{"id":84770,"date":"2024-10-25T00:24:19","date_gmt":"2024-10-25T03:24:19","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=84770"},"modified":"2024-12-10T16:58:36","modified_gmt":"2024-12-10T19:58:36","slug":"entrevista-rock-e-pe-na-porta-e-o-soco-na-cara-avisa-a-nicolas-nao-tem-banda-ou-quer-uma-banda-pra-se-apaixonar-cola-ai","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2024\/10\/25\/entrevista-rock-e-pe-na-porta-e-o-soco-na-cara-avisa-a-nicolas-nao-tem-banda-ou-quer-uma-banda-pra-se-apaixonar-cola-ai\/","title":{"rendered":"Entrevista: &#8220;Rock \u00e9 p\u00e9 na porta e soco na cara&#8221;, avisa a Nicolas N\u00e3o Tem Banda, ou &#8220;quer uma banda pra se apaixonar? Cola a\u00ed&#8221;"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>entrevista por <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/lvinhas78\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Leonardo Vinhas<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para quem acha que o rock n\u00e3o consegue mais incomodar e vive de repetir seus pr\u00f3prios clich\u00eas, a receita \u00e9 <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/nicolasnaotembanda\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Nicolas N\u00e3o Tem Banda<\/a>. A banda ga\u00facha-paulista (explica\u00e7\u00f5es adiante) \u00e9 satanismo revolucion\u00e1rio antitudo numa soma dos esp\u00edritos de MC5, Husker D\u00fb, Minutemen e Mano Negra \u2013 mesmo que a maioria dessas bandas e suas respectivas hist\u00f3rias n\u00e3o habitem o imagin\u00e1rio de seus integrantes. \u00c9 profissional em seu amadorismo, \u00e9 exaustivamente ensaiada e segue imprevis\u00edvel. \u00c9 direto na veia e nos ouvidos, pode se conectar com aquela parte do ser que a gente chama de alma por falta de palavra melhor, e ainda \u00e9 cantarol\u00e1vel \u2013 tente n\u00e3o cantarolar \u201cMilion\u00e1ria\u201d, \u201cCidades\u201d ou \u201cKaren Dalton\u201d depois de ouvi-las.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Luis S\u00f3 (voz), Kiabo Flecha (baixo), Andy Marshall (bateria) e Leo Satan (guitarra) lan\u00e7aram seu \u00e1lbum hom\u00f4nimo em agosto desse ano. A hist\u00f3ria, por\u00e9m, come\u00e7a dez anos antes, quando Luis e Kiabo se conheceram na Ocupa\u00e7\u00e3o Art\u00edstica Ouvidor 63, na S\u00e9, bem no Centro da capital paulista. Trocentas mudan\u00e7as de forma\u00e7\u00e3o, tretas com a pol\u00edcia, turn\u00eas de Kombi, shows na rua e v\u00e1rias outras tresloucadas aventuras depois, a banda conseguiu lan\u00e7ar seu primeiro disco, com produ\u00e7\u00e3o da estreante produtora Vortex Bootleg Factory e distribui\u00e7\u00e3o do selo Maxilar Music.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"https:\/\/linktr.ee\/nicolasnaotembanda\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">O disco \u00e9 rock cru e direto<\/a>. Mas longe de ser monoc\u00f3rdico ou previs\u00edvel: vai da polirritmia africana ao stoner, passando por blues, p\u00f3s-punk e hardcore, sem soar como turismo musical. Est\u00e1 mais para um liquidificador de refer\u00eancias, que mant\u00e9m o aspecto mel\u00f3dico mesmo quando o volume sobe (e sobe muito e muitas vezes) ou quando o ritmo est\u00e1 \u00e0 frente de tudo. E a voz absolutamente \u201cn\u00e3o treinada\u201d (ou treinada nas ruas) de Luis S\u00f3 e o baix\u00e3o gordo e ruidoso de Kiabo Flecha s\u00e3o pe\u00e7as-chave para a identidade \u00fanica e peculiar da banda.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas n\u00e3o as \u00fanicas, porque h\u00e1 as letras. \u201cVoc\u00ea fala, fala, fala, estuda e tem um coletivo\/ N\u00e3o estamos colhendo frutos \/ Minha paci\u00eancia est\u00e1 no limite\u201d (\u201cBorboleta di Okupa\u201d), \u201cMeu mestre \u00e9 Jesus \/ As igrejas que se fodam\u201d (\u201cCidades\u201d), \u201cVoc\u00ea quer me enlouquecer \/ Quando bate \u00e0 minha porta \/ Para voc\u00ea s\u00f3 o prazer importa \/ Porque voc\u00ea \/ \u00c9 bissexual-al-al-al\u201d, \u201cNosso amor \u00e9 tipo 80 \/ coca\u00edna e sarjeta \/ antes ouvia Stevie Wonder \/ agora escuto Karen Dalton\u201d (\u201cKaren Dalton\u201d), e por a\u00ed vai. Zero papas na l\u00edngua, cheia de ganchos e ainda tem espa\u00e7o pra cita\u00e7\u00f5es que v\u00e3o de Joy Division a Bal\u00e3o M\u00e1gico \u2013 todas (im)pertinentes e muit\u00edssimo bem colocadas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Depois de audi\u00e7\u00f5es cont\u00ednuas do disco, esse rep\u00f3rter procurou a banda para uma entrevista, a qual aconteceu imediatamente: Luis S\u00f3 estava dispon\u00edvel, ligamos a c\u00e2mera, e o que se segue \u00e9 uma edi\u00e7\u00e3o de uma das mais divertidas e honestas conversas que realizei em quase 24 anos de Scream &amp; Yell. Chega junto.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Intro\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/oGzZu-JLqo0?list=OLAK5uy_l8cdoE3cVeaprSgwUBpg05HTsUmznGvDU\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Vozes, ocupa\u00e7\u00f5es, encruzilhada e rejei\u00e7\u00e3o ao rock ga\u00facho<\/strong><br \/>\nA banda foi formada por ga\u00fachos, mas \u00e9 uma banda paulista. Nos conhecemos quando viemos para S\u00e3o Paulo ocupar um pr\u00e9dio e transformar em um centro cultural. N\u00f3s ocupamos o pr\u00e9dio em 1 de maio (de 2014) e ele existe at\u00e9 hoje. Dos que entraram, eu fui o \u00faltimo a sair de l\u00e1, isso foi em 2019. Quando eu tinha uns 18 anos, estava l\u00e1 em Sapucaia do Sul (RS), voltando do futebol, e ouvi uma voz. Eu ou\u00e7o muitas vozes, sabe? Passando numa encruzilhada, uma voz me falou: \u201cTu vai ter uma banda de rock\u201d. Mas\u2026 eu pensei: \u201cCara, eu n\u00e3o sei tocar nada e tal, como \u00e9 que vou ter uma banda de rock?\u201d Segui a vida. Em 2014, vim pra S\u00e3o Paulo, e chegando aqui, como era uma ocupa\u00e7\u00e3o de amigos \u2013 apesar de j\u00e1 ter umas pessoas que eu n\u00e3o conhecia, mas enfim \u2013 tinha muita gente que eu conhecia, e que tinha muitas bandas de amigos ga\u00fachos do rock cl\u00e1ssico. Por eu estar transitando no mesmo ambiente, eu \u2013 que sempre escrevi poesia \u2013 chegava e perguntava: \u201cEu tenho umas letras, umas poesias, voc\u00eas querem gravar?\u201d \u201cAh n\u00e3o, n\u00e3o, n\u00e3o\u201d. Hoje em dia eu entendo, \u00e9 chato mesmo (risos). Mas na \u00e9poca eu fiquei puto. No Ouvidor, n\u00e3o tinha \u00e1gua, n\u00e3o tinha energia, n\u00e3o tinha porra nenhuma, a gente s\u00f3 trabalhava pra poder melhorar a estrutura do pr\u00e9dio e dormia, s\u00f3 que isso come\u00e7ou a saturar.. A\u00ed, um dia, eu estava na portaria e ali estava o Kiabo, que sempre quis ter uma banda. Mas os amigos do rock cl\u00e1ssico achavam ele muito visceral, porque ele sempre arrebentava as cordas do baixo e tal. E eu falei pra ele: \u201cCara, eu tenho umas letras aqui, voc\u00ea quer colocar uma melodia, criar uma estrutura musical?\u201d Porque essas mensagens que me v\u00eam, j\u00e1 v\u00eam com um ritmo na cabe\u00e7a. Ele pegou o viol\u00e3o dele e a gente come\u00e7ou a escrever. J\u00e1 escrevemos mais de 100 m\u00fasicas juntos \u2013 quando a gente n\u00e3o estava trabalhando, limpando o pr\u00e9dio, a gente estava tocando. As pessoas do pr\u00e9dio come\u00e7aram a gostar das m\u00fasicas e a gente virou hit na ocupa\u00e7\u00e3o. Dai essa galera que n\u00e3o queria gravar nossas m\u00fasicas come\u00e7ou a pedir pra grav\u00e1-las, t\u00e1 ligado? (risos). A\u00ed eu falei: \u201cCaralho, cara, acho que a gente tem uma certa relev\u00e2ncia\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Primeiros shows, a fuga da esperan\u00e7a e a import\u00e2ncia de socializar energia<\/strong><br \/>\nNa \u00e9poca, a gente comia comida de doa\u00e7\u00e3o, e isso era uma vez por dia, duas vezes, no m\u00e1ximo. Falei: \u201cVamos tentar ganhar um dinheiro na rua\u201d. Pra comer, n\u00e9? Tocando nossas m\u00fasicas. Fomos pra [Avenida] Paulista, come\u00e7amos a tocar, voz e viol\u00e3o. Tocamos no v\u00e3o do MASP, barzinho\u2026 Dinheiro mesmo a gente n\u00e3o ganhou (risos), porque estava todo mundo fudido tamb\u00e9m, mas as pessoas gostavam e nos incentivavam. E decidimos seguir nisso, porque nos dava um prazer tanto f\u00edsico quanto espiritual. Quando a gente tem uma expectativa\u2026 Expectativa? Esqueci o nome da palavra l\u00e1. Quando voc\u00ea v\u00ea uma luz no fim do t\u00fanel, sabe? (O rep\u00f3rter arrisca: \u201cEsperan\u00e7a?\u201d). \u00c9! Isso, esperan\u00e7a! A gente em S\u00e3o Paulo, os exclu\u00eddos do rol\u00ea, sem conhecer ningu\u00e9m, come\u00e7amos a compor, compor, compor. Come\u00e7amos a criar o nosso sonho. Na ocupa\u00e7\u00e3o tinha um amigo que tinha uma c\u00e2mera de v\u00eddeo e come\u00e7ou a nos filmar. Falamos de fazer um programa com a Nicolas N\u00e3o Tem Banda chamado \u201cA Hora do Caos\u201d. Esse nosso amigo era o Agente do Caos e nos entrevistava. E a gente tem a sorte de ter toda a nossa trajet\u00f3ria gravada, do primeiro ensaio at\u00e9 o que a gente faz agora. Fizemos nosso primeiro show na ponta da passarela do Ouvidor, a galera curtiu. Depois um amigo nosso que estava com um projeto no terceiro andar da ocupa\u00e7\u00e3o nos convidou pra tocar numa festa dele. O Kiab\u00e3o foi pra Porto Alegre buscar a guitarra e o amplificador dele, e a gente deixou de ser voz e viol\u00e3o e passou a ser voz e guitarra. A gente fez o show, s\u00f3 que era muita energia, cara! As coisas come\u00e7aram a pegar fogo, e a gente se ligou que ia ter que dividir a energia com as outras pessoas, sen\u00e3o a gente ia enlouquecer (risos), ia acontecer alguma coisa com o nosso corpo que a gente n\u00e3o ia suportar, saca? Ent\u00e3o vamos dividir isso pra ficar mais f\u00e1cil.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Tes\u00e3o pela arte e Hermes, o coelho<\/strong><br \/>\nO \u00fanico crit\u00e9rio pra tocar na Nicolas \u00e9 tes\u00e3o pelo que faz: tes\u00e3o pela m\u00fasica, tes\u00e3o pela vida. A t\u00e9cnica vem com o tempo. O importante \u00e9 encarar a arte como miss\u00e3o nesse plano terreno, saca? A\u00ed a gente come\u00e7ou a buscar os exclu\u00eddos: todo mundo que queria ter banda e n\u00e3o era aceito, a gente trazia pro nosso lado. A primeira forma\u00e7\u00e3o tinha umas seis pessoas, acho: tinha teclado, duas guitarras\u2026 Os shows eram sempre no Ouvidor, e eu tocava de in\u00edcio com uma m\u00e1scara de coelho. Quando eu a coloquei, ela falou comigo e eu assumi outra loucura, fiquei uns tr\u00eas meses em que s\u00f3 tirava a m\u00e1scara para dormir e escovar os dentes. Foi quando criei esse personagem chamado Hermes, que foi o primeiro vocalista da Nicolas N\u00e3o Tem Banda. Pela banda ser muito visceral e n\u00e3o ter muito virtuosismo, as pessoas ficavam com medo, nos primeiros shows a galera tinha medo de se aproximar. (risos) A gente foi criando repert\u00f3rio, mas as dificuldades come\u00e7aram a acontecer e os amigos que entraram nessa forma\u00e7\u00e3o foram saindo da banda. Uns voltaram pra Porto Alegre, outros estavam na banda por outras expectativas al\u00e9m da miss\u00e3o e da arte\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Flagrantes, fome e o poder transformador de uma amea\u00e7a de morte<\/strong><br \/>\nEm 2015, juntamente com outro amigo nosso, ca\u00edmos na estrada com o projeto de ir pro Rio Grande do Sul numa Kombi sem plano nenhum, um lance meio hippie. Nessa Kombi, eram duas bandas formadas pelas mesmas pessoas: tinha a Piratas do Ouvidor, que era um som instrumental; e a Nicolas N\u00e3o Tem Banda, que era um som com letras pr\u00f3prias. Mas o nosso amigo que tocava guitarra nessa \u00e9poca n\u00e3o sacava o nosso som e n\u00e3o gostava de ensaiar (risos). Ficamos cinco meses na estrada, e aconteceram muitas coisas. Fomos detidos em Florian\u00f3polis, porque teve um momento sublime em que a gente estava tocando na praia e a\u00ed eu me desconectei do mundo e fiquei nu tocando na beira da Praia da Ferrugem (o rep\u00f3rter ri). Rolou um problem\u00e3o, pol\u00edcia, pegaram todos os nossos equipamentos. E o mais louco de tudo \u00e9 que a gente tinha levado muita droga (o rep\u00f3rter ri de novo), e elas estavam todas no amplificador de guitarra, que ficou mais ou menos umas duas semanas no meio da pol\u00edcia, cheio de drogas \u2013 e eles n\u00e3o abriram, saca? (o rep\u00f3rter chora de rir). A gente passou um tempo dif\u00edcil ali em Santa Catarina, tocando s\u00f3 com voz e viol\u00e3o pra conseguir comida, at\u00e9 que a gente conseguiu um cara que hospedou a gente numa ch\u00e1cara que ficava no Continente (nota: para quem n\u00e3o sabe, a maior parte do territ\u00f3rio da capital catarinense \u00e9 uma ilha). A gente come\u00e7ou a fazer shows nesse lugar, mas deu problema, um dia um vizinho foi at\u00e9 l\u00e1 armado e disse que ia matar todo mundo por causa do barulho (risos). A\u00ed a gente pensou: \u201cestamos passando fome, a galera curtindo nossas m\u00fasicas, estamos sendo amea\u00e7ados de morte, ent\u00e3o vamos tentar nos profissionalizar, n\u00e9?\u201d<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Nicolas N\u00e3o Tem Banda * Esp\u00edrito da Floresta\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/V8SDhVsUsWk?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Minimalismo, e as raz\u00f5es para n\u00e3o ter um dealer como integrante<\/strong><br \/>\nJ\u00e1 em Curitiba, decidimos voltar pra S\u00e3o Paulo pra focar e construir algo que fosse relevante e que tivesse a nossa linguagem. Falamos isso pro guitarrista e dissemos que ia ter que ensaiar, passar muito tempo desenvolvendo o trabalho, e ele n\u00e3o quis. A\u00ed voltamos pra S\u00e3o Paulo eu, o Kiabo e o Andy. O Kiabo j\u00e1 estava no baixo nessa \u00e9poca, e o Andy na bateria. De volta em SP, tocamos com essa forma\u00e7\u00e3o, de voz, baixo e bateria, que era a \u00fanica maneira que a gente tinha de ganhar uma grana. E a galera continuou gostando! (risos) Come\u00e7aram a nos dar dinheiro, e a\u00ed a gente foi atr\u00e1s de um guitarrista de novo. Entrou um outro amigo pra banda, mas o guitarrista era sempre o problema, fosse por n\u00e3o gostar de ensaiar, ou por ter umas diverg\u00eancias com a banda\u2026Teve uma \u00e9poca que teve um dealer na banda, e ele nos deu uns equipamentos. A\u00ed a gente vendia drogas pra ele e usava pra passar a nossa fome&#8230; mas a gente gostava tanto de droga que come\u00e7amos a usar todas que ele nos deu (rs). A\u00ed ele quis que o batera fosse mula dele pra trazer droga na Amaz\u00f4nia, mas a\u00ed a gente viu que isso era muito ruim pra nossa miss\u00e3o, ia estragar a coisa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Pr\u00eamios, porta girat\u00f3ria de guitarristas, e a beleza de uma cena sem hype<\/strong><br \/>\nCriamos um est\u00fadio no quarto do Andy no Ouvidor 63. Ele mesmo fez o isolamento ac\u00fastico l\u00e1, forrou tudo, botou a bateria dele, tinha amp de guitarra, de baixo, microfone. Era um lugar onde os m\u00fasicos do pr\u00e9dio podiam ensaiar, e tamb\u00e9m os m\u00fasicos independentes que n\u00e3o tinham condi\u00e7\u00e3o podiam ensaiar tamb\u00e9m. N\u00f3s mesmos come\u00e7amos a ensaiar todo dia, todo dia, todo dia. Tamb\u00e9m chamamos bandas de outros lugares pra tocar no Ouvidor e criamos uma cena de rock ali, onde a gente conheceu muitas pessoas e come\u00e7ou a rolar um interc\u00e2mbio entre n\u00f3s e eles, que tamb\u00e9m nos convidavam pra tocar em outros lugares. Foi quando come\u00e7amos a ficar conhecidos no underground paulista. O Gabriel Thomaz, do Autoramas, conheceu nosso som, e come\u00e7ou a nos indicar pro Pr\u00eamio Gabriel Thomaz de M\u00fasica Brasileira, mesmo sem a gente ter lan\u00e7ado um disco ainda. Pensamos: \u201ccaralho, cara, estamos sendo indicados pra pr\u00eamio\u201d. Foi a\u00ed que a gente gravou um EP no Est\u00fadio Aurora, em S\u00e3o Paulo, e come\u00e7amos a fazer mais shows. S\u00f3 que ocorreram algumas diverg\u00eancias e mais uma vez saiu o guitarrista. Entrou outro, um argentino que tamb\u00e9m morava no Ouvidor 63. Ele era muito foda, cara! Porra, muito foda! S\u00f3 que ele tinha problemas com o v\u00edcio, n\u00e9? Principalmente o crack. Ele come\u00e7ou a entrar em decl\u00ednio e veio com uns rol\u00eas meio pesados que estavam reverberando na banda. A\u00ed a gente sacou que infelizmente ele n\u00e3o ia poder continuar. Entrou outro amigo nosso, da ZL, s\u00f3 que ele n\u00e3o gostava de ensaiar tamb\u00e9m, e assim a gente foi (risos). Entrou a pandemia, a gente procurou uns guitarristas depois, n\u00e3o dava certo com ningu\u00e9m. Acabando a pandemia, convidamos um amigo nosso [Leonardo Souza, vulgo Leo Satan] que tinha visto nossos shows e gostava da gente. Ele gosta de ensaiar (risos), \u00e9 uma excelente pessoa (mais risos), e trouxe mais organiza\u00e7\u00e3o pra n\u00f3s. Porque chega um momento que a gente tem que se organizar, porque n\u00e3o adianta querer ficar nesse romantismo de achar que as coisas v\u00e3o acontecer. N\u00e3o \u00e9 bem assim, a gente prefere contar mais com o trabalho do que com a sorte. Come\u00e7amos a trabalhar no disco, e ele finalmente saiu em agosto desse ano. Saiu pela V\u00f3rtex, que \u00e9 uma produtora que est\u00e1 no in\u00edcio, de amigos que gostam do nosso som. Eles disseram: \u201ca gente precisa vender portf\u00f3lio e gosta do som de voc\u00eas, ent\u00e3o vamos criar esse primeiro \u00e1lbum\u201d. Gravamos o repert\u00f3rio todo em um dia, ao vivo, teria que ter essa pegada mais ao vivo, inspirada no MC5 e tal\u2026 Depois colocamos alguns overdubs, fizemos essa parte mais t\u00e9cnica com o Leo e o Ferreirinha, da V\u00f3rtex. O disco foi lan\u00e7ado junto pelo [selo] Maxilar, do Gabriel Thomaz, que foi nos dando aval desde que a gente falou que queria gravar.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-84773\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/nicolas2.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"750\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/nicolas2.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/nicolas2-300x300.jpg 300w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/nicolas2-150x150.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Pela miss\u00e3o<\/strong><br \/>\nA gente s\u00f3 aguentou isso tudo e n\u00e3o morreu porque eu, o Kiabo e o Andy criamos uma rela\u00e7\u00e3o realmente de irm\u00e3o, por ter tido todo esse per\u00edodo da Ouvidor 63 e por levar a banda como uma miss\u00e3o mesmo. Essa nuvem de ideias escolheu a gente pra transpor essa mensagem revolucion\u00e1ria \u2013 digamos assim \u2013 e \u00e9 nosso dever cumprir essa miss\u00e3o. Quando entrou o Leo, a gente p\u00f4de fechar esse ciclo de dez anos de uma maneira muito verdadeira e amorosa. As pessoas est\u00e3o gostando do disco, o feedback tem sido bom, e apesar de esse nosso mundo ter muito jab\u00e1, as conex\u00f5es que est\u00e3o acontecendo s\u00e3o verdadeiras, porque s\u00e3o pessoas que se identificam com a nossa m\u00fasica, curtem e est\u00e3o nos dando esse apoio. A gente se sente muito feliz e honrado de poder criar algo que est\u00e1 fazendo com que essa chama do rock\u2019n\u2019roll continue acesa em nossos cora\u00e7\u00f5es, e tamb\u00e9m em outros cora\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Press\u00f5es, padr\u00f5es e realiza\u00e7\u00f5es<\/strong><br \/>\nCom o passar do tempo, os artistas foram cedendo \u00e0s expectativas e \u00e0s press\u00f5es, tanto as sociais como as mercadol\u00f3gicas. Isso porque as pessoas t\u00eam o desejo de serem aceitas, n\u00e9? E \u00e9 claro que a gente deseja isso tamb\u00e9m, mas a nossa mensagem, digamos que ela \u00e9 algo pra n\u00f3s mesmos pensarmos. Temos discuss\u00f5es e diverg\u00eancias muitas vezes, e um fala na cara do outro, mas procurando uma evolu\u00e7\u00e3o em comum, m\u00fatua. Por termos sido criados num lugar muito pr\u00f3ximo ao inferno de Dante, fomos muito verdadeiros \u00e0s nossas viv\u00eancias. Porque o Ouvidor 63 eram 13 andares sem luz e sem \u00e1gua, levamos dois anos e meio s\u00f3 pra limpar o pr\u00e9dio. A gente conseguiu reestruturar a partir da grana arrecadada em festas, e ali foi o mais perto da sociedade alternativa do Raul que eu cheguei a viver, porque ali as pessoas podiam ser quem elas desejassem. Mas por conta de toda a priva\u00e7\u00e3o de liberdade de nossa sociedade, nem sempre o cara que se v\u00ea livre sabe aproveitar. E a\u00ed o cara come\u00e7a a se perder e a repetir todos os procedimentos que ele critica, como territorialismo, viol\u00eancia. Por isso a gente falava pra n\u00f3s mesmos: atravesse o inferno, mas continue caminhando. A gente sabia que ali ia ser um local de passagem, nunca quisemos ficar ali pra sempre. A grande charada era como fazer pra sair dali, e a resposta era trabalho, trabalho, trabalho \u2013 no sentido de n\u00e3o desistir do que a gente acredita para que as coisas aflorem e aconte\u00e7am. E agora aflorou e aconteceu. Pensa: uma banda que nasceu em ocupa\u00e7\u00e3o, eu n\u00e3o sei tocar nada, o modo de compor \u00e9 comunit\u00e1rio&#8230; E hoje temos reconhecimento do que fazemos. \u00c9 um modo muito \u00fanico de compor, que foge dessa coisa matem\u00e1tica, europeia, e vai mais pra polirritmos, coisa dos povos africanos, origin\u00e1rios&#8230; O cora\u00e7\u00e3o \u00e9 o grande guia, tanto que o nosso logo \u00e9 um cora\u00e7\u00e3o gritando.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><del>Camisa preta, barba e pensamentos de retrocesso<\/del><\/strong><br \/>\nO que a gente escreve s\u00e3o nossas verdades, mas elas n\u00e3o s\u00e3o verdades absolutas, porque a gente n\u00e3o quer catequizar ningu\u00e9m, mas a gente quer, de repente, fazer que as pessoas discutam novamente o que \u00e9 rock, porque o rock se tornou uma coisa muito associada aos anos 1980. N\u00e3o que essa gera\u00e7\u00e3o seja mal\u00e9fica nem nada, mas \u00e9 que muitos deles vieram de lugares privilegiados, tiveram contatos privilegiados, e alcan\u00e7aram uma repercuss\u00e3o nacional muito por conta disso \u2013 claro que por conta do trabalho deles tamb\u00e9m. Mas digamos que, no quesito originalidade, eram muitas coisas copiadas dos Estados Unidos, da Europa. A gente n\u00e3o quer perder essa ess\u00eancia do rock como coisa do diabo, como coisa feita por oper\u00e1rios, por artistas que acreditam e vivem suas verdades. A gente gostaria muito de ter um produtor que nos direcionasse. Como a gente n\u00e3o tem, nosso papel \u00e9 incentivar pessoas a acreditarem naquilo que fazem ou questionarem o sistema e todos esses biscoitos contempor\u00e2neos que eles nos d\u00e3o em troca de sermos cordeiros. \u201cAh, a gente vai te dar tudo isso, mas voc\u00ea vai ser encaminhado pro sacrif\u00edcio e n\u00e3o tem que falar nada\u201d. A gente quer falar de tudo e questionar tudo. Em \u201c\u00d3dio\u201d, por exemplo, nossa energia de raiva vai para as institui\u00e7\u00f5es, porque a gente sabe que o povo, assim como n\u00f3s, \u00e9 parte dessa massa de manobra. O rock n\u00e3o \u00e9 camisa preta e barba e pensamentos de retrocesso. O rock\u2019n\u2019roll \u00e9 justamente o p\u00e9 na porta e o soco na cara, sabe? As pessoas t\u00eam medo de serem radicais \u2013 radicais de n\u00e3o pensarem tanto no mercado, e sim na m\u00fasica, na arte, no prazer, no processo. A gente v\u00ea muita gente fazendo m\u00fasica pro TikTok, saca? E a gente fez m\u00fasica pra quem gosta de m\u00fasica, pra quem consegue colocar um disco, ouvir inteiro, apreciar aquilo e alimentar a alma. M\u00fasica \u00e9 extraf\u00edsico, extramercadol\u00f3gico, e queremos fazer m\u00fasica pra quem se sente assim.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"NOVOS SELVAGENS\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/_qTknxCrOcI?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><em>\u2013 Leonardo Vinhas (<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/leovinhas\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">@leovinhas<\/a>) \u00e9 produtor e assina a se\u00e7\u00e3o Conex\u00e3o Latina (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2012\/05\/03\/tag\/conexao_latina\/\">aqui<\/a>) no Scream &amp; Yell.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"O disco \u00e9 rock cru e direto. Mas longe de ser monoc\u00f3rdico ou previs\u00edvel: vai da polirritmia africana ao stoner, passando por blues, p\u00f3s-punk e hardcore, sem soar como turismo musical.\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2024\/10\/25\/entrevista-rock-e-pe-na-porta-e-o-soco-na-cara-avisa-a-nicolas-nao-tem-banda-ou-quer-uma-banda-pra-se-apaixonar-cola-ai\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":6,"featured_media":84774,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[3],"tags":[7430],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/84770"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/6"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=84770"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/84770\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":84776,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/84770\/revisions\/84776"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/84774"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=84770"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=84770"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=84770"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}