{"id":85722,"date":"2024-12-01T02:25:14","date_gmt":"2024-12-01T05:25:14","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=85722"},"modified":"2025-01-31T12:02:21","modified_gmt":"2025-01-31T15:02:21","slug":"musica-um-martirio-ao-lado-da-incomparavel-diamanda-galas-em-sua-classica-trilogia-da-aids","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2024\/12\/01\/musica-um-martirio-ao-lado-da-incomparavel-diamanda-galas-em-sua-classica-trilogia-da-aids\/","title":{"rendered":"M\u00fasica: Um mart\u00edrio ao lado de Diamanda Gal\u00e1s em sua cl\u00e1ssica trilogia da AIDS"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>texto de\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/renan.machadoguerra\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Renan Guerra<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nos \u00faltimos 40 anos, rar\u00edssimos artistas tiveram a coragem \u2013 e o privil\u00e9gio \u2013 de se manterem constantes em sua arte, fieis \u00e0 sua pr\u00f3pria \u00e9tica e t\u00e3o extremamente dedicados ao seu of\u00edcio quanto Diamanda Gal\u00e1s, uma das artistas mais ousadas e inventivas do nosso tempo, dona de uma das obras mais extremas e viscerais dos \u00faltimos 40 anos \u2013 sim, visceral se tornou termo chav\u00e3o na cr\u00edtica de arte nos anos 2000 e foi usado de forma exagerada para muitas coisas, mas no caso de Diamanda \u00e9 dif\u00edcil encontrar outra palavra que defina t\u00e3o bem. Nesse sentido, vale se apropriar da fala de ANOHNI sobre sua rela\u00e7\u00e3o com a persona de Diamanda Gal\u00e1s: \u201cN\u00e3o conhe\u00e7o ningu\u00e9m que tenha dedicado sua vida e energia mais inteiramente a seu trabalho do que Diamanda. N\u00e3o conhe\u00e7o ningu\u00e9m que tenha escalado a face da lua com sua voz como Diamanda, que se sentou sozinha na escurid\u00e3o e procurou tanto como ela. Ela deu mais de si do que podemos imaginar. Ela busca a excel\u00eancia a cada respira\u00e7\u00e3o, seu canto \u00e9 incompar\u00e1vel, ela \u00e9 ol\u00edmpica em sua habilidade e, simplesmente, est\u00e1 sozinha em seu of\u00edcio. Ela \u00e9 a Maria Callas dos nossos dias e n\u00e3o tem igual. Ela manteve-se fiel \u00e0s suas inten\u00e7\u00f5es ao longo da sua carreira, brutalmente fiel aos seus valores\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Incentivada por seu pai, Diamanda foi introduzida ao piano ainda aos tr\u00eas anos de idade e logo teve uma forma\u00e7\u00e3o musical voltada para a m\u00fasica cl\u00e1ssica. Ainda na inf\u00e2ncia, tamb\u00e9m teve aulas de cello e violino e contato com o jazz, o blues e ritmos cl\u00e1ssicos gregos \u2013 sua m\u00e3e era de ascend\u00eancia grega e seu pai de ascend\u00eancia eg\u00edpcia. Al\u00e9m da m\u00fasica, a artista tamb\u00e9m tinha uma intensa rela\u00e7\u00e3o com a literatura cl\u00e1ssica, indo de nomes como Edgar Allan Poe e Marqu\u00eas de Sade \u00e0 pensadores como Nietzsche. Curiosamente, Diamanda n\u00e3o foi direto para uma forma\u00e7\u00e3o art\u00edstica, formando-se em bioqu\u00edmica, com especializa\u00e7\u00e3o em imunologia e hematologia \u2013 um tanto quanto distinto, mas at\u00e9 que far\u00e1 sentido com o objeto de estudo ao qual ela se dedica e que desdobramos nesse texto, isto \u00e9, a s\u00edndrome da imunodefici\u00eancia adquirida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 s\u00f3 na p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o que ela far\u00e1 uma \u201cmaster\u201d em m\u00fasica, isso tudo nos anos 1970. \u201cThe Litanies of Satan\u201d, o primeiro disco, s\u00f3 chegaria em 1982, uma obra ainda hoje assustadora e desafiadora. De car\u00e1ter oper\u00edstico, o disco tem duas pe\u00e7as: o lado A traz \u201cEyes Without Blood\u201d, uma adapta\u00e7\u00e3o de quase 18 minutos de um texto de Charles Baudelaire; o lado B \u00e9 uma experi\u00eancia de filme de terror chamada \u201cWild Women with Steak-Knives\u201d. \u00c9 um disco em que Diamanda chega com os dois p\u00e9s na porta. Ou\u00e7a por sua conta e risco e se surpreenda. Seus dois primeiros trabalhos s\u00e3o excelentes (o segundo, \u201cDiamanda Gal\u00e1s \u2013 AKA Panoptikon \u2013 AKA The Metalanguage Album\u201d, saiu em 1984), por\u00e9m \u00e9 em seu terceiro lan\u00e7amento que chegamos ao objeto desse texto: sua trilogia da AIDS, formada por \u201c<a href=\"https:\/\/diamandagalas.bandcamp.com\/album\/the-divine-punishment-2022-remaster\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">The Divine Punishment<\/a>\u201d (1986), \u201c<a href=\"https:\/\/diamandagalas.bandcamp.com\/album\/saint-of-the-pit-2024-remaster\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Saint of the Pit<\/a>\u201d (1986) e \u201c<a href=\"https:\/\/diamandagalas.bandcamp.com\/album\/you-must-be-certain-of-the-devil\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">You Must Be Certain of the Devil<\/a>\u201d (1988), discos que depois foram reunidos no box \u201cMasque of the Red Death\u201d (1988). Nesse texto tamb\u00e9m incluiremos \u201c<a href=\"https:\/\/diamandagalas.bandcamp.com\/album\/plague-mass\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Plague Mass<\/a>\u201d, performance de 1989 lan\u00e7ada em disco em 1990, e que funciona como um ato final da trilogia da AIDS \u2013 aqui falamos essencialmente desse per\u00edodo art\u00edstico, mas refor\u00e7amos que o HIV\/AIDS \u00e9 at\u00e9 hoje um tema fundamental na obra de Diamanda, sendo ela uma ativista importante da causa, com a\u00e7\u00f5es marcantes ao lado do coletivo ACT UP.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"The Divine Punishment (2022 Remaster)\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/videoseries?list=OLAK5uy_nKk30u9qcYH-l849GaGrowGbQ05cg9FRo\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Cercada por amigos, artistas e at\u00e9 familiares que foram diretamente impactados pela epidemia de HIV\/AIDS no come\u00e7o dos anos 1980, Diamanda Gal\u00e1s faz de sua trilogia uma experi\u00eancia excruciante sobre a dor, o medo e o desamparo que pairavam sobre aqueles tempos. Em 1986, Gal\u00e1s lan\u00e7a \u201cThe Divine Punishment\u201d (acima), obra de abertura de sua trilogia, onde os sons de sintetizadores anal\u00f3gicos e piano tocados pela artista se unem ao trabalho de Dave Hunt, criando as bases para cantos quase f\u00fanebres que criam di\u00e1logos entre textos do Antigo Testamento com trechos das Lamenta\u00e7\u00f5es e do Livro dos Salmos, mais especificamente os Salmos 22, 59 e 88. Esse contraponto entre textos b\u00edblicos e sagrados \u00e9 uma forma de usar das pr\u00f3prias armas dos que usavam a religi\u00e3o como forma de criar uma ca\u00e7a \u00e0s bruxas: se eles nos apontam como os culpados pela nossa pr\u00f3pria agonia, Gal\u00e1s escava nos pr\u00f3prios textos religiosos um meio de ir al\u00e9m e de tensionar a hipocrisia e o \u00f3dio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cThe Divine Punishment\u201d foi lan\u00e7ado em 30 de junho de 1986, data na qual, nos Estados Unidos, estados como o da Ge\u00f3rgia estavam discutindo leis para criminalizar a sodomia, isso numa altura que mais de 15 mil norte-americanos j\u00e1 haviam morrido em decorr\u00eancia da AIDS. Em 12 de agosto, Philip-Dimitri Gal\u00e1s, irm\u00e3o de Diamanda, morreu aos 32 anos, com insufici\u00eancia renal e pneumonia, em decorr\u00eancia da AIDS. Dramaturgo, diretor, artista e empres\u00e1rio, Philip-Dimitri tinha completado 32 anos um m\u00eas antes de sua morte. Um escritor jovem e que ainda estava vendo seus trabalhos sendo reconhecido aos poucos pelos EUA, Philip-Dimitri trabalhou incansavelmente nos meses finais de sua vida e conseguiu finalizar algumas obras que vinha trabalhando \u2013 no ano de 1986, a atriz Helen Shumaker, que era uma parceira importante de trabalho do dramaturgo, levou aos palcos de S\u00e3o Francisco duas montagens de seus textos finais.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"La Trezi\u00e8me Revient (The Thirteenth Returns)\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/Q0tuqtIz_B8?list=OLAK5uy_mOEcHf3SYBwXr9TxZVQCFlMeeXLvh58iU\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">17 de novembro do mesmo tenebroso ano, Diamanda Gal\u00e1s apresenta \u201cSaint of the Pit\u201d (acima), o segundo ato dessa trilogia, um disco que esmi\u00fa\u00e7a a dor, o sofrimento e a agonia tendo como inspira\u00e7\u00e3o textos cl\u00e1ssicos de poetas malditos franceses como Charles Baudelaire, G\u00e9rard de Nerval e Tristan Corbi\u00e8re. Estes dois primeiros atos lan\u00e7ados em 1986 s\u00e3o marcados por uma sonoridade completamente dilacerante em que a dor, o medo e a ang\u00fastia se tornam quase palp\u00e1veis para o ouvinte. Esses atos iniciais funcionam como uma via crucis da artista por aquela dor que ela estava vendo e sentindo ao lado dos seus. \u201cYou Must Be Certain of the Devil\u201d, o terceiro cap\u00edtulo de \u201cMasque of the Red Death\u201d, foi gravado em 1987, mas chegaria ao p\u00fablico apenas em maio de 1988. Aqui, Gal\u00e1s se debru\u00e7a sobre universos da m\u00fasica gospel norte-americana e, mais uma vez, as vira do avesso, pegando can\u00e7\u00f5es sobre culpa, pecado e perd\u00e3o colocar em discuss\u00e3o o preconceito, o medo e a estranha necessidade de culpabilizar os outros a partir de vieses religiosos que deveriam ser pessoais. Uma can\u00e7\u00e3o tradicional como \u201cLet My People Go\u201d ganha contornos tortos e assume outro car\u00e1ter na voz da artista \u2013 essa faixa se tornou quase um cl\u00e1ssico no repert\u00f3rio de Gal\u00e1s. Outras can\u00e7\u00f5es como \u201cMalediction\u201d ou mesmo a m\u00fasica-t\u00edtulo s\u00e3o exemplos interessant\u00edssimos da for\u00e7a desse disco. Dentro desse cen\u00e1rio, esse pode ser considerado o disco mais acess\u00edvel dos citados nesse texto, especialmente por que aqui vemos conex\u00f5es ricas e interessantes da artista com o rock industrial, o darkwave e outros subg\u00eaneros em voga na d\u00e9cada de 1980.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Vale fazer um par\u00eantese, pois na virada para os anos 1990, al\u00e9m de trabalhar em sua pr\u00f3pria trilogia sobre a AIDS e em suas atividades de ativista, Diamanda tamb\u00e9m participou da seminal trilogia da AIDS de Rosa von Praunheim, cineasta alem\u00e3o fundamental para o cinema queer. Entre 1989 e 1990, Praunheim dirigiu \u201cSchweigen = Tod\u201d (Sil\u00eancio = Morte), \u201cPositiv\u201d (Positivo) e \u201cFeuer unterm Arsch\u201d (\u201cFogo embaixo do seu rabo\u201d), tr\u00eas document\u00e1rios que constroem um interessante panorama sobre a situa\u00e7\u00e3o do HIV\/AIDS em Berlim e tamb\u00e9m em Nova York, e \u00e9 nesta segunda cidade que Diamanda aparece no filme de 1990, \u201cPositiv\u201d, tanto falando sobre a situa\u00e7\u00e3o da AIDS nos EUA, quanto falando da import\u00e2ncia da arte e do ativismo nesse momento. Diamanda ainda performa para as lentes de Praunheim uma das can\u00e7\u00f5es de sua trilogia.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Swing Low Sweet Chariot\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/x4BwIYrVkrc?list=OLAK5uy_ndHmGs6pqkBCCy4f5FS9Vqm8XFd4DQpmA\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Voltando \u00e0 trilogia de Gal\u00e1s, os tr\u00eas discos foram lan\u00e7ados em vinil pela Mute Records, importante gravadora independente brit\u00e2nica que havia se tornado a respons\u00e1vel pela carreira da artista (assim como a de Nick Cave and the Bad Seeds, Depeche Mode, Wire, Erasure e Laibach, entre outros). Por isso, em um movimento bastante interessante e moderno para 1988, eles decidem reunir os tr\u00eas discos em uma colet\u00e2nea de CDs, um box chamado \u201cMasque of the Red Death\u201d, t\u00edtulo em refer\u00eancia ao conto \u201cA M\u00e1scara da Morte Rubra\u201d, de Edgar Allan Poe. O texto de horror de 1842 se passa em uma regi\u00e3o que vem sendo devastada pela \u201cmorte rubra\u201d. Neste cen\u00e1rio, o pr\u00edncipe Pr\u00f3spero decide reunir e trancar, em uma abadia fortificada, mil amigos escolhidos entre os cavaleiros e as damas de sua corte. Ap\u00f3s alguns meses de confinamento, quando a peste est\u00e1 em seu \u00e1pice do lado de fora da abadia, o pr\u00edncipe decide oferecer um baile de m\u00e1scaras, por\u00e9m este baile ser\u00e1 invadido por um intruso e \u00e9 nesse foco que a hist\u00f3ria ganhar\u00e1 seu principal enfoque. De car\u00e1ter simb\u00f3lico e metaf\u00f3rico muito forte, o texto de Poe voltou a ganhar circula\u00e7\u00e3o e muitos leitores recentemente, nos anos de 2020, com o avan\u00e7o da pandemia de covid-19.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O box \u201cMasque of the Red Death\u201d traz em seu encarte o texto \u201cA plague mass in 3 parts\u201d, algo que em uma tradu\u00e7\u00e3o livre seria como \u201cuma missa sobre a peste em 3 partes\u201d. Essa missa de Diamanda Gal\u00e1s em torno da AIDS seria realmente celebrada em uma igreja nos dias 12 e 13 de outubro, quando ela levou o espet\u00e1culo \u201cMasque of the Red Death (1984 &#8211; end of Epidemic) &#8211; There No More Tickets To The Funeral\u201d para a Catedral de S\u00e3o Jo\u00e3o, o Divino, em Nova York. Diamanda n\u00e3o \u00e9 uma amiga da igreja, nem nada disso, e vale resgatar um epis\u00f3dio ocorrido um ano antes: j\u00e1 morando em Nova York no final dos anos 1980, a artista se uniu ao importante grupo de ativistas da Act Up e, entre as muitas atividades ousadas e precursoras do grupo, Gal\u00e1s esteve ao lado deles no ato que ficou conhecido como \u201cStop The Church\u201d, que ocorreu em 10 de dezembro de 1989, na Catedral de S\u00e3o Patr\u00edcio, na Quinta Avenida, em Nova York, que era ent\u00e3o coordenada pelo cardeal John Joseph O&#8217;Connor. O cardeal era uma importante voz da igreja nos EUA que era contra a distribui\u00e7\u00e3o de preservativos e lutava pela proibi\u00e7\u00e3o do ensino de educa\u00e7\u00e3o sexual nas escolas. Em fun\u00e7\u00e3o disso, os ativistas invadiram uma missa e interromperam o cerimonial para relembrar a coniv\u00eancia da Igreja Cat\u00f3lica perante as mortes de pessoas em decorr\u00eancia da AIDS. Obviamente, muitos ativistas foram presos \u2013 alguns chegaram a ser presos ainda dentro da igreja. John Joseph O\u2019Connor foi uma importante voz contra os direitos de pessoas LGBTQIA+ at\u00e9 a sua morte em 2000 e sua trajet\u00f3ria \u00e9 marcada por nebulosos casos em que ele chegou a proteger e auxiliar padres acusados de abusos sexuais dentro da igreja.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"There Are No More Tickets to the Funeral\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/R0ifDjiPfSs?list=OLAK5uy_mlQQsW4UOg5QT4hg56gPNkxgf_HYZaRKg\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Enfim, voltemos ao espet\u00e1culo \u201cMasque of the Red Death (1984 &#8211; end of Epidemic) &#8211; There No More Tickets To The Funeral\u201d, pois ele viria a ser lan\u00e7ado em disco em 1990 sob o t\u00edtulo de \u201cPlague Mass\u201d, com uma das capas mais incr\u00edveis e aterrorizantes da carreira de Diamanda Gal\u00e1s (acima). Este registro ao vivo \u00e9 um manifesto absurdo e poderoso sobre a culpa e o sangue que carregam todos aqueles que silenciaram, todos aqueles que consideraram sua moral acima de sua humanidade e todos aqueles que tiveram em suas m\u00e3os o poder de fazer a mudan\u00e7a, mas optaram pela complac\u00eancia. A abertura com \u201cThere Are No More Tickets To The Funeral\u201d \u00e9 um p\u00e9 na porta poderoso com seus mais de 13 minutos, seguindo da tens\u00e3o destruidora de \u201cThis Is The Law of the Plague\u201d. O momento mais forte e excruciante do disco se encontra na dobradinha que abre com \u201cI Wake Up and I See The Face of the Devil\u201d e segue em \u201cConfessional (Give Me Sodomy or Give Me Death)\u201d em que ela conta a hist\u00f3ria de um personagem agonizante que, em seu leito de morte, v\u00ea anjinhos implorando para que ele enfim confesse seus pecados, ao que ele responde \u201cYes, I confess: \/ Give me sodomy or give me death!\u201d (Sim, eu confesso: \/ D\u00ea-me sodomia ou d\u00ea-me a morte!\u201d). \u201cLet Us Praise the Masters of Slow Death\u201d \u00e9 outro petardo que vale ser ouvido e acompanhado da letra completamente vociferante assinada por Gal\u00e1s.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cPlague Mass\u201d \u00e9 o ep\u00edlogo perfeito da trilogia de Diamanda Gal\u00e1s, um ato como que inacabado, j\u00e1 que ela mesmo deixa marcado no t\u00edtulo do espet\u00e1culo \u201c1984 &#8211; fim da epidemia\u201d. Em 2024, ainda n\u00e3o chegamos a esse fim. Segundo um relat\u00f3rio da ONU, a pandemia da AIDS pode acabar at\u00e9 2030, por\u00e9m essa ainda \u00e9 uma previs\u00e3o que pode ser alterada, considerando que a desigualdade no acesso a tratamento e profilaxia \u00e9 um dos desafios a serem superados por diferentes pa\u00edses no mundo \u2013 o Brasil mesmo, que sempre foi uma refer\u00eancia mundial no enfrentamento ao HIV\/AIDS, passou por maus-bocados nas m\u00e3os de governos de direita que tentaram ao m\u00e1ximo desmantelar nossos programas de preven\u00e7\u00e3o e tratamento.<\/p>\n<figure id=\"attachment_85724\" aria-describedby=\"caption-attachment-85724\" style=\"width: 750px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-85724\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/diamanda1.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"750\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/diamanda1.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/diamanda1-300x300.jpg 300w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/diamanda1-150x150.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-85724\" class=\"wp-caption-text\"><em>Capa do box \u201cMasque of the Red Death\u201d, de Diamanda Gal\u00e1s<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 2024, falamos cada vez mais em pensar e criar novas narrativas sobre o HIV\/AIDS, outras narrativas que apontam vida e resist\u00eancias, quest\u00f5es que podem ser vistas em interessantes trabalhos nacionais, como no filme \u201cDeus tem AIDS\u201d, de Gustavo Vinagre e F\u00e1bio Leal, ou no texto teatral de \u201cA doen\u00e7a do outro\u201d, de Ronaldo Serruya, que ganhou edi\u00e7\u00e3o em livro (se n\u00e3o leu, fica a dica: <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2024\/11\/30\/literatura-ronaldo-serruya-cria-outras-possibilidades-para-se-viver-com-hiv-no-texto-teatral-a-doenca-do-outro\/\">leia<\/a>). Por isso mesmo, retornar ao universo de \u201cMasque of the Red Death\u201d soa como o contr\u00e1rio, pois ainda \u00e9 um retorno a um espet\u00e1culo sobre morte, agonia e dor. N\u00e3o \u00e9 essencialmente o tipo de narrativa que almejamos sobre a AIDS hoje, mas o trabalho fundamental de Diamanda Gal\u00e1s \u00e9 t\u00e3o poderoso em remoer sobre as dores que ela vivenciava naquele espa\u00e7o-tempo que acabou se tornando um manifesto poderoso sobre abandono, sobre medo e sobre falta de humanidade \u2013 a ousadia de Gal\u00e1s de remexer em textos e signos religiosos como forma de refor\u00e7ar os discursos rancorosos de uma parcela conservadora da sociedade ainda \u00e9 um golpe de mestre. Retornar \u00e0 via crucis da AIDS ao lado de Gal\u00e1s \u00e9 como descer ao \u201cInferno\u201d de Dante Alighieri, \u00e9 como um retorno aos horrores que outros tantos passaram, \u00e9 novamente um lembrete de que n\u00e3o podemos deixar esse tipo de coisa se repetir e de que n\u00e3o podemos esquecer daqueles que vieram antes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Depois de mais de 40 anos dos primeiros casos de HIV\/AIDS, hoje em dia se vive bem e com qualidade de vida: atualmente uma pessoa com HIV tem tanta expectativa de vida quanto uma pessoa que n\u00e3o vive com o HIV. E nesse cen\u00e1rio, precisamos de duas frentes: uma que aponta novos futuros e uma que n\u00e3o esque\u00e7a as nossas chagas do passado, pois s\u00f3 assim poderemos avan\u00e7ar!<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Diamanda Galas - Saint of the Pit [The Tube] (1986)\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/Mn4peh_H-z8?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Diamanda Gal\u00e1s - Double-Barrel Prayer (1988) [HD 1080]\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/9ynRzeqHKLY?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Diamanda Galas - Let My People Go\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/nSc5-RkndnQ?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Diamanda Galas at  DV8 9-15-88\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/h7yDmlK-Jxw?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Diamanda Gal\u00e1s - Hannover 1988\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/bRyYEkR1ZEQ?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u2013\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/renan.machadoguerra\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Renan Guerra<\/a>\u00a0\u00e9 jornalista<\/em>\u00a0e<em>\u00a0escreve para o Scream &amp; Yell desde 2014. Faz parte do\u00a0<a href=\"http:\/\/vamosfalarsobremusica.com.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" data-saferedirecturl=\"https:\/\/www.google.com\/url?q=http:\/\/vamosfalarsobremusica.com.br\/&amp;source=gmail&amp;ust=1630729890879000&amp;usg=AFQjCNGttyQx5OWOAKRyi7iGq8E4oacvuw\">Podcast Vamos Falar Sobre M\u00fasica<\/a>\u00a0e colabora com o\u00a0<a href=\"https:\/\/monkeybuzz.com.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" data-saferedirecturl=\"https:\/\/www.google.com\/url?q=https:\/\/monkeybuzz.com.br\/&amp;source=gmail&amp;ust=1630729890879000&amp;usg=AFQjCNFjG1FOw9vBGrawiUhocH4mshwTtw\">Monkeybuzz<\/a>\u00a0e a\u00a0<a href=\"https:\/\/revistabalaclava.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" data-saferedirecturl=\"https:\/\/www.google.com\/url?q=https:\/\/revistabalaclava.com\/&amp;source=gmail&amp;ust=1630729890879000&amp;usg=AFQjCNFqHswo4qEcyg8fw9VPM8IWsRH5oQ\">Revista Balaclava<\/a>.\u00a0<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"O  trabalho de Diamanda Gal\u00e1s \u00e9 t\u00e3o poderoso em remoer sobre as dores que ela vivenciava naquele espa\u00e7o-tempo que acabou se tornando um manifesto poderoso sobre abandono, sobre medo e sobre falta de humanidade\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2024\/12\/01\/musica-um-martirio-ao-lado-da-incomparavel-diamanda-galas-em-sua-classica-trilogia-da-aids\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":3,"featured_media":85725,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[3],"tags":[1902],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/85722"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=85722"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/85722\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":85730,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/85722\/revisions\/85730"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/85725"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=85722"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=85722"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=85722"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}