{"id":84750,"date":"2024-10-24T00:38:22","date_gmt":"2024-10-24T03:38:22","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=84750"},"modified":"2024-11-21T00:26:51","modified_gmt":"2024-11-21T03:26:51","slug":"tres-filmes-da-48a-mostra-sp-grand-tour-demba-flathead","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2024\/10\/24\/tres-filmes-da-48a-mostra-sp-grand-tour-demba-flathead\/","title":{"rendered":"Tr\u00eas filmes da 48\u00aa Mostra SP: &#8220;Grand Tour&#8221;, &#8220;Demba&#8221;, &#8220;Flathead&#8221;"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>textos de\u00a0<a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/leandro_luz\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Leandro Luz<\/a><\/strong><\/h2>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-84760\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/grandtour1.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"331\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/grandtour1.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/grandtour1-300x132.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>&#8220;Grand Tour&#8221;, de Miguel Gomes (2024)<\/strong><br \/>\nH\u00e1 uma suposta postura descompromissada em &#8220;Grand Tour&#8221; (2024), por mais que o diretor Miguel Gomes e sua equipe deixem evidente o tamanho da elabora\u00e7\u00e3o visual e sonora empreendida. Inconsistente, o filme flutua entre 1918 e o tempo presente, entre o colorido e o preto e branco para narrar a jornada de Edward (Gon\u00e7alo Waddington), um funcion\u00e1rio p\u00fablico do Imp\u00e9rio Brit\u00e2nico que viaja pelo continente asi\u00e1tico em fuga. De quem ele foge? De Molly (Crista Alfaiate), sua noiva, personagem que dominar\u00e1 a segunda metade do filme, passeando pelos mesmos espa\u00e7os sem jamais encontrar seu amado fuj\u00e3o. Gomes filma Alfaiate como a sua <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2015\/01\/01\/filmografia-comentada-federico-fellini\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Giulietta Masina<\/a> (os grandes olhos e uma risada peculiar suscitam a compara\u00e7\u00e3o). Ap\u00e1tico e melanc\u00f3lico, o protagonista masculino \u00e9 facilmente suplantado pela presen\u00e7a da mo\u00e7a, respons\u00e1vel por trazer um sopro de vida para um filme que vinha se perdendo em suas belas composi\u00e7\u00f5es. A prop\u00f3sito, vale destacar uma curiosidade a respeito da produ\u00e7\u00e3o empreendida por Miguel Gomes. Para rodar &#8220;Grand Tour&#8221;, o diretor portugu\u00eas reuniu dois fot\u00f3grafos que haviam trabalhado com ele anteriormente: seu conterr\u00e2neo Rui Po\u00e7as, parceiro em &#8220;Aquele Querido M\u00eas de Agosto&#8221; (2008) e &#8220;<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2013\/09\/05\/filmes-bling-ring-tabu-casamento\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Tabu<\/a>&#8221; (2012), que ficou respons\u00e1vel por filmar as cenas em est\u00fadio, e o tailand\u00eas Sayombhu Mukdeeprom, que assina a fotografia da trilogia &#8220;<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2015\/10\/26\/39%C2%AA-mostra-de-cinema-de-sp\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">As Mil e Uma Noites<\/a>&#8221; (2015), enviado para filmar em loca\u00e7\u00e3o na viagem pela \u00c1sia; al\u00e9m deles, um terceiro fot\u00f3grafo foi contratado, Gui Liang, pois em virtude das restri\u00e7\u00f5es causadas pela pandemia da Covid-19 Gomes e sua produ\u00e7\u00e3o precisou comandar parte das filmagens remotamente. Essa fragmenta\u00e7\u00e3o no departamento de fotografia revela um jogo com a improvisa\u00e7\u00e3o que \u00e9 bastante caro ao filme. Gomes afirma que o projeto nasceu da vontade de empreender essa viagem, e que o roteiro &#8211; escrito a oito m\u00e3os por Maureen Fazendeiro, Telmo Churro, Mariana Ricardo e Miguel Gomes &#8211; foi sendo desenvolvido na medida em que a pesquisa e as rodagens se materializavam. Em resumo, &#8220;Grand Tour&#8221; \u00e9 uma obra um tanto anacr\u00f4nica, perdida em seu del\u00edrio est\u00e9tico, mas ainda capaz de hipnotizar muita gente.<\/p>\n<hr \/>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-84757\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/demba.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"331\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/demba.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/demba-300x132.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>&#8220;Demba&#8221;, de Mamadou Dia (2024)<\/strong><br \/>\nNa tentativa de amarrar discuss\u00f5es sobre luto, solid\u00e3o e relacionamento paterno, &#8220;Demba&#8221; (2024) se atrapalha um pouco e joga muitas ideias no caldeir\u00e3o sem saber exatamente como lidar com tudo ao mesmo tempo. O protagonista, no entanto, \u00e9 bem forte e a maneira como o senegal\u00eas Mamadou Dia filma a sua confus\u00e3o ps\u00edquica faz valer a sess\u00e3o. Na trama, Demba est\u00e1 prestes a se aposentar ap\u00f3s tr\u00eas d\u00e9cadas de trabalho na prefeitura de uma cidade ao norte do Senegal. Ao mesmo tempo em que tenta lidar com o luto pela morte da esposa, prestes a completar dois anos, ele tamb\u00e9m se v\u00ea pressionado a estabelecer uma rela\u00e7\u00e3o mais pr\u00f3xima com o filho, que mesmo amargurado se esfor\u00e7a para se conectar com o pai. Um esfor\u00e7o, ali\u00e1s, de m\u00e3o \u00fanica, porque Demba n\u00e3o consegue se desvencilhar da depress\u00e3o e do que parece ser o desenvolvimento de uma psicose que muda a sua percep\u00e7\u00e3o do mundo. O diretor filma essa altera\u00e7\u00e3o de percep\u00e7\u00e3o da realidade adotando elementos visuais interessantes, com enquadramentos que aproveitam bem a raz\u00e3o de aspecto ampla, tanto quando filma as suas personagens em planos m\u00e9dios ou abertos, valorizando as belas loca\u00e7\u00f5es ao fundo, quanto nos closes, que demonstram um controle fino do trabalho de ilumina\u00e7\u00e3o. A dire\u00e7\u00e3o de fotografia alterna entre um registro naturalista, aliado ao imagin\u00e1rio difundido do cinema feito por cineastas de pa\u00edses africanos, e uma abordagem mais solta, que flerta com o realismo m\u00e1gico &#8211; s\u00e3o nessas horas que o filme aponta para algo novo, ainda que enquadrado, sobretudo na maneira como articula determinado ponto de virada do roteiro, em uma cartilha de festivais que n\u00e3o o deixa crescer. A cena final, com Demba, seu filho e demais habitantes da cidade caminhando \u00e0 noite numa esp\u00e9cie de prociss\u00e3o, cria uma ponte interessante para o arco do protagonista, que mesmo imerso em sua tristeza e solid\u00e3o ainda \u00e9 capaz de vislumbrar um mundo compartilhado.<\/p>\n<hr \/>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-84759\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/fklathead.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"331\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/fklathead.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/fklathead-300x132.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>&#8220;Flathead&#8221;, de Jaydon Martin (2024)<\/strong><br \/>\nLonga-metragem de estreia do diretor australiano Jaydon Martin, &#8220;Flathead&#8221; investiga o universo da classe trabalhadora de seu pa\u00eds por meio do cotidiano de dois personagens: Cass, um senhor de sa\u00fade debilitada que deixa Sydney em dire\u00e7\u00e3o a Bundaberg, sua cidade natal, e Andrew, um homem de meia idade de origem chinesa que trabalha em uma lanchonete e precisa enfrentar a morte repentina do pai. O retrato que Martin faz dessas duas figuras an\u00f4nimas suscita interesse suficiente para carregar o filme pelos seus quase 90 minutos, e a escolha por incorporar a paisagem como elemento motor da narrativa contribui imensamente. Quando acerta, o document\u00e1rio \u00e9 capaz de conquistar o cora\u00e7\u00e3o do espectador pelas rigorosas imagens bem compostas e pela aten\u00e7\u00e3o aos detalhes &#8211; poucos cineastas se interessariam em filmar, por exemplo, uma conversa despretensiosa entre um bo\u00eamio local e um senhor de idade hospedado em um motel de beira de estrada. Cass conta de seu passado n\u00f4made, de sua rela\u00e7\u00e3o intensa com as drogas e das mudan\u00e7as em seu estilo de vida quando teve o seu primeiro filho. Se abre completamente para o amigo que acaba de conhecer e, logo, tamb\u00e9m para o filme. No entanto, quando erra, vem \u00e0 tona aquela impress\u00e3o de &#8220;j\u00e1 vi isso antes&#8221; que quase p\u00f5e tudo a perder. Ao operar em boa parte do tempo como um road movie, &#8220;Flathead&#8221; muitas vezes soa gen\u00e9rico, sem conseguir trazer para o movimento da viagem o mesmo frescor da orat\u00f3ria de suas personagens. Filmar a classe trabalhadora australiana em preto e branco, refletir acerca do envelhecimento e falar de luto s\u00e3o os interesses do diretor, que por vezes se perde em algumas digress\u00f5es, sobretudo quando se envereda para a coisa religiosa, com Cass e Andrew demonstrando, cada um \u00e0 sua maneira, como se relacionam com a espiritualidade. Digress\u00f5es essas que, em contrapartida, s\u00e3o tamb\u00e9m o grande charme do filme.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #ff0000;\"><em><a style=\"color: #ff0000;\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/tag\/mostra-de-cinema\/\">Leia mais sobre a Mostra Internacional de Cinema de S\u00e3o Paulo<\/a><\/em><\/span><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"GRAND TOUR de Miguel Gomes (2024) \u2013 trailer\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/yrw791o5qDE?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"TRAILER Demba\" src=\"https:\/\/player.vimeo.com\/video\/277172235?dnt=1&amp;app_id=122963\" width=\"747\" height=\"420\" frameborder=\"0\" allow=\"autoplay; fullscreen; picture-in-picture; clipboard-write\"><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Flathead \u2013 trailer | IFFR 2024\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/CyTmJ9FxeZM?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u2013 Leandro Luz (<a href=\"https:\/\/twitter.com\/leandro_luz\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">@leandro_luz<\/a>) escreve e pesquisa sobre cinema desde 2010. Coordena os projetos de audiovisual do Sesc RJ desde 2019 e exerce atividades de cr\u00edtica nos podcasts\u00a0<a href=\"https:\/\/podcasters.spotify.com\/pod\/show\/plano-sequencia\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Plano-Sequ\u00eancia<\/a>\u00a0e\u00a0<a href=\"https:\/\/podcasters.spotify.com\/pod\/show\/plano-sequencia\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">1 disco, 1 filme.<\/a><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"&#8220;Grand Tour&#8221; se perde em seu del\u00edrio est\u00e9tico; &#8220;Demba&#8221; joga muitas ideias no caldeir\u00e3o sem saber exatamente como lidar com tudo ao mesmo tempo; &#8220;Flathead&#8221; investiga o universo da classe trabalhadora na Austr\u00e1lia\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2024\/10\/24\/tres-filmes-da-48a-mostra-sp-grand-tour-demba-flathead\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":137,"featured_media":84758,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[4],"tags":[7425,7428,7423,226],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/84750"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/137"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=84750"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/84750\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":84762,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/84750\/revisions\/84762"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/84758"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=84750"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=84750"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=84750"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}