{"id":84763,"date":"2024-10-24T02:21:42","date_gmt":"2024-10-24T05:21:42","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=84763"},"modified":"2024-12-04T00:20:41","modified_gmt":"2024-12-04T03:20:41","slug":"musica-com-fate-alcohol-o-japandroids-se-despede-fazendo-o-que-sempre-fizeram-de-melhor","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2024\/10\/24\/musica-com-fate-alcohol-o-japandroids-se-despede-fazendo-o-que-sempre-fizeram-de-melhor\/","title":{"rendered":"M\u00fasica: Com o derradeiro \u201cFate &#038; Alcohol\u201d, Japandroids se despede fazendo o que sempre fizeram de melhor"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>texto de <a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/caro.davii\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Davi Caro<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Vista com certa perspectiva, toda a trajet\u00f3ria do Japandroids poderia ser considerada um feliz acidente. O duo canadense formado por Brian King (vocais e guitarra) e David Prowse (bateria e backing vocals) construiu uma robusta e respeit\u00e1vel carreira desde sua incep\u00e7\u00e3o, em 2006, ainda que t\u00e3o surpreendente quanto inesperada: seu primeiro disco, \u201cPost-Nothing\u201d (2009), foi inicialmente concebido como uma esp\u00e9cie de despedida, uma conclus\u00e3o a tr\u00eas anos de infrut\u00edferas tentativas de despontar em meio \u00e0 cena local de Vancouver e arredores. Mas, de modo inesperado, o \u00e1lbum acabou conquistando audi\u00eancias muito al\u00e9m de sua terra natal, e quase acidentalmente acabou gerando interesse pela sonoridade \u201cSpringsteen-via-Replacements\u201d t\u00e3o bem personificada por uma dupla que j\u00e1 se mostrava pronta para jogar a toalha. 15 anos, dois discos de est\u00fadio (um deles, o excelente \u201cCelebration Rock\u201d, de 2012), um registro ao vivo e uma colet\u00e2nea depois, c\u00e1 est\u00e3o eles de novo, com um novo disco. Ele se chama \u201cFate &amp; Alcohol\u201d (2024) e, longe de ser um acaso do destino ou uma resoluta admiss\u00e3o de derrota, \u00e9, de fato, o \u00faltimo trabalho da banda.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cFate &amp; Alcohol\u201d \u00e9 o sucessor do malcompreendido \u201cNear To The Wild Heart Of Life\u201d (2017). De fato, o \u00faltimo lan\u00e7amento dos dois m\u00fasicos antes deste derradeiro disco foi a grava\u00e7\u00e3o ao vivo \u201cMassey Fuckin\u2019 Hall\u201d (2020), que exp\u00f4s a inconveniente verdade por tr\u00e1s do triunfal som aperfei\u00e7oado pelo duo em est\u00fadio: a perfei\u00e7\u00e3o dos arranjos, somados aos contagiantes backing vocals e \u201cwhoa-oh-oh\u201ds que a banda transformou em marca registrada era, afinal, muito dif\u00edcil de replicar ao vivo, mesmo em um ambiente cheio de f\u00e3s ardorosos (quem os viu ao vivo na abertura da turn\u00ea de \u201cCelebration Rock\u201d, em mar\u00e7o de 2012, na Casa do Mancha, sabe bem disso). A quebra da \u201cilus\u00e3o\u201d de perfei\u00e7\u00e3o musical pode ter sido, assim, a gota d\u2019\u00e1gua para muitos dos seguidores, agora impossibilitados de ignorar a fragilidade das apresenta\u00e7\u00f5es ao vivo de can\u00e7\u00f5es do calibre de \u201cFire\u2019s Highway\u201d ou \u201cWet Hair\u201d \u2013 por isso n\u00e3o deixa de ser revelador que o novo trabalho venha desacompanhado de uma turn\u00ea.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Japandroids - &quot;Heart Sweats&quot; (Live at Massey Hall)\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/bijNbZekx24?list=PLJ7QPuvv91JsSm2x1G8gPPbNSKXhAc1Dt\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De toda forma, \u201cFate &amp; Alcohol\u201d leva a um questionamento intrusivo, por\u00e9m coerente: como soam, afinal, os Japandroids, quando for\u00e7ados a confrontar o pr\u00f3prio senso de maturidade e finitude? Desde a primeira faixa, \u201cEye Contact High\u201d, os experimentos com outros instrumentos e andamentos, t\u00e3o integrais a seu disco de est\u00fadio anterior, parecem ter sido deixados de lado em favor da ess\u00eancia instrumental da dupla. Guitarras aceleradas e bateria fren\u00e9tica tal qual uma velha can\u00e7\u00e3o do Superchunk, com direito a vocais de King muito mais revigorados do que derrotados \u2013 al\u00e9m, claro, dos tradicionais backings. \u00c9 uma das can\u00e7\u00f5es que melhor poderia soar ao vivo, apesar das j\u00e1 citadas limita\u00e7\u00f5es. Outro caso de can\u00e7\u00e3o feita para os palcos, \u201cUpon Sober Reflection\u201d \u00e9, desde o t\u00edtulo, uma das maiores provas da maturidade musical e profissional alcan\u00e7ada pela dupla. Com um andamento que lembra, a princ\u00edpio, a cl\u00e1ssica \u201cThe House That Heaven Built\u201d, os tempos r\u00e1pidos d\u00e3o lugar a partes mais cadenciadas e mel\u00f3dicas, que fazem jus \u00e0s letras mais reflexivas. \u201cReflexivas\u201d, ali\u00e1s, \u00e9 uma palavra que poderia ser utilizada para descrever pelo menos duas das melhores faixas do novo disco: ao mesmo tempo em que \u201cFugitive Summer\u201d traz algumas das melhores linhas de guitarra de Brian em todo o cat\u00e1logo da banda (um testamento ao perfeccionismo do m\u00fasico quanto \u00e0s grava\u00e7\u00f5es de est\u00fadio), \u201cPositively 34th Street\u201d \u00e9 quase folk em seu arranjo de guitarras, e \u00e9 uma chance para Prowse brilhar em suas discretas, embora super acertadas, linhas de bateria.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-84765\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/japandroids2.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"563\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/japandroids2.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/japandroids2-300x225.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Melodias, inclusive, s\u00e3o presentes em abund\u00e2ncia aqui: a segunda faixa do trabalho (e segundo single), \u201cD&amp;T\u201d remonta \u00e0 propulsiva \u201cYounger Us\u201d, com divertidas e autorreferentes quebras no meio da can\u00e7\u00e3o. \u201cChicago\u201d, por sua vez, \u00e9 uma das mais singulares can\u00e7\u00f5es do \u00e1lbum, fazendo uso de cad\u00eancias que aproximam os Japandroids de muitas das bandas que os antecederam (a escolha da faixa como primeira can\u00e7\u00e3o de trabalho diz muito). \u201cAlice\u201d \u00e9 o grande momento de David Prowse no disco, com o instrumentista conduzindo a faixa com versatilidade e at\u00e9 certo minimalismo \u2013 do tipo que seria impens\u00e1vel desta mesma banda h\u00e1 uma d\u00e9cada. Mas n\u00e3o demora muito para que a boa e velha f\u00f3rmula volte \u00e0 tona. \u201cA Gaslight Anthem\u201d traz o baterista nos vocais, e poderia muito bem haver figurado na colet\u00e2nea \u201cNo Singles\u201d (2010). A finaliza\u00e7\u00e3o do disco, com a dobradinha \u201cOne Without the Other\u201d\/\u201dAll Bets Are Off\u201d, \u00e9 redentora e libertadora, com o que parecem ser discretos, por\u00e9m bonitos, sons de sintetizador na primeira, e letras impressionistas e ritmos cadenciados na segunda, ajudando a lembrar da catarse de \u201cContinuous Thunder\u201d (do disco de 2012).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quem busca grandes transforma\u00e7\u00f5es musicais ou risco art\u00edstico talvez se decepcione com a resolu\u00e7\u00e3o de \u201cFate &amp; Alcohol\u201d: afinal, ao longo das \u00faltimas duas d\u00e9cadas, n\u00e3o foram muitas as bandas capazes de acertar em uma sonoridade e aperfei\u00e7o\u00e1-la com tanta distin\u00e7\u00e3o quanto os Japandroids. Mais do que salientar a simplicidade de seus arranjos ou mesmo de sua forma\u00e7\u00e3o, o duo parece ter assumido para si a miss\u00e3o de provar fazer m\u00fasica punk (ou, ao menos, adjacente ao punk rock) bem feita n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o f\u00e1cil quanto possa parecer. Nada demanda mais esfor\u00e7o do que demonstrar espontaneidade frente a multid\u00f5es \u2013 se esse fosse o \u00fanico legado a ser levado por Brian King e David Prowse, a dupla talvez j\u00e1 pudesse se aposentar com tranquilidade e a sensa\u00e7\u00e3o de dever cumprido. O m\u00e9rito de ter conseguido uma respeit\u00e1vel discografia (agraciada com pelo menos um disco verdadeiramente transformador e impactante) e ter conquistado p\u00fablicos em diferentes continentes n\u00e3o \u00e9 nada mal para uma dupla que mal conseguia se ver saindo da \u00e1rea em que habitava. N\u00f3s, do lado de c\u00e1, ficamos com um \u00f3timo cat\u00e1logo de can\u00e7\u00f5es, e as mem\u00f3rias de uma banda capaz de mostrar vitalidade mesmo em meio \u00e0s mais desafiadoras e adversas situa\u00e7\u00f5es. Ainda mais em tempos atuais, afinal, o que mais h\u00e1 para se esperar, ou querer, de uma banda?<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Japandroids - &quot;Eye Contact High&quot; (Full Album Stream)\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/p22N1cj78GY?list=PLJ7QPuvv91Juv3QDpuJpQD-G1a4moApZ9\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><em>\u2013\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/caro.davii\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Davi Caro<\/a>\u00a0\u00e9 professor, tradutor, m\u00fasico, escritor e estudante de Jornalismo.\u00a0<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/author\/davi-caro\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Leia outros textos de Davi aqui.<\/a><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Duo parece ter assumido para si a miss\u00e3o de provar fazer m\u00fasica punk (ou, ao menos, adjacente ao punk rock) bem feita n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o f\u00e1cil quanto possa parecer.\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2024\/10\/24\/musica-com-fate-alcohol-o-japandroids-se-despede-fazendo-o-que-sempre-fizeram-de-melhor\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":134,"featured_media":84764,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[3],"tags":[7429],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/84763"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/134"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=84763"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/84763\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":84767,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/84763\/revisions\/84767"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/84764"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=84763"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=84763"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=84763"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}