{"id":8585,"date":"2011-06-06T18:54:04","date_gmt":"2011-06-06T21:54:04","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=8585"},"modified":"2019-07-09T10:44:23","modified_gmt":"2019-07-09T13:44:23","slug":"entrevista-reinaldo-moraes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2011\/06\/06\/entrevista-reinaldo-moraes\/","title":{"rendered":"Entrevista: Reinaldo Moraes"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-8586\" title=\"reinaldo_moraes\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/06\/reinaldo_moraes.jpg\" alt=\"\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Entrevista por Ismael Machado<br \/>\nFoto por Fernanda D\u2019Umbra<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cVamos tomar uma cerveja?\u201d. \u00c9 assim que, depois de uns quinze minutos de espera, sou saudado por Reinaldo Moraes, no sagu\u00e3o do hotel onde ele e a mulher, a editora da Companhia das Letras Marta Garcia, est\u00e3o hospedados em Bel\u00e9m.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os dois foram convidados a bater um papo sobre edi\u00e7\u00e3o e sobre literatura, a convite do Instituto de Artes do Par\u00e1. Reinaldo est\u00e1 de bom humor. Eu tamb\u00e9m, por ter a possibilidade de entrevistar um autor que me \u00e9 caro desde os anos 80, quando descobri \u201cTanto Faz\u201d (1981) e \u201cAbacaxi\u201d (1985).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Moraes est\u00e1 aproveitando para divulgar tamb\u00e9m o elogiado \u201cPornopopeia\u201d. At\u00e9 ent\u00e3o ainda n\u00e3o havia lido o cartap\u00e1cio. A bordo de umas cerpinhas tocamos a entrevista e o escritor elogia a minha coluna no jornal Di\u00e1rio do Par\u00e1, dizendo que foi um texto que fugiu dos releases. Beleza.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Duas horas depois l\u00e1 est\u00e1 o \u201cmaldito\u201d, debatendo literatura entre dois escritores paraenses. O jornalista Alfredo Garcia entende o motivo de estar ali e faz perguntas que abrem espa\u00e7o para que Reinaldo Moraes fale de si e da pr\u00f3pria obra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">J\u00e1 Vicente Cecim n\u00e3o parece entender bem a miss\u00e3o e toca a puxar a sardinha para o pr\u00f3prio lado. Para piorar, parece n\u00e3o ter lido nada de Moraes e desanda a falar mal de palavr\u00f5es na literatura. Reinaldo faz cara de paisagem nesse momento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Terminada a tarefa, a organiza\u00e7\u00e3o do evento leva o escritor para jantar na Esta\u00e7\u00e3o das Docas, ponto tur\u00edstico da cidade. Um editor de uma revista local cola em Moraes e ainda por cima passa cantadas na mulher dele, segundo o pr\u00f3prio Reinaldo diria dois dias depois no almo\u00e7o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Combinamos de tomar umas cervejas no s\u00e1bado \u00e0 tarde. No hor\u00e1rio combinado passo uma mensagem. Ele responde dizendo que j\u00e1 estava a bordo de umas garrafas e pede pra que eu toque pra l\u00e1. Junto comigo v\u00e3o Michelle, minha mulher, produtora de uma TV local e Marcelo Damaso, jornalista, amigo e um dos organizadores de um dos festivais mais bacanas do Brasil, o Se Rasgum.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O papo acontece no Jurunas, na periferia de Bel\u00e9m. Passamos do ponto, nos perdemos em becos, mas acabamos por encontrar o tal bar. Nele, Moraes e Tito Barata, o respons\u00e1vel por trazer Reinaldo Moraes a Bel\u00e9m, j\u00e1 est\u00e3o muito acima do normal et\u00edlico. Sou recebido com um abra\u00e7o de urso por Reinaldo. Damos alguns livros para aut\u00f3grafo e recebemos apenas uns rabiscos engaratujados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A coisa anda meio aos trancos. Parece que estamos diante do personagem dos romances. Eu e Damaso ca\u00edmos na gargalhada. Moraes nos sugere, tr\u00f4pego, uma ida a um puteiro, carburados por algumas subst\u00e2ncias. Mais prudente \u00e9 lev\u00e1-lo de volta ao hotel. Fazemos isso. Tomamos mais algumas cervejas. O escritor vai ao banheiro e depois desaparece.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No dia seguinte, ele me liga, se desculpando pelo poss\u00edvel abuso. Combinamos almo\u00e7o \u00e0 beira do rio. Novamente Damaso passa em casa. Levamos o casal a um restaurante de frente ao rio Guam\u00e1. Cervejas e alguns presentes inusitados. Ganho a edi\u00e7\u00e3o de \u201cPornopopeia\u201d (que estou acabando de ler, deliciado), entre outros livros. O papo flui legal at\u00e9 a hora do embarque deles. Na segunda-feira sai a entrevista no jornal. Mando os links e recebo elogios de ambos. E passo a guardar os tr\u00eas dias como um momento bacana na vida de um rep\u00f3rter.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Abaixo a entrevista com Reinaldo Moraes publicada no jornal Di\u00e1rio do Par\u00e1.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O que \u00e9 esse reconhecimento da cr\u00edtica? O que mudou?<\/strong><br \/>\nDe certa forma est\u00e1 sendo incr\u00edvel. Tem uma repercuss\u00e3o maior. O \u201cPornopopeia\u201d tem atra\u00eddo um p\u00fablico jovem e isso \u00e9 estranho porque eu estou com 61 anos. Mas acho que existe uma necessidade dos jovens de uma literatura que fale mais ao cora\u00e7\u00e3o, ao pau. A molecada de 18, 20 anos, est\u00e1 comprando o \u201cPornopopeia\u201d. \u00c9 curioso, me espanta. Escrevi esse livro num per\u00edodo em que estava no limbo, duro, sem saco pra nada, me separando de um casamento, sem ser chamado pra trabalho algum.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A revista Piau\u00ed publicou um ensaio em que o personagem de \u201cPornopopeia\u201d \u00e9 comparado a personagens cl\u00e1ssicos da literatura brasileira.<\/strong><br \/>\n\u00c9. Foi meio \u2018cabecice\u2019 aquele texto, mas o Mario Sergio Conti faz uma aproxima\u00e7\u00e3o com uma tradi\u00e7\u00e3o picaresca da literatura brasileira. Passa por Braz Cubas, tem um qu\u00ea de Macuna\u00edma. Ele tenta me botar ao lado de uma literatura de pedigree. Eu n\u00e3o me importo muito. Se me botarem ao lado do Z\u00e9firo e da Dercy Gon\u00e7alves, tudo bem. Eu tenho outras vaidades piores que essa, mas n\u00e3o essa, desse tipo de reconhecimento. Meu lugar \u00e9 mais na zona do que na Academia Brasileira de Letras.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O personagem de \u201cAbacaxi\u201d mostra um certo espanto com aquilo que eram as mudan\u00e7as no in\u00edcio da d\u00e9cada de 80. O que ele sentiria agora?<\/strong><br \/>\nTalvez seja ele no final de \u201cPornopopeia\u201d \u00e0 beira do abismo. Acho que a gente est\u00e1 vivendo o tempo do m\u00ednimo. Dizem que n\u00e3o h\u00e1 mais uma cultura reflexiva. Acho que isso sempre foi assim. O que mudou \u00e9 que agora, as pessoas que n\u00e3o leem, que n\u00e3o veem filmes, essas coisas, elas est\u00e3o se mostrando, tendo voz. As pessoas mais fr\u00edvolas vivem se mostrando na internet. \u00c9 um shopping center em escala interplanet\u00e1ria. Mas essas pessoas sempre estiveram a\u00ed. S\u00f3 que hoje a carneirada tem voz e \u00e9 uma voz estridente. \u00c9 a carneirada que est\u00e1 tuitando. Eles se repercutindo. A carneirada sempre venceu.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u201cTanto Faz\u201d alcan\u00e7ou um patamar interessante na literatura. Em sebos paulistas o pre\u00e7o chegava a R$ 200 reais. A que se deve isso?<\/strong><br \/>\nEm \u201cTanto Faz\u201d eu estava brincando de fazer literatura. Eu era rato de biblioteca. Sempre adorei ler e escrever. Mas nesse per\u00edodo eu estava em Paris, numa solid\u00e3o desgra\u00e7ada, tendo encontros aqui e ali com algumas meninas, uns amigos. Ent\u00e3o li os dois romances do Paulo Francis, o jornalista que era considerado o \u2018cara\u2019 na \u00e9poca. Uma porcaria. Li o romance de Carlinhos de Oliveira, \u201cAgonia e \u00caxtase\u201d, um livro mequetrefe. Ent\u00e3o na minha pretens\u00e3o p\u00f3s-juvenil eu disse: \u201cmelhor do que isso eu fa\u00e7o\u201d. Comecei a ficar com raiva daquela literatura toda. Escrevi, mas achava que ningu\u00e9m iria ler. Comecei a circular com ele em Xerox. As pessoas gostavam. \u201cN\u00e3o estou totalmente doido\u201d, pensava. Ent\u00e3o a Brasiliense resolveu lan\u00e7ar. E a primeira edi\u00e7\u00e3o vendeu que nem p\u00e3o quente. Em duas semanas n\u00e3o tinha mais em lugar nenhum. Seis meses depois lan\u00e7aram uma segunda edi\u00e7\u00e3o. Em duas semanas acabou. A terceira edi\u00e7\u00e3o foi esgotada em uma semana. Mas o Caio Graco, dono da Brasiliense come\u00e7ou a ficar em conflito, porque criticavam o livro, que n\u00e3o era engajado, que era muito fragmentado, era alienado. A primeira cr\u00edtica foi feita pelo S\u00e9rgio Riffi, no JB. Desancou. S\u00f3 que muita gente foi comprar por causa disso. E o Caio ficou com medo de enterrar a cole\u00e7\u00e3o, que era a \u2018Cantadas Liter\u00e1rias\u2019. O Ivan Pinheiro, da L&amp;PM, se apaixonou pelo livro e lan\u00e7ou \u201cAbacaxi\u201d por l\u00e1. Acho que foi um movimento espont\u00e2neo da \u00e9poca, a abertura, o rock brasileiro, a cultura estava deixando de ser uma ditadura da esquerda. Meu livro caiu como um \u2018baseado\u2019 naquele momento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A sa\u00edda hoje, em tempos sisudos, \u00e9 pelo humor?<\/strong><br \/>\nSim. O humor \u00e9 um b\u00e1lsamo. O mundo anda muito codificado. Quando algu\u00e9m pega isso e chuta o balde, tem aceita\u00e7\u00e3o. Mas isso \u00e9 uma reflex\u00e3o p\u00f3s-trepada. Na hora da trepada ningu\u00e9m fica analisando. Tem nada disso. An\u00e1lise de literatura parece uma reflex\u00e3o p\u00f3s-trepada. Eu vejo assim: na literatura, a letra \u00e9 o corpo. O palavr\u00e3o s\u00e3o os \u00f3rg\u00e3os genitais. A arte tem uma fun\u00e7\u00e3o consoladora. Essa \u00e9 a cr\u00edtica marxista. Veja a m\u00fasica pop. Ela \u00e9 aspirina pra tudo. Dor de corno, desespero, sexo, solid\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E se a tua literatura fosse uma m\u00fasica, qual seria?<\/strong><br \/>\n\u201cJumping Jack Flash\u201d, dos Rolling Stones. Mas isso \u00e9 uma pretens\u00e3o, claro. A gente morre pela boca.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"por Ismael Machado\n&#8220;Vamos tomar uma cerveja?&#8221;. \u00c9 assim que, depois de uns quinze minutos de espera, sou saudado por Reinaldo Moraes, no&#8230;\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2011\/06\/06\/entrevista-reinaldo-moraes\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":15,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[9],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8585"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/15"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=8585"}],"version-history":[{"count":6,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8585\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":8690,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8585\/revisions\/8690"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=8585"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=8585"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=8585"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}