{"id":84793,"date":"2024-10-26T00:55:54","date_gmt":"2024-10-26T03:55:54","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=84793"},"modified":"2024-12-05T02:12:04","modified_gmt":"2024-12-05T05:12:04","slug":"entrevista-josh-macphee-fala-sobre-o-livro-o-radical-records-uma-enciclopedia-da-musica-independente-e-lutas-por-libertacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2024\/10\/26\/entrevista-josh-macphee-fala-sobre-o-livro-o-radical-records-uma-enciclopedia-da-musica-independente-e-lutas-por-libertacao\/","title":{"rendered":"Entrevista: Josh MacPhee fala sobre o livro o \u201cRadical Records \u2013 Uma enciclop\u00e9dia da m\u00fasica independente e lutas por liberta\u00e7\u00e3o\u201d"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>entrevista de\u00a0\u00a0<a href=\"https:\/\/twitter.com\/brunorplisboa\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Bruno Lisboa<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nascido no Brooklyn, em Nova Iorque, <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/jmacphee\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Josh MacPhee<\/a> \u00e9 um artista, designer, ativista e autor cuja obra se destaca por seu engajamento com a pol\u00edtica de esquerda e a arte de resist\u00eancia. Ele \u00e9 co-fundador do coletivo art\u00edstico Justseeds Artists\u2019 Cooperative, iniciativa que tem se dedicado a apresentar como se d\u00e1 \u00e0 intersec\u00e7\u00e3o entre a cultura visual e a justi\u00e7a social.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">MacPhee \u00e9 autor e editor de diversas publica\u00e7\u00f5es e, entre suas v\u00e1rias contribui\u00e7\u00f5es, uma merece destaque especial: o livro \u201cAn Encyclopedia of Political Record Labels\u201d. Lan\u00e7ado em 2019, MacPhee mapeia nesse trabalho monumental a hist\u00f3ria de selos musicais ao redor do mundo que t\u00eam\/tiveram como base a pol\u00edtica e a luta por mudan\u00e7as sociais, explorando a rica interconex\u00e3o entre m\u00fasica, cultura e ativismo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A editora paulistana <a href=\"https:\/\/sobinfluencia.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Sob Influ\u00eancia<\/a> pretende lan\u00e7ar uma edi\u00e7\u00e3o revista e ampliada de \u201cAn Encyclopedia of Political Record Labels\u201d no Brasil. Sob o t\u00edtulo \u201cRadical Records \u2013 Uma enciclop\u00e9dia da m\u00fasica independente e lutas por liberta\u00e7\u00e3o\u201d, a obra tem como recorte selos e artistas que lan\u00e7aram discos em formato vinil entre os anos 1960 e 1990 mostrando sua rela\u00e7\u00e3o com movimentos sociais mundo \u00e0 fora. N\u00e3o \u00e9 apenas uma compila\u00e7\u00e3o de selos, mas uma celebra\u00e7\u00e3o da m\u00fasica como um poderoso instrumento de resist\u00eancia e transforma\u00e7\u00e3o social.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2017\/07\/21\/entrevista-marcelo-viegas\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Marcelo Viegas<\/a> e Andr\u00e9 Maleronka s\u00e3o os respons\u00e1veis, respectivamente, pela tradu\u00e7\u00e3o e o pref\u00e1cio da edi\u00e7\u00e3o nacional <a href=\"https:\/\/benfeitoria.com\/index.php\/projeto\/radicalrecords?ref=benfeitoria-home\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">que est\u00e1 em campanha de financiamento coletivo<\/a>. Em entrevista concedida por email. Josh fala sobre as motiva\u00e7\u00f5es de sua pesquisa, sua rela\u00e7\u00e3o com o universo da m\u00fasica, a import\u00e2ncia da interface entre m\u00fasica e pol\u00edtica, a relev\u00e2ncia de selos musicais na atualidade, os desafios da constru\u00e7\u00e3o da enciclop\u00e9dia, o mercado da m\u00fasica na era do streaming e muito (mas muito) mais. Confira!<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Josh MacPhee apresenta a edi\u00e7\u00e3o estadunidense de &quot;Radical Records&quot;\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/IahKEFjQbN4?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O que te motivou a come\u00e7ar a documentar selos de discos pol\u00edticos e por que voc\u00ea acha que este projeto \u00e9 importante hoje?<\/strong><br \/>\nEu cresci envolvido na cena punk &#8220;fa\u00e7a voc\u00ea mesmo&#8221; aqui nos EUA na virada dos anos 1980 para os 1990. A m\u00fasica sempre foi pol\u00edtica para mim, mas em meados dos anos 1990 fiquei desiludido com o punk e deixei a cena para me envolver mais diretamente com o ativismo e a organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. Com o tempo, meu interesse pela m\u00fasica oscilou, e no final dos anos 2000 eu praticamente parei de ouvir m\u00fasica. Um algoritmo decidindo o que tocar a partir de uma pasta virtual de arquivos digitais transmitidos por alto-falantes de computador de som met\u00e1lico e terr\u00edvel fez a m\u00fasica se tornar \u2013 na melhor das hip\u00f3teses \u2013 um ru\u00eddo de fundo que eu mal percebia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Isso mudou em 2015, quando eu estava ajudando meus amigos Silvia Federici e George Caffentzis a limpar o apartamento deles aqui no Brooklyn. Silvia, uma acad\u00eamica marxista feminista e uma das fundadoras do movimento Sal\u00e1rios para o Trabalho Dom\u00e9stico na d\u00e9cada de 1970, estendeu a m\u00e3o em seu arm\u00e1rio, puxou uma pequena pilha de singles de 7\u201d e os entregou a mim, dizendo que eu poderia me interessar e que eu poderia ficar com eles. Olhei atrav\u00e9s da pilha e encontrei essas capas incr\u00edveis de m\u00fasicas com t\u00edtulos como &#8220;Year of the Gun&#8221;, &#8220;Age of Rebellion&#8221; e &#8220;Let\u2019s Take Over the City&#8221;! Os discos pareciam quase punk, e fiquei muito animado para lev\u00e1-los para casa e ouvir. Muitos foram produzidos pelo grupo autonomista Lotta Continua (organiza\u00e7\u00e3o militante de extrema-esquerda italiana), outros \u2013 como &#8220;Anarchist Songs&#8221; e &#8220;Prisoners Songs&#8221; \u2013 eram do grupo de revival folk Cantacronache. Os discos definitivamente n\u00e3o eram punk, na verdade, muitos soavam como m\u00fasica folk americana em italiano (e alguns deles s\u00e3o exatamente isso, m\u00fasicas de Buffy Saint-Marie com letras adaptadas).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Isso me levou a explorar a m\u00fasica folk, n\u00e3o a vers\u00e3o que nos foi empacotada nos EUA como um g\u00eanero musical \u2013 ou produto \u2013 melhor definido por Joan Baez e Bob Dylan, mas o significado original da raiz da palavra \u201cfolk\u201d \u2013 a m\u00fasica do povo. Tantos pa\u00edses, regi\u00f5es, movimentos trabalhistas e comunidades t\u00eam suas pr\u00f3prias tradi\u00e7\u00f5es culturais folk ricas. E uma grande parte disso \u00e9 a m\u00fasica. O revival dessas can\u00e7\u00f5es se tornou um elemento central de tantos movimentos sociais ao longo dos anos 1960, 70, 80 e 90.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nas d\u00e9cadas de 1950, 60 e 70, essas tradi\u00e7\u00f5es folk eram vistas como a base da resist\u00eancia ao imperialismo e ao capitalismo. Infelizmente, agora elas parecem mais como formas de estilo que o capitalismo pode usar para nos vender produtos em um mercado digital sem atritos. Mas os discos de vinil nos mostraram que isso pode funcionar nos dois sentidos, que enquanto o rock&#8217;n&#8217;roll estava sendo exportado pelo mundo como uma forma empacotada de rebeli\u00e3o, localmente as pessoas estavam se organizando para produzir seus pr\u00f3prios discos e os usando para construir comunidades, economias e paisagens sonoras alternativas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Seu livro abrange selos de v\u00e1rias partes do mundo. Houve alguma regi\u00e3o ou pa\u00eds em particular que te surpreendeu pela quantidade de selos politicamente ativos?<\/strong><br \/>\nAntes de trabalhar neste projeto, eu praticamente n\u00e3o conhecia nada sobre m\u00fasica do Sul Global, exceto reggae e um pouco de Fela (Kuti). O projeto abriu completamente meus ouvidos para um mundo inteiro de m\u00fasica e, mais especificamente, para algumas das complexidades da produ\u00e7\u00e3o de discos em outras partes do mundo. Eu n\u00e3o tinha ideia do impacto profundo que a \u201cnueva canci\u00f3n\u201d chilena teve na m\u00fasica, n\u00e3o apenas na Am\u00e9rica Latina, mas em grande parte do mundo (aqui nos EUA, todos sabem quem \u00e9 Bob Marley, mas poucos conhecem Victor Jara), e como a \u201cnueva canci\u00f3n\u201d gerou um universo inteiro de pequenos selos independentes na Am\u00e9rica Latina, centenas no Chile, Uruguai, Argentina, Peru e em todo o continente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Isso, na verdade, traz \u00e0 tona uma das ironias engra\u00e7adas de ter o livro publicado no Brasil. O projeto realmente examina a pol\u00edtica atrav\u00e9s das condi\u00e7\u00f5es materiais de produ\u00e7\u00e3o e distribui\u00e7\u00e3o de m\u00fasica (portanto, o selo musical como foco central), em vez do conte\u00fado da m\u00fasica em si. Mas, ao contr\u00e1rio do Chile, no Brasil a ditadura e a estrutura da ind\u00fastria fonogr\u00e1fica n\u00e3o permitiram a cria\u00e7\u00e3o de selos independentes e politizados; em vez disso, m\u00fasicos com inclina\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, como Gilberto Gil e Milton Nascimento, tiveram que, em grande parte, disfar\u00e7ar suas pol\u00edticas dentro da MPB mainstream, ent\u00e3o o conte\u00fado era politizado, mas n\u00e3o a forma que tomava. Assim, muita m\u00fasica brasileira, embora politizada, n\u00e3o est\u00e1 representada no livro porque a pol\u00edtica n\u00e3o fazia parte da estrutura f\u00edsica da produ\u00e7\u00e3o musical.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-84795\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/john2.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"750\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/john2.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/john2-300x300.jpg 300w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/john2-150x150.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Como voc\u00ea acha que os selos politizados influenciaram os movimentos sociais ao longo da hist\u00f3ria? Pode compartilhar alguns exemplos de iniciativas que tiveram um impacto nesse sentido?<\/strong><br \/>\nDiscos de vinil foram importantes ferramentas de agita\u00e7\u00e3o e organiza\u00e7\u00e3o para muitos movimentos na segunda metade do s\u00e9culo XX. Do Movimento dos Direitos Civis nos EUA \u00e0 luta pela liberdade no Chile, at\u00e9 o movimento anti-apartheid na \u00c1frica do Sul. Se voltarmos ao Chile, temos o exemplo incr\u00edvel da DICAP, Discoteca del Cantar Popular, que foi criada por um grupo de jovens comunistas em 1968 e se expandiu para se tornar um dos selos mais importantes do pa\u00eds, antes de ser for\u00e7ada ao ex\u00edlio em 1973 com o golpe fascista. A m\u00fasica lan\u00e7ada pela DICAP foi central para o movimento da Unidade Popular e a elei\u00e7\u00e3o de Salvador Allende em 1970, e can\u00e7\u00f5es como &#8220;El Pueblo Unido, Jam\u00e1s Ser\u00e1 Vencido&#8221;, do Quilapay\u00fan, ainda s\u00e3o cantadas por movimentos populares ao redor do mundo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Outro exemplo \u00e9 a imensa produ\u00e7\u00e3o de discos por sindicatos e organiza\u00e7\u00f5es de trabalhadores. No Reino Unido, em meados dos anos 1980, dezenas de discos foram lan\u00e7ados para apoiar a greve massiva dos mineiros em todo o pa\u00eds. Alguns aumentavam a conscientiza\u00e7\u00e3o sobre a greve, outros criavam uma trilha sonora para as linhas de piquete, enquanto outros arrecadavam dinheiro muito necess\u00e1rio para fundos de greve\u2014dinheiro usado para libertar trabalhadores presos ou alimentar crian\u00e7as enquanto seus pais estavam fora do trabalho lutando por seus empregos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como qualquer forma de cultura, n\u00e3o existe um disco que possa ser apontado e anunciado: \u201ceste disco mudou o mundo\u201d. A ideia \u00e9 absurda. Mas a cultura, e a m\u00fasica especificamente, t\u00eam sido parte de quase todas as lutas, e selos como DICAP, e Paredon (nos EUA), Expression Spontan\u00e9e (na Fran\u00e7a) ou Demos (na Dinamarca) todos contribu\u00edram para muitas lutas, trabalhando lado a lado com organizadores, ativistas e at\u00e9 militantes armados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Com o surgimento das plataformas digitais e dos servi\u00e7os de streaming, voc\u00ea acha que o papel tradicional dos selos de discos mudou, especialmente os motivados politicamente?<\/strong><br \/>\nCom certeza. Acho que muitos selos tiveram dificuldades no in\u00edcio dos anos 2000 para descobrir como fazer a transi\u00e7\u00e3o de produzir objetos f\u00edsicos (vinil, CDs, cassetes) para negociar acordos de streaming. Os selos que sobreviveram agora est\u00e3o prensando vinis novamente, mas para serem relevantes tamb\u00e9m precisam defender seus m\u00fasicos em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 gest\u00e3o de direitos digitais, ajudar a agendar turn\u00eas, etc. Acho que no passado os selos podiam mais facilmente defender projetos pol\u00edticos, pois tratava-se de distribuir discos de vinil para um p\u00fablico mais amplo, construindo rela\u00e7\u00f5es com lojas de discos f\u00edsicas, trabalhando com outros selos para criar uma distribui\u00e7\u00e3o cooperativa, tudo isso essencialmente sendo projetos sociais, o mesmo tipo de organiza\u00e7\u00e3o que os movimentos pol\u00edticos precisam fazer. Hoje \u00e9 mais sobre descobrir algoritmos e postar conte\u00fado em plataformas privatizadas que n\u00e3o possu\u00edmos nem entendemos, o que \u00e9 fundamentalmente antissocial, trabalho administrativo voltado a enriquecer ainda mais os ricos. N\u00e3o tenho certeza se um selo de discos dos anos 2020 pode ser um projeto pol\u00edtico da mesma forma que os selos eram nas d\u00e9cadas de 1960-90.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Lendo o livro \u00e9 interessante perceber como a ideologia do DIY (fa\u00e7a voc\u00ea mesmo) moldou o cen\u00e1rio dos selos de discos pol\u00edticos, para muito al\u00e9m da cultura punk. Voc\u00ea acha que esse ethos ainda est\u00e1 vivo na era digital?<\/strong><br \/>\nO ethos DIY estava moldando o cen\u00e1rio da m\u00fasica muito antes do punk moderno! No final dos anos 1960\/in\u00edcio dos anos 1970, pequenos selos independentes como DICAP (Chile), MNW (Su\u00e9cia) e URC (Jap\u00e3o) estavam descobrindo como produzir m\u00fasica, fabricar vinil e construir sistemas de distribui\u00e7\u00e3o cooperativa fora da ind\u00fastria musical convencional. Selos como esses e muitos outros experimentaram diferentes formas de propriedade e organiza\u00e7\u00e3o (propriedade dos m\u00fasicos, propriedade coletiva e governan\u00e7a, financiamento por sindicatos e partidos pol\u00edticos, etc.), desafiando a grande ind\u00fastria em quest\u00f5es t\u00e3o diversas quanto pre\u00e7os de varejo para discos, anti-copyright e royalties significativamente mais altos para os artistas. \u00c9 dif\u00edcil comparar aquela \u00e9poca com a atual. Esses selos estavam construindo suas pr\u00f3prias f\u00e1bricas de prensagem \u2013 a coisa compar\u00e1vel hoje seria criar um servi\u00e7o de streaming de propriedade cooperativa, rodando em uma fazenda de servidores movida a energia solar, constru\u00edda em terras comunit\u00e1rias. Isso parece quase imposs\u00edvel. E nem sei se \u00e9 justo comparar. Prensar discos \u00e9 bem diferente de construir uma internet alternativa! Mas eu espero que esses exemplos hist\u00f3ricos incentivem os selos e as pessoas envolvidas na produ\u00e7\u00e3o musical hoje a ultrapassar os limites do que aceitamos em termos de plataformas corporativas, sistemas de distribui\u00e7\u00e3o e canais de venda.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Sua pesquisa faz um belo apanhado de uma ampla gama de g\u00eaneros musicais que tiveram rela\u00e7\u00e3o com selos com vi\u00e9s pol\u00edtico de esquerda. Mas houve algum espec\u00edfico que lhe chamou mais aten\u00e7\u00e3o ou lhe surpreendeu? E ainda: por que voc\u00ea acha que eles se conectaram tanto com o ativismo?<\/strong><br \/>\nV\u00e1rias formas de m\u00fasica folk foram o sustento dos selos pol\u00edticos durante o auge da produ\u00e7\u00e3o de vinil. Isso provavelmente se deve a v\u00e1rios motivos: era o que as comunidades pol\u00edticas que ouviam os discos estavam interessadas; era uma m\u00fasica que era mais f\u00e1cil de integrar em reuni\u00f5es, marchas e piquetes, pois n\u00e3o precisava necessariamente ser amplificada e o foco geralmente estava tanto nas letras quanto na m\u00fasica; e, finalmente, tudo isso estava acontecendo no contexto mais amplo de movimentos pol\u00edticos internacionais como o Comintern (Internacional Comunista), que proclamava que a m\u00fasica folk era a \u00fanica m\u00fasica leg\u00edtima da revolu\u00e7\u00e3o comunista que estava por vir.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Quais desafios voc\u00ea enfrentou ao pesquisar e compilar os selos para esta enciclop\u00e9dia?<\/strong><br \/>\n\u00c9 justo dizer que, at\u00e9 recentemente, o p\u00fablico comprador de m\u00fasica nos Estados Unidos n\u00e3o estava exatamente interessado em diversidade. Muito poucas lojas de discos nos EUA antes dos anos 2000 tinham se\u00e7\u00f5es \u201cinternacionais\u201d, e quando tinham, geralmente estavam abarrotadas de discos feitos nos EUA para comunidades imigrantes locais (ou seja, pilhas de discos de polca, cantores regionais italianos, schlager e m\u00fasicas de Oktoberfest, etc.). Grande parte da m\u00fasica que me interessa nunca chegou aos EUA at\u00e9 recentemente, e \u00e9 muito dif\u00edcil de encontrar aqui. Al\u00e9m disso, embora muito tenha sido escrito sobre m\u00fasica dentro dos movimentos pol\u00edticos, muito pouco foi escrito sobre a produ\u00e7\u00e3o e distribui\u00e7\u00e3o de m\u00fasica nesse mesmo contexto. Portanto, h\u00e1 muito poucas fontes secund\u00e1rias e as fontes prim\u00e1rias (os pr\u00f3prios discos) s\u00e3o muito dif\u00edceis de encontrar aqui. Ent\u00e3o, basicamente, tive que comprar muitos discos de todo o mundo. Muitos dos discos em si eram baratos, mas o frete \u00e9 um desastre! N\u00e3o \u00e9 exagero dizer que este livro n\u00e3o poderia ter sido feito sem algumas ferramentas online muito importantes: Discogs, Wikipedia e Google Tradutor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea acha que os selos de discos pol\u00edticos s\u00e3o t\u00e3o influentes hoje quanto eram no passado? Qual papel voc\u00ea v\u00ea para eles atualmente?<\/strong><br \/>\nDefinitivamente n\u00e3o. A m\u00fasica agora \u00e9 amplamente distribu\u00edda em uma forma desmaterializada, o selo de discos \u00e9 subsumido pelas plataformas online que as pessoas usam para encontrar m\u00fasica (Spotify, Apple Music, YouTube, SoundCloud, BandCamp, etc.). Agora, \u00e9 o distribuidor que controla a ind\u00fastria, o que torna muito dif\u00edcil para um pequeno selo de discos pol\u00edticos ter muita influ\u00eancia. Eles certamente podem ter um impacto em pequenas cenas, selos DIY como Riot Folk! tiveram um grande impacto em popularizar uma m\u00fasica ac\u00fastica com esp\u00edrito punk dentro de comunidades anarquistas e eco ativistas. Certamente, h\u00e1 pessoas que seguem religiosamente pequenos selos que produzem micro g\u00eaneros de hip hop, grime e outros tipos de m\u00fasica eletr\u00f4nica \u2013mas \u00e9 dif\u00edcil dizer qual \u00e9 o impacto pol\u00edtico disso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Que mensagem voc\u00ea espera que os leitores tirem de &#8220;Radical Records&#8221; sobre a rela\u00e7\u00e3o entre m\u00fasica e pol\u00edtica?<\/strong><br \/>\nEmbora as tradi\u00e7\u00f5es musicais sempre tenham surgido e evolu\u00eddo a partir de comunidades regionais, de classe, g\u00eanero, ra\u00e7a e outras, \u00e9 a produ\u00e7\u00e3o e distribui\u00e7\u00e3o dessas tradi\u00e7\u00f5es que tornam sua pol\u00edtica vis\u00edvel e compreens\u00edvel para audi\u00eancias externas. A pol\u00edtica da m\u00fasica n\u00e3o est\u00e1 simplesmente nas letras, ou na escolha de estar em um selo independente (ou n\u00e3o), mas em todas as milhares de decis\u00f5es sobre como ela \u00e9 escrita, gravada, produzida, fabricada e distribu\u00edda.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-84796\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/john3.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"750\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/john3.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/john3-300x300.jpg 300w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/john3-150x150.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Como voc\u00ea v\u00ea o futuro das gravadoras pol\u00edticas em um mundo onde artistas independentes podem lan\u00e7ar m\u00fasicas sem a necessidade de gravadoras tradicionais?<\/strong><br \/>\nN\u00e3o tenho certeza se h\u00e1 um futuro claro para as gravadoras pol\u00edticas. A desmaterializa\u00e7\u00e3o da m\u00fasica pode significar que faz mais sentido para os artistas trabalharem diretamente com movimentos pol\u00edticos para alcan\u00e7ar o p\u00fablico e experimentar novas formas de distribui\u00e7\u00e3o. Por exemplo, em vez de lan\u00e7ar um disco com uma gravadora para apoiar uma greve de trabalhadores, voc\u00ea poderia trabalhar diretamente com o sindicato para distribuir a m\u00fasica amplamente atrav\u00e9s de suas listas de e-mails, site e redes sociais. Honestamente, n\u00e3o vi muitas evid\u00eancias de que muitas pessoas estejam pensando profundamente sobre a rela\u00e7\u00e3o contempor\u00e2nea entre m\u00fasica e movimentos, e talvez isso precise acontecer antes que possamos responder a essa pergunta!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Que conselho voc\u00ea daria para algu\u00e9m interessado em come\u00e7ar uma gravadora pol\u00edtica hoje?<\/strong><br \/>\nExperimente diferentes formas de organiza\u00e7\u00e3o, propriedade e distribui\u00e7\u00e3o de m\u00fasica. Para este livro, foquei em discos de vinil entre 1955 e 1995 porque, durante esse per\u00edodo, o vinil era a principal forma de distribui\u00e7\u00e3o de m\u00fasica. Se voc\u00ea queria alcan\u00e7ar um grande p\u00fablico ou ter sua m\u00fasica tocada no r\u00e1dio, o vinil era o caminho. Lan\u00e7ar discos de vinil hoje parece ser mais uma quest\u00e3o de nostalgia do que qualquer outra coisa. Hoje, o vinil \u00e9 apenas uma pequena parte da economia musical e funciona tanto como s\u00edmbolo de status e decora\u00e7\u00e3o de casa quanto como meio de transmitir som.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Por fim, h\u00e1 alguma diferen\u00e7a entre a \u00faltima edi\u00e7\u00e3o em ingl\u00eas e a vers\u00e3o em portugu\u00eas?<\/strong><br \/>\nSim, absolutamente! Al\u00e9m de ter corrigido erros que cometi na vers\u00e3o original em ingl\u00eas, a edi\u00e7\u00e3o da Sob Influ\u00eancia tem quase o dobro de gravadoras, al\u00e9m de uma introdu\u00e7\u00e3o muito mais extensa. Embora eu adore a vers\u00e3o em ingl\u00eas \u00e9 justo dizer que essa nova vers\u00e3o em portugu\u00eas \u00e9 muito mais completa e est\u00e1 mais pr\u00f3xima do meu ideal.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Radical Records \u2013 Uma enciclop\u00eadia da m\u00fasica independente e lutas por liberta\u00e7\u00e3o\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/x-05nB-5jzE?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><em>\u2013\u00a0\u00a0<a href=\"https:\/\/twitter.com\/brunorplisboa\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Bruno Lisboa<\/a>\u00a0 escreve no Scream &amp; Yell desde 2014. Escreve tamb\u00e9m no\u00a0<a href=\"https:\/\/www.phono.com.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">www.phono.com.br<\/a><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"A , obra tem como recorte selos e artistas que lan\u00e7aram discos em formato vinil entre os anos 1960 e 1990 mostrando sua rela\u00e7\u00e3o com movimentos sociais mundo \u00e0 fora.\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2024\/10\/26\/entrevista-josh-macphee-fala-sobre-o-livro-o-radical-records-uma-enciclopedia-da-musica-independente-e-lutas-por-libertacao\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":4,"featured_media":84794,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[9,3],"tags":[5096],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/84793"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=84793"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/84793\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":84804,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/84793\/revisions\/84804"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/84794"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=84793"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=84793"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=84793"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}