{"id":85707,"date":"2024-11-30T00:02:00","date_gmt":"2024-11-30T03:02:00","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=85707"},"modified":"2024-12-21T00:23:08","modified_gmt":"2024-12-21T03:23:08","slug":"literatura-ronaldo-serruya-cria-outras-possibilidades-para-se-viver-com-hiv-no-texto-teatral-a-doenca-do-outro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2024\/11\/30\/literatura-ronaldo-serruya-cria-outras-possibilidades-para-se-viver-com-hiv-no-texto-teatral-a-doenca-do-outro\/","title":{"rendered":"Literatura: Ronaldo Serruya cria outras possibilidades para se viver com HIV no texto teatral \u201cA Doen\u00e7a do Outro\u201d"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>texto de\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/renan.machadoguerra\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Renan Guerra<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 2008, a MTV Brasil colocava na rua <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/playlist?list=PL6CDB13884504EB24\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">uma campanha<\/a> que questionava as pessoas sobre o que elas entendiam sobre HIV\/AIDS naquele momento, sobre como era viver com HIV no s\u00e9culo XXI. A MTV, em seus tempos de Grupo Abril, foi um ponto importante de comunica\u00e7\u00e3o sobre HIV\/AIDS para a gera\u00e7\u00e3o da virada do s\u00e9culo e suas campanhas fizeram hist\u00f3ria ao tratar do tema sem tabus e com uma liberdade que outras emissoras nunca tiveram a ousadia de tatear. Naquele momento j\u00e1 fal\u00e1vamos em qualidade de vida para pessoas com HIV e de l\u00e1 pra c\u00e1 esse t\u00f3pico se tornou cada vez mais uma quest\u00e3o importante, que reapareceu em diferentes projetos, como por exemplo no document\u00e1rio \u201c<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2019\/10\/02\/cinema-documentario-carta-para-alem-dos-muros-busca-desmistificar-o-estigma-do-hiv\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Carta para Al\u00e9m dos Muros<\/a>\u201d (Andr\u00e9 Canto, 2019) ou mesmo na s\u00e9rie \u201cDeu Positivo\u201d, projeto independente documental que apresenta a hist\u00f3ria de pessoas vivendo com HIV e que \u00e9 exibido pela atual MTV Brasil. Ainda assim, quando pensamos em HIV\/AIDS em 2024, as imagens que muitos t\u00eam atreladas ao v\u00edrus continuam sendo as mesmas que pipocavam nos anos 1990: as figuras cadav\u00e9ricas de homens doentes, as marcas causadas pelo sarcoma de Kaposi e a fragilidade desses corpos. De diferentes modos, viver com HIV em 2024 \u00e9 ainda viver em torno desses estigmas e dessas imagens, \u00e9 viver tendo que buscar redesenhar outras narrativas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em \u201cA Doen\u00e7a do Outro\u201d, o ator e dramaturgo Ronaldo Serruya, busca criar novos par\u00e2metros sobre o que \u00e9 se viver com HIV nestes tempos. Vivendo ele pr\u00f3prio com HIV h\u00e1 muitos anos, Serruya cria em seu texto uma pe\u00e7a-palestra, em que o ator-palestrante conduz a plateia em um di\u00e1logo que busca discutir conceitos e bagun\u00e7ar diversas quest\u00f5es em torno da AIDS e do HIV. Para isso, o autor-ator parte da obra de Susan Sontag em seu seminal \u201cA doen\u00e7a como met\u00e1fora\u201d (1978), ensaio em que a autora desdobra sua experi\u00eancia com o c\u00e2ncer para entender como a sociedade entende as divis\u00f5es entre quem \u00e9 sadio e quem n\u00e3o \u00e9 \u2013 vem da\u00ed a \u201cdoen\u00e7a do outro\u201d. Sontag tem reflex\u00f5es fundamentais para pensarmos tanto a representa\u00e7\u00e3o do c\u00e2ncer, quanto do pr\u00f3prio HIV, uma vez que seus dois textos sobre as met\u00e1foras das doen\u00e7as foram lan\u00e7ados por aqui conjuntamente no volume \u201cDoen\u00e7a como met\u00e1fora \/ Aids e suas met\u00e1foras\u201d (Companhia das Letras, 2007).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No texto de Ronaldo Serruya, os pensamentos de Sontag dialogam com outras propostas de importantes pensadores \u2013 todos eles, figuras que nascem desse pensamento dos corpos dissidentes, sejam mulheres, negros, pessoas trans e todas as unicidades que nos colocam nesse espa\u00e7o de \u201co outro\u201d em uma sociedade extremamente branca, cis e heterossexual. Audre Lorde, Grada Kilomba, Paul B. Preciado e Patricia Hill Collins surgem em atos que apresentam seus conceitos te\u00f3ricos e os aplicam, a sua medida, \u00e0s viv\u00eancias de Serruya e seu olhar sobre as constru\u00e7\u00f5es sociais do HIV\/AIDS nos \u00faltimos 40 anos. N\u00e3o vamos esmiu\u00e7ar todos esses recortes para tamb\u00e9m n\u00e3o entregar todos os ouros de \u201cA Doen\u00e7a do Outro\u201d, mas vale citar aqui o interessante casamento que Serruya faz de sua narrativa com a pesquisa de Patricia Hill Collins e seu conceito de \u201cimagens de controle\u201d, que, segundo a soci\u00f3loga, s\u00e3o constru\u00eddas e repetidas para legitimar processos de subalterniza\u00e7\u00e3o que determinam os lugares sociais estigmatizados destinados aos negros, em especial, \u00e0s mulheres negras. A marginaliza\u00e7\u00e3o desses corpos entendidos por Collins se conectam aos corpos com HIV que Serruya trabalha e por isso h\u00e1 uma conex\u00e3o\/leitura desse pensamento que n\u00e3o \u00e9 necessariamente ortodoxa, mas que faz muito sentido. Podemos pensar, por exemplo, que \u201cA Doen\u00e7a do Outro\u201d parte dessa perspectiva de homem gay branco de Serruya e j\u00e1 nesse contexto esse di\u00e1logo com as imagens de controle se mostra extremamente forte, por isso essa brecha nos faz vislumbrar como essas imagens agem sobre os corpos negros HIV positivos e como podemos nos aprofundar num universo de outras narrativas e debates dentro disso.<\/p>\n<figure id=\"attachment_85712\" aria-describedby=\"caption-attachment-85712\" style=\"width: 750px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-85712 size-full\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/adoencadooutro3.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/adoencadooutro3.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/adoencadooutro3-300x176.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-85712\" class=\"wp-caption-text\"><em>Ronaldo Serruya em a\u00e7\u00e3o na pe\u00e7a que deu origem ao livro<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">O conceito de pe\u00e7a-palestra se mostra realmente eficaz nessas intersec\u00e7\u00f5es que o trabalho de Serruya cria \u2013 nessas portas que ele abre para nossas outras reflex\u00f5es. Em tempos de auto-fic\u00e7\u00e3o em alta, o autor poderia simplesmente recontar sua hist\u00f3ria e repassar suas experi\u00eancias com o HIV, por\u00e9m o que ele cria aqui vai muito al\u00e9m, expandindo discuss\u00f5es e propiciando ao p\u00fablico e\/ou leitor a possibilidade de se questionar de seus pr\u00f3prios fantasmas, estigmas e conjecturas. \u00c9 interessante at\u00e9 pensar que diferentes textos tratam o espet\u00e1culo de Ronaldo como algo inc\u00f4modo em seus questionamentos e afirma\u00e7\u00f5es. E a\u00ed, refutamos: inc\u00f4modo para quem? Para quem vive com HIV, o texto de \u201cA Doen\u00e7a do Outro\u201d \u00e9 mais como um chamamento \u00e0 vida, um relembrar de que existimos de diferentes modos e que n\u00e3o devemos seguir guetificados, que nossa exist\u00eancia n\u00e3o deve ser motivo de vergonha. Por isso mesmo, Serruya cria em seu texto chamamentos para que as pessoas abandonem antigos estigmas em torno de palavras como HIV e AIDS e que entendam que a vida pode ser festa, independente do v\u00edrus. Desenvolvida e levada aos palcos em meio \u00e0s transforma\u00e7\u00f5es causadas pela pandemia, \u00e9 normal que muitas pessoas criem paralelos entre o texto de Serruya e todos os enfrentamentos que passamos enquanto sociedade frente ao coronav\u00edrus. De todo modo, \u201cA Doen\u00e7a do Outro\u201d nos relembra tamb\u00e9m das diferen\u00e7as que h\u00e1 entre esses dois v\u00edrus e momentos, e como a estigmatiza\u00e7\u00e3o de certos corpos se tornou uma chaga a ser questionada e ainda rearranjada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O espet\u00e1culo de Serruya foi uma das obras contempladas no edital da 7\u00aa Mostra de Dramaturgia em Pequenos Formatos C\u00eanicos do Centro Cultural S\u00e3o Paulo (CCSP) e foi exibida ao p\u00fablico a partir de 2021. <a href=\"https:\/\/www.editorajavali.com\/product-page\/a-doen%C3%A7a-do-outro-de-ronaldo-serruya\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">O lan\u00e7amento de seu texto em livro<\/a> \u2013 via <a href=\"https:\/\/www.editorajavali.com\/product-page\/a-doen%C3%A7a-do-outro-de-ronaldo-serruya\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Editora Javali<\/a> e acrescido de pref\u00e1cio de Jo\u00e3o Silv\u00e9rio Trevisan e de cr\u00edticas de Kil Abreu, Amilton de Azevedo e Ivana Moura \u2013 apenas refor\u00e7a a import\u00e2ncia de se fazer reverberar todas as teses e propostas dessa pe\u00e7a-palestra. Mesmo em sua densidade, \u201cA Doen\u00e7a do Outro\u201d \u00e9 leitura curta, para constantes revisitas, \u00e9 livro para presentear, do tipo que deve circular de m\u00e3o em m\u00e3o, para ser lido por quem \u00e9 HIV negativo, por quem \u00e9 heterossexual, por qualquer um que tenha um bocadinho de humanidade perante o outro. Relembrando o slogan cl\u00e1ssico do Act Up, \u201cSil\u00eancio = Morte\u201d, <a href=\"https:\/\/www.editorajavali.com\/product-page\/a-doen%C3%A7a-do-outro-de-ronaldo-serruya\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">portanto leia<\/a>, compartilhe e fale sobre!<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-85710\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/adoencadooutro2.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"884\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/adoencadooutro2.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/adoencadooutro2-255x300.jpg 255w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u2013\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/renan.machadoguerra\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Renan Guerra<\/a>\u00a0\u00e9 jornalista<\/em>\u00a0e<em>\u00a0escreve para o Scream &amp; Yell desde 2014. Faz parte do\u00a0<a href=\"http:\/\/vamosfalarsobremusica.com.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" data-saferedirecturl=\"https:\/\/www.google.com\/url?q=http:\/\/vamosfalarsobremusica.com.br\/&amp;source=gmail&amp;ust=1630729890879000&amp;usg=AFQjCNGttyQx5OWOAKRyi7iGq8E4oacvuw\">Podcast Vamos Falar Sobre M\u00fasica<\/a>\u00a0e colabora com o\u00a0<a href=\"https:\/\/monkeybuzz.com.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" data-saferedirecturl=\"https:\/\/www.google.com\/url?q=https:\/\/monkeybuzz.com.br\/&amp;source=gmail&amp;ust=1630729890879000&amp;usg=AFQjCNFjG1FOw9vBGrawiUhocH4mshwTtw\">Monkeybuzz<\/a>\u00a0e a\u00a0<a href=\"https:\/\/revistabalaclava.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" data-saferedirecturl=\"https:\/\/www.google.com\/url?q=https:\/\/revistabalaclava.com\/&amp;source=gmail&amp;ust=1630729890879000&amp;usg=AFQjCNFqHswo4qEcyg8fw9VPM8IWsRH5oQ\">Revista Balaclava<\/a>.\u00a0<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\u201cA Doen\u00e7a do Outro\u201d \u00e9 leitura curta para ser lido por quem \u00e9 HIV negativo, por quem \u00e9 heterossexual, por qualquer um que tenha um bocadinho de humanidade perante o outro.\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2024\/11\/30\/literatura-ronaldo-serruya-cria-outras-possibilidades-para-se-viver-com-hiv-no-texto-teatral-a-doenca-do-outro\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":3,"featured_media":85711,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[9],"tags":[7515,7514],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/85707"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=85707"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/85707\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":85713,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/85707\/revisions\/85713"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/85711"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=85707"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=85707"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=85707"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}