{"id":85358,"date":"2024-11-20T00:03:00","date_gmt":"2024-11-20T03:03:00","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=85358"},"modified":"2024-12-05T01:35:25","modified_gmt":"2024-12-05T04:35:25","slug":"32o-festival-mixbrasil-salao-de-baile-de-juru-e-vita-cria-retrato-complexo-e-instigante-sobre-a-cena-ballroom-do-rio-de-janeiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2024\/11\/20\/32o-festival-mixbrasil-salao-de-baile-de-juru-e-vita-cria-retrato-complexo-e-instigante-sobre-a-cena-ballroom-do-rio-de-janeiro\/","title":{"rendered":"32\u00ba Festival MixBrasil:\u00a0\u201cSal\u00e3o de Baile\u201d cria retrato complexo e instigante sobre a cena ballroom do Rio de Janeiro"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>texto de\u00a0<\/strong><strong><a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/_renanguerra\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Renan Guerra<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">A cultura ballroom se desenvolveu nos Estados Unidos com diferentes ramifica\u00e7\u00f5es durante o s\u00e9culo XX, por\u00e9m com um demarcador comum: ser um espa\u00e7o de congrega\u00e7\u00e3o LGBTQIA+, especialmente pessoas negras e latinas em comunidades marginalizadas de grandes cidades como Nova York, Washington e Chicago. Esse universo cheio de regras, complexidades e nuances \u00e9 flagrado de forma singular em \u201cParis is Burning\u201d (1990), document\u00e1rio de Jennie Livingston que hoje \u00e9 tema de diferentes debates, mas que ainda segue como registro hist\u00f3rico fundamental e um dos mais interessantes document\u00e1rios da d\u00e9cada de 90.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ap\u00f3s o filme de Livingston, o ballroom tateou o mainstream a partir da figura de Madonna, que levou o vogue, dan\u00e7a fundamental de determinadas frentes do ballroom, para o universo pop, num movimento que, ao mesmo tempo em que expandiu esse universo, tamb\u00e9m ajudou a apagar muitas das figuras centrais que constru\u00edram essa hist\u00f3ria. Com as facilidades de conex\u00e3o atuais, a cultura ballroom se transformou em uma possibilidade de espa\u00e7o criativo e fervilhante para pessoas LGBTQIA+ nas mais diferentes metr\u00f3poles ao redor do mundo, tanto que ganhou suas pr\u00f3prias cenas em cidades como S\u00e3o Paulo e Rio de Janeiro. E \u00e9 no estado fluminense que se situa \u201cSal\u00e3o de Baile \/ This is Ballroom\u201d (2024), filme de Juru e Vit\u00e3 que fez parte da programa\u00e7\u00e3o da <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/tag\/mostra-de-cinema\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">48\u00aa Mostra SP<\/a>, e aparece tamb\u00e9m no <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/tag\/festival-mixbrasil\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">32\u00ba Festival MixBrasil<\/a> (o filme estreia em circuito nacional 05\/12).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para registrar as movimenta\u00e7\u00f5es da cena ballroom na capital fluminense e em cidades do entorno, as diretoras organizam um ballroom que uniram diferentes casas em Niter\u00f3i, em uma batalha que ser\u00e1 registrada e que ajudar\u00e1 a compor a espinha dorsal de seu filme \u2013 em paralelo acompanharemos diferentes hist\u00f3rias e narrativas dessas personagens que comp\u00f5em as m\u00faltiplas casas. Para n\u00e3o iniciados, as casas (chamadas de \u201chouse\u201d) s\u00e3o agrupamentos de pessoas que frequentam o universo ballroom e que se auxiliam de forma m\u00fatua; originalmente, essas casas nasceram da experi\u00eancia de pessoas trans que acolhiam em suas casas jovens LGBTQIA+ que eram expulsos de seus c\u00edrculos familiares e colocados em situa\u00e7\u00e3o de rua ou de marginalidade. As donas dessas casas se tornaram as \u201cmothers\u201d \u2013 e aqui \u00e9 importante frisar que, apesar de muitas adapta\u00e7\u00f5es, a cultura ballroom brasileira ainda se utiliza de muitos nomes\/nomenclaturas advindos da l\u00edngua inglesa. O registro de \u201cSal\u00e3o de Baile\u201d capta as experi\u00eancias das pessoas que vivem nessas estruturas coletivas, mas tamb\u00e9m abre espa\u00e7o para a narrativa de pessoas que embarcam no universo ballroom de forma solo.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-85361\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/salaodebaile3.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/salaodebaile3.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/salaodebaile3-300x176.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Logo de cara, o que salta aos olhos no filme de Juru e Vit\u00e3 \u00e9 que h\u00e1 uma preocupa\u00e7\u00e3o est\u00e9tica que sustenta toda o mise-en-sc\u00e8ne, dando um brilho e uma pot\u00eancia para essas narrativas. A dire\u00e7\u00e3o n\u00e3o tem medo de reencenar e construir cenas e nem de esteticar momentos, para que a plasticidade salte aos olhos do espectador \u2013 isso \u00e9 uma escolha narrativa e que se justifica quando pensamos que estamos falando de um universo em que o glamour, o brilho e a opul\u00eancia se colocam como norma. Por isso, se as entrevistas e narrativas pessoais s\u00e3o filmadas com naturalismo, as performances e as reencena\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas s\u00e3o constru\u00eddas buscando uma estetiza\u00e7\u00e3o quase kitsch, sem medo do exagero e do despudoramento. Isso coloca \u201cSal\u00e3o de Baile\u201d em uma outra categoria, n\u00e3o temos aqui um document\u00e1rio explorat\u00f3rio sobre essas figuras, mas sim um filme que celebra essas hist\u00f3rias e narrativas, em um registro de afirma\u00e7\u00e3o, mas que ainda assim se coloca no mesmo n\u00edvel dessas personagens, sem julg\u00e1-las ou categoriz\u00e1-las.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Neste cen\u00e1rio, a c\u00e2mera filma personagens diversas, que n\u00e3o escondem suas complexidades, suas falhas e suas nuances. Isso gera um document\u00e1rio vivo, pulsante, que apresenta tens\u00f5es, medos, desejos e d\u00favidas de personagens que est\u00e3o em jornadas pessoais complexas e que est\u00e3o, ao seu modo, descobrindo e navegando possibilidades de constru\u00e7\u00e3o de suas pr\u00f3prias identidades. E \u00e9 muito rico como \u201cSal\u00e3o de Baile\u201d consegue captar a import\u00e2ncia da cultura ballroom nessas jornadas. Pode haver brigas, tens\u00f5es e picuinhas, mas nada disso desfaz a potencialidade daquele espa\u00e7o para essas pessoas. Se para uns, os encontros da ballroom s\u00e3o como possibilidades glamourosas de autoafirma\u00e7\u00e3o, para outros se apresentam como espa\u00e7o m\u00edstico e para muitos soa como espa\u00e7o de liberta\u00e7\u00e3o e cura, tanto que uma das personagens n\u00e3o se acanha em chamar a ballroom de sua \u201cUPA\u201d, tal qual o servi\u00e7o de atendimento de sa\u00fade p\u00fablica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O interessante de \u201cSal\u00e3o de Baile\u201d \u00e9 que ele at\u00e9 olha para as refer\u00eancias internacionais, n\u00e3o as negando, mas opta por uma narrativa que apresenta os impactos da cultura brasileira dentro desse movimento. A import\u00e2ncia do funk e dos ritmos nacionais \u00e9 extremamente celebrada, com a apresenta\u00e7\u00e3o de categorias de ballroom especialmente voltadas para os ritmos e movimentos nacionais. De todo modo, destacamos aqui a correla\u00e7\u00e3o que o filme faz entre o espa\u00e7o da ballroom e as conex\u00f5es espirituais provocadas pelas religi\u00f5es de matriz afro \u2013 vale refor\u00e7ar que em sua ess\u00eancia, a ballroom \u00e9 uma cultura nascida a partir de pessoas negras e latinas, de mulheres trans pretas, que trazem em sua hist\u00f3ria todas essas nuances. \u00c9 muito natural que ao chegar no Brasil, essa cultura se embrenhe nessas outras refer\u00eancias e potencialidades que formam as identidades dissidentes no pa\u00eds. E \u00e9 extremamente interessante como eles conseguem filmar ritos religiosos com a mesma beleza e grandiosidade que filmam as performances e dan\u00e7as da ballroom.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Juru e Vit\u00e3 conseguem desenhar um filme que pulsa vida. Mesmo nos momentos em que o document\u00e1rio apresenta as nuances da viol\u00eancia e da morte, o filme ainda consegue apontar um tom de reverbera\u00e7\u00e3o em torno de todas as vidas daquelas pessoas que ajudaram a construir a hist\u00f3ria ali narrada \u2013 e aqui vale relembrarmos que a m\u00e9dia de vida de uma pessoa trans no Brasil \u00e9 de 35 anos, por isso e, para al\u00e9m disso, essas vidas precisam ser celebradas! Num cen\u00e1rio de marginalidade, de viol\u00eancia e de n\u00e3o-aceita\u00e7\u00e3o, \u201cSal\u00e3o de Baile\u201d constr\u00f3i uma narrativa de coletividade, de humanidade e de pulsante vitalidade, \u00e9 lindo demais ver toda a sinceridade dessas personagens transbordar pela tela, nos lembrando que somos cheios de falhas, mas que ainda assim \u201cgente \u00e9 muito bom \/ [&#8230;] \/ gente nasceu pra ser feliz \/ [&#8230;] \/ gente nasceu pra brilhar\u201d!<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/tag\/festival-mixbrasil\/\"><span style=\"color: #ff0000;\"><em>Leia sobre mais filmes do Festival MixBrasil no Scream &amp; Yell<\/em><\/span><\/a><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Teaser - Sal\u00e3o de Baile\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/LR5k4XFnUuM?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u2013\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/renan.machadoguerra\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Renan Guerra<\/a>\u00a0\u00e9 jornalista<\/em>\u00a0e<em>\u00a0escreve para o Scream &amp; Yell desde 2014. Faz parte do\u00a0<a href=\"http:\/\/vamosfalarsobremusica.com.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" data-saferedirecturl=\"https:\/\/www.google.com\/url?q=http:\/\/vamosfalarsobremusica.com.br\/&amp;source=gmail&amp;ust=1630729890879000&amp;usg=AFQjCNGttyQx5OWOAKRyi7iGq8E4oacvuw\">Podcast Vamos Falar Sobre M\u00fasica<\/a>\u00a0e colabora com o\u00a0<a href=\"https:\/\/monkeybuzz.com.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" data-saferedirecturl=\"https:\/\/www.google.com\/url?q=https:\/\/monkeybuzz.com.br\/&amp;source=gmail&amp;ust=1630729890879000&amp;usg=AFQjCNFjG1FOw9vBGrawiUhocH4mshwTtw\">Monkeybuzz<\/a>\u00a0e a\u00a0<a href=\"https:\/\/revistabalaclava.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" data-saferedirecturl=\"https:\/\/www.google.com\/url?q=https:\/\/revistabalaclava.com\/&amp;source=gmail&amp;ust=1630729890879000&amp;usg=AFQjCNFqHswo4qEcyg8fw9VPM8IWsRH5oQ\">Revista Balaclava<\/a>.\u00a0<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\u201cSal\u00e3o de Baile\u201d constr\u00f3i uma narrativa de coletividade, de humanidade e de pulsante vitalidade! \u00c9 lindo demais ver toda a sinceridade dessas personagens transbordar pela tela\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2024\/11\/20\/32o-festival-mixbrasil-salao-de-baile-de-juru-e-vita-cria-retrato-complexo-e-instigante-sobre-a-cena-ballroom-do-rio-de-janeiro\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":3,"featured_media":85359,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[4],"tags":[4943,226],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/85358"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=85358"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/85358\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":85374,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/85358\/revisions\/85374"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/85359"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=85358"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=85358"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=85358"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}