{"id":84960,"date":"2024-11-04T03:08:44","date_gmt":"2024-11-04T06:08:44","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=84960"},"modified":"2024-12-09T09:04:15","modified_gmt":"2024-12-09T12:04:15","slug":"entrevista-pedro-freire-fala-sobre-seu-filme-malu-premiado-como-melhor-filme-no-festival-do-rio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2024\/11\/04\/entrevista-pedro-freire-fala-sobre-seu-filme-malu-premiado-como-melhor-filme-no-festival-do-rio\/","title":{"rendered":"Entrevista: Pedro Freire fala sobre seu filme \u201cMalu\u201d, premiado como Melhor Filme no Festival do Rio"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>entrevista de <\/strong><strong><a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/_renanguerra\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Renan Guerra<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pedro Freire tem uma ampla carreira como curta metragista, trabalhou nos bastidores de muitos filmes brasileiros e tem um hist\u00f3rico de trabalho como preparador de elenco, por\u00e9m para seu primeiro longa-metragem ele decidiu mergulhar em uma dolorosa hist\u00f3ria familiar. \u201cMalu\u201d conta a hist\u00f3ria de sua m\u00e3e, Malu Rocha \u2013 Pedro \u00e9 fruto do casamento dela com o tamb\u00e9m ator Herson Capri \u2013, importante atriz de teatro dos anos 1970 e 1980, que participou de montagens hist\u00f3ricas como \u201cHair\u201d e trabalhou ao lado de diretores como Pl\u00ednio Marcos e Z\u00e9 Celso Martinez Corr\u00eaa. De personalidade forte e de atua\u00e7\u00e3o pol\u00edtica engajada, Malu tamb\u00e9m chegou a circular por obras populares do cinema e da tv brasileira, mas se afastou da atua\u00e7\u00e3o art\u00edstica com o avan\u00e7o do mal de Pr\u00edon, uma doen\u00e7a rara que atinge o c\u00e9rebro. Pedro Freire n\u00e3o foca a sua lente na carreira art\u00edstica de Malu, mas sim na intimidade familiar da artista, destrinchando as rela\u00e7\u00f5es entre m\u00e3es e filhas de uma forma complexa e cheia de nuances.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cMalu\u201d foi exibido no Festival de Sundance, fez interessante carreira por festivais ao redor do mundo e saiu do Festival do Rio com cinco pr\u00eamios: Melhor Roteiro, Melhor Filme, Melhor Atriz para Yara de Novaes e o pr\u00eamio duplo de Melhor Atriz Coadjuvante para Carol Duarte e Juliana Carneiro da Cunha. <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2024\/10\/23\/cinema-premiado-no-festival-do-rio-malu-de-pedro-freire-e-uma-jornada-intensa-de-sentimentos-e-sensacoes\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">E como j\u00e1 contamos em cr\u00edtica aqui no Scream &amp; Yell<\/a>, este \u201c\u00e9 um filme de atrizes. Yara de Novaes, Carol Duarte e Juliana Carneiro da Cunha criam uma trinca raras vezes vista no cinema brasileiro. N\u00e3o existe hierarquia entre elas, as tr\u00eas est\u00e3o num ponto e num n\u00edvel muito alto, em que a sinergia \u00e9 que determina a for\u00e7a e import\u00e2ncia do filme\u201d. Para al\u00e9m da atua\u00e7\u00e3o bem constru\u00edda do elenco, \u00e9 importante ressaltar que \u201cMalu\u201d \u00e9 um filme com um roteiro bastante delicado e que consegue dar conta das nuances dessas personagens, mesmo com as suas mais complexas rela\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para entender como foi esse processo de investigar e mergulhar em uma hist\u00f3ria t\u00e3o \u00edntima, tivemos um bate-papo franco com o diretor Pedro Freire, que nos contou detalhes sobre seu processo de escrita, sobre a dire\u00e7\u00e3o de atores e sobre a caminhada que o filme tem feito at\u00e9 esse momento. Confira a entrevista na \u00edntegra abaixo:<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"MALU | TEASER NACIONAL - 31\/10 nos Cinemas\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/pmf7s08btzU?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Para come\u00e7ar, eu queria falar que eu fui assistir o filme e n\u00e3o tinha muitas informa\u00e7\u00f5es sobre o filme. E quando subiram os cr\u00e9ditos, eu fiquei ali um pouco ainda. Eu j\u00e1 estava mexido com a hist\u00f3ria do filme e me surpreendeu muito que era uma hist\u00f3ria pessoal sua. E a\u00ed, para come\u00e7ar, eu queria entender um pouco como foi esse processo de transformar um pouco da sua vida e das suas viv\u00eancias num filme t\u00e3o pessoal.<\/strong><br \/>\nEnt\u00e3o, foi um processo muito duro, muito emocional, porque a minha m\u00e3e faleceu em 2013. Decidi fazer um filme sobre ela no vel\u00f3rio dela, no Teatro Oficina. Ela era atriz, come\u00e7ou a carreira no Teatro Oficina. Ent\u00e3o, a gente pediu para o Z\u00e9 Celso [Martinez Correa] fazer o vel\u00f3rio l\u00e1. Ele deixou, foi um vel\u00f3rio muito bonito. E a\u00ed, no vel\u00f3rio pensei \u201cquero fazer um filme sobre essa mulher\u201d. Mas demorei anos para tomar coragem e fazer mesmo, porque era muito duro. Toda vez que eu tentava fazer, eu ficava muito emocionado. A\u00ed parava. Foram uns quatro anos at\u00e9 eu tomar coragem de dizer \u201cn\u00e3o, j\u00e1 passei pelo meu luto, a morte dela j\u00e1 est\u00e1 um pouco mais assimilada, acho que agora eu consigo\u201d. Achando que eu ia tirar de letra, n\u00e9? Ent\u00e3o comecei a escrever. Nossa, mas eu chorava. Chorava muito. Chorei muito escrevendo esse roteiro. Chorei muito filmando este filme. Chorei muito editando este filme. Foi s\u00f3 na corre\u00e7\u00e3o de cor que eu parei de chorar, porque a corre\u00e7\u00e3o de cor d\u00e1 um certo distanciamento. \u00c9 muito t\u00e9cnico, n\u00e9? A\u00ed consegui finalmente me distanciar um pouco mais do filme. Mas ainda muito cedo, quando eu estava pensando nas ideias para o filme, n\u00e3o tinha nem uma escaleta nem nada ainda, me toquei que eu tinha que tomar muito cuidado para n\u00e3o fazer desse filme um processo de autoan\u00e1lise. Eu n\u00e3o podia transformar esse filme numa coisa para mim, para a minha cura, sabe? Se ele fosse ter alguma utilidade curativa para mim, que isso fosse uma consequ\u00eancia e n\u00e3o uma busca, sabe? E eu entendi isso muito rapidamente. Essa foi a minha sorte, eu acho. Porque uma vez que eu entendi isso, comecei um processo que foi muito importante de separar o joio do trigo. Ou seja, separar o que eu tinha que levar para an\u00e1lise do que eu tinha que levar para o filme. Separar o que era punheta mental, o que era coisa para mim, para eu me resolver com os meus traumas, com a minha saudade da minha m\u00e3e, e o que realmente podia se tornar uma hist\u00f3ria que interessasse a outras pessoas. E n\u00e3o s\u00f3 a mim. E a\u00ed no momento que eu dei esse clique, eu comecei a separar e a\u00ed come\u00e7ou a se formar na minha frente uma possibilidade de um filme. E eu comecei a entender que realmente tinha uma possibilidade de fazer uma coisa muito bonita: contar uma hist\u00f3ria muito emocionante, muito forte, que talvez pudesse interessar a todo mundo. Mas ainda assim \u00e9 um material muito pr\u00f3ximo de mim. Sabe quando o neg\u00f3cio est\u00e1 t\u00e3o perto de voc\u00ea que voc\u00ea n\u00e3o consegue ver direito? Acho que filho \u00e9 um pouco assim. Ent\u00e3o eu precisava muito da opini\u00e3o de outras pessoas de fora para lerem aquilo e me dizerem \u201colha, isso aqui est\u00e1 funcionando, isso aqui eu n\u00e3o entendo muito o que voc\u00ea quer dizer, isso aqui eu achei bobo\u201d. Enfim, para poderem me dar um retorno. Eu nunca mostrei um roteiro meu para tanta gente. Porque eu acho legal mostrar, mas realmente no caso desse filme particularmente foi muito importante mostrar para os meus amigos, para consultores de roteiro, para ter um retorno, para ter um olhar de fora. E a\u00ed os meus amigos me ajudaram muito, me salvaram.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Sim, voc\u00ea falou essa quest\u00e3o do roteiro, eu acho interessante que no filme, por mais que sejam personagens reais, e voc\u00ea est\u00e1 falando ali de hist\u00f3rias muito pr\u00f3ximas, n\u00e3o h\u00e1 em nenhum momento um julgamento do filme perante essas personagens, n\u00e9? Eu acho que elas s\u00e3o todas &#8211; as tr\u00eas mulheres, principalmente &#8211; muito complexas e elas t\u00eam nuances, ent\u00e3o elas t\u00eam ali seus defeitos e suas qualidades. E eu queria entender um pouco como foi esse trabalho de lapidar mesmo essas personagens para chegar nesse roteiro final do filme.<\/strong><br \/>\nEnt\u00e3o, eu acho que algo de autoan\u00e1lise foi inevit\u00e1vel, n\u00e9? E acho que algo que foi muito curativo para mim, mas repetindo, foi curativo como consequ\u00eancia, n\u00e3o como uma busca minha. Foi que ao saber, como roteirista que sou, que essas personagens precisavam ser complexas, eu precisei buscar uma complexidade nelas que \u00e0s vezes a minha mem\u00f3ria traumatizada n\u00e3o permitia. Ent\u00e3o, por exemplo, eu passei a minha vida inteira falando mal da minha m\u00e3e, reclamando da minha m\u00e3e por causa dos traumas que ela me causou. E por mais que eu soubesse que ela era uma mulher maravilhosa em muitos aspectos, eu fiquei muito amargurado, muito rancoroso. E a\u00ed, ao botar ela no papel, na primeira vers\u00e3o do roteiro, a minha mulher leu e falou &#8211; minha mulher \u00e9 poeta e \u00e9 editora liter\u00e1ria, ent\u00e3o ela \u00e9 uma mulher muito sens\u00edvel, muito art\u00edstica -; ela leu a primeira vers\u00e3o do roteiro e falou \u201colha, \u00e9 bom, mas falta poesia\u201d. Fiquei meio irritado, n\u00e9? Mas percebi que ela tinha raz\u00e3o. E a\u00ed fui pesquisar, fui reler o roteiro e pensei \u201cpor que ela est\u00e1 falando que falta poesia?\u201d, e a\u00ed fui perceber que faltava realmente poesia, porque o meu retrato, o primeiro retrato da Malu, era muito \u00e1rido, era muito \u00e1spero, era uma mulher muito dura, muito enraivecida. E faltava justamente o lado lindo dela, o lado exuberante, o lado da gargalhada contagiante, o lado da busca por justi\u00e7a social, o lado insubmisso, o lado feminista, o lado bonito, o lado admir\u00e1vel dela. Fiquei muito no filho reclamando da m\u00e3e, sabe? Voc\u00ea culpa seus pais por tudo, n\u00e9? E a\u00ed a segunda, terceira, quarta, quinta, sexta, s\u00e9tima, oitava, nona e d\u00e9cima vers\u00f5es, que foram dez vers\u00f5es desse filme, fui cada vez mais buscando a poesia, poesia, poesia. E a poesia desse filme acho que est\u00e1 justamente na beleza do olhar dessa mulher sobre o mundo, que \u00e9 um olhar muito bonito, muito particular, muito revoltado, mas no melhor dos sentidos, no sentido de querer um mundo melhor. Fiquei at\u00e9 arrepiado. Ent\u00e3o eu consegui me reencontrar com a beleza da minha m\u00e3e. E nesse sentido o filme foi muito curativo para mim. Mas repito, por buscar um filme melhor, n\u00e3o por buscar melhorar a minha rela\u00e7\u00e3o com a minha falecida m\u00e3e, acabou que a consequ\u00eancia foi essa. Foi muito bonito esse processo.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/malu1-1.jpg\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Eu entendo que a escolha das tr\u00eas atrizes principais tamb\u00e9m \u00e9 um momento, acho, importante, porque elas trazem muito dessa complexidade, dessa poesia para o filme. A atua\u00e7\u00e3o da Yara de Novaes \u00e9 absurda. Eu queria entender um pouco como foi o trabalho, tanto com a Yara, quanto com a Carol Duarte, a Juliana Carneiro da Cunha, como funcionou para criar esse n\u00facleo t\u00e3o bem amarrado do filme?<\/strong><br \/>\nCara, eu concordo com voc\u00ea. As tr\u00eas s\u00e3o muito especiais e a Yara \u00e9 um absurdo mesmo. A busca por essas atrizes foi uma busca que fiz por atrizes de teatro, que tivessem uma capacidade de se conectar com uma linguagem muito realista do cinema, mas que viessem do teatro, porque no teatro voc\u00ea se acostuma a trabalhar processo, ensaio mais longo. Isso \u00e9 muito importante para mim. Em todos os filmes que eu fa\u00e7o, eu gosto de gente de teatro por causa disso, porque eu gosto de processo, eu gosto de ensaio. N\u00e3o gosto de chegar na hora de filmar e descobrir o filme na hora. Em geral, tem muito pouco tempo. Eu gosto de ter tempo. E a\u00ed o processo com elas foi assim: tr\u00eas semanas de ensaio. Eu usei uma t\u00e9cnica que vem de Stanislavski, que passa por [John] Cassavetes, que \u00e9 a de ensaiar muito as cenas do filme improvisando elas. Sem nunca decorar o texto. A gente lia a cena uma vez s\u00f3, s\u00f3 uma vez, sem falar muito, sem ficar em neurose muito grande em cima do texto. Eu s\u00f3 lia uma vez, entendi a situa\u00e7\u00e3o e a\u00ed partia para improvisar. Improvisar a cena algumas vezes at\u00e9 a gente entender que, se chegamos numa cena em que a gente poderia come\u00e7ar a decorar o texto porque a gente entendeu emocionalmente a cena, chegamos. \u00d3timo, ent\u00e3o para, vamos para a pr\u00f3xima. E a\u00ed assim a gente foi, cronologicamente, cena um, cena dois, cena tr\u00eas, at\u00e9 a \u00faltima cena do filme. Terminou esse processo, a gente parou de ensaiar, n\u00e3o ensaiamos mais. Eu dei uma semana para as atrizes decorarem o texto. E a\u00ed eu falei para elas \u201cagora decorem mesmo, agora \u00e9 para decorar, para voc\u00eas chegarem com o texto tinindo na cabe\u00e7a\u201d. E a\u00ed o que elas me disseram, que eu j\u00e1 vivi em outros curtas meus, outros processos meus, \u00e9 que foi o texto mais f\u00e1cil de decorar da vida delas, porque elas j\u00e1 conheciam o texto muito internamente. Elas sabiam exatamente o que estavam falando, s\u00f3 que aquelas eram as palavras ideais para dizer aquilo que elas j\u00e1 queriam dizer emocionalmente. E esse \u00e9 o processo que eu acho muito bonito, que sempre funciona. Eu j\u00e1 trabalhei em v\u00e1rias longas como preparador de elenco, porque eu trabalhei assim e sempre d\u00e1 certo. E a\u00ed na filmagem elas estavam muito preparadas, estavam muito prontas, estavam muito querendo fazer. Ent\u00e3o foi uma filmagem que a gente fez 90% do filme em take um ou take dois. A gente n\u00e3o teve que repetir quase nada. A equipe era muito profissional, n\u00e3o errava nunca. N\u00e3o consigo me lembrar de uma vez sequer que a gente tenha perdido o foco ou o microfone saiu, entrou em quadro. N\u00e3o teve que repetir por causa desses problemas t\u00e9cnicos, nem teve que repetir por erro de texto. S\u00f3 teve que repetir uma outra vez, porque eu queria que a atua\u00e7\u00e3o fosse mais fundo ainda, a\u00ed eu repeti algumas vezes. Mas s\u00f3 nas cenas mais dram\u00e1ticas. O resto, cara, de verdade, a maioria foi take um ou take dois. Foi muito bom. Adorei ensaiar e filmar esse filme. Foi muito gostoso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea falou do Cassavetes. Ele \u00e9 um nome que algumas vezes apareceu, inclusive em diferentes cr\u00edticas, as pessoas relacionam o seu trabalho com o dele. Queria entender um pouco das suas refer\u00eancias; voc\u00ea mergulhou em outros filmes que falavam de fam\u00edlias, de problemas familiares, j\u00e1 tinha um arcabou\u00e7o ali de coisas que te inspiravam nesse mesmo universo?<\/strong><br \/>\nSim. As minhas inspira\u00e7\u00f5es principais para esse filme s\u00e3o Cassavetes, principalmente pela dire\u00e7\u00e3o de atores dele, a forma como ele busca uma verdade muito crua, muito sem medo da emo\u00e7\u00e3o, forte. Foi Mike Leigh, pelos mesmos motivos que o Cassavetes. Acho que \u00e9 um diretor muito pr\u00f3ximo do Cassavetes no que ele busca, embora tenha uns filmes de \u00e9poca mais rebuscados, na arte e tal. Mas os filmes contempor\u00e2neos do Mike Leigh acho que t\u00eam muito a ver com o que estou procurando tamb\u00e9m. E num outro sentido, embora tenha uma est\u00e9tica muito diferente do \u201cMalu\u201d, tamb\u00e9m foi muito importante rever o [Ingmar] Bergman. O Bergman \u00e9 um diretor que vi muito na minha juventude, quando comecei a querer ser cineasta e tal, nos meus primeiros anos de estudos. Fiquei um tempo sem rever. Quando comecei a escrever o \u201cMalu\u201d, comecei a ficar com medo de ser muito pesado. Ser um filme muito pesado, talvez alienar seu p\u00fablico por ser muito forte. E a\u00ed resolvi rever Bergman. Lembro que o Bergman era bem pesado. Vamos rever para ver como ele lidou com isso. Amigo&#8230; Depois de rever uns 10 filmes do Bergman, eu falei, posso fazer o que eu quiser. Posso ser pesado o quanto eu quiser. Eu lembro de um dia que fui ver um filme do Bergman. Esqueci agora o nome do filme. Fui ver um filme do Bergman que eu nunca tinha visto. Esse eu n\u00e3o revi, esse eu vi pela primeira vez. Eu acordei super cedo, acordei \u00e0s seis da manh\u00e3, meio com ins\u00f4nia, e todo mundo dormindo na casa, minha filha dormindo, eu resolvi ver um filme do Bergman, mais um, eu estava nessa fase. N\u00e3o tinha nada a fazer, n\u00e9? Cara, antes do caf\u00e9 da manh\u00e3, a Liv Ullmann j\u00e1 tinha sido estuprada, espancada, internada num manic\u00f4mio. Caramba! \u00c9 muito pesado, sabe? Ent\u00e3o eu acho que isso foi muito importante para me dar liberdade, para me sentir livre, para falar de emo\u00e7\u00f5es profundas, e duras, e dif\u00edceis, sem medo de ser feliz, e acreditando que o p\u00fablico ia aguentar, ia se conectar com isso.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/malu2.jpg\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Sim. \u00c9 curioso voc\u00ea falar isso, porque \u201cMalu\u201d tem essa coisa que \u00e9 muito barra pesada, tem momentos que s\u00e3o dif\u00edceis, elas tocam ali em t\u00f3picos muito sens\u00edveis, mas tamb\u00e9m tem momentos muito mais leves, que v\u00e3o para esse lado de uma coisa bem humorada, que \u00e9 essa poesia, eu acho que aparece tamb\u00e9m, e h\u00e1 uma beleza muito grande. Eu queria entender como voc\u00ea conseguiu chegar nesses processos, para tamb\u00e9m balan\u00e7ar um pouco entre esse peso e essa leveza?<\/strong><br \/>\nSim. A minha m\u00e3e era uma mulher muito inst\u00e1vel emocionalmente e muito intensa, sabe? Ent\u00e3o, o brilho dela, quando estava l\u00e1, quando ela estava no momento de brilho, era muito intenso, era uma luz muito fulgurante, que at\u00e9 ofuscava. Ela gargalhava, ela contava piadas, ela era carism\u00e1tica, ela me ensinava muito sobre arte, sobre pol\u00edtica, sobre literatura, sabe? Ent\u00e3o, era muito intenso, eu era muito maravilhado com aquela mulher que me ensinava tanto, que me influenciou tanto. Em compensa\u00e7\u00e3o, quando ela estava mal-humorada ou raivosa, o que acontecia bastante tamb\u00e9m, tamb\u00e9m era muito intenso, era muito forte, era muito mal-humor, era muita raiva, era muita agressividade, viol\u00eancia mesmo. Ela nunca chegou a me bater fisicamente, mas ela tacava copo na parede aos berros, aos berros. N\u00e3o era levantar a voz, eram os berros. Era descontrole, sabe? Ent\u00e3o, essa intensidade toda dela, para bem e para mal, me contaminou muito na hora de fazer esse filme. Como eu disse, eu fiz uma primeira vers\u00e3o mais pesada, com o lado intenso mais para o pesado, e a\u00ed eu fui buscando \u201cn\u00e3o, mas ela tinha esse lado intenso positivo tamb\u00e9m\u201d. Ent\u00e3o, eu fui tentando criar isso, essa dicotomia. De repente, voc\u00ea est\u00e1 gargalhando, dois minutos depois, voc\u00ea est\u00e1 jogando copo na parede.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea falou um pouco dessa intensidade, eu entendo que tamb\u00e9m \u00e9 uma experi\u00eancia intensa expor essa experi\u00eancia para o p\u00fablico, n\u00e9? Queria entender um pouco se voc\u00ea ficou com medo, com receio de expor toda essa intimidade de uma forma t\u00e3o verdadeira assim na tela?<\/strong><br \/>\nFiquei, fiquei. Muitas vezes eu tive muita d\u00favida se eu n\u00e3o estava expondo a minha m\u00e3e num lugar que ela, se estivesse viva, n\u00e3o gostaria, sabe? Eu tive muita essa d\u00favida, muito. E a\u00ed, uma pessoa que foi muito importante nisso para mim foi a minha irm\u00e3, que viveu essa hist\u00f3ria comigo, que viveu com a Malu, enfim. Foi traumatizada pela m\u00e3e tamb\u00e9m, n\u00e9? Ent\u00e3o, a minha irm\u00e3 foi muito importante. Ela leu v\u00e1rias vers\u00f5es do roteiro, acho que n\u00e3o leu todas, mas leu quase todas. E eu sempre perguntava para ela longamente \u201cmas e a\u00ed, me fala, o que voc\u00ea acha? O que voc\u00ea acha que a mam\u00e3e acharia desse roteiro? Est\u00e1 indo bem? Voc\u00ea acha que\u2026\u201d. A opini\u00e3o dela foi um par\u00e2metro para mim, porque ela, de vez em quando, sentia que estava um pouco pesado, mas, ao mesmo tempo \u201ccara, \u00e9 isso, nossa m\u00e3e era isso, vai fundo\u201d. Ela me deu a maior for\u00e7a. No primeiro momento, eu tinha muito medo de, de alguma forma, desonrar a mem\u00f3ria da minha m\u00e3e. Mas acho que quando eu fui encontrando essa poesia, essa gargalhada, principalmente quando encontrei o final do filme &#8211; que eu sou particularmente feliz com o final do filme -, a\u00ed eu entendi, quando encontrei esse final, que \u201cn\u00e3o, tudo bem, eu estou fazendo uma homenagem, mostrando, sem medo de mostrar o lado dif\u00edcil, mas mostrando muito do lado bonito tamb\u00e9m, est\u00e1 tudo certo, vamos fazer\u201d. E a\u00ed eu relaxei um pouco, sabe? E hoje em dia, vendo a rea\u00e7\u00e3o ao filme, como as pessoas se emocionam, n\u00e3o poderia estar mais seguro de que a minha m\u00e3e estaria orgulhosa do que eu fiz.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/malu4.jpg\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Sim. Voc\u00ea falou dessa rea\u00e7\u00e3o do p\u00fablico e o filme tem feito um p\u00fablico e uma carreira internacional muito boa. Voc\u00eas passaram por importantes festivais. Recentemente, voc\u00eas foram super premiados no Festival do Rio. Eu queria entender um pouco como est\u00e1 esse momento de emo\u00e7\u00e3o, de estar exibindo o filme, de o filme estar sendo t\u00e3o bem recebido?<\/strong><br \/>\nBom, como voc\u00ea pode ouvir pela minha voz, eu estou completamente rouco de tanto gritar anteontem no Festival do Rio. Quando a Yara ganhou a melhor atriz, eu gritei muito. Quando eu ganhei o melhor roteiro, eu fiquei mudo, porque fiquei muito emocionado. Mas quando a gente ganhou o melhor filme, a\u00ed que minha voz foi para o caramba mesmo, porque, nossa, eu gritei muito, era inacredit\u00e1vel, realmente inesper\u00e1vel. A gente esperava, n\u00e3o vou mentir para voc\u00ea, a gente esperava que a Yara ganhasse a melhor atriz, porque se ela n\u00e3o ganhasse a melhor atriz, realmente a gente ia fazer uma revolu\u00e7\u00e3o [risos], a gente ia botar fogo no [Cine] Odeon, porque ela merece muito. Ent\u00e3o a gente queria muito que ela ganhasse a melhor atriz, a gente estava muito nessa expectativa. Mas todo mundo conversou e falou assim \u201colha, a gente n\u00e3o vai ter nenhuma expectativa de ter nenhum outro pr\u00eamio fora a Yara, porque \u00e9 muito dif\u00edcil, a gente n\u00e3o sabe, cada j\u00fari \u00e9 um j\u00fari, a gente n\u00e3o tem como saber o que eles acharam do filme, \u00e9 poss\u00edvel que nem a Yara ganhe, ent\u00e3o vamos baixar as expectativas e o que vier \u00e9 lucro, se vier mais algum al\u00e9m da Yara, a gente vai ficar muito feliz\u201d. Caraca, ganhou a melhor atriz coadjuvante para as duas, depois ganhou o roteiro, ganhou o melhor filme, a gente n\u00e3o acreditou, realmente foi uma surpresa muito grande, uma emo\u00e7\u00e3o muito grande, como j\u00e1 tinha sido uma emo\u00e7\u00e3o enorme quando a gente soube de Sundance, faz quase um ano j\u00e1, acho que foi em dezembro que a gente soube que a gente ia para [o Festival de Cinema de] Sundance, quando eu soube eu comecei a chorar, porque a emo\u00e7\u00e3o, \u00e9 a seguinte, n\u00e3o \u00e9 pelo glamour, entende? Tem gente que eu acho que talvez queira ir para os festivais pelo glamour, tapete vermelho, tomar champanhe na Croisette, em Cannes, eu sinceramente n\u00e3o tenho muito isso n\u00e3o, j\u00e1 fui para a Veneza com um curta meu, acho tudo uma bosta, fui super mal recebido em Veneza, era um curta-metragista, ent\u00e3o curta-metragem l\u00e1 e bosta \u00e9 a mesma coisa, eu n\u00e3o vejo muito esse glamour do tapete vermelho como uma coisa que me atraia tanto, sabe? O que realmente me atrai de verdade \u00e9 porque voc\u00ea passar por um festival desses \u00e9 muito bacana, primeiro porque voc\u00ea mostra o seu filme para pessoas diferentes, de outro lugar do mundo, e pessoas muito cin\u00e9filas, os festivais sempre tem gente muito apaixonada por cinema, ent\u00e3o \u00e9 um p\u00fablico muito bacana de mostrar o filme e ter um retorno dessas pessoas, sabe? Mas principalmente porque o maior pavor do cineasta, acho que isso \u00e9 o mais importante que eu quero sublinhar, o maior pavor de um cineasta n\u00e3o \u00e9 nem n\u00e3o conseguir fazer seu filme, porque voc\u00ea acaba conseguindo, se voc\u00ea realmente perseverar, mais cedo ou mais tarde voc\u00ea acaba ganhando um edital, ou na pior das hip\u00f3teses voc\u00ea at\u00e9 faz um filme com um celular, mas voc\u00ea faz. O maior pavor \u00e9 voc\u00ea conseguir fazer um filme e n\u00e3o ter para quem mostrar. \u00c9 voc\u00ea ter todo o trabalho de anos e anos da sua vida, o sangue que voc\u00ea d\u00e1, o trabalho gigantesco \u00e9 que conseguir fazer um longa-metragem e a\u00ed voc\u00ea n\u00e3o conseguir nem lan\u00e7ar no cinema, mostrar s\u00f3 para cinco amigos em uma sess\u00e3o na televis\u00e3o da sua casa, ou conseguir finalmente entrar no cinema depois de anos e ter mil espectadores. Aquela sala com tr\u00eas pessoas na sala, esse \u00e9 o pavor de um cineasta. Ent\u00e3o quando voc\u00ea entra em Sundance, automaticamente a primeira coisa que vem \u00e0 minha cabe\u00e7a \u00e9 \u201cUau! Muito mais gente vai assistir o filme por causa disso\u201d. Eu fiquei muito feliz com isso, eu chorei quando eu soube que eu tinha entrado em Sundance.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em>Leia tamb\u00e9m: <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2024\/10\/18\/tres-filmes-do-26o-festival-do-rio-malu-apocalipse-nos-tropicos-os-afro-sambas-o-brasil-de-baden-e-vinicius\/\">Em \u201cMalu\u201d, Pedro Freire conduz a simples trama com um frescor surpreendente<\/a><\/em><br \/>\n<em>Leia tamb\u00e9m: <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2024\/10\/23\/cinema-premiado-no-festival-do-rio-malu-de-pedro-freire-e-uma-jornada-intensa-de-sentimentos-e-sensacoes\/\">\u201cMalu\u201d \u00e9 uma jornada intensa de sentimentos e sensa\u00e7\u00f5es<\/a><\/em><\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/malu3.jpg\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u2013\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/renan.machadoguerra\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Renan Guerra<\/a>\u00a0\u00e9 jornalista<\/em>\u00a0e<em>\u00a0escreve para o Scream &amp; Yell desde 2014. Faz parte do\u00a0<a href=\"http:\/\/vamosfalarsobremusica.com.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" data-saferedirecturl=\"https:\/\/www.google.com\/url?q=http:\/\/vamosfalarsobremusica.com.br\/&amp;source=gmail&amp;ust=1630729890879000&amp;usg=AFQjCNGttyQx5OWOAKRyi7iGq8E4oacvuw\">Podcast Vamos Falar Sobre M\u00fasica<\/a>\u00a0e colabora com o\u00a0<a href=\"https:\/\/monkeybuzz.com.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" data-saferedirecturl=\"https:\/\/www.google.com\/url?q=https:\/\/monkeybuzz.com.br\/&amp;source=gmail&amp;ust=1630729890879000&amp;usg=AFQjCNFjG1FOw9vBGrawiUhocH4mshwTtw\">Monkeybuzz<\/a>\u00a0e a\u00a0<a href=\"https:\/\/revistabalaclava.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\" data-saferedirecturl=\"https:\/\/www.google.com\/url?q=https:\/\/revistabalaclava.com\/&amp;source=gmail&amp;ust=1630729890879000&amp;usg=AFQjCNFqHswo4qEcyg8fw9VPM8IWsRH5oQ\">Revista Balaclava<\/a>.\u00a0<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Pedro Freire conta detalhes sobre seu processo de escrita, a dire\u00e7\u00e3o de atores e a caminhada que o filme tem feito at\u00e9 esse momento.\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2024\/11\/04\/entrevista-pedro-freire-fala-sobre-seu-filme-malu-premiado-como-melhor-filme-no-festival-do-rio\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":3,"featured_media":84962,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[4],"tags":[7395],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/84960"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=84960"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/84960\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":84963,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/84960\/revisions\/84963"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/84962"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=84960"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=84960"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=84960"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}