{"id":85850,"date":"2024-12-09T00:48:09","date_gmt":"2024-12-09T03:48:09","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=85850"},"modified":"2025-01-05T00:23:00","modified_gmt":"2025-01-05T03:23:00","slug":"entrevista-o-nosso-punk-e-o-punk-77-garage-rock-dos-anos-1960-stooges-new-york-dolls-mc5-diz-clemente-sobre-o-inocentes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2024\/12\/09\/entrevista-o-nosso-punk-e-o-punk-77-garage-rock-dos-anos-1960-stooges-new-york-dolls-mc5-diz-clemente-sobre-o-inocentes\/","title":{"rendered":"Entrevista: &#8220;O nosso punk \u00e9 o punk 77, garage, rock 1960, Stooges, New York Dolls, MC5&#8221;, diz Clemente sobre o Inocentes"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>entrevista de <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/lvinhas78\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Leonardo Vinhas<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cAntes do Fim\u201d parece um t\u00edtulo temer\u00e1rio para uma banda que tem mais de 40 anos de carreira. Mas calma: o <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/inocentesoficial\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Inocentes<\/a> n\u00e3o parece ter planos imediatos de passar a r\u00e9gua na sua trajet\u00f3ria, iniciada em 1981. Na verdade, \u201c<a href=\"https:\/\/open.spotify.com\/intl-pt\/album\/3CT8dgDMUwjeUxRdbZNZ2m?si=rz-hsz6gRbK59-VZjHmjYQ\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Antes do Fim<\/a>\u201d batiza seu primeiro \u00e1lbum ac\u00fastico, no qual algumas das melhores faixas da banda ganham releituras \u201cdesplugadas\u201d inspiradas pelas ra\u00edzes do rock\u2019n\u2019roll..<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Banda \u201cpunk\u201d lan\u00e7ando disco ac\u00fastico n\u00e3o \u00e9 novidade: os argentinos Attaque 77 j\u00e1 o haviam feito em 2012. S\u00f3 que, enquanto o deles havia sido gravado no pomposo Teatro Opera com uma banda \u201cinflada\u201d, cheia de convidados, o dos brasileiros \u00e9 despojado, gravado em est\u00fadio s\u00f3 com um \u00f3rg\u00e3o aqui e ali, e procurando reencontrar a ess\u00eancia rocker de cada can\u00e7\u00e3o. Longe de querer emular a \u201cf\u00f3rmula\u201d envernizada que ficou popular gra\u00e7as ao programa MTV Unplugged, o que o Inocentes faz nesse disco \u00e9 beber no rock\u2019n\u2019roll, rockabilly, folk e country para trazer vida nova \u00e0s suas can\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">D\u00e1 t\u00e3o certo que algumas delas parecem ganhar sua vers\u00e3o definitiva: \u201cEle Disse N\u00e3o\u201d e \u201cDeixa Pra L\u00e1\u201d, por exemplo, s\u00e3o muito superiores \u00e0s grava\u00e7\u00f5es originais de est\u00fadio. Outras, como \u201cExpresso Oriente\u201d e \u201cNem Tudo Volta\u201d, podem n\u00e3o chegar a tanto, mas decididamente ganham vida nova e se mostram mais atraentes que nunca.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Outras can\u00e7\u00f5es n\u00e3o sofrem grandes mudan\u00e7as musicais, mas a roupagem ac\u00fastica ajuda a ter mais foco nas letras. \u00c9 o caso de \u201cA Face de Deus\u201d e \u201cO Homem Negro\u201d, duas das melhores composi\u00e7\u00f5es da banda. E evidentemente, est\u00e3o aqui as preferidas dos f\u00e3s, como \u201cGarotos do Sub\u00farbio\u201d, a vers\u00e3o de \u201cS\u00e3o Paulo\u201d (365) e o cl\u00e1ssico \u201cP\u00e2nico em SP\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Poucas bandas do rock brasileiro t\u00eam um corpo de obra consistente como o Inocentes, e essa cole\u00e7\u00e3o de can\u00e7\u00f5es despojadas, mas n\u00e3o menos en\u00e9rgicas, \u00e9 uma sele\u00e7\u00e3o justa de um bom tanto daquilo que eles fizeram de melhor. Al\u00e9m disso, aponta caminhos sonoros que a banda pode voltar a explorar: por que n\u00e3o fazer um \u00e1lbum de in\u00e9ditas nesse mesmo formato?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas o show el\u00e9trico continua existindo, assim como h\u00e1 planos de gravar um EP el\u00e9trico em breve. Clemente Nascimento, vocalista e guitarrista da banda, j\u00e1 est\u00e1 nessa seara h\u00e1 mais de 40 anos, e n\u00e3o vai parar. O mundo pode chegar ao fim, mas os Inocentes seguir\u00e3o tocando, e, a julgar por essa entrevista, continuar\u00e3o com disposi\u00e7\u00e3o para enfrentar o conformismo roqueiro, o pensamento r\u00edgido disfar\u00e7ado de progressismo, o \u00f3dio recalcado dos reacion\u00e1rios e os clich\u00eas do rock brasileiro.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Inocentes - N\u00e3o Acordem a Cidade (ac\u00fastico)\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/O9dIXybfIe4?list=OLAK5uy_nSHUT35gXmIkFE7uKN04u3jEIko5ncLs8\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Por que fazer o ac\u00fastico a essa altura da carreira?<\/strong><br \/>\n\u00c9 um ac\u00fastico sem pretens\u00f5es, s\u00f3 o registro de um momento que a banda viveu. Durante a pandemia, tive que reaprender a tocar as m\u00fasicas, porque fiz muita live ac\u00fastica aqui de casa. Fui rearranjando, colocando acorde onde era s\u00f3 power chord\u2026 Tive que reaprender a cantar as m\u00fasicas. O Anselmo (Monstro, baixista) era um dos que mais assistia essas lives, sempre falando que ficou legal. Um belo dia ele falou de fazermos isso juntos pra ver como ficava (risos), e ficou legal. Decidimos registrar, porque foi um per\u00edodo que a gente teve\u2026 n\u00e3o aquele papo de \u201cse reinventar\u201d, mas mano, tive que ralar pra poder fazer essas lives sozinho em casa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Lembro de uma entrevista sua para a revista Bizz na \u00e9poca do \u201cEstilha\u00e7os\u201d (1992) no qual voc\u00ea dizia que nunca tocou punk. Que descobriu que tocava punk pela finada revista Pop. Que voc\u00ea, na verdade, tocava rock.<\/strong><br \/>\nAh, sim! Eu gostava de confundir para conquistar! (risos)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E esse ac\u00fastico \u00e9, decididamente, um disco de rock\u2019n\u2019roll, rockabilly, folk rock: ele trabalha com a est\u00e9tica das bases do g\u00eanero. Mas muito f\u00e3 dos Inocentes ainda v\u00ea a banda como punk. O que voc\u00ea diria para quem tem essa percep\u00e7\u00e3o?<\/strong><br \/>\nA pergunta \u00e9: de que punk esse cara gosta? A gente vem l\u00e1 da primeira gera\u00e7\u00e3o. Ouvimos o pr\u00e9-punk, principalmente eu, o Ronaldo (Passos, guitarrista) e o Anselmo. Eu conheci o mundo antes de o punk nascer, ent\u00e3o tudo isso que voc\u00ea falou faz parte da nossa forma\u00e7\u00e3o. O nosso punk \u00e9 o punk 77, garage, rock dos anos 1960, Stooges, New York Dolls, MC5\u2026 A gente \u00e9 de um mundo onde n\u00e3o existia o hardcore. As pessoas v\u00eam me mostrar coisas dizendo que \u00e9 hardcore e eu vejo metal ali, n\u00e3o vejo hardcore. O que \u00e9 punk? Ratos de Por\u00e3o? Garotos Podres, que toca ska? O punk \u00e9 plural, tem v\u00e1rias influ\u00eancias, ningu\u00e9m toca a mesma coisa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E \u00e9 legal que essa influ\u00eancia do p\u00f3s-punk aparece ao longo da discografia n\u00e3o s\u00f3 em composi\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m em produ\u00e7\u00e3o, mas no ac\u00fastico ela sumiu! Alguns baixos tiveram as linhas mudadas, os climas mudaram bem.<\/strong><br \/>\nA gente quis pegar as can\u00e7\u00f5es e voltar \u00e0 ess\u00eancia delas. E o Ronaldo tem muita influ\u00eancia do rockabilly, ele \u00e9 f\u00e3 do guitarrista do Stray Cats, o\u2026 (demora a lembrar, at\u00e9 que o rep\u00f3rter \u201cassopra\u201d) Ah, o Brian Setzer! Ent\u00e3o, o Ronaldo \u00e9 f\u00e3 dele, e gosta muito de country, blues e tal. Cada um trouxe suas influ\u00eancias pessoais, tamb\u00e9m, e isso foi legal. A gente n\u00e3o foi pondo trava. A gente deixou aberto, pra tudo trabalhar a favor da can\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Inocentes feat. Tata Martinelli - Deixa Pra L\u00e1 - Ac\u00fastico no Blue Note SP\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/CHw0jadYXC4?list=PLO-DCNxMhQEFX-9Uf8wBTNbKXYPHFh6Y2\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Como est\u00e3o sendo os shows ac\u00fasticos?<\/strong><br \/>\nAgora em novembro [de 2024] a gente tocou no Blue Note [em S\u00e3o Paulo] e foi uma loucura (v\u00eddeos acima)! Porque o Inocentes teve v\u00e1rias fases: surgiu l\u00e1 no meio do movimento punk, vindo do gueto, inventando a cena punk de S\u00e3o Paulo\u2026 O Inocentes \u00e9 minha terceira banda. Antes teve o Restos de Nada e o Condutores de Cad\u00e1veres. Depois dessa primeira fase, a gente foi pra Warner (risos), come\u00e7ou a tocar na r\u00e1dio. Viramos uma banda, entre aspas, \u201cpopular\u201d. A\u00ed tem v\u00e1rias forma\u00e7\u00f5es, o que muda completamente a sonoridade. E as pessoas acham que sou eu, o Clemente, que est\u00e1 mudando tudo (risos). N\u00e3o, \u00e9 a banda! \u00c0s vezes, sou coagido! (risos) Mas com tantas fases, a gente tem v\u00e1rios p\u00fablicos. N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 o \u201cpunk punk\u201d, tem o cara que ouvia Inocentes na r\u00e1dio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Al\u00e9m do Inocentes, voc\u00ea toca na Plebe Rude, outra banda dos anos 1980. S\u00f3 que a Plebe ficou muito associada a essa d\u00e9cada espec\u00edfica, enquanto o Inocentes teve outros momentos, aquele per\u00edodo do \u201cEmbalado a V\u00e1cuo\u201d (1998) deu uma boa renovada no p\u00fablico. Voc\u00ea ainda testemunha essa renova\u00e7\u00e3o, v\u00ea um p\u00fablico bem mais jovem nos shows?<\/strong><br \/>\nSim, pra caramba! \u00c9 louco, a gente tocou naquele festival que teve o Suicidal Tendencies (Esquenta RockFun Fest), em que tinha grades dividindo o p\u00fablico por causa do multicabos da mesa de som. Sei que do meu lado direito tinha um p\u00fablico bem mais jovem (ri), molecada de 16, 17 anos, roda, pogo, o bicho pegando. E do lado esquerdo s\u00f3 o p\u00fablico mais velho, s\u00f3 no coturninho (risos). Era engra\u00e7ado!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Falando em festivais, o Inocentes vai tocar em janeiro no Upfront Festival, em S\u00e3o Paulo. Uma das bandas no lineup \u00e9 o Skamoondongos, que voc\u00ea produziu. Esse seu lado de produtor n\u00e3o \u00e9 muito comentado em entrevistas, mas vamos falar um pouco disso. Tem alguma banda cujo trabalho voc\u00ea curte, mas acha que poderia trazer uma cara diferente para o som?<\/strong><br \/>\nTem v\u00e1rias bandas que eu acho legais e com quem eu gostaria de estar no est\u00fadio, mas n\u00e3o tenho essa coisa do produtor que muda sonoramente a banda. Na verdade, eu sou mais aquele que fotografa (ri). Eu gosto muito de An\u00f4nimos An\u00f4nimos, uma puta banda legal pra caralho. Gosto de Molho Negro pra caramba\u2026 Tem v\u00e1rias bandas legais tocando. Mas assim, eu fui produzir muitas vezes obrigado (risos), porque era a maneira que eu tinha de poder levar aquela banda pro est\u00fadio. O Skamoondongos, por exemplo. Eu estava na Paradoxx e me deram essa miss\u00e3o de fazer a colet\u00e2nea de ska (\u201cSka Brasil\u201d, de 1997). Eu tive que brigar, porque achavam a demo deles ruim. Eu disse pros caras [da gravadora]: \u201cpode deixar que no est\u00fadio eu me garanto\u201d. Eu estava certo, porque foi a banda da colet\u00e2nea que estourou, n\u00e9?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E \u00e9 a \u00fanica que est\u00e1 na ativa at\u00e9 hoje.<\/strong><br \/>\nExatamente. Porque era de verdade. Os caras da gravadora achavam que era uma moda, mas eu falava que o Skamoondongos tinha que entrar porque era a \u00fanica banda que era de verdade. Eu tinha uma loja na Galeria [do Rock] que os moleques frequentavam, eu vendia muitos discos de ska da terceira gera\u00e7\u00e3o, eu sabia que eles eram da cena, gostavam mesmo. O Skuba tamb\u00e9m era de verdade, mas era de Curitiba e eu n\u00e3o conhecia os caras. Briguei pelo Skamoondongos e a banda entrou. Eu n\u00e3o sou aquele produtor, n\u00e9? \u00c9 uma coisa meio sazonal.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Inocentes - Escombros (ac\u00fastico, clipe)\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/Cd37dXv48VI?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea talvez seja o \u00fanico cara do rock brasileiro \u2013 certamente o \u00fanico da sua gera\u00e7\u00e3o \u2013 que jogou em todas as posi\u00e7\u00f5es: m\u00fasico, compositor, int\u00e9rprete, produtor, funcion\u00e1rio de gravadora, radialista, jornalista\u2026 Tendo essa vida de envolvimento total com a m\u00fasica, como voc\u00ea faz para ainda preservar o interesse sem que os BOs e os anos nas costas n\u00e3o tirem seu prazer pela coisa toda? Porque tenho certeza que seu saco encheu em v\u00e1rias momentos. Como voc\u00ea fez para n\u00e3o falar \u201cfoda-se, j\u00e1 deu\u201d?<\/strong><br \/>\nAh, tive meus momentos (ri). Mas cara, eu preferia s\u00f3 tocar, mas fa\u00e7o esse monte de coisas porque n\u00e3o consigo sobreviver s\u00f3 do Inocentes. Sou da classe trabalhadora (risos). Sou obrigado a me deter em v\u00e1rias posi\u00e7\u00f5es: produtor, roadie, toda a cadeia. Mas o legal \u00e9 que aprendi muita coisa: como funciona uma gravadora, como lidar com ela. N\u00e3o tenho aquelas crises de m\u00fasico, sei quanto o cara est\u00e1 gastando, o que ele pode fazer e o que n\u00e3o pode. \u00c9 muito f\u00e1cil tratar com a gente porque n\u00e3o tem a viagem de artista de achar que a gente \u00e9 o m\u00e1ximo e a gravadora tem que nos dar alguma coisa. Isso n\u00e3o \u00e9 realista (risos), e a gente trabalha com a realidade. Mas muitas vezes eu fico de saco cheio. Agora, por exemplo, estou numa crise art\u00edstica, de composi\u00e7\u00e3o mesmo. Eu n\u00e3o sei o que as pessoas acham que \u00e9 o punk pra elas hoje, ainda mais por causa dessa coisa das m\u00eddias sociais, dessa ascens\u00e3o da extrema direita\u2026 P\u00f4, mano, eu fiz uma m\u00fasica que ningu\u00e9m entende? (risos)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O Raul Seixas falava que era muito ruim tocar para 3 mil pessoas e que no m\u00e1ximo tr\u00eas entenderam o que ele estava cantando.<\/strong><br \/>\nExatamente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00c9 muito complicado. Alguns trabalhos s\u00e3o t\u00e3o contracultura que at\u00e9 quem se diz contracultural n\u00e3o aceita aquilo (risos).<\/strong><br \/>\nExatamente! Porque a gente n\u00e3o cai naquele discurso f\u00e1cil, n\u00e9? (Efusivo) \u201cN\u00f3s somos antifascistas, uhu\u201d&#8230; Porque n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 isso! S\u00e3o tantos meandros, tanta coisa acontecendo no mundo, n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 preto e branco, tem uma zona cinza gigante.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Falando em coisas que n\u00e3o s\u00e3o t\u00e3o simples assim: nos anos 1980 e 1990, mal se falava em representatividade e afins. Mas em textos a partir dos anos 2000, come\u00e7aram a te identificar como o \u00fanico frontman negro da sua gera\u00e7\u00e3o. N\u00e3o mudou muito desde ent\u00e3o. Voc\u00ea falava disso nas suas letras, n\u00e3o s\u00f3 \u201cO Homem Negro\u201d. Voc\u00ea tamb\u00e9m n\u00e3o vinha da classe m\u00e9dia alta, como a enorme maioria dos m\u00fasicos do rock brasileiro. Dito tudo isso, voc\u00ea tinha dimens\u00e3o dessa representatividade naquela \u00e9poca?<\/strong><br \/>\nCara, eu me sentia solit\u00e1rio (ri). S\u00f3 tinha eu, n\u00e9 mano? Quando comecei a tocar, eu estava na periferia, estava sempre rodeado de negros. A primeira banda, Restos de Nada, e o pr\u00f3prio Inocentes: a forma\u00e7\u00e3o que chega na Warner tinha o Tonh\u00e3o e o Andr\u00e9, que t\u00eam a m\u00e3e negra e o pai branco. Se voc\u00ea pensar bem, aquela forma\u00e7\u00e3o que chega na Warner era a mais negra poss\u00edvel, \u00e9 que o Tonh\u00e3o puxou mais o pai dele, apesar do bei\u00e7\u00e3o (ri). Mas \u00e9 louco, porque n\u00e3o existia esse discurso de representatividade, identitarismo, anti-racismo, papap\u00e1. \u00c9 dif\u00edcil voc\u00ea explicar que o identitarismo, o empreendedorismo, a meritocracia, tudo faz parte do neoliberalismo, e quando voc\u00ea tira a luta coletiva, tira a for\u00e7a do movimento. Quando voc\u00ea pensa s\u00f3 no eu, isso \u00e9 um problema. S\u00f3 que como falar isso numa m\u00fasica? (risos) Eu n\u00e3o consigo explicar isso muito bem numa m\u00fasica. Como vou falar que eu n\u00e3o concordo muito com o modo de luta do identitarismo? Concordo com a causa, mas o modo de lutar eu acho errado. Mas se eu falar isso, v\u00e3o dizer que eu sou racista, qualquer porra assim. As pessoas n\u00e3o entendem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O historiador Tony Judt apontava isso em alguns textos que essa microidentifica\u00e7\u00e3o acabava fragmentando a luta coletiva. Que, ao buscar a microrepresentatividade, a voz coletiva se dilu\u00eda, e as diferen\u00e7as eram acentuadas, diminuindo a chance de aproxima\u00e7\u00e3o e entendimento. Vejo isso acontecendo e no universo da m\u00fasica acontece tamb\u00e9m, e tem desdobramentos estranhos, como a \u201ccausa\u201d virando a suposta raz\u00e3o de ser desse artista. Vi um evento de uma institui\u00e7\u00e3o grande uma vez que anunciava uma programa\u00e7\u00e3o apenas com bandas formadas por mulheres. Nos textos de apresenta\u00e7\u00e3o das bandas, n\u00e3o havia uma \u00fanica palavra sobre a m\u00fasica que elas tocavam! \u00c9 estranho isso.<\/strong><br \/>\n\u00c9 estranho isso! Voc\u00ea pega a Mercen\u00e1rias, era m\u00fasica! Quatro meninas fazendo m\u00fasica. Isso \u00e9 o importante. Bad Brains, Pure Hell\u2026Eu acompanho v\u00e1rias bandas novas a\u00ed, mas \u00e9 o que voc\u00ea falou: a causa \u00e9 mais importante que a m\u00fasica. Voc\u00ea n\u00e3o sabe nem se a m\u00fasica \u00e9 boa \u2013 e voc\u00ea n\u00e3o pode criticar a m\u00fasica, porque sen\u00e3o voc\u00ea apanha (risos). Eu n\u00e3o gosto da Pabllo Vittar, mas n\u00e1o \u00e9 que eu n\u00e3o gosto da pessoa, eu n\u00e3o gostava da m\u00fasica. Mas n\u00e3o posso falar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Sei como \u00e9 (risos). Ali\u00e1s, posso publicar isso?<\/strong><br \/>\nEnt\u00e3o\u2026 N\u00e3o sei! (risos) Tem que ter um jeito de se falar que o importante \u00e9 a m\u00fasica. At\u00e9 porque a gente faz m\u00fasica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A MPB tem, continuadamente, movimentos revisionistas, em que um artista meio esquecido \u00e9 recuperado e al\u00e7ado a uma dimens\u00e3o maior. Mas esse movimento n\u00e3o acontece com frequ\u00eancia no rock brasileiro. Por que voc\u00ea acha que n\u00e3o existe essa tend\u00eancia de revalorizar o passado roqueiro do Brasil?<\/strong><br \/>\nPorque todo mundo est\u00e1 sempre preocupado com o que fez sucesso, n\u00e3o com o que tem qualidade art\u00edstica. Voc\u00ea fala com um \u201croqueiro normal\u201d, a refer\u00eancia dele \u00e9 o Capital Inicial (risos). Esse resgate vai ficar no meio do caminho. Mas tenho visto esse resgate acontecendo com as Mercen\u00e1rias mesmo, por exemplo. Elas est\u00e3o fazendo bastante shows \u2013 para um p\u00fablico restrito e tal \u2013 mas tem uma gera\u00e7\u00e3o nova de meninas que as est\u00e3o seguindo. Inclusive eu e a Sandra [Coutinho, baixista d\u2019As Mercen\u00e1rias] temos um projeto chamado Jackfancy, que tocou muito pelo underground e que vai sair agora nas plataformas. A grava\u00e7\u00e3o \u00e9 da \u00e9poca (nota: a dupla atuou entre 2007 e 2013), tudo com base eletr\u00f4nica \u2013 ela \u00e9 boa nisso \u2013 e guitarras. Eu conhe\u00e7o a Sandra desde antes d\u2019As Mercen\u00e1rias, da \u00e9poca em que ela acompanhava a Eliete Negreiros e ia nos ensaios dos Inocentes.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-85852\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/inocentes1.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"375\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/inocentes1.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/inocentes1-300x150.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voltando ao \u201cAntes do Fim\u201d: ele vai ser editado em algum formato f\u00edsico?<\/strong><br \/>\nSaiu o vinil j\u00e1 pela Red Star, o nosso selo. Vendeu bem, <a href=\"https:\/\/www.redstar77.com\/prod\/312\/inocentes-antes-do-fim-lp-#s561\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">e acho que est\u00e1 quase acabando<\/a> \u2013 na real, acho que acabou, temos que prensar de novo. A gente n\u00e3o sabe se lan\u00e7a em CD, porque CD, realmente\u2026 Mas vinil \u00e9 legal, a galera curte. Muita gente pede pra lan\u00e7ar em CD, mas n\u00e3o sei se vamos lan\u00e7ar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E para encerrar: fazer um \u00e1lbum como esse \u00e9 um jeito de olhar para o pr\u00f3prio passado. Como voc\u00ea disse nessa entrevista, cada disco \u00e9 um retrato do momento. Desses 43 anos de carreira, qual \u00e9 o retrato que melhor define o Inocentes? Qual disco tem a banda melhor representada?<\/strong><br \/>\nCara, <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2011\/08\/30\/relancamento-tres-discos-dos-inocentes\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">eu gosto muito do \u201cAdeus Carne\u201d<\/a> (1987), gosto muito do \u201cEmbalado a V\u00e1cuo\u201d (1997), que \u00e9 com essa forma\u00e7\u00e3o atual, que vai fazer 30 anos em 2025. E gosto muito desse ac\u00fastico. A gente vai relan\u00e7ar o \u201cRuas\u201d (1996) em vinil, ele \u00e9 o primeiro registro da forma\u00e7\u00e3o atual (com Clemente, Ronaldo, Anselmo e o baterista Non\u00f4). Mas realmente, se for pegar uma fotografia do Inocentes, esse ac\u00fastico \u00e9 um disco onde a gente conseguiu recriar as can\u00e7\u00f5es de uma maneira completamente despretensiosa, com amor mesmo. S\u00e3o releituras que fazem letras soarem, pra galera poder cantar\u2026 Foi um disco bem legal de se fazer. \u00c9 um disco bem sincero, porque n\u00e3o tem pretens\u00e3o de fazer sucesso. A gente sabe que n\u00e3o vai tocar nas r\u00e1dios (ri). \u00c9 um disco para a gente poder tocar em outros lugares, porque tem gente que n\u00e3o vai mais em show nosso. N\u00e3o vai num por\u00e3o, numa quebrada, num lugar mais tosco. Por isso que o Blue Note estava lotado num domingo de chuva! Teve um cara que chegou e falou que a \u00faltima vez que tinha visto a gente tinha sido no Madame Sat\u00e3 (risos).<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Clemente e Ronaldo Passos do Inocentes - pocket show ac\u00fastico na loja London Calling Discos\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/3NRkiu1ZHIk?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Inocentes - Som e F\u00faria (DVD Ao Vivo)\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/yyhFQr0yVp4?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Inocentes - Full Show (AudioArena Originals)\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/IaWNNkaIK_s?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Inocentes - [1988] Boca Livre - TV Cultura\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/YrxkSBCgn-4?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"INOCENTES - Programa Perdidos na Noite - 1987\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/9fV2qDtSfSM?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Leonardo Vinhas (<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/leovinhas\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">@leovinhas<\/a>) \u00e9 produtor e autor do livro &#8220;<a href=\"https:\/\/editorabarbante.com.br\/produtos\/o-evangelho-segundo-odair-censura-igreja-e-o-filho-de-jose-e-maria\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">O Evangelho Segundo Odair: Censura, Igreja e O Filho de Jos\u00e9 e Maria<\/a>&#8220;.\u00a0<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Poucas bandas do rock brasileiro t\u00eam um corpo de obra consistente como o Inocentes, e essa cole\u00e7\u00e3o de can\u00e7\u00f5es despojadas, mas n\u00e3o menos en\u00e9rgicas, \u00e9 uma sele\u00e7\u00e3o justa de um bom tanto daquilo que eles fizeram de melhor.\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2024\/12\/09\/entrevista-o-nosso-punk-e-o-punk-77-garage-rock-dos-anos-1960-stooges-new-york-dolls-mc5-diz-clemente-sobre-o-inocentes\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":6,"featured_media":85853,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[3],"tags":[1867],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/85850"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/6"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=85850"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/85850\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":85857,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/85850\/revisions\/85857"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/85853"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=85850"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=85850"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=85850"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}