{"id":84664,"date":"2024-10-22T00:33:38","date_gmt":"2024-10-22T03:33:38","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=84664"},"modified":"2025-02-18T15:55:37","modified_gmt":"2025-02-18T18:55:37","slug":"48a-mostra-sp-o-que-faz-de-ainda-estou-aqui-um-filme-que-se-diferencia-de-outras-producoes-brasileiras-recentes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2024\/10\/22\/48a-mostra-sp-o-que-faz-de-ainda-estou-aqui-um-filme-que-se-diferencia-de-outras-producoes-brasileiras-recentes\/","title":{"rendered":"Cinema:\u00a0O que faz de &#8220;Ainda Estou Aqui&#8221; um filme que se diferencia de outras produ\u00e7\u00f5es brasileiras recentes?"},"content":{"rendered":"<h2><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-84668\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/aindaestouaqui3.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"938\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/aindaestouaqui3.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/aindaestouaqui3-240x300.jpg 240w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/h2>\n<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>texto de&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/leandro_luz\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Leandro Luz<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na \u00faltima sequ\u00eancia de &#8220;Ainda Estou Aqui&#8221; (Walter Salles, 2024), Fernanda Montenegro, que interpreta Eunice Paiva nos \u00faltimos anos de sua vida, com a doen\u00e7a de Alzheimer j\u00e1 bem avan\u00e7ada e se locomovendo com o aux\u00edlio de cadeira de rodas, olha para um beb\u00ea, o membro mais jovem de sua fam\u00edlia, como quem tenta desesperadamente se conectar com algum fio de realidade. Pouco depois desse momento delicado, que Salles registra metodicamente com a sua c\u00e2mera &#8211; sempre atenta \u00e0s m\u00ednimas express\u00f5es faciais de seus atores &#8211; a personagem \u00e9 surpreendida por uma reportagem na televis\u00e3o que relembra not\u00f3rias v\u00edtimas da Ditadura Militar. Entre as imagens e as fotografias est\u00e1 l\u00e1 o rosto de Rubens, seu marido assassinado dentro de um quartel nos anos 1970. Somos capazes de enxergar as engrenagens funcionando por tr\u00e1s da pele, dos m\u00fasculos e dos ossos da atriz, que com o seu olhar confuso e a sua express\u00e3o exasperada parece dizer &#8220;ainda estou aqui&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 a mesma coisa que Marcelo, um dos filhos de Eunice e Rubens, interpretado nesta cena por Antonio Saboia, tamb\u00e9m aparenta afirmar. O posar para a foto de fam\u00edlia, gesto recorrente no filme, dessa vez captura o olhar de Marcelo para a m\u00e3e. Ningu\u00e9m mais enxerga Eunice como antes, \u00e0 exce\u00e7\u00e3o de Marcelo, que lhe dedica um olhar demorado, c\u00famplice &#8211; eles s\u00e3o os \u00fanicos que est\u00e3o na mesma altura. &#8220;Ainda Estou Aqui&#8221; \u00e9 baseado no livro de <a href=\"https:\/\/www.screamyell.com.br\/secoes\/marcelopaiva.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Marcelo Rubens Paiva<\/a> sobre a sua fam\u00edlia, o assassinato do pai e a fortaleza que a sua m\u00e3e precisou construir dentro de si mesma para enfrentar anos de luta denunciando os crimes cometidos durante a Ditadura e brigando arduamente por respostas que nunca vieram de maneira satisfat\u00f3ria. Nesse sentido, o olhar de Marcelo para Eunice \u00e9 a maneira que o filme encontrou para nos dizer, no lugar do autor desta hist\u00f3ria\/desse ponto de vista, &#8220;ainda estou aqui&#8221;.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-84669\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/aindaestouaqui4.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/aindaestouaqui4.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/aindaestouaqui4-300x176.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao passo que Eunice, interpretada tamb\u00e9m por Fernanda Torres na maior parte do filme, n&#8217;outro gesto fotogr\u00e1fico marcante de reuni\u00e3o familiar, sorri e tenta garantir que todos os seus filhos tamb\u00e9m sorriam &#8211; ainda que os jornalistas pe\u00e7am o contr\u00e1rio &#8211; para a foto que ilustrar\u00e1 a capa de uma mat\u00e9ria a respeito dos tr\u00e1gicos acontecimentos na fam\u00edlia. &#8220;Ainda estamos aqui&#8221;, a materialidade da foto nos diz &#8211; tanto a foto encenada quanto a real, revelada nos cr\u00e9ditos finais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esse jogo entre a realidade e a fic\u00e7\u00e3o, ali\u00e1s, faz parte de uma tradi\u00e7\u00e3o do cinema brasileiro que Walter Salles sabe se aliar. No entanto, diante da repercuss\u00e3o em Veneza (pr\u00eamio de melhor roteiro para Murilo Hauser e Heitor Lorega), da campanha para o Oscar e do burburinho que o filme tem causado no Brasil, o que faz de &#8220;Ainda Estou Aqui&#8221; um filme que se diferencia tanto assim de outras produ\u00e7\u00f5es brasileiras recentes? N\u00e3o estaria Walter Salles, no retrato que faz da juventude dos anos 1970, pr\u00f3ximo ao que Kleber Mendon\u00e7a Filho faz em &#8220;Aquarius&#8221; ao retratar a juventude dos anos 1980, por exemplo? A cena do carcereiro que trata Eunice com respeito na pris\u00e3o n\u00e3o estaria muito pr\u00f3xima da discuss\u00e3o central de &#8220;O Mensageiro&#8221;, filme mais recente e pouqu\u00edssimo comentado de Lucia Murat? (Ambos os filmes, inclusive, compartilham o talento da jovem atriz Valentina Herszage).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 um espanto que as principais discuss\u00f5es em torno dos filmes hoje em dia sejam pautadas quase que exclusivamente pelo marketing, como se obras com maior investimento na produ\u00e7\u00e3o ou na divulga\u00e7\u00e3o merecessem maior aten\u00e7\u00e3o do p\u00fablico do que aquelas de financiamento mais modesto. A t\u00edtulo de compara\u00e7\u00e3o, considerando o pr\u00f3prio cinema da Lucia Murat, a despeito das gritantes diferen\u00e7as or\u00e7ament\u00e1rias que se fazem perceber principalmente no design de produ\u00e7\u00e3o e na liberdade que isto proporciona a cada cineasta (em um filme de \u00e9poca, filmar um quarteir\u00e3o inteiro ou um c\u00f4modo de uma casa \u00e9 uma quest\u00e3o or\u00e7ament\u00e1ria, n\u00e3o de estilo), no que Salles avan\u00e7a? Estaria ele t\u00e3o \u00e0 frente em termos de constru\u00e7\u00e3o narrativa ou dramat\u00fargica? N\u00e3o que o filme de Salles devesse fazer muito mais do que faz (particularmente, acho \u00f3timo que este seja um filme relativamente simples, direto, seco, carregado de uma tristeza e de uma solid\u00e3o profundas), mas da\u00ed a enquadr\u00e1-lo em qualquer esp\u00e9cie de grande cinema soa exagerado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para Salles, n\u00e3o havia como narrar os eventos da fam\u00edlia Paiva sem sujar as m\u00e3os na poeira acumulada dos arquivos. Tanto \u00e9 que ele lan\u00e7a m\u00e3o de registros de todos os tipos e bitolas: o Super-8 que captura os eventos familiares, as fotos de fam\u00edlia manipuladas por v\u00e1rios personagens em momentos diversos (e com fun\u00e7\u00f5es e resultados distintos), as imagens em 16 mm t\u00edpicas de document\u00e1rios que salvaguardaram esse momento hist\u00f3rico e tr\u00e1gico do pa\u00eds; tudo isso se mistura com a pr\u00f3pria fotografia do filme, assinada por Adrian Teijido, e que desconfio (apesar de n\u00e3o ter conseguido confirmar) ter sido feita em 35 mm. Ali\u00e1s, a estrat\u00e9gia de lan\u00e7amento do filme prioriza a exibi\u00e7\u00e3o nos cinemas, e por mais que este seja um &#8220;original Globoplay&#8221;, percebe-se um desejo, tanto nos depoimentos de Salles quanto nos materiais de publicidade, que ele seja visto na sala escura (o filme estreia no dia 7 de novembro no circuito comercial brasileiro).<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-84667\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/aindaestouaqui2.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/aindaestouaqui2.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/aindaestouaqui2-300x176.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ainda comentando a fotografia de Teijido, a melhor sequ\u00eancia \u00e9 rodada com pouqu\u00edssima ilumina\u00e7\u00e3o, quando o filme se transforma brevemente em um thriller e Eunice, ap\u00f3s o marido ser levado por militares \u00e0 paisana, se v\u00ea presa dentro de sua pr\u00f3pria casa, antes repleta de luz, brisa e alegria, agora relegada ao breu quase completo. Se antes a casa, localizada em um privilegiado quarteir\u00e3o da Zona Sul carioca, estava sempre tomada pelos gritos das crian\u00e7as e dos adolescentes e pelo vai-e-vem de familiares e amigos com os p\u00e9s sujos de areia da praia, agora o que vemos s\u00e3o sombras que evocam a aus\u00eancia de Rubens. L\u00e1grima no escuro. Salles, desse momento em diante, passa a valorizar cada vez mais os espa\u00e7os vazios da casa, que por sua vez espelham a ang\u00fastia da protagonista, abandonada pelo estado brasileiro e, de certo modo, por todos ao seu redor. N\u00e3o h\u00e1 ponto de fuga ou luz no fim do t\u00fanel para Eunice. Fernanda Torres se agarra a esse cen\u00e1rio imposto \u00e0 sua personagem e de fato consegue trazer nuances bem interessantes, ajudada pela presen\u00e7a de veteranos como Selton Mello, Helena Albergaria e Dan Stulbach, e de jovens atores como B\u00e1rbara Luz, Guilherme Silveira e Mait\u00ea Padilha.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao pensar no elenco, fica mesmo a impress\u00e3o de que &#8220;Ainda Estou Aqui&#8221; \u00e9 um filme que privilegia o trabalho com os atores em detrimento de qualquer outro elemento narrativo ou de estilo. Walter Salles sabe que est\u00e1 em di\u00e1logo com uma fatia consider\u00e1vel do p\u00fablico brasileiro e toma todas as precau\u00e7\u00f5es para n\u00e3o fugir de uma cartilha convencional. \u00c0s vezes, tal abordagem faz todo o sentido, como na pr\u00f3pria concep\u00e7\u00e3o e no desenvolvimento da protagonista, j\u00e1 em outras soa limitadora, como em todas as vezes que precisa apelar para as refer\u00eancias pop setentistas ou quando se v\u00ea impelido a tirar &#8220;retratos do Brasil&#8221;, evidenciando algo que o cinema de Walter Salles, apesar de frequentemente muito incensado, nunca deixou de ser.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #ff0000;\"><em><a style=\"color: #ff0000;\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/tag\/mostra-de-cinema\/\">Leia mais sobre a Mostra Internacional de Cinema de S\u00e3o Paulo<\/a><\/em><\/span><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Ainda Estou Aqui | Trailer Oficial | 7 de novembro nos cinemas\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/_NzqP0jmk3o?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u2013 Leandro Luz (<a href=\"https:\/\/twitter.com\/leandro_luz\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">@leandro_luz<\/a>) escreve e pesquisa sobre cinema desde 2010. Coordena os projetos de audiovisual do Sesc RJ desde 2019 e exerce atividades de cr\u00edtica nos podcasts&nbsp;<a href=\"https:\/\/podcasters.spotify.com\/pod\/show\/plano-sequencia\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Plano-Sequ\u00eancia<\/a>&nbsp;e&nbsp;<a href=\"https:\/\/podcasters.spotify.com\/pod\/show\/plano-sequencia\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">1 disco, 1 filme.<\/a><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"&#8220;Ainda Estou Aqui&#8221; \u00e9 um filme que privilegia o trabalho com os atores em detrimento de qualquer outro elemento narrativo ou de estilo. 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