{"id":854,"date":"2009-03-02T10:54:08","date_gmt":"2009-03-02T13:54:08","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=854"},"modified":"2024-11-20T11:19:28","modified_gmt":"2024-11-20T14:19:28","slug":"nao-sobre-amor","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2009\/03\/02\/nao-sobre-amor\/","title":{"rendered":"Teatro: N\u00e3o Sobre Amor"},"content":{"rendered":"<p align=\"center\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2009\/03\/naosobreamor1.jpg\" alt=\"naosobreamor1.jpg\" width=\"600\" height=\"400\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center\" align=\"center\"><strong>Por Marcelo Costa<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A certa altura de uma troca de cartas entre dois poss\u00edveis amantes, ela (aqui apresentada como Alya) pede: &#8220;Se quiser escrever, escreva, mas n\u00e3o sobre amor&#8221;. Ele, Victor, um escritor, aceita o desafio. E o resultado desta troca efusiva de cartas (reais e imagin\u00e1rias) trouxe ao mundo o livro &#8220;Letters Not About Love&#8221;, que re\u00fane a correspond\u00eancia trocada (e inventada) entre o escritor russo Victor Shklovsky e a romancista franco-russa Elsa Triolet no in\u00edcio do s\u00e9culo passado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Shklovsky foi um dos principais te\u00f3ricos do Formalismo Russo desenvolvendo o conceito de desfamiliariza\u00e7\u00e3o em sua literatura. A t\u00e9cnica consiste em retirar um elemento de determinado contexto e fazer com que ele seja sentido a partir de sua falta. No caso da pe\u00e7a, o elemento a ser retirado \u00e9 o amor, devido \u00e0 citada proibi\u00e7\u00e3o feita por Alya\/Elsa. Apesar de aceitar a correspond\u00eancia, a romancista pro\u00edbe que este lhe fale de amor. A partir da\u00ed, o amor estar\u00e1 presente em tudo, atrav\u00e9s de met\u00e1foras e alus\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Victor aproveita que est\u00e1 proibido de falar de amor com Alya que amplifica o uso da met\u00e1fora abarcando em suas palavras sofridas n\u00e3o s\u00f3 a vileza da mulher que nega o seu amor verdadeiro e intenso, mas tamb\u00e9m a impossibilidade de voltar para sua p\u00e1tria, a R\u00fassia, a juventude e autoconfian\u00e7a perdida, e a dist\u00e2ncia entre aquilo que ele (e n\u00f3s) sonhava(mos) ser e, por fim, acabou (acabamos) nos tornando. Tudo est\u00e1 fora do lugar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nesta adapta\u00e7\u00e3o para o teatro de &#8220;N\u00e3o Sobre Amor&#8221;, a Sutil Companhia buscou a simplicidade das pe\u00e7as de c\u00e2mara, mais intimistas e aconchegantes. Quem deve ter tido trabalho para adaptar as id\u00e9ias da pe\u00e7a em um caixote imagin\u00e1rio foi a cen\u00f3grafa Daniela Thomas, parceira da Companhia desde &#8220;Nostalgia&#8221; (2001). O resultado, por\u00e9m, \u00e9 nada menos que sublime. Assim que a pe\u00e7a come\u00e7a, com as famosas proje\u00e7\u00f5es da Companhia, o cen\u00e1rio se torna um integrante important\u00edssimo da pe\u00e7a. E surpreende.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Assim como nas cartas de Shklovsky, tudo no palco est\u00e1 fora do lugar. A cama est\u00e1 armada na parede frontal. Disposta na parede direita, uma escravinha com m\u00e1quina de escrever e cadeira. A janela est\u00e1 no teto. A porta est\u00e1 no alto da parede do lado direito. A l\u00e2mpada, no ch\u00e3o. \u00c9 um impressionante caos visual que, amplificado pelas proje\u00e7\u00f5es (de texto e de imagens), fazem deste pequeno quarto amarelo um bel\u00edssimo ambiente para uma dolorida hist\u00f3ria de (des)amor, de solid\u00e3o e de ex\u00edlio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Logo na primeira frase impressa na parede, uma constata\u00e7\u00e3o cruel: &#8220;Todas as palavras boas est\u00e3o p\u00e1lidas de exaust\u00e3o. Flores, lua, olhos, l\u00e1bios. Eu gostaria de escrever como se a literatura nunca tivesse existido. Eu n\u00e3o consigo; a ironia devora as palavras&#8221;. Se tivesse vivido em tempos de internet, Victor Shklovsky estaria ainda mais frustrado. Agora n\u00e3o s\u00f3 as boas palavras est\u00e3o p\u00e1lidas de exaust\u00e3o, mas sim o dicion\u00e1rio todo e mais algumas novas. Banaliza\u00e7\u00e3o de adjetivos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ali pelo meio, Leonardo Medeiros (\u00f3timo como Victor) se pega rindo quando confessa para Alya (Simone Spoladore tamb\u00e9m muito bem): &#8220;Estou escrevendo cartas para voc\u00ea e, ao mesmo tempo, estou escrevendo um livro. E o que est\u00e1 no livro e o que est\u00e1 na vida causou uma confus\u00e3o incur\u00e1vel&#8221;. Desta confus\u00e3o nasce uma bel\u00edssima pe\u00e7a de teatro que ainda abre espa\u00e7o para cita\u00e7\u00f5es de Maiakovski, Alexander Soljenitsin, Velimir Khliebnikov, Laurence Sterne, Paulo Leminski, entre muitos outros.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em um dos momentos mais cru\u00e9is (e l\u00edricos) da pe\u00e7a, Alya (projetada na parede do quarto) responde a uma carta de seu apaixonado: &#8220;Pare de escrever o quanto, o quanto, o quanto, o quanto, o quanto voc\u00ea me ama, pois no terceiro quanto j\u00e1 estou pensando em outra coisa&#8221;. A noite cai. Para ele, &#8220;um estrangeiro \u00e9 aquele cujo amor est\u00e1 em outro lugar&#8221;. Ela insiste que n\u00e3o quer ler sobre amor. Ele conta hist\u00f3rias de seu editor. \u00c9 uma pe\u00e7a de amor \u2013 apesar do t\u00edtulo \u2013 mas n\u00e3o s\u00f3 sobre amor. Basta olhar com cuidado.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"aligncenter\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2009\/03\/naosobreamor2.jpg\" alt=\"naosobreamor2.jpg\" width=\"600\" height=\"400\" \/><\/p>\n<p>&#8211; Marcelo Costa (<a href=\"http:\/\/twitter.com\/#%21\/screamyell\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">@screamyell<\/a>) edita o Scream &amp; Yell e assina a Calmantes com Champagne<\/p>\n<p><strong>Leia tamb\u00e9m:<\/strong><br \/>\n&#8211; Guilherme Weber fala sobre &#8220;Avenida Dropsie&#8221;, por Marcelo Costa (<a href=\"http:\/\/www.screamyell.com.br\/mais\/dropsie.htm\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; &#8220;Nostalgia&#8221;, da Sutil Companhia de Teatro, por Marcelo Costa (<a href=\"http:\/\/www.screamyell.com.br\/mais\/nostalgia.html\">aqui<\/a>)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"por Marcelo Costa\nNesta adapta\u00e7\u00e3o para o teatro de \u201cN\u00e3o Sobre Amor\u201d, a Sutil Companhia buscou a simplicidade das pe\u00e7as de c\u00e2mara, mais intimistas e aconchegantes\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2009\/03\/02\/nao-sobre-amor\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[7496],"tags":[4122],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/854"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=854"}],"version-history":[{"count":7,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/854\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":53630,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/854\/revisions\/53630"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=854"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=854"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=854"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}