{"id":85714,"date":"2024-11-30T00:31:03","date_gmt":"2024-11-30T03:31:03","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=85714"},"modified":"2025-01-20T01:09:57","modified_gmt":"2025-01-20T04:09:57","slug":"entrevista-marcelo-gomes-recria-a-babel-de-linguas-do-livro-de-estreia-de-milton-hatoum-em-retrato-de-um-certo-oriente","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2024\/11\/30\/entrevista-marcelo-gomes-recria-a-babel-de-linguas-do-livro-de-estreia-de-milton-hatoum-em-retrato-de-um-certo-oriente\/","title":{"rendered":"Entrevista: Marcelo Gomes recria a babel de l\u00ednguas do livro de estreia de Milton Hatoum em \u201cRetrato de um Certo Oriente\u201d"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>entrevista de\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/PeliculaVirtual\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Jo\u00e3o Paulo Barreto<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando os personagens de \u201cRetrato de um Certo Oriente\u201d (2024), novo filme de Marcelo Gomes, baseado no livro \u201cRelato de um Certo Oriente\u201d (1989), estreia do escritor Milton Hatoum, se encontram prestes a se confinar em um barco que cruzar\u00e1 o oceano Atl\u00e2ntico saindo do L\u00edbano em dire\u00e7\u00e3o ao Brasil, o filme nos traz alguns depoimentos de pessoas que est\u00e3o fugindo dos conflitos naquele per\u00edodo imediatamente ap\u00f3s a Segunda Guerra Mundial. S\u00e3o pessoas que, em seus variados idiomas, falam de anseios e desejos em alcan\u00e7ar uma vida melhor para seus filhos, uma vida diferente da que eles tiveram. Pessoas que falam que aguardam a volta de entes queridos, que deixaram o pa\u00eds na esperan\u00e7a de uma melhora, mas que esse horizonte n\u00e3o se concretizou.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em outro momento, vemos um palestino falar sobre sua expuls\u00e3o de seu pa\u00eds e de sua tentativa frustrada de uma vida melhor no L\u00edbano. As falas se entrecruzam vindo de v\u00e1rios idiomas diferentes, como a mulher que fala em franc\u00eas de como se recorda das chamas oriundas dos bombardeios nazistas; a polonesa que lamenta ter perdido sua fam\u00edlia, sendo aquele o mais triste momento de sua vida e que sua exist\u00eancia, agora, ser\u00e1 longe de seu pa\u00eds natal ou o italiano que, escapando das ru\u00ednas deixadas por Mussolini, enxerga sua ida ao Brasil como o \u00faltimo basti\u00e3o de esperan\u00e7a. S\u00e3o passagens como essas que entregam para o espectador a principal reflex\u00e3o relacionada \u00e0 incomunicabilidade e \u00e0 intoler\u00e2ncia que a obra traz.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Diretor de &#8220;Joaquim&#8221; (2017) e de &#8220;Cinema, Aspirinas e Urubus&#8221; (2005), Marcelo Gomes diz, nesta entrevista ao Scream &amp; Yell, que conversou muito com o autor do livro, Milton Hatoum,: \u201cViajamos para Manaus e para Bel\u00e9m juntos. O Milton \u00e9 uma pessoa incr\u00edvel, encantadora, maravilhosa. E ele dizia para mim algo que me impressionou muito. Ele dizia que Manaus, no final dos anos 1940 e in\u00edcio dos anos 1950, parecia uma babel de l\u00ednguas. Existiam pessoas de todos os lugares do mundo e pessoas de v\u00e1rias regi\u00f5es da Amaz\u00f4nia que falavam outras l\u00ednguas\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dentre as pessoas presentes na hist\u00f3ria est\u00e3o os irm\u00e3os Emilie e Emir, libaneses que embarcam naquele mesmo navio em dire\u00e7\u00e3o ao Par\u00e1. Fugindo de um conflito iminente no L\u00edbano, os dois entram no navio que representa aquele encontro de diversas pessoas que buscam pelo b\u00e1sico em suas vidas. Naquela reuni\u00e3o de pessoas oriundas de diversas l\u00ednguas, de diversos pa\u00edses, uma conflu\u00eancia se forma, a mesma conflu\u00eancia que ser\u00e1 vista e vivida por eles j\u00e1 em solo amaz\u00f4nico. \u201cTodos esses personagens foram expulsos das suas casas por quest\u00f5es raciais e pol\u00edticas e est\u00e3o \u00e0 deriva no mundo, sejam l\u00e1 os libaneses sejam l\u00e1 os ind\u00edgenas ribeirinhos da Amaz\u00f4nia, que s\u00e3o expulsos de suas terras\u201d, diz Marcelo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na conversa abaixo, Marcelo Gomes fala sobre o processo de adapta\u00e7\u00e3o da obra, as mudan\u00e7as em rela\u00e7\u00e3o ao texto original e as reflex\u00f5es voltadas para toler\u00e2ncia e f\u00e9. Confira!<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"RETRATO DE UM CERTO ORIENTE | Trailer Oficial\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/9eNpq_QZWDM?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A ideia de unir as culturas brasileiras e libanesa se faz presente, e n\u00e3o somente essas duas, mas durante o filme, encontramos pessoas de diversas nacionalidades. \u201cRetrato de um Certo Oriente\u201d cria essa sintonia, cria esse un\u00edssono entre diversos povos. E em certos momentos, essa sintonia \u00e9 trazida para tempo atuais, como quando vemos um personagem palestino lamentar o conflito pelo qual seu povo passa. Quando voc\u00ea leu o livro do Milton Hatoum e pensou em adapt\u00e1-lo para o cinema, essa ideia de criar tal un\u00edssono j\u00e1 existia ou foi algo desenvolvido durante a escrita do roteiro e das filmagens?<\/strong><br \/>\nTive muitas conversas com Milton (Hatoum). Viajamos para Manaus e para Bel\u00e9m juntos. O Milton \u00e9 uma pessoa incr\u00edvel, encantadora, maravilhosa. E ele me contou algo que me impressionou muito: Manaus, no final dos anos 1940 e in\u00edcio dos anos 1950, parecia uma babel de l\u00ednguas. Existiam pessoas de todos os lugares do mundo e pessoas de v\u00e1rias regi\u00f5es da Amaz\u00f4nia que falavam outras l\u00ednguas. Era uma grande Babel. E quando ele me contou isso, eu fiquei imaginando como construir essa babel de l\u00ednguas. O livro se passa todo em uma casa. E eu decidi transformar, de uma forma ou de outra, a casa em um barco. Nessa viagem, os dramas que acontecem dentro da casa foram colocados dentro de um barco e nele busquei construir essa babel de l\u00ednguas que come\u00e7a ali e vai at\u00e9 a Amaz\u00f4nia. Para isso, decidi convidar atores libaneses para fazerem personagens libaneses e atores de uma etnia tucano do alto do Amazonas para fazer aqueles personagens ind\u00edgenas do filme. Ou seja, eu trouxe pessoas dos lugares que elas vivem para elas constru\u00edrem, para elas trazerem essa verdade. Uma verdade que vem com a l\u00edngua delas, com o jeito delas serem, com as fisicalidades, o jeito delas observarem o lugar. Ent\u00e3o, essa foi uma ideia fundamental para mim. Trazer essa babel de l\u00ednguas que \u00e9 realmente verdadeira. E era maravilhoso. Porque o que acontece no filme, esse encontro de culturas, j\u00e1 aconteceu no ensaio. E v\u00e1rias cenas do ensaio, eu levei para o filme. Agora, estudando a hist\u00f3ria do L\u00edbano, voc\u00ea descobre que todos esses conflitos que existem no Oriente M\u00e9dio come\u00e7am nos anos 1940. E esses conflitos est\u00e3o muito presentes. E a quest\u00e3o ind\u00edgena, da terra ind\u00edgena, acontece desde que os portugueses invadiram o Brasil. Ent\u00e3o, o que eu quis, na realidade, porque o filme se passa no final dos anos 1940, era refletir uma situa\u00e7\u00e3o atual. Porque o artista, de uma forma ou de outra, \u00e9 tocado pelos grandes acontecimentos do mundo atual. E eu gosto sempre de colocar esses acontecimentos dentro dos meus filmes de \u00e9poca. \u00c9 sempre assim.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O longa traz uma reflex\u00e3o bem forte, tamb\u00e9m, sobre o \u00eaxodo causado pelas guerras e sobre os choques entre diferentes religi\u00f5es, inclusive.<\/strong><br \/>\nSim. Todos esses personagens foram expulsos das suas casas por quest\u00f5es raciais e pol\u00edticas e est\u00e3o \u00e0 deriva no mundo, sejam l\u00e1 os libaneses sejam l\u00e1 os ind\u00edgenas ribeirinhos da Amaz\u00f4nia, que s\u00e3o expulsos de suas terras. Achei que ali tinha um elemento muito importante para a gente refletir sobre o mundo agora. O que o mundo vive nesse momento? O mundo vive um momento de \u00f3dio, de intransig\u00eancia, de preconceito religioso. maioria das guerras s\u00e3o sobre isso. Ningu\u00e9m me tira da cabe\u00e7a que n\u00e3o s\u00e3o sobre preconceitos religiosos. S\u00e3o sobre poder, domina\u00e7\u00e3o e dinheiro. Ent\u00e3o, acho que ali era o momento de fazer essa reflex\u00e3o. Ali naquele porto, onde tem aquelas pessoas indo embora por conta da guerra. Ali no barco, onde voc\u00ea v\u00ea os europeus fugindo da mis\u00e9ria da Segunda Guerra, era o momento perfeito para apresentar aquilo. Quando a gente vive uma situa\u00e7\u00e3o em que a Europa, que foi sempre uma regi\u00e3o de pessoas que migrou muito para v\u00e1rios lugares do mundo, \u00e9 reativa a qualquer tipo de imigra\u00e7\u00e3o que acontece l\u00e1. E quando chega na Amaz\u00f4nia, a mesma coisa, a mesma quest\u00e3o da terra. Ent\u00e3o, achei que ali seria o momento ideal para falar disso. No livro n\u00e3o tem isso. Mas tomei a liberdade po\u00e9tica de construir esse momento. que culmina naquela cena que, para mim, \u00e9 o momento da utopia do filme, onde est\u00e1 o Omar, o personagem mul\u00e7umano rezando do lado da aldeia, e do outro lado da aldeia ind\u00edgena est\u00e1 Emilie rezando para o seu deus, e, entre os dois est\u00e3o os ind\u00edgenas rezando para os seus deuses. E naquela arena, todo mundo se respeita. Todo mundo tem espa\u00e7o para rezar pelo seu deus. N\u00e3o tem nenhum tipo de conflito. Ent\u00e3o, talvez a popula\u00e7\u00e3o origin\u00e1ria da Amaz\u00f4nia tenha que ensinar isso ao mundo. Ensinar essa aceitabilidade das pessoas, n\u00e3o importa em que deus elas acreditem e de que cultura elas s\u00e3o. Porque quando os libaneses chegam na aldeia, ningu\u00e9m pergunta a eles de onde eles s\u00e3o e em que deus eles acreditam. Talvez os povos origin\u00e1rios estejam a\u00ed para nos dar essa li\u00e7\u00e3o para o mundo inteiro.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-85717\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/retrato2.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"500\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/retrato2.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/retrato2-300x200.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Acompanhando sua carreira j\u00e1 h\u00e1 um tempo, \u00e9 percept\u00edvel em seus v\u00e1rios personagens uma busca por algo que os tirem da in\u00e9rcia. Seus filmes trazem uma reflex\u00e3o sobre um ser humano solit\u00e1rio, sobre um ser humano em busca de uma conex\u00e3o. No Juvenal, de &#8220;O Homem das Multid\u00f5es&#8221;, no Ranulpho, de &#8220;Cinema , Aspirinas e Urubus&#8221;, e at\u00e9 mesmo em Joaquim, eu vejo isso. Estou viajando muito aqui?<\/strong><br \/>\nVoc\u00ea tem total raz\u00e3o. Uma vez, uma cr\u00edtica falou que o meu cinema \u00e9 um cinema de personagem que est\u00e3o em busca de uma tal felicidade que eles acham que v\u00e3o encontrar se a vida mudar. Se eles forem a procura de uma aventura para mudar a vida deles. Eles est\u00e3o todos assim. Desde o meu primeiro filme (\u201cCinema, Aspirinas e Urubus\u201d, 2005), o Ranulpho vai em busca de uma aventura. Em busca de dias melhores. \u00c0s vezes, esses dias melhores n\u00e3o vir\u00e3o, mas eles est\u00e3o na busca. Gosto de fazer cinema sobre personagens que n\u00e3o ficam inertes na vida. Eles v\u00e3o \u00e0 procura de algo. Eles s\u00e3o autores do pr\u00f3prio destino. Acho que esse \u00e9 o tipo de cinema que me interessa, o tipo de personagens que eu gosto de construir nos meus filmes. Eles est\u00e3o sempre indo em busca de alguma coisa. Eles sempre v\u00e3o \u00e0 procura de algo melhor. E nessa busca, sempre \u00e9 uma viagem de autocompreens\u00e3o deles mesmos. De autoconhecimento deles mesmos. At\u00e9 \u201cPaloma\u201d (2022), que \u00e9 o meu \u00faltimo filme, a personagem quer casar, quer ter uma vida melhor, mas, na verdade, ela constr\u00f3i uma jornada de autoconhecimento. Ela vai se conhecer a partir daquela decis\u00e3o que ela toma de casar-se na igreja. Sim, est\u00e3o todos a\u00ed. Todos os personagens est\u00e3o nessa seara.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Quando voc\u00ea mudou o texto liter\u00e1rio na escrita do roteiro e adaptou a hist\u00f3ria para um navio, percebi que as elipses temporais passaram a surgir de forma muito org\u00e2nica no filme, denotando, assim, o tempo que eles passam naquele navio. Uma elipse que eu achei bem pontual e me atraiu muito foi a ideia do idioma portugu\u00eas ser aprendido por Emilie de forma gradativa, nos fazendo entender essa passagem do tempo. O desafio de levar a narrativa para o navio tamb\u00e9m seguiu para voc\u00ea como um desafio de trazer essas elipses para o espectador?<\/strong><br \/>\nNossa, muito, muito, n\u00e9? Primeiro que filmar em navio \u00e9 muito dif\u00edcil. Imaginar como voc\u00ea vai fazer a decupagem. Segundo, e o bacana do que voc\u00ea falou, \u00e9 que voc\u00ea entende que houve uma elipse de tempo pelo comportamento daquelas pessoas, pela forma como elas est\u00e3o no mundo. E a Emilie principalmente, porque ela vai mudando, ela vai sendo um ser mut\u00e1vel, ela \u00e9 uma pessoa completamente diferente da que deixou aquele monast\u00e9rio no L\u00edbano. A cada passo do filme, ela vai mudando. Ela muda na forma de caminhar, ela muda nas roupas, ela sai quase uma menina do orfanato e vira uma mulher nessa viagem. Enquanto o irm\u00e3o dela, n\u00e3o. O irm\u00e3o dela, que \u00e9 o Emil, fica preso ao passado. Ela que d\u00e1 a ideia de que o tempo est\u00e1 passando. E quando ela chega ao porto de Manaus, ela \u00e9 uma mulher completamente diferente. E \u00e9 at\u00e9 ela quem toma a decis\u00e3o de ir para Manaus porque l\u00e1 tem emprego. Na verdade, ela est\u00e1 \u00e0 procura do grande amor da vida dela, que est\u00e1 indo para Manaus. Ent\u00e3o, ela vira uma mulher dona do seu destino. Essas elipses s\u00e3o dadas de novo pela modifica\u00e7\u00e3o da personalidade da personagem principal.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-85716\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/retrato3.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"522\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/retrato3.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/retrato3-300x209.jpg 300w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/retrato3-120x85.jpg 120w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A op\u00e7\u00e3o de filmar em preto e branco traz na fotografia de Pierre de Kerchove imagens que saltam aos olhos. Queria lhe perguntar sobre essas op\u00e7\u00f5es est\u00e9ticas do filme, bem como sobre o formato de tela que pontuou em mim essa sensa\u00e7\u00e3o de confinamento tanto no navio quanto na floresta amaz\u00f4nica.<\/strong><br \/>\nO filme \u00e9 em preto e branco porque a Emile me disse que tinha de ser em preto e branco. Meus personagens s\u00e3o quem me dizem como a hist\u00f3ria tem que ser contada. A Emile tem medo daquela floresta. \u00c9 uma floresta sombria. Assustadora. Ela vem de outra paisagem, de outra geografia. Ent\u00e3o, aquilo \u00e9 assustador para ela. Ent\u00e3o, nada melhor do que aquela primeira vez em que ela se depara muito pr\u00f3ximo \u00e0 floresta. Ela est\u00e1 no barco e \u00e9 \u00e0 noite. E aquela floresta \u00e9 sombria, n\u00e9? Ent\u00e3o, por que n\u00e3o transformar aquela floresta? Ao inv\u00e9s de ser aquele exotismo superficial de cinquenta tons de verde, d\u00e1 uma densidade emocional dos cinquenta tons de cinza. Por isso que a gente decidiu fazer em preto e branco. E porque as fotografias que remetem ao passado tamb\u00e9m s\u00e3o em preto e branco. E o formato da tela \u00e9 o formato da tela do cinema em preto e branco dos anos 1940, anos 1950 e eu fa\u00e7o uma grande homenagem ao cinema e \u00e0 fotografia nesse filme. O filme come\u00e7a com a fotografia e termina com a fotografia. Fotografias s\u00e3o fundamentais para a trama, e por isso mesmo que eu transformei \u201cRelato de um Certo Oriente\u201d em \u201cRetrato de um Certo Oriente\u201d. E, al\u00e9m disso, fa\u00e7o grandes homenagens ao &#8220;Hiroshima, Mon Amour&#8221; (1959), que \u00e9 uma hist\u00f3ria de dois personagens de culturas diferentes em tempos de guerra. Amor em tempos de guerra, tamb\u00e9m. &#8220;O Encoura\u00e7ado Potemkin&#8221; (1925) est\u00e1 ali naquelas redes. O Mario Peixoto, com &#8220;Limite&#8221; (1931), est\u00e1 ali naquele cais. Foi um momento em que decidimos fazer v\u00e1rias homenagens \u00e0quele cinema que sempre nos influenciou e pelo qual somos apaixonados. E a\u00ed o Pierre trouxe umas lentes especiais tipo as usadas no in\u00edcio da fotografia, em 1850, 1900. Ele colocou essas lentes que distorcem o fundo, mas n\u00e3o distorcem o rosto da personagem. E tudo isso acho que traz verdade. Uma verdade de \u00e9poca. Essa \u00e9 a ideia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E como foi o di\u00e1logo com Milton para apresentar as mudan\u00e7as que o filme traz em rela\u00e7\u00e3o ao livro?<\/strong><br \/>\nComecei o roteiro trabalhando com a Maria Camargo, que entende muito a obra do Milton. \u00c0s vezes at\u00e9 mais do que ele. A Maria adaptou o \u201cDois Irm\u00e3os\u201d, trabalhou no &#8220;\u00d3rf\u00e3os do Eldorado&#8221;, no &#8220;Rio do Desejo&#8221;. Ela foi muito importante para me dar \u00e2nimo para ir pouco a pouco me afastando do livro. E depois eu trabalhei com o Gustavo Campos na segunda fase e, j\u00e1 mais distante do livro, construindo uma narrativa a partir dos meus desejos. Eu acho que, como o Ismail Xavier diz, ao escritor o que \u00e9 do escritor. Ao diretor o que \u00e9 do diretor. Acho que nessa adapta\u00e7\u00e3o eu n\u00e3o queria nem um pouco ser fiel. Eu queria ser estimulado por aquela leitura e construir uma transmuta\u00e7\u00e3o daquela hist\u00f3ria para a tela do cinema. \u00c9 muito louco. Voc\u00ea quando faz uma m\u00fasica inspirado em um quadro, ningu\u00e9m te exige fidelidade. Quando voc\u00ea faz uma pintura inspirada em uma pe\u00e7a de teatro, tamb\u00e9m ningu\u00e9m te exige fidelidade. Mas com literatura e cinema, as pessoas ficam dizendo: &#8220;Ah, mas eu pensei o personagem com outra fisicalidade.&#8221; &#8220;Ah, porque para mim o personagem&#8230;&#8221; Existem os donos do livro. E o Milton falou para mim: &#8220;Marcelo, tenha total liberdade para fazer o que voc\u00ea quiser. O livro j\u00e1 est\u00e1 a\u00ed.&#8221; Me imbui dessa liberdade. Porque tenho que fazer um filme que dialogue com o meu cinema. Isso \u00e9 fundamental antes de tudo. Nunca mandei o roteiro para o Milton, acho que talvez preocupado em acabar minha amizade com ele, porque ele \u00e9 t\u00e3o meu amigo. Mas ele sempre foi muito generoso. Nunca mostrei o material filmado. Nunca mostrei nada. Um dia, o Milton estava no programa, eu acho, do Pedro Bial, com o Sergio Machado falando sobre \u201cRio do Desejo\u201d. E o Pedro Bial ligou para a gente pedindo umas imagens do nosso filme que estava prestes a ficar pronto. E o Bial falou: &#8220;Mas Milton, tem outro filme vindo a\u00ed, n\u00e9?&#8221; E o Milton disse: (imitando o tom de voz do Milton Hatoum) &#8220;\u00c9, mas desse eu n\u00e3o vi nada. O rapaz n\u00e3o me mostrou o roteiro, n\u00e3o estou sabendo de nada&#8221; (risos). No outro dia, a minha m\u00e3e, a pernambucana, ligou pra mim: &#8220;Meu filho, tem um rapaz que eu vi na televis\u00e3o que est\u00e1 com raiva de voc\u00ea porque voc\u00ea n\u00e3o mostrou o filme para ele. V\u00e1 mostrar o filme para esse rapaz!&#8221; A\u00ed eu liguei para o Milton e falei: &#8220;Olha, Milton, minha m\u00e3e falou que est\u00e1 na hora de mostrar esse filme para voc\u00ea.&#8221; Ent\u00e3o, eu fiz uma cabine no Cine Sesc, em SP, mostrei o filme para ele e ele ficou encantado. Maravilhado. Mandou um texto incr\u00edvel para mim. Participa de todas as conversas e debates e entrevistas comigo. Ele ficou realmente encantado com o filme. E ele ficou muito feliz porque eu reinventei em outra linguagem o \u201cRelato de um Certo Oriente\u201d. Eu digo que o filme \u00e9 um \u201cRetrato de um Relato de Um Certo Oriente\u201d.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-85715\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/retrato1.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"1102\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/retrato1.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/retrato1-204x300.jpg 204w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u2013\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/profile.php?id=100009655066720\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Jo\u00e3o Paulo Barreto\u00a0<\/a>\u00e9 jornalista, cr\u00edtico de cinema e curador do\u00a0<a href=\"http:\/\/coisadecinema.com.br\/xiii-panorama\/apresentacao\/panorama-2017\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Festival Panorama Internacional Coisa de Cinema<\/a>. Membro da Abraccine, colabora para o Jornal A Tarde, de Salvador.\u00a0<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\u201cTodos esses personagens foram expulsos das suas casas por quest\u00f5es raciais e pol\u00edticas e est\u00e3o \u00e0 deriva no mundo, , sejam l\u00e1 os libaneses sejam l\u00e1 os ind\u00edgenas ribeirinhos da Amaz\u00f4nia, que s\u00e3o expulsos de suas terras\u201d, diz Marcelo.\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2024\/11\/30\/entrevista-marcelo-gomes-recria-a-babel-de-linguas-do-livro-de-estreia-de-milton-hatoum-em-retrato-de-um-certo-oriente\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":21,"featured_media":85718,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[4,9],"tags":[7516,4737],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/85714"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/21"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=85714"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/85714\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":85719,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/85714\/revisions\/85719"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/85718"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=85714"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=85714"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=85714"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}