por isso que falo tanto dessa quest\u00e3o do rock, porque acho que o termo era dos negros e foi destronado dos negros, inclusive. Ent\u00e3o acho que acabou assim, virou uma coisa idiota, s\u00f3 performance, s\u00f3 fantasia. E a gente queria saber o que as pessoas fazem hoje, eu n\u00e3o t\u00f4 nem a\u00ed pro pessoal de antigamente\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00c9 legal voc\u00ea falar isso porque os jazzistas falavam isso do termo jazz; eles falavam que o termo era uma cria\u00e7\u00e3o de branco. Eles falavam que era m\u00fasica negra e n\u00e3o jazz. E isso acabou virando comercial tamb\u00e9m.<\/strong><br \/>\nRaphael: A gente est\u00e1 aqui falando que reverencia o jazz, mas at\u00e9 o jazz sofre com isso. Eu acho que nem jazz a gente \u00e9, \u00e9 s\u00f3 uma m\u00fasica que realmente junta todos os elementos do mundo com elementos afrodescendentes e de quebrada tamb\u00e9m. Sei l\u00e1, \u00e0s vezes existe um forr\u00f3 ali, uns agudinhos, um ritmo que vai e se repete. E muito punk tamb\u00e9m. Acho que No Wave Punk \u00e9 uma coisa interessante que aconteceu no mundo inteiro, \u00e9 um movimento muito forte que influencia muita gente.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"NIG\u00c9RIA FUTEBOL CLUBE | MINIDV NOISE SERIES | AO VIVO\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/xtTd7ApYPYM?start=19&#038;feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Eu queria perguntar: justamente pelo lance de voc\u00eas serem da quebrada, como \u00e9 que voc\u00eas chegaram nesses sons mais herm\u00e9ticos como No Wave? Pesquisa na internet? Ou algu\u00e9m apresentou isso para voc\u00eas?<\/strong><br \/>\nRodrigo: Voc\u00ea come\u00e7a a ouvir uma banda, vai ouvindo outra e, dependendo do n\u00edvel que voc\u00ea fica fissurado na m\u00fasica, voc\u00ea vai muito fundo para achar outras bandas similares. Ent\u00e3o a grande maioria das coisas que eu escuto foi pesquisando sozinho, mas uma boa parcela de coisas foi o PH que me apresentou. No Wave eu n\u00e3o escutava, mas teve muita coisa que ele me apresentou e que eu comecei a ouvir bastante, pesquisar mais sobre e no meio achar essas bandas esquisitas e espec\u00edficas. Foi o que fez eu me apaixonar tanto pelo Cau\u00e3 tamb\u00e9m, porque ele ouve umas bandas que eu conhe\u00e7o. Eu nunca conheci uma outra pessoa que ouvia Brainiac, que \u00e9 uma das minhas bandas favoritas e o Cau\u00e3 tamb\u00e9m ouvia. E a\u00ed isso a\u00ed me pegou demais, a gente teve muito match assim, com o gosto dele.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Cau\u00e3: A gente conhece muita coisa por causa da internet, mas acho que at\u00e9 mesmo por morar aqui na grande S\u00e3o Paulo, a gente consegue se conectar pessoalmente com outras pessoas que tamb\u00e9m gostam dessas maluquices. Para n\u00e3o dizer que fica s\u00f3 em voc\u00ea e uma pessoa do outro lado do planeta que conhece aquela banda que quase ningu\u00e9m lembra dos anos 90, a gente aqui em S\u00e3o Paulo consegue ter essa conex\u00e3o pessoalmente, com pessoas que curtem essas maluquices assim.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Qual \u00e9 a idade e instrumento de cada um de voc\u00eas?<\/strong><br \/>\nCau\u00e3: Eu tenho 25. Meu instrumento principal \u00e9 o baixo mesmo, mas toco um pouquinho de guitarra e viol\u00e3o, arranho um pouco de bateria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Raphael: Eu tenho 21 anos. Eu toco bateria, viol\u00e3o um pouquinho, toco guitarra tamb\u00e9m. Mas \u00e9 isso, toco a vida (risos).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Rodrigo: eu tenho 21 anos, eu toco guitarra, baixo e tento \u00e0s vezes tocar bateria. Tocar harpa, sanfona, gaita, gaita de fole tamb\u00e9m.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Percebi que voc\u00ea usa uns pedalzinhos chineses. O que voc\u00ea tem para falar sobre as taxas do Haddad nas importa\u00e7\u00f5es chinesas?<\/strong><br \/>\nRaphael: faz o L agora! (risos)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Rodrigo: \u00c9, nesse momento eu queria desfazer o L (risos). Mas \u00e9 isso, eu sempre comprei pedal chin\u00eas porque \u00e9 o que d\u00e1 para comprar quando voc\u00ea \u00e9 pobre. Lembro que os primeiros pedais que comprei no Aliexpress eu tava pagando 100 conto. A\u00ed agora s\u00f3 de taxa eu tenho que pagar mais 100 conto em cima do valor do pedal. Eu espero que logo menos passe isso a\u00ed das taxas, que elas diminuam. Porque eu vou continuar comprando na China porque\u2026 o bagulho \u00e9 China. N\u00e3o tem outro jeito.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>De quem foi a ideia de chamar de Nig\u00e9ria Futebol Clube? \u00c9 muito bom esse nome.<\/strong><br \/>\nRodrigo: Foi quase uma ideia instant\u00e2nea que eu e o PH tivemos ao mesmo tempo. No dia que a gente foi tocar junto pela primeira vez, eu estava usando uma camisa da Nig\u00e9ria. A\u00ed a gente estava falando sobre nome de banda, os dois olharam pra camisa e veio a ideia ao mesmo tempo. E depois que voc\u00ea fala pela primeira vez, n\u00e3o tem como &#8216;desfalar&#8217;. \u00c9 muito marcante Nig\u00e9ria Futebol Clube.<\/p>\n<figure id=\"attachment_86157\" aria-describedby=\"caption-attachment-86157\" style=\"width: 750px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-86157 size-full\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/nigeria5.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"750\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/nigeria5.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/nigeria5-300x300.jpg 300w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/nigeria5-150x150.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-86157\" class=\"wp-caption-text\"><em>Foto de <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/olhodevidrogirandonoasfalto\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">@olhodevidrogirandonoasfalto<\/a><\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A gente estava conversando sobre o lance do rock. Voc\u00ea n\u00e3o acha que seria uma boa pegar de volta o lance do rock e do jazz? Digo, dos brancos que roubaram a coisa toda\u2026<\/strong><br \/>\nRaphael: Eu acho que a nossa gera\u00e7\u00e3o mudou, entendeu?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Rodrigo: Deixa ele morrer, deixa as coisas morrer mesmo!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Raphael: Tem que morrer, tem que ficar em paz.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Cau\u00e3: Mas no fim das contas eu acho que nunca morre tamb\u00e9m\u2026 sei l\u00e1!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Raphael: \u00c9 s\u00f3 uma coisa que as pessoas v\u00e3o querer fazer, sabe? O importante \u00e9 que as pessoas v\u00e3o tocar m\u00fasica, e \u00e9 isso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Para voc\u00eas seria um r\u00f3tulo, apenas?<\/strong><br \/>\nRaphael: \u00c9 uma coisa, um r\u00f3tulo. Quando acaba esse r\u00f3tulo, vira outra brisa, porque todo mundo hoje em dia escuta muita m\u00fasica. N\u00e3o existe mais essa brisa de tribos selvagens, gangues. N\u00f3s estamos aqui agora, mas ontem eu e o Rodrigo est\u00e1vamos l\u00e1 no Curu\u00e7\u00e1 ouvindo reggae, Dub e descendo at\u00e9 o ch\u00e3o. E isso nos influencia tamb\u00e9m, t\u00e1 ligado? Ent\u00e3o acho que ficar nessa brisa de uma bandeira espec\u00edfica n\u00e3o tem porque. \u00c0s vezes o porqu\u00ea \u00e9 justamente a gente s\u00f3 ser n\u00f3s mesmos. E se aparecer algum nome, isso n\u00e3o interessa, quem vai falar isso s\u00e3o outras gera\u00e7\u00f5es. A gente querer ficar rotulando isso aprisiona a gente, sabe? Ent\u00e3o acho que esse \u00e9 o conceito do No Wave, de todos esses movimentos do Jazz, Free Jazz, de tudo isso. A ideia sempre foi: fa\u00e7a m\u00fasica. Voc\u00ea toca, inventa uma m\u00fasica e isso \u00e9 uma satisfa\u00e7\u00e3o, t\u00e1 ligado? \u00c9 mais por essa brisa. A gente sabe que o pessoal vai chapar. E a gente n\u00e3o est\u00e1 nem a\u00ed se o pessoal n\u00e3o chapar tamb\u00e9m. Sendo bem honesto, a gente est\u00e1 nessa brisa porque a gente quer experimentar. Um mundinho que eu conheci recentemente e que mudou muito minha concep\u00e7\u00e3o de som e at\u00e9 de ser, \u00e9 Rosalia de Souza. Ela e um pessoal que faz um rol\u00ea na It\u00e1lia, que faz um samba diferente, um samba novo e \u00e9 isso e tamb\u00e9m entra nesse conceito de acabar, de morrer, que a gente prop\u00f5e tamb\u00e9m pro rock e para todas essas coisas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Mas mesmo sem querer fazer rock, voc\u00eas s\u00e3o mais rock que muita coisa de rock.<\/strong><br \/>\nRodrigo: N\u00e3o sei, eu acho que a gente n\u00e3o gosta que chame de rock. Dizer &#8220;voc\u00eas s\u00e3o muito rock&#8221; \u00e9 um neg\u00f3cio muito\u2026 eu n\u00e3o sei definir<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Raphael: \u00e9 &#8220;pelo amor de Deus, irm\u00e3o! T\u00e1 tirando, hein?&#8221; (risos)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Rodrigo: \u00c9 um neg\u00f3cio que a gente n\u00e3o se identifica nem um pouco, com essa coisa de rock.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Raphael: \u00c9 porque o rock era esse movimento de jovens que v\u00e3o fazer m\u00fasica barulhenta e r\u00e1pida. E ele aconteceu naquele momento e foi impactante, mas depois ele virou v\u00e1rias coisas. Se voc\u00ea for ver o rap, ele s\u00f3 existe de certa forma porque existiu o rock, t\u00e1 ligado? Ent\u00e3o ele inventou as coisas mas ele n\u00e3o \u00e9 o paladino cruel. E esse rock ainda assim \u00e9 o rock branco, t\u00e1 ligado? A gente tem que entender isso. \u00c9 uma outra rapaziada, outra viv\u00eancia de outro momento, eles tinham os privil\u00e9gios deles, tinham as dificuldades deles, mas era outra coisa. O que a gente est\u00e1 vivendo agora \u00e9 diferente. Segue moldes parecidos, mas a gente pode inovar, a gente pode ir para qualquer outro lugar. N\u00e3o precisa ficar achando que a gente tem que ser como eles ou seguir alguma coisa. Essa coisa de &#8220;rock de atitude&#8221;&#8230; eu acho que quando o quesito \u00e9 atitude, eu prefiro a palavra &#8220;punk&#8221; porque eu acho que ainda entra no senso cr\u00edtico do punk como adjetivo. O rock como adjetivo est\u00e1 batido. O punk como adjetivo talvez at\u00e9 passe. Mas n\u00e3o \u00e9 ruim porque o rock \u00e9 um movimento; o rock \u00e9 outra coisa, \u00e9 um pilar grande, mas deixa ele l\u00e1 no pedestal dele.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Eu sei que \u00e9 contra o que voc\u00ea j\u00e1 falou, mas assim, se eu tivesse que rotular voc\u00eas de alguma coisa para explicar o som para quem nunca ouviu, seria o qu\u00ea?<\/strong><br \/>\nCau\u00e3: Eu n\u00e3o ligo tanto assim pra coisa da rotula\u00e7\u00e3o. Porque eu acho que as pessoas sempre v\u00e3o rotular e \u00e0s vezes em at\u00e9 alguns casos a rotula\u00e7\u00e3o de certa forma ajuda, de chegar em certas pessoas que n\u00e3o chegariam antes. Ent\u00e3o acho que a gente n\u00e3o vai se rotular, mas tamb\u00e9m n\u00e3o vai ligar pros r\u00f3tulos que as pessoas nos derem. A n\u00e3o ser que seja tipo extremamente ofensivo (risos) tipo &#8220;ah voc\u00eas s\u00e3o sertanejo universit\u00e1rio&#8221; a\u00ed eu paro \u201cn\u00e3o a\u00ed n\u00e3o d\u00e1\u201d (risos).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Rodrigo: Mas acho que esses r\u00f3tulos que a gente est\u00e1 recebendo \u00e9 muito uma parte da fase que a gente est\u00e1 agora. Numa fase mais punk, um som mais barulhento\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Cau\u00e3: E nossos primeiros shows foram com bandas punks.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Rodrigo: Mas daqui logo menos a gente vai estar fazendo um som completamente diferente, colando com bandas completamente diferentes, porque a nossa ideia \u00e9 testar tudo, \u00e9 experimentar tudo. Ent\u00e3o esses r\u00f3tulos n\u00e3o v\u00e3o permanecer, porque daqui uns dois anos quando a gente tiver mais coisas lan\u00e7adas, vai ter um \u00e1lbum extremamente punk, um \u00e1lbum de m\u00fasica ambiente e a pessoa vai falar &#8220;o que que essa banda \u00e9?&#8221; e ningu\u00e9m vai saber dizer.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00eas tem algum recado espec\u00edfico que acham importante falar que eu n\u00e3o perguntei?<\/strong><br \/>\nRodrigo: Ache pessoas da sua quebrada que fa\u00e7am m\u00fasica e fa\u00e7a m\u00fasica com essas pessoas. N\u00e3o tente procurar pessoas que morem longe de voc\u00ea pra fazer um som. Apesar da gente ter achado o Cau\u00e3, que mora em outra cidade n\u00e9?.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Raphael: Mas o Cau\u00e3 tamb\u00e9m vem dessa escola. Porque ele j\u00e1 cola com muitas pessoas que tocam tamb\u00e9m, ent\u00e3o a mensagem continua a mesma.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Rodrigo: Mas eu digo isso porque fazer m\u00fasica fica muito mais f\u00e1cil quando voc\u00ea mesmo cria uma cena ali, onde voc\u00ea mora. Eu e o PH a gente come\u00e7ou a reunir um bonde ali em Itaqu\u00e1 e agora em qualquer momento eu posso falar &#8220;ah eu quero fazer uma banda de tal coisa&#8221; e vou conhecer milhares de pessoas que tocam instrumentos e isso \u00e9 maravilhoso. Ent\u00e3o procurem m\u00fasicos perto da sua casa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Raphael: Tem que ser como eu, tipo um doido. \u00c0s vezes na rua em itaqu\u00e1, se eu vejo uma pessoa que \u00e9 meio diferentinha, eu vou l\u00e1 e digo &#8220;e a\u00ed, tudo bem?&#8221;, me apresento. Porque sen\u00e3o as pessoas correm.<\/p>\n<figure id=\"attachment_86159\" aria-describedby=\"caption-attachment-86159\" style=\"width: 750px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-86159 size-full\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/nigeria6.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"750\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/nigeria6.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/nigeria6-300x300.jpg 300w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/nigeria6-150x150.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-86159\" class=\"wp-caption-text\"><em>Foto de <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/gabrielamelges\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">@gabrielamelges<\/a><\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Eu vi que tinha um jornalzinho ali na frente do palco, voltado aos trabalhadores, da Unidade Popular. Voc\u00eas se consideram uma banda pol\u00edtica? Voc\u00eas s\u00e3o engajados?<\/strong><br \/>\nRodrigo: Sim, eu acho que desde o nosso primeiro show a gente tenta passar uma mensagem pol\u00edtica por tr\u00e1s de tudo. Tanto que tem um som nosso que \u00e9 &#8220;ambi\u00eancia&#8221;, que sempre tento come\u00e7ar com algum \u00e1udio de um discurso de algu\u00e9m importante, para as pessoas saberem daquilo, tipo Abdias Nascimento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Raphael: A gente colocou do Marighella tamb\u00e9m. Tem muitos pensadores brasileiros important\u00edssimos na d\u00e9cada de 60, 70 e 80, que merecem mais reconhecimento intelectual, serem referenciados. Esses dias eu estava discutindo com algu\u00e9m e essa pessoa foi puxar um argumento falando &#8220;Ah, mas S\u00f3crates falou\u2026&#8221; a\u00ed eu fiquei &#8220;porra mano, mas S\u00f3crates?&#8221; T\u00e1 ligado? Tipo assim, Gr\u00e9cia mano, s\u00e9rio mesmo? Voc\u00ea acha que aqueles caras estavam e ainda est\u00e3o certos? As pessoas s\u00e3o alienadas, n\u00e9? Todo mundo \u00e9 alienado. A gente vive realmente um materialismo hist\u00f3rico dial\u00e9tico. Tanto que a gente falou da UP porque a UP \u00e9 um partido organizado, a Unidade Popular. Ele visa o socialismo, visa realmente a parte radical. E ele tem o jornal A Verdade, que \u00e9 um jornal que \u00e9 feito hoje pela rapaziada da UP, mas que j\u00e1 era feito h\u00e1 muito tempo antes deles. S\u00e3o v\u00e1rios movimentos. \u00c9 o jornal A Verdade, o MLC, o MLB tamb\u00e9m. O MLC \u00e9 movimento de luta de classe que faz greve, o MLB faz ocupa\u00e7\u00f5es e s\u00e3o v\u00e1rias lutas. Tem como agir de alguma forma, a quest\u00e3o \u00e9 organizativa. O nome eu sinceramente nem me importo. Para mim isso n\u00e3o interessa. Se fosse PC, Partido Comunista ou s\u00f3 C comunismo ou s\u00f3 Organiza\u00e7\u00e3o, t\u00e1 ligado? T\u00e1 bom, mano. Eu s\u00f3 queria que fosse uma sociedade. Acredito numa sociedade socialista e se isso \u00e9 poss\u00edvel de se alcan\u00e7ar, ent\u00e3o a gente tem que trabalhar nesse sentido. Sinto que a nossa cr\u00edtica pol\u00edtica \u00e9 essa. A gente tem que agir, mano. E a\u00ed a Nig\u00e9ria \u00e9 muito sobre isso, as pessoas v\u00eaem e fica tipo &#8220;nossa isso \u00e9 mais estranho, isso est\u00e1 acontecendo?&#8221; Ent\u00e3o isso tamb\u00e9m \u00e9 pol\u00edtico, sabe? E por que que a gente tem que ter medo n\u00e9? Tanto que, putz, n\u00e3o queria citar as nossas m\u00fasicas, mas acho que \u00e9 interessante falar a gente tem uma m\u00fasica que chama &#8220;Nerds versus Punks&#8221;, que \u00e9 essa guerra imortal (risos). E eles est\u00e3o brigando frequentemente porque \u00e0s vezes o punk \u00e9 meio idiota, \u00e0s vezes o nerd \u00e9 mais inteligente\u2026 \u00e0s vezes os dois s\u00e3o Punks, mas os dois s\u00e3o nerds, porque pro cara ser punk, ele tem que ser nerd. Ent\u00e3o \u00e9 &#8220;nerds versus punks&#8221; na mente assim, sabe? Com nerd e com punk. &#8220;Eu sou nerd ou eu sou punk?&#8221; (Risos).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Rodrigo: Mas \u00e9 isso, Nig\u00e9ria \u00e9 pol\u00edtico sim! E eu estava falando com o PH isso esses dias: ainda acho que n\u00e3o \u00e9 pol\u00edtico o suficiente. Ent\u00e3o podem esperar mais manifesta\u00e7\u00f5es, a gente falando mais de pol\u00edtica no show. Porque sinto que nessa cena tem muitas pessoas que sabem que s\u00e3o de esquerda, mas n\u00e3o tentam estudar, n\u00e3o tentam ir atr\u00e1s disso e tem que ir atr\u00e1s. Para se radicalizar, para se juntar, se unir com o pessoal, porque sen\u00e3o n\u00e3o acontece nada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Raphael: A ideia tem que ser passada, n\u00e9?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E por isso que voc\u00eas se identificam com a coisa do punk?<\/strong><br \/>\nRaphael: Exatamente, porque \u00e9 pol\u00edtico. Voc\u00ea se torna pol\u00edtico. O punk \u00e9 isso. \u00c9 atitude para voc\u00ea expor as suas insatisfa\u00e7\u00f5es. E se hoje as minhas insatisfa\u00e7\u00f5es n\u00e3o s\u00e3o uma coisa s\u00f3, n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 sei l\u00e1, Bolsonaro, Lula ou qualquer coisa assim, \u00e9 uma quest\u00e3o de meio de produ\u00e7\u00e3o, t\u00e1 ligado? Uma quest\u00e3o de mundo de hist\u00f3ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Ent\u00e3o voc\u00eas s\u00e3o quase um punk jazz, n\u00e9?<\/strong><br \/>\nRaphael: Punk samba jazz (risos). Deram um nome bom de que gostei, o pessoal da Taciturno colocou &#8220;Afroexperimentalismo Turvo&#8221; e eu achei interessante. Turvo \u00e9 sujo, de \u00e1guas turvas, \u00e1guas sujas\u2026 mas assim a gente fala desse neg\u00f3cio do r\u00f3tulo mas seriamente, se for para dar nome vamos dar nome, t\u00e1 ligado? Vamos deixar bonitinho &#8220;Afro experimentalismo Turvo&#8221;! Ai meu Deus, calma, calma (risos)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O que voc\u00eas est\u00e3o achando da cena independente p\u00f3s pandemia? T\u00e1 dif\u00edcil? T\u00e1 ruim para conseguir show, como est\u00e1?<\/strong><br \/>\nRodrigo: Acho que depende bastante, mas pelo menos pro Nig\u00e9ria t\u00e1 \u2018pocando\u2019.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Raphael: O que n\u00e3o falta \u00e9 show, o que n\u00e3o falta \u00e9 banda, \u00e9 muita gente. \u00c0s vezes a gente fala muito da internet, mas esse \u00e9 o trabalho da internet, porque n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o dif\u00edcil virar uma conex\u00e3o assim, sabe? Voc\u00ea v\u00ea uma banda, troca uma ideia, d\u00e1 um like nela e acabou, sabe? \u00c0s vezes troca uma ideia, manda uma mensagem, voc\u00ea vai num show e tem um monte de gente que de outras bandas, conhece outras pessoas, ent\u00e3o sempre vai ter essa brisa sabe? S\u00e3o muitas bandas, mano. Sinto tamb\u00e9m que deveria se organizar mais e eu queria conseguir ver isso ainda em vida, nesse sentido de fazer uma organiza\u00e7\u00e3o pras pr\u00f3prias bandas que se conhecem e saberem que \u00e9 poss\u00edvel o contato, que \u00e9 poss\u00edvel ajuda, porque a gente est\u00e1 aqui para fazer coisa doida mesmo, t\u00e1 ligado? A gente \u00e9 independente, tipo por exemplo\u2026 A gente pensa agora em fazer uma session num lugar diferente que n\u00e3o \u00e9 num est\u00fadio. Fazer num campo de futebol, ou na rua. D\u00e1 pra gente fazer isso se unindo, sabe? E hoje a cena \u00e9 t\u00e3o forte a esse ponto que a gente conhece pessoas maravilhosas que nos ajudam a conseguir fazer esse tipo de movimento. \u00d3bvio que \u00e9 tudo muito trabalhoso e todo mundo vai trabalhar, mas a gente sabe que vai fazer e sempre vai ser uma coisa doida, t\u00e1 ligado? E t\u00e1 um trabalhando pelo outro assim.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Cau\u00e3: S\u00f3 para finalizar essa coisa da cena: eu acho que n\u00e3o posso dizer como era antes da pandemia, porque realmente foi um neg\u00f3cio que eu passei a colar mais frequentemente p\u00f3s-pandemia, n\u00e9? Mas eu acho que s\u00e3o sempre as mesmas dificuldades\u2026 Muito lugar abre, muito lugar fecha, mas aqui pelo menos na cidade de S\u00e3o Paulo voc\u00ea sempre acha uns lugares que est\u00e3o dispostos a abrir pra galera que t\u00e1 come\u00e7ando. E quando voc\u00ea come\u00e7a a fazer as conex\u00f5es verdadeiras com a galera das outras bandas, voc\u00ea consegue arrumar mais shows e tal. E a\u00ed uma coisa que eu acho importante dizer que uma ex-amiga mais velha me falou uma vez: hoje em dia parece que as bandas s\u00e3o melhores do que quando ela era adolescente, ent\u00e3o eu sinto que essa qualidade casa muito com tudo que a gente falou. Acho que isso tamb\u00e9m ajuda, e eu compartilho desse sonho do PH de ter uma organiza\u00e7\u00e3o maior. A gente precisa ser visto mais como cena porque, querendo ou n\u00e3o, as bandas ainda s\u00e3o vistas de uma forma muito individual, cada banda por si. E eu acho que a gente precisa come\u00e7ar a ser visto mais como uma cena ou como um conjunto de cenas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Raphael: Como uma cultura que existe e que continua existindo, t\u00e1 ligado? E s\u00f3 para sempre lembrar que a cultura existe. Tipo assim, voc\u00ea pensa numa banda e j\u00e1 pensa em v\u00e1rias outras tamb\u00e9m. Existe uma coisa acontecendo, as bandas s\u00e3o amigas e tem projetos intercalados porque isso acontece naturalmente, sabe?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Cau\u00e3: E n\u00e3o amigos no sentido de um tipo &#8220;Clube do Bolinha&#8221;, sem ser uma panela. Mas uma coisa da galera ser amiga mesmo e estar disposta a colocar mais gente para dentro sim.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Raphael: \u00c9 esquema de pir\u00e2mide na verdade, n\u00e9? (Risos) Pra gente ter mais dinheiro, muito dinheiro e comprar um Fiat 95, bater ele no poste e sabe quem vai estar no porta-malas? Lingui\u00e7a, com uma caixa de ovos e vai tudo dar errado, infelizmente e voc\u00ea vai vir a \u00f3bito. Mas a caixa de ovos vai t\u00e1 l\u00e1 intacta (risos).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Salves para:<\/em><br \/>\n<em>Jow Marques do Est\u00fadio Por\u00e3o Peruz, Eduardo Lingui\u00e7a, Absorto, Violeta e Yatto Kasama, Lurdes, Fiona, Sossego, Igor Celestino, Vinco, Cianoceronte, Movimento N\u00e1ufrago, Tubo de Ensaio, Quadrado Angustiado, Taekwondo Contempor\u00e2neo, Arizonas, DST, Malditos Jovens do Reggae, Preton, Taciturno, Mafra, M\u00e3e Que D\u00e1 Medo, Virtudes Fantasmas, Quarto Vazio, Schizo Age, Comunautas, Porto, Tipoia, M\u00e1rcio a\u00ed da oficina de carro, Sophia Chablau E Uma Enorme Perda de Tempo, Mandel\u00e3o, Jos\u00e9, Derick, Renan, Dani.<\/em><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Nig\u00e9ria Futebol Clube ao vivo no Bomber Pub\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/CdP37WnLlnw?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u2013 Alexandre Lopes (<a href=\"https:\/\/twitter.com\/ociocretino\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">@ociocretino<\/a>) \u00e9 jornalista e assina o\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ociocretino.blogspot.com.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">www.ociocretino.blogspot.com.br<\/a>.\u00a0<\/em><br \/>\n<em>\u2013\u00a0<a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/amusicadofabio\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Fabio Machado<\/a> \u00e9 m\u00fasico e jornalista (n\u00e3o necessariamente nessa ordem). Baixista na Falsos Conejos, Mevoi, Thrills &amp; the Chase e outros projetos.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Formada h\u00e1 quase dois anos por tr\u00eas jovens negros e perif\u00e9ricos na casa dos 20 anos, a banda j\u00e1 apresenta uma identidade forte e um som desafiador. 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