{"id":85163,"date":"2024-11-12T09:32:30","date_gmt":"2024-11-12T12:32:30","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=85163"},"modified":"2025-03-16T21:33:51","modified_gmt":"2025-03-17T00:33:51","slug":"tres-livros-neca-romance-em-bajuba-pequenas-coisas-como-estas-morte-em-pleno-verao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2024\/11\/12\/tres-livros-neca-romance-em-bajuba-pequenas-coisas-como-estas-morte-em-pleno-verao\/","title":{"rendered":"Tr\u00eas livros: \u201cNeca &#8211; Romance em Bajub\u00e1\u201d, &#8220;Pequenas Coisas Como Estas&#8221;, \u201cMorte em Pleno Ver\u00e3o\u201d"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>textos de <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/tgpgabriel\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Gabriel Pinheiro<\/a><\/strong><\/h2>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-85164\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/amara1.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"331\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/amara1.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/amara1-300x132.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u201cNeca &#8211; Romance em bajub\u00e1\u201d, de Amara Moira (Companhia das Letras)<\/strong><br \/>\n&#8220;Passada! O oc\u00f3, c\u00ea acredita que ele pediu pra eu nenar na neca dele?&#8221;. Essa frase cifrada abre o primeiro romance de Amara Moira, &#8220;Neca &#8211; Romance em bajub\u00e1&#8221;. Cifrada em partes. Talvez voc\u00ea j\u00e1 tenha ouvido algum destes termos &#8212; oc\u00f3, nenar, neca ou, ainda, picum\u00e3, odara &#8212; que n\u00e3o fazem parte da norma culta portuguesa. \u00c9 o bajub\u00e1 \u2013 ou pajub\u00e1, linguagem criada pela comunidade LGBTQIAPN+ entre os anos 1960 e 1970, em plena ditadura militar, como forma de prote\u00e7\u00e3o e resist\u00eancia. Se comunicar de maneira cifrada era uma forma de sobreviver nas ruas tomadas pelo medo e pela viol\u00eancia aos corpos e exist\u00eancias dissidentes. Entrela\u00e7ando passado e presente, a narradora travesti de \u201cNeca\u201d compartilha com sua interlocutora anos mais nova &#8212; a pr\u00f3pria Amara &#8212; sua experi\u00eancia de vida, da juventude no colegial, onde a aula de literatura era uma esp\u00e9cie de porto seguro, at\u00e9 o mergulho na prostitui\u00e7\u00e3o, no Brasil e na Europa. A partir das mem\u00f3rias das aulas e do professor de literatura, ela vai compartilhando in\u00fameros bafos, babados de autores e obras do nosso c\u00e2none liter\u00e1rio, redescobrindo sentidos e mensagens cifradas tanto em seus textos quanto em suas biografias. &#8220;Esse romantismo, ai. J\u00e1 sabe quem \u00e9, n\u00e9? R\u00e1, como c\u00ea n\u00e3o adivinhou ainda! T\u00e1, uma pista, sobrenome da mona \u00e9 Andrade. Opa, em pessoa. Passada que voc\u00ea, logo voc\u00ea n\u00e3o sabia a prostiputigaliranha que essa senhora era&#8230; a musa dava bandeira pencas!&#8221;. &#8220;Neca&#8221; \u00e9 inteiramente escrito na l\u00edngua das bichas, numa esp\u00e9cie de fluxo de consci\u00eancia inquietante de uma personagem que tem muito a dizer, n\u00e3o s\u00f3 para a sua interlocutora, mas para o leitor. &#8220;Bicha, \u00e0s vezes c\u00ea faz umas caras. E &#8216;bicha&#8217;, n\u00e3o \u00e9 que eu t\u00f4 te xoxando, n\u00e3o, viu? \u00c9 pajub\u00e1, a l\u00edngua das bicha, aqui \u00e9 tudo travesti. S\u00f3 ficar aqui por um tempo tempo e c\u00ea j\u00e1 vai catando&#8221;. Numa escrita que \u00e9 puro movimento \u2013 \u00e9 dan\u00e7a, \u00e9 som, \u00e9 m\u00fasica &#8211; Amara Moira mergulha no pajub\u00e1 para a cria\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria, reinventando \u2013 tanto a l\u00edngua, quanto a literatura. Entre o expl\u00edcito e o oculto, este breve romance n\u00e3o joga suas cartas de antem\u00e3o. O bajub\u00e1 aqui \u00e9 tamb\u00e9m um jogo de sentidos e de sensa\u00e7\u00f5es. Quanto mais avan\u00e7amos na leitura, mais vamos catando seus significados ocultos.<\/p>\n<hr>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-85165\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/claire.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"331\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/claire.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/claire-300x132.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>&#8220;Pequenas coisas como estas&#8221;, de Claire Keegan (Editora Relic\u00e1rio)<\/strong><br \/>\n&#8220;Pequenas coisas como estas&#8221;, de Claire Keegan, se interessa por aquilo que parece menor. A repeti\u00e7\u00e3o do cotidiano de um homem comum numa pequena cidade na Irlanda. A paisagem natalina tomada pelo branco ofuscante da neve e pelas mesmas pessoas encontradas diariamente. No trabalho e em casa, as rela\u00e7\u00f5es seguem aqueles protocolos pouco a pouco sedimentados pela rotina. Sabe quando nada parece mudar&#8230; at\u00e9 que algo mude? &#8220;E aonde voc\u00ea quer chegar pensando? &#8211; disse ela. &#8211; Ficar pensando s\u00f3 deixa a gente para baixo (&#8230;) &#8211; Se quiser subir na vida, h\u00e1 coisas que deve ignorar para poder seguir em frente&#8221;. No encontro inesperado e perturbador do protagonista com uma jovem interna de um convento no topo da colina da cidade &#8211; um convento que sempre esteve ali, sempre fora parte da paisagem, mas talvez, at\u00e9 aqui, nunca tinha sido enxergado pelo homem &#8211; coloca o personagem numa posi\u00e7\u00e3o de desconforto e, quem sabe, a\u00e7\u00e3o em resposta \u00e0 ina\u00e7\u00e3o que parecia imposta pela rotina de uma vida comum. &#8220;Quando ele conseguiu tir\u00e1-la de l\u00e1 e viu o que estava diante dele (&#8230;) a parte ordin\u00e1ria que havia nele desejou nunca ter chegado perto daquele lugar&#8221;. Apesar de sucinto, o texto de Claire Keegan lida com o dito e com o n\u00e3o-dito de maneira primorosa. \u00c9 tamb\u00e9m pelas entrelinhas que constru\u00edmos uma hist\u00f3ria que lida com o banal e o prosaico em paralelo ao mist\u00e9rio e ao suspense, revelando pouco &#8211; n\u00e3o mais do que o necess\u00e1rio \u2013 e deixando para o leitor um papel ativo na constru\u00e7\u00e3o de sentido. Um pequeno livro gigante e extraordin\u00e1rio. &#8220;Por que as coisas que estavam mais pr\u00f3ximas eram com tanta frequ\u00eancia as mais dif\u00edceis de ver?&#8221;<\/p>\n<hr>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-85166\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/verao.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"331\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/verao.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/verao-300x132.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u201cMorte em pleno ver\u00e3o\u201d, de Yukio Mishima (Companhia das Letras)<\/strong><br \/>\nO conto que d\u00e1 nome ao livro de Yukio Mishima, &#8220;Morte em pleno ver\u00e3o&#8221;, abre o volume de maneira impactante. Uma m\u00e3e perde dois de seus filhos, junto da tia destes, irm\u00e3 de seu marido, para o mar. A morte passa, ent\u00e3o, a ser uma presen\u00e7a naquele n\u00facleo familiar reduzido a tr\u00eas pessoas: m\u00e3e, pai e um filho \u00fanico. De uma sensibilidade singular, o breve texto \u00e9 uma reflex\u00e3o sobre o luto e a perda e a maneira como essa experi\u00eancia \u00e9 tanto particular, quanto compartilhada, num complexo processo permeado por diferentes fases, do choque inicial \u00e0 reconstru\u00e7\u00e3o de si. Na sequ\u00eancia de contos de &#8220;Morte em pleno ver\u00e3o&#8221;, Yukio Mishima direciona seu olhar tanto para o Jap\u00e3o tradicional quanto para o Jap\u00e3o moderno, numa dedicada constru\u00e7\u00e3o tanto da sociedade japonesa quanto de seus indiv\u00edduos. Da cultura das gueixas \u00e0s representa\u00e7\u00f5es dos teatros n\u00f4 e kabuki, dos cidad\u00e3os comuns aos membros do imp\u00e9rio. Neste volume de textos, observamos um especial interesse do escritor pelo teatro, pela arte da representa\u00e7\u00e3o. N\u00e3o seria a representa\u00e7\u00e3o uma arte praticada para al\u00e9m dos palcos teatrais? N\u00e3o representamos pap\u00e9is no nosso pr\u00f3prio cotidiano? Em um dos textos, escrito como uma pe\u00e7a teatral n\u00f4 em um ato, Mishima olha para o amor e a morte e suas intr\u00ednsecas rela\u00e7\u00f5es. Em outro, o escritor japon\u00eas mergulha na tradi\u00e7\u00e3o do teatro kabuki para uma reflex\u00e3o entre o feminino, o masculino e a transsexualidade. &#8220;Morte em pleno ver\u00e3o&#8221; ainda conta com um dos melhores contos que j\u00e1 tive a oportunidade de ler, &#8220;Patriotismo&#8221;. A constru\u00e7\u00e3o do texto aqui \u00e9 brilhante, num crescente que, pouco a pouco, nos mergulha num desfecho que, mesmo inevit\u00e1vel, nos deixa em suspens\u00e3o, refletindo sobre as rela\u00e7\u00f5es entre a morte, o \u00eaxtase e a ideologia. O protagonista de &#8220;Patriotismo&#8221; \u00e9 um soldado japon\u00eas que encontra a morte pelo seppuku, uma forma de suic\u00eddio ritual datada do jap\u00e3o feudal, praticada, especialmente, por samurais. Yukio Mishima cometeria o seppuku uma d\u00e9cada ap\u00f3s a escrita do texto, que ganha uma camada autobiogr\u00e1fica premonitoriamente assombrosa. &#8220;Ah, ent\u00e3o \u00e9 isso que se sente quando se executa o seppuku, pensou. Era uma sensa\u00e7\u00e3o de caos, como se o c\u00e9u tivesse desabado sobre a sua cabe\u00e7a e o mundo se soltasse de seu eixo.&#8221; Figura controversa, Yukio Mishima \u00e9 um observador da natureza humana como poucos &#8212; talvez por olhar de maneira t\u00e3o profunda para os seus pr\u00f3prios dem\u00f4nios. &#8220;Morte em pleno ver\u00e3o&#8221; \u00e9 um volume de contos que beira a excel\u00eancia.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Voc\u00ea conhece? #09 Yukio Mishima\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/HBgvSatDGHA?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><em>\u2013 Gabriel Pinheiro \u00e9 jornalista. Escreve sobre suas leituras tamb\u00e9m no Instagram:&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/tgpgabriel\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">@tgpgabriel<\/a>.&nbsp;<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\u201cNeca\u201d \u00e9 puro movimento \u2013 \u00e9 dan\u00e7a, \u00e9 som, \u00e9 m\u00fasica; &#8220;Pequenas coisas como estas&#8221; se interessa por aquilo que parece menor; &#8220;Morte em pleno ver\u00e3o&#8221; beira a excel\u00eancia.\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2024\/11\/12\/tres-livros-neca-romance-em-bajuba-pequenas-coisas-como-estas-morte-em-pleno-verao\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":112,"featured_media":85167,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[9],"tags":[7472,1304,7473,7474,7475],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/85163"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/112"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=85163"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/85163\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":85169,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/85163\/revisions\/85169"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/85167"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=85163"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=85163"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=85163"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}