{"id":85822,"date":"2024-12-06T17:07:22","date_gmt":"2024-12-06T20:07:22","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=85822"},"modified":"2025-01-06T18:40:12","modified_gmt":"2025-01-06T21:40:12","slug":"critica-senna-a-serie-e-infame-e-parece-um-jogo-de-videogame-inexpressivo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2024\/12\/06\/critica-senna-a-serie-e-infame-e-parece-um-jogo-de-videogame-inexpressivo\/","title":{"rendered":"Cr\u00edtica: &#8220;Senna&#8221;, a s\u00e9rie, \u00e9 infame e parece um jogo de videogame inexpressivo"},"content":{"rendered":"<h2><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-85824\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/senna2.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"938\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/senna2.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/senna2-240x300.jpg 240w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/h2>\n<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>texto de <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/leandro_luz\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Leandro Luz<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ayrton Senna \u00e9 um personagem fascinante. Piloto habilidoso, de uma personalidade difusa que oscilava entre a \u00e2nsia pela justi\u00e7a e a obstina\u00e7\u00e3o pelo sucesso a qualquer custo. Her\u00f3i de uma na\u00e7\u00e3o, namorado da Xuxa e porta-voz de uma suposta moralidade crist\u00e3 que se comunicava amplamente com os seus f\u00e3s brasileiros. M\u00e1rtir de um Brasil desmantelado e esperan\u00e7oso (&#8220;o Brasil \u00e9 o pa\u00eds do futuro&#8221;). Paladino e bom mo\u00e7o para uns, esnobe e hip\u00f3crita para outros. \u00c9 uma pena &#8211; embora este fato j\u00e1 estivesse mais do que anunciado &#8211; que \u201cSenna\u201d (Vicente Amorim, 2024) tenha se concentrado \u00fanica e exclusivamente na superficialidade deste personagem, adotando, para piorar, a abordagem mais infame poss\u00edvel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c0 exce\u00e7\u00e3o de um ou dois momentos que se salvam pela compet\u00eancia e pelo carisma de alguns poucos coadjuvantes, os tr\u00eas diretores que assinam a miniss\u00e9rie (Vicente Amorim, Julia Rezende e Marcelo Siqueira) n\u00e3o conseguem criar praticamente nada que n\u00e3o se pare\u00e7a com 1) um comercial de TV, 2) um jogo de videogame inexpressivo ou 3) um v\u00eddeo de campanha de um candidato a prefeito populista. A quantidade absurda de dinheiro gasta com a recria\u00e7\u00e3o em CGI de carros e de corridas ic\u00f4nicas da F1 traz consigo um gosto amargo porque praticamente todas elas s\u00e3o filmadas da mesma maneira, com planos fechad\u00edssimos e efeitos que simulam uma esp\u00e9cie de perturba\u00e7\u00e3o cognitiva de Senna, elemento at\u00e9 bem utilizado dramaticamente, mas que de t\u00e3o recorrente soa excessivo e logo perde a sua efic\u00e1cia. A montagem, quase sempre fren\u00e9tica e picotada, tamb\u00e9m rapidamente se esgota.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Independentemente de tais escolhas &#8220;funcionarem&#8221; ou n\u00e3o, \u00e9 evidente que este \u00e9 um produto de \u201csucesso\u201d. Ap\u00f3s meses de publicidade ostensiva, \u201cSenna\u201d estreou no \u00faltimo 29 de novembro na Netflix e vem mobilizando grande p\u00fablico no Brasil e no exterior &#8211; mesmo sem alcan\u00e7ar n\u00fameros bomb\u00e1sticos (pelo menos de acordo com a expectativa da \u201ctoda poderosa do streaming\u201d e a julgar pelas \u00faltimas mat\u00e9rias na imprensa), a miniss\u00e9rie apareceu no top 10 das produ\u00e7\u00f5es mais assistidas em l\u00edngua n\u00e3o inglesa na plataforma. Uma aposta muito calculada, concebida para alcan\u00e7ar multid\u00f5es e recuperar com folga os milh\u00f5es investidos.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-85826\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/senna3.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/senna3.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/senna3-300x176.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">At\u00e9 a\u00ed nada muito diferente de 99% das produ\u00e7\u00f5es dessa escala. No entanto, \u00e9 triste constatar como a pr\u00f3pria equipe respons\u00e1vel pela obra parece n\u00e3o confiar nas pr\u00f3prias escolhas. Voltando a tratar das cenas mais desafiadoras e caras em termos de produ\u00e7\u00e3o, percebe-se muito rapidamente como a picaretagem est\u00e1 escancarada, vide a necessidade constante de inser\u00e7\u00f5es de imagens de arquivo das corridas, ainda que super breves, mas indispens\u00e1veis para que a montagem n\u00e3o imploda, ao mesmo tempo did\u00e1tica e incompreens\u00edvel, em si mesma. Fatores como a prov\u00e1vel interfer\u00eancia da fam\u00edlia de Senna no roteiro e toda a pol\u00eamica envolvendo a figura da ex-modelo, atriz e apresentadora Adriane Galisteu estarem suplantando as discuss\u00f5es a respeito da obra em si s\u00e3o pistas de sua fragilidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 uma personagem (se \u00e9 que podemos chamar assim) que flutua pelos seis epis\u00f3dios, uma jornalista (Kaya Scodelario) que serve ao roteiro como uma esp\u00e9cie de representa\u00e7\u00e3o da maneira como Senna foi percebido historicamente pela imprensa mundial, que parece sa\u00edda diretamente de uma sugest\u00e3o ruim da qual algum manda-chuva da produ\u00e7\u00e3o se apegou e exigiu, dali em diante, manter. Apesar dos p\u00edfios esfor\u00e7os, essa presen\u00e7a quase fantasmag\u00f3rica (seria at\u00e9 interessante caso o fosse) na verdade se mostra apenas uma m\u00e1 ideia que pouco consegue se manter de p\u00e9. Em determinado epis\u00f3dio, descobrimos que ela tem uma filha, mas a obra \u00e9 incapaz de sequer rascunhar uma vida independente de sua &#8220;fun\u00e7\u00e3o narrativa&#8221;. Scodelario, atriz brit\u00e2nica fluente em portugu\u00eas por ser filha de brasileira, est\u00e1 sendo exaltada pelas bandas de c\u00e1, mas a sua interpreta\u00e7\u00e3o n\u00e3o contribui para tirar a personagem do buraco.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O mesmo problema pode ser observado na personagem de uma crian\u00e7a negra, f\u00e3 de Senna, que costura os momentos mais marcantes da carreira do piloto e parece simbolizar os \u201cverdadeiros brasileiros\u201d. A personagem \u00e9 oca &#8211; mora com o seu pai em uma favela, assiste avidamente a todas as corridas e presenteia o seu \u00eddolo com desenhos enviados pelo correio &#8211; e, mais uma vez, est\u00e1 l\u00e1 \u00fanica e exclusivamente a servi\u00e7o de algo pretensioso: no caso, ser um dos principais motivos para que Senna continue trilhando a sua jornada do her\u00f3i. Um contrassenso, evidentemente, pois muito cedo na trama entendemos que a obsess\u00e3o cega e irrespons\u00e1vel de Senna tem a ver com o seu ego\u00edsmo e uma puls\u00e3o de morte muito pr\u00f3pria. Praticamente um Th\u00e1natos tupiniquim.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Gabriel Leone adota um ar taciturno, pois o seu Senna est\u00e1 sempre insatisfeito. Mimado, n\u00e3o quer ser piloto de teste, precisa mergulhar direto no estrelato. N\u00e3o se conforma com o seu carro na Toleman, nem est\u00e1 satisfeito com as expectativas que a Lotus lhe oferece. Ser o n\u00ba 2 de Alain Prost na McLaren? Nem pensar. D\u00e1-me logo aqui o meu t\u00edtulo de campe\u00e3o! Todas essas nuances maravilhosas s\u00e3o obliteradas pelo roteiro, sempre mais interessado nas virtudes e na autodeclarada integridade do homem que deu ao Brasil o seu quinh\u00e3o de felicidade em plena transi\u00e7\u00e3o entre a Ditadura Militar e a abertura pol\u00edtica para uma democracia que permitiu eleger os seus primeiros presidentes civis ap\u00f3s 21 anos de tiranias (ainda que Fernando Collor de Mello tenha sido um deles).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os demais atores se revezam entre a divertida caricatura inevit\u00e1vel (Gabriel Louchard e seu Galv\u00e3o Bueno; P\u00e2mela Tom\u00e9 e sua Xuxa; Johannes Heinrichs e seu Niki Lauda) e o tom excessivamente grave, t\u00edpico de atua\u00e7\u00f5es em obras baseadas em hist\u00f3rias e personagens reais (Matt Mella como Prost; Marco Ricca como pai de Senna; Camila M\u00e1rdila como a irm\u00e3 que ir\u00e1 fundar o Instituto Ayrton Senna; e v\u00e1rios outros exemplos menos chamativos).<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-85827\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/senna4.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/senna4.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/senna4-300x176.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o s\u00e3o escassos na hist\u00f3ria do cinema filmes capazes de materializar esse encantamento com a combina\u00e7\u00e3o carros e velocidade: no \u00e2mbito da F\u00f3rmula 1, os recentes \u201cRush: No Limite da Emo\u00e7\u00e3o\u201d (Ron Howard, 2013) e \u201cFord vs. Ferrari\u201d (James Mangold, 2019) apresentaram um resultado bem interessante; \u201cEscuderia do Poder\u201d (David Cronenberg, 1979) e \u201cSpeed Racer\u201d (Lana Wachowski e Lilly Wachowski, 2008), resguardadas as devidas diferen\u00e7as temporais e de abordagem, s\u00e3o dois exemplos que fogem da rela\u00e7\u00e3o tradicional com o esporte e que merecem ser lembrados; ainda, no \u00e2mbito documental, e muito bem-vindo nessa discuss\u00e3o sobre como a figura de Ayrton Senna foi retratada midiaticamente, o hom\u00f4nimo \u201cSenna\u201d (Asif Kapadia, 2010) \u00e9 uma obra que merece ser revisitada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A adrenalina oferecida por autom\u00f3veis \u00e9 e sempre ser\u00e1 um assunto sedutor para muita gente. Pilotos incautos que d\u00e3o voltas e mais voltas em uma pista, se digladiando para vencer uns aos outros e a si mesmos, dispostos a quebrar recordes e alcan\u00e7ar uma velocidade jamais vista. A miniss\u00e9rie n\u00e3o se furta desses prazeres regados a \u00f3leo, suor e peda\u00e7os de fibra de carbono, por\u00e9m, abdica de um olhar autoral para uma hist\u00f3ria e um personagem j\u00e1 muito conhecidos, se rendendo a um modelo de produ\u00e7\u00e3o ins\u00edpido que valoriza a dire\u00e7\u00e3o de arte e a reconstitui\u00e7\u00e3o de \u00e9poca \u201cimpec\u00e1veis\u201d em detrimento de \u201cqualquer coisa que se sinta\u201d, como diria o compositor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para quem quiser muito assistir ao Gabriel Leone interpretando um piloto destemido, <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2024\/02\/24\/critica-em-ferrari-com-michael-mann-esbanjando-vitalidade-culpa-e-morte-sao-elementos-presentes\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">sugiro dar o play em &#8220;Ferrari&#8221;<\/a> (Michael Mann, 2023 &#8211; dispon\u00edvel no Prime Video), decididamente um dos melhores filmes da d\u00e9cada at\u00e9 aqui. Curiosamente, Leone tamb\u00e9m interpreta um homem (Alfonso de Portago) obcecado pela vit\u00f3ria e que morreu cedo demais em fun\u00e7\u00e3o de sua grande obsess\u00e3o. J\u00e1 com &#8220;Senna&#8221; voc\u00ea corre um s\u00e9rio risco de assistir \u00e0 mais recente mega produ\u00e7\u00e3o da Netflix e, ainda por cima, ser coagido a adotar um novo-velho her\u00f3i de estima\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Senna | Trailer oficial | Netflix Brasil\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/AGT5bUsOPLk?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u2013 Leandro Luz (<a href=\"https:\/\/twitter.com\/leandro_luz\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">@leandro_luz<\/a>) escreve e pesquisa sobre cinema desde 2010. Coordena os projetos de audiovisual do Sesc RJ desde 2019 e exerce atividades de cr\u00edtica nos podcasts\u00a0<a href=\"https:\/\/podcasters.spotify.com\/pod\/show\/plano-sequencia\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Plano-Sequ\u00eancia<\/a>\u00a0e\u00a0<a href=\"https:\/\/podcasters.spotify.com\/pod\/show\/plano-sequencia\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">1 disco, 1 filme.<\/a><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"&#8220;Senna&#8221; n\u00e3o consegue fugir de parecer 1) um comercial de TV, 2) um jogo de videogame inexpressivo ou 3) um v\u00eddeo de campanha de um candidato a prefeito populista. \n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2024\/12\/06\/critica-senna-a-serie-e-infame-e-parece-um-jogo-de-videogame-inexpressivo\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":137,"featured_media":85823,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[7497],"tags":[154],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/85822"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/137"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=85822"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/85822\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":85828,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/85822\/revisions\/85828"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/85823"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=85822"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=85822"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=85822"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}