{"id":84892,"date":"2024-10-31T01:29:06","date_gmt":"2024-10-31T04:29:06","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=84892"},"modified":"2024-11-23T00:11:43","modified_gmt":"2024-11-23T03:11:43","slug":"manning-fireworks-de-mj-lenderman-nao-e-um-album-facil-mas-combina-a-impetuosidade-da-juventude-com-a-sabedoria-da-tradicao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2024\/10\/31\/manning-fireworks-de-mj-lenderman-nao-e-um-album-facil-mas-combina-a-impetuosidade-da-juventude-com-a-sabedoria-da-tradicao\/","title":{"rendered":"M\u00fasica: &#8220;Manning Fireworks&#8221;, de MJ Lenderman, n\u00e3o \u00e9 um \u00e1lbum f\u00e1cil, mas brilha do in\u00edcio ao fim"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>texto de <a href=\"https:\/\/www.kalporz.com\/author\/conficoni\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Samuele Conficoni<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nos ombros dos monstros sagrados que o inspiraram, de Neil Young a Bob Dylan, de Nick Drake a Warren Zevon, o toque po\u00e9tico e explosivo de MJ Lenderman, que brilha do in\u00edcio ao fim neste seu quarto projeto de grava\u00e7\u00e3o em est\u00fadio, combina a franqueza do el\u00e9trico com a intimidade do ac\u00fastico, a impetuosidade da juventude com a sabedoria da tradi\u00e7\u00e3o; ele sabe, antes de tudo, criar um espa\u00e7o para a sua pr\u00f3pria voz, esculpindo a sua pr\u00f3pria dignidade e construindo em torno dela um caminho que a torne universal e, nada \u00f3bvia, original. &#8220;Manning Fireworks&#8221; (Anti, 2024) n\u00e3o \u00e9 um \u00e1lbum f\u00e1cil: o fato de o rock ser muitas vezes tocado de forma objetiva e descarada n\u00e3o diminui em nada a complexidade do enquadramento das m\u00fasicas do \u00e1lbum, soando estratificadas e intrigantes mesmo quando s\u00e3o aparentemente simples e extremamente diretas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Neste panorama \u00e9 espl\u00eandido notar sobretudo a forma como Lenderman pacientemente e com consci\u00eancia s\u00f3lida, mas humilde, esculpe a sua pr\u00f3pria dimens\u00e3o como compositor e int\u00e9rprete: das ra\u00edzes fortes \u00e0s quais se agarra, cresce um tronco e ramos que s\u00e3o absolutamente convincentes e nunca muito dependentes das fontes que consultam. Os riffs de guitarra, um dos pontos fortes do talentoso guitarrista de Wednesday, s\u00e3o mel\u00f3dicos e hipn\u00f3ticos: envolvem voc\u00ea sem que voc\u00ea perceba e sem realmente querer. Eles sabem ser simples e ao mesmo tempo exigentes, prontos para clamar por concentra\u00e7\u00e3o e aten\u00e7\u00e3o do ouvinte enquanto consegue entret\u00ea-lo. Os solos, da mesma forma, nunca s\u00e3o claustrof\u00f3bicos ou for\u00e7ados, mas surgem espontaneamente da forma musical que ocupam, significativos, sinceros e fundamentais no equil\u00edbrio da pe\u00e7a.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"MJ Lenderman - Joker Lips\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/UTEpo9orjlg?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A ironia \u00e0s vezes macabra das letras de Lenderman e a adrenalina musical selvagem de in\u00fameras passagens do \u00e1lbum conseguem combinar o brilho das composi\u00e7\u00f5es do mais espirituoso Warren Zevon com a ferrugem mefist\u00f3f\u00e9lica do mais empoeirado Neil Young. Os moods que j\u00e1 pairavam nas m\u00fasicas do poderoso &#8220;Boat Songs&#8221; (2022), seu \u00e1lbum anterior e o mais ambicioso at\u00e9 ontem, vivem aqui tamb\u00e9m. &#8220;Alguns t\u00eam paix\u00e3o \/ Alguns t\u00eam prop\u00f3sito \/ Esgueiraste-te pelos bastidores para perseguir \/ As garotas do circo&#8221;&#8221;, canta com resigna\u00e7\u00e3o c\u00ednica, quase com deplor\u00e1vel aborrecimento, na can\u00e7\u00e3o que abre o disco e que d\u00e1 t\u00edtulo ao \u00e1lbum, um country-folk inclinado, o que pode parecer program\u00e1tico em compara\u00e7\u00e3o com as inten\u00e7\u00f5es do que vir\u00e1 pela frente. Parado perto da pira, cuidando dos fogos de artif\u00edcio, est\u00e1 o que antes era uma crian\u00e7a perfeita e agora \u00e9 um verdadeiro idiota: o ba\u00e7o e a sensa\u00e7\u00e3o de decep\u00e7\u00e3o que esta introdu\u00e7\u00e3o alienante ao \u00e1lbum emana est\u00e1 em sintonia com o que se seguir\u00e1.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Do sagrado ao profano, do sublime ao vulgar &#8211; entendido, etimologicamente, do latim vulgus, como popular -, a capacidade composicional camale\u00f4nica e variada de Lenderman sabe rimar &#8220;hiss&#8221; e &#8220;piss&#8221;, sabe cantar sobre videogames e n\u00e3o tem medo de usar palavr\u00f5es \u2013 &#8220;jerk&#8221; marca presen\u00e7a v\u00e1rias vezes e \u00e9 central na espl\u00eandida \u201cRudolph\u201d, lan\u00e7ada h\u00e1 mais de um ano, em que Lenderman cita, com sagaz ironia, \u201cBlowin&#8217; in the Wind\u201d quando ele pergunta &#8220;Quantos caminhos um homem deve percorrer at\u00e9 aprender \/ Ele \u00e9 apenas um idiota que flerta com a enfermeira do clero at\u00e9 queimar&#8221;, enquanto um fragmento de romantismo mergulha imediatamente no desconforto e no absurdo -, e por isso mesmo \u00e9 capaz de reunir como poucos compositores hoje o universal e o pessoal num equil\u00edbrio prec\u00e1rio e grotesco que nos faz refletir e sorrir ao mesmo tempo &#8211; na mesma can\u00e7\u00e3o o narrador parece amaldi\u00e7oar-se ao afirmar que &#8220;Eu n\u00e3o estaria no semin\u00e1rio se pudesse estar com voc\u00ea&#8221; \u2013 e demonstra o quanto o presente e o passado fazem parte dele e da sua energia musical, coexistindo n\u00e3o com relut\u00e2ncia mas, antes, com colabora\u00e7\u00e3o positiva e espirituosa.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"MJ Lenderman - &quot;Rudolph&quot;\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/2QevZ5z9Cq4?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se voc\u00ea analisar as m\u00fasicas com aten\u00e7\u00e3o, em todo caso, descobre-se que Lenderman canta antes de tudo sobre vidas normais que podem soar \u00fanicas pela sua inevitabilidade: s\u00e3o m\u00fasicas que falam de rotina, de pequenos apartamentos em cidades do interior, de barcos que s\u00e3o casas e rel\u00f3gios de pulso que s\u00e3o facas e megafones, de alugar Ferraris e cantar blues, de Clapton como divindade e da careca de John Travolta; de que cada dia \u00e9 um milagre, que sair de f\u00e9rias traz \u00e0 tona o que h\u00e1 de pior em todos, de &#8220;Men in Black&#8221;, da Mona Lisa e de Guitar Hero, sem que haja realmente um grau diferente de valor no que \u00e9 nomeado. \u00c9 um olhar cuidadoso; \u00e9 o olhar de um menino que espera encontrar a sua dimens\u00e3o e lugar no mundo, como \u00e9 este \u00e1lbum de Lenderman em rela\u00e7\u00e3o ao seu percurso art\u00edstico e aos g\u00e9neros para os quais converge.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esse olhar de Lenderman \u00e9 capaz de penetrar nos aspectos mais \u00e1speros e inc\u00f4modos do cotidiano e dos relacionamentos, sabendo captar nuances e sentimentos nada banais. Cantando sobre o mundo desmoronando na melanc\u00f3lica \u201cShe\u2019s Leaving You\u201d, um dos momentos mais arrasadores do \u00e1lbum, o peso de sua voz e do que ela canta \u00e9 amenizado, no final, por uma voz feminina que parece responder \u00e0 de Lenderman e, enquanto os instrumentos ao seu redor se acalmam, ele parece querer confirmar-lhe mais uma vez que o que est\u00e1 acontecendo n\u00e3o \u00e9 um sonho ou uma miragem, mas apenas a pura e dura realidade. O conv\u00edvio doce e folcl\u00f3rico dos Estados Unidos mais rurais e aut\u00eanticos emerge continuamente e ecoa quase por toda parte nos ritmos, em certos fraseados, em algumas abordagens violon\u00edsticas e em in\u00fameras escolhas de instrumenta\u00e7\u00e3o e arranjo. A buc\u00f3lica \u201cRip Torn\u201d, talvez o momento mais visceral do \u00e1lbum, \u00e9 um claro exemplo disso: move-se entre os rangidos de uma cabana sulista enquanto Lenderman avisa o seu interlocutor que deve aprender &#8220;Como se comportar em grupo&#8221;.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"MJ Lenderman - She&#039;s Leaving You\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/0rFVVzavii0?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O som enrugado e torrencial do Sul permeia tamb\u00e9m o magm\u00e1tico \u201cOn My Knees\u201d, onde emergem alguns dos momentos mais brilhantes da pena de Lenderman, que, assombrado por pesadelos, se pergunta se \u00abSer\u00e1 o silvo silencioso de uma mijada \u00e0 meia-noite ou um rio virado para a bochecha? antes de reconhecer o momento de fraqueza que est\u00e1 a viver ao admitir que \u00abOnde quer que me encontres \/ Encontrar-me-eis de joelhos\u00bb. Embora no in\u00edcio do final \u201cBark at the Moon\u201d, que com o seu longo instrumental e outro sonhador chega a quase dez minutos, Lenderman confessa \u00abperdi o sentido de humor\u00bb, logo a seguir cria um trocadilho cintilante no d\u00edstico \u00abEu realmente preciso de dois centavos, querido \/ Eu realmente preciso do troco\u00bb, antes de convidar seu interlocutor a n\u00e3o ir a Nova York porque \u00abVai mudar a maneira como voc\u00ea se veste\u00bb. O poder da palavra e a beleza do eco que o espl\u00eandido arranjo e a preciosa guitarra que a embute lhe d\u00e3o s\u00e3o imediatos e radiantes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao longo de &#8220;Manning Fireworks&#8221; percebemos que a inspira\u00e7\u00e3o de Lenderman \u00e9 uma torrente violenta e que os seus estilos composicionais est\u00e3o em di\u00e1logo cont\u00ednuo entre si e com o mundo circundante. Em nenhuma passagem, nem por um segundo, o disco se perde, nem a sua energia se dispersa: a liga\u00e7\u00e3o com a tradi\u00e7\u00e3o e a atitude iconoclasta do cantor e compositor desafiam-se, dialogam e acabam por colidir. No exame franco e muitas vezes triste da vida de Lenderman, o que permanece acima de tudo \u00e9 a impress\u00e3o de que vale a pena valorizar qualquer experi\u00eancia, da mais rid\u00edcula \u00e0 mais relevante: com o som certo e com uma aplica\u00e7\u00e3o cuidadosa, mas casual, voc\u00ea pode at\u00e9 conseguir torn\u00e1-los tang\u00edveis, vivos e dignos de serem contados.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Manning Fireworks\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/videoseries?list=OLAK5uy_nJkn8Jhm_CzZRexvphx2zd1lP6s4tTtYk\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em>Texto publicado originalmente no site italiano&nbsp;<a href=\"http:\/\/www.kalporz.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Kalporz<\/a>, parceiro de conte\u00fado do Scream &amp; Yell.&nbsp;<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Nos ombros dos monstros sagrados que o inspiraram, de Neil Young a Bob Dylan, de Nick Drake a Warren Zevon, o toque po\u00e9tico e explosivo de MJ Lenderman brilha do in\u00edcio ao fim neste seu quarto disco!\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2024\/10\/31\/manning-fireworks-de-mj-lenderman-nao-e-um-album-facil-mas-combina-a-impetuosidade-da-juventude-com-a-sabedoria-da-tradicao\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":98,"featured_media":84896,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[3],"tags":[7443],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/84892"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/98"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=84892"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/84892\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":84897,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/84892\/revisions\/84897"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/84896"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=84892"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=84892"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=84892"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}