{"id":84600,"date":"2024-10-20T00:03:00","date_gmt":"2024-10-20T03:03:00","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=84600"},"modified":"2024-11-08T01:23:33","modified_gmt":"2024-11-08T04:23:33","slug":"entrevista-piero-sbragia-biografo-de-geraldo-sarno-fala-sobre-auto-de-vitoria-filme-perdido-do-diretor-exibido-na-mostra-sp","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2024\/10\/20\/entrevista-piero-sbragia-biografo-de-geraldo-sarno-fala-sobre-auto-de-vitoria-filme-perdido-do-diretor-exibido-na-mostra-sp\/","title":{"rendered":"Entrevista: Bi\u00f3grafo de Geraldo Sarno, Piero Sbragia fala sobre &#8220;Auto de Vit\u00f3ria&#8221;, filme &#8220;perdido&#8221; do diretor exibido na Mostra SP"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>entrevista de\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/PeliculaVirtual\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Jo\u00e3o Paulo Barreto<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 1966, em plena ditadura militar, um jovem <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?s=sarno\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Geraldo Sarno<\/a>, aos 28 anos, filmava seu segundo trabalho, o curta-metragem \u201cAuto de Vit\u00f3ria\u201d. O filme trazia uma reflex\u00e3o sobre as influ\u00eancias da igreja nas decis\u00f5es pol\u00edticas e sociais do Brasil ao colocar o diretor, oriundo da cidade de Po\u00e7\u00f5es, na Bahia, diante de um cortejo religioso no qual um ve\u00edculo militar conduz o f\u00eamur do padre Jos\u00e9 de Anchieta da Bas\u00edlica de Aparecida para a Catedral da S\u00e9, em S\u00e3o Paulo. A imagem \u00e9 simb\u00f3lica. A f\u00e9 de um pa\u00eds sendo acompanhada por seus fi\u00e9is, mas conduzida e manipulada por militares durante a ditadura militar. Ap\u00f3s o registro hist\u00f3rico, com as imagens a desenhar aquela ideia de poder atrelado \u00e0 religi\u00e3o, o filme muda sua face para uma encena\u00e7\u00e3o na qual L\u00facifer e Santan\u00e1s discutem o futuro do Brasil. A montagem do texto, baseado na pe\u00e7a \u201cNa Vila de Vit\u00f3ria ou Auto de S\u00e3o Maur\u00edcio\u201d, escrita pelo pr\u00f3prio padre Anchieta em 1595, reflete a ideia de um pa\u00eds no qual Deus n\u00e3o dita mais qualquer regra, cabendo a dem\u00f4nios tra\u00e7ar as decis\u00f5es. Nada mais percept\u00edvel como um golpe pesado da realidade no nosso Brasil pentecostal que ascendeu de 2016 em diante.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cAuto de Vit\u00f3ria\u201d se encontrava &#8220;perdido&#8221; e o pr\u00f3prio Geraldo Sarno, que viria a construir uma s\u00f3lida carreira como cineasta durante as d\u00e9cadas seguintes, n\u00e3o sabia do paradeiro da obra. O diretor de \u201cViramundo\u201d (1964) e de filmes que refletem exatamente a condi\u00e7\u00e3o do poder em um pa\u00eds marcado pelo constante \u00eaxodo de seus cidad\u00e3os em busca de melhores condi\u00e7\u00f5es de vida e de sua identidade como povo, viria a falecer em 2022 sem ter acesso ao curta. Coube a um acaso e a curiosidade do bi\u00f3grafo de Geraldo, o jornalista Piero Sbragia, a localiza\u00e7\u00e3o da obra na Cinemateca Brasileira, em S\u00e3o Paulo, que n\u00e3o s\u00f3 ganha exibi\u00e7\u00e3o na Mostra SP 2024, como abre uma parceria de Sbragia com o evento: \u201cDecidimos fazer, primeiro, a exibi\u00e7\u00e3o com o curta que estava desaparecido (&#8230;). No ano que vem, com a biografia do diretor j\u00e1 lan\u00e7ada pelo Piero, queremos fazer uma homenagem bem maior\u201d, afirmou Renata Almeida, diretora da Mostra, <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2024\/10\/20\/entrevista-o-cinema-e-algo-poderoso-diz-renata-de-almeida-diretora-geral-da-mostra-sp-que-chega-a-sua-48a-edicao\/\">em conversa com o Scream &amp; Yell<\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na entrevista abaixo, Sbragia fala sobre o processo de localiza\u00e7\u00e3o do filme e aprofundamento na obra de Geraldo Sarno. Confira!<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"AUTO DE VIT\u00d3RIA (1966), de Geraldo Sarno | trailer\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/bgMlHDhXMec?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u201cAuto de Vit\u00f3ria\u201d \u00e9 um filme feito pelo Geraldo Sarno em 1966, dois anos ap\u00f3s \u201cViramundo\u201d (1964), e \u00e9 curioso observar os ecos dessa tem\u00e1tica que ambos abordam percorrerem toda a sua trajet\u00f3ria no cinema. Como voc\u00ea analisa essa conjun\u00e7\u00e3o existente em toda a sua filmografia?<\/strong><br \/>\nAcho que, no fundo, quando encontro esse filme, passo a ter mais certeza ainda de que toda a obra do Geraldo tem um prop\u00f3sito, e mais al\u00e9m de um prop\u00f3sito, a obra do Geraldo tem uma busca. Do primeiro filme, \u201cViramundo\u201d (1964), at\u00e9 o \u201cSert\u00e2nia\u201d (2000), que n\u00e3o foi planejado para ser o \u00faltimo \u2013 a ideia era ele fazer mais um filme ainda. Ele queria que seu \u00faltimo filme fosse um projeto baseado no Guimar\u00e3es Rosa. Mas o fato \u00e9 que \u201cAuto de Vit\u00f3ria\u201d \u00e9 um trabalho que n\u00e3o deixa de ser surpreendente nesse sentido, porque \u00e9 um filme muito ousado em que ele busca adaptar um texto do padre Jos\u00e9 de Anchieta, que \u00e9 um texto dif\u00edcil e muito aleg\u00f3rico. Um texto que, na verdade, est\u00e1 muito mais dentro de um contexto de disputa de poder entre Portugal e Espanha do que, necessariamente, do Brasil, apesar da hist\u00f3ria se passar aqui. A grande ironia desse filme \u00e9 que, enquanto ele est\u00e1 filmando a parte teatral da obra, eles descobrem que o suposto f\u00eamur do padre Jos\u00e9 de Anchieta (suposto, porque, cientificamente, n\u00e3o d\u00e1 para saber se \u00e9, de fato, o f\u00eamur do Anchieta ou n\u00e3o) est\u00e1 vindo para o Brasil. Ent\u00e3o, eles param a filmagem ficcional do filme e resolvem acompanhar o cortejo. Imagina naquela \u00e9poca. Tudo aconteceu muito r\u00e1pido. Voc\u00ea n\u00e3o tinha internet, Whatsapp. Ent\u00e3o, eles descobrem que o f\u00eamur iria vir de Roma at\u00e9 Santos. De Santos, ele iria direto para Aparecida, na Bas\u00edlica. E da Bas\u00edlica de Aparecida, no interior de S\u00e3o Paulo, ele viria para a capital S\u00e3o Paulo para ficar no p\u00e1tio do col\u00e9gio, onde est\u00e1 at\u00e9 hoje. E a\u00ed o Geraldo, o Affonso Beato, que fez a fotografia, e o Francisco Ramalho Jr. conversam com o Paulo Em\u00edlio (Salles Gomes). Ele era o produtor do filme tamb\u00e9m, porque a Cinemateca Brasileira \u00e9 uma das produtoras, junto com o Instituto de Estudos Sociais da USP. \u00c9 o primeiro filme produzido pela USP, inclusive. Tem esse detalhe. Eles adaptam um trip\u00e9 e uma c\u00e2mera em uma caminhonete rural que a Cinemateca tinha. Isso de uma maneira tosca e perigosa. Imagina hoje voc\u00ea subir na ca\u00e7amba de um carro com um trip\u00e9 e uma c\u00e2mera, algo que n\u00e3o faz o menor sentido. E partem de S\u00e3o Paulo at\u00e9 Aparecida. Ent\u00e3o, eles encontram o f\u00eamur em Aparecida e resolvem fazer o trajeto de volta de Aparecida at\u00e9 S\u00e3o Paulo pela (Rodovia) Dutra, que na \u00e9poca n\u00e3o se chamava Dutra, mas era a mesma estrada, a antiga Rio-Santos. E a\u00ed chegam na capital e se deparam com aquela multid\u00e3o. A Pra\u00e7a da S\u00e9 tomada. Uma coisa gigantesca. Uma dimens\u00e3o ali para receber aquele f\u00eamur, para saudar aquele f\u00eamur como se fosse uma pessoa. E \u00e9 muito interessante porque o Geraldo faz questionamentos ali para as pessoas. S\u00e3o questionamentos no curta que tem tudo a ver com a tem\u00e1tica dos filmes dele. Porque \u201cAuto de Vit\u00f3ria\u201d \u00e9 um filme que fala da cultura popular. Ele \u00e9 um filme que fala da religi\u00e3o e, principalmente, de um olhar pol\u00edtico sobre a religi\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Os ecos deixados por \u201cAuto de Vit\u00f3ria\u201d que alcan\u00e7am at\u00e9 \u201cSert\u00e2nia\u201d, que Geraldo lan\u00e7ou em 2020, s\u00e3o bem percept\u00edveis, tamb\u00e9m.<\/strong><br \/>\nSim. Ele dialoga muito com o \u201cSert\u00e2nia\u201d porque a montagem de \u201cAuto de Vit\u00f3ria\u201d, que \u00e9 do Silvio Renaud, traz aquilo que o Eisenstein chamava de montagem intelectual. O Geraldo est\u00e1 mostrando uma coisa, mas ele est\u00e1 falando outra. Ent\u00e3o, enquanto o arcebispo fala, por exemplo, de democracia, o Geraldo e Renaud mostram uma imagem de um tanque de guerra. Quando eles falam de paz, o filme mostra uma imagem da For\u00e7a P\u00fablica, que, depois, deu origem \u00e0 Pol\u00edcia Militar. Esse filme tem muitas sutilezas que dialogam demais com a obra do Geraldo. E por incr\u00edvel que pare\u00e7a, por mais estranho que possa parecer, a gente descobre que o Geraldo fez um filme inspirado em uma pe\u00e7a do padre Jos\u00e9 de Anchieta. E o mais bacana \u00e9 voc\u00ea descobrir o quanto que essa obra est\u00e1 inserida dentro de todo o contexto da filmografia do Geraldo Sarno e de toda uma busca que ele teve enquanto cineasta para ir al\u00e9m da est\u00e9tica. Ele era um cara que fazia cinema, que pensava cinema, e ele queria que as pessoas assistissem aos filmes com esse tipo de pensamento. Que o filme n\u00e3o \u00e9 meramente uma coisa bonita. O filme \u00e9 para te provocar. \u00c9 para te tirar do lugar. O filme \u00e9 para te fazer parar e pensar. Ent\u00e3o, fiquei muito feliz. As poucas pessoas que j\u00e1 assistiram e que falaram comigo, todas amaram o filme (N.E. entrevista feita em 12\/10\/2024). Confesso que eu tinha at\u00e9 uma certa preocupa\u00e7\u00e3o em saber como que iria ser a recep\u00e7\u00e3o do filme, principalmente na Mostra, porque \u00e9 um filme diferente. \u00c9 um filme que tem quase 60 anos. \u00c9 um curta. \u00c9 um filme que tem uma est\u00e9tica de cinema direto na primeira metade, depois ele tem uma est\u00e9tica completamente diferente. Diria at\u00e9 subversiva. E o mais bacana de tudo \u00e9 que o Geraldo sequer acreditava no texto do Anchieta. Eu conversei com o Celso Nunes, o diretor de teatro. Ele mora em Salvador e est\u00e1 com 83 ou 84 anos. N\u00e3o vai poder vir para a Mostra. Ele disse para mim que foi a primeira vez na vida dele, a primeira e \u00fanica em que ele fez uma pe\u00e7a de teatro na qual o diretor n\u00e3o acreditava no texto. Ele disse: &#8220;O Geraldo pensava completamente o contr\u00e1rio do Anchieta.&#8221; Ent\u00e3o, voc\u00ea imagina o caos que foi para essa trupe de atores iniciantes da USP. Como foi fazer esse filme com um garoto. O Geraldo era um garoto na \u00e9poca. Era o segundo filme dele. Ele tinha menos de 30 anos&#8230;<\/p>\n<figure id=\"attachment_84605\" aria-describedby=\"caption-attachment-84605\" style=\"width: 750px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-84605\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/Democracia-vs.-Guerra-A-Montagem-intelectual-de-Silvio-Renaud-copiar.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"536\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/Democracia-vs.-Guerra-A-Montagem-intelectual-de-Silvio-Renaud-copiar.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/Democracia-vs.-Guerra-A-Montagem-intelectual-de-Silvio-Renaud-copiar-300x214.jpg 300w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/Democracia-vs.-Guerra-A-Montagem-intelectual-de-Silvio-Renaud-copiar-120x85.jpg 120w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-84605\" class=\"wp-caption-text\">SP01274Z<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Como foi o processo de encontrar na Cinemateca o filme que se encontrava perdido?<\/strong><br \/>\nQuero ser honesto: foi completamente por acaso. Eu estava fazendo uma reportagem na Cinemateca Brasileira na \u00e9poca, quando eu trabalhava para a TV Globo. Tinha uma pauta sobre aquele projeto da Cinemateca de digitalizar e restaurar os filmes de nitrato. Conversando com a Gabriela Souza Queiroz, que \u00e9 a diretora t\u00e9cnica da Cinemateca, perguntei a ela sobre o curta. Eu lhe disse que vinha pesquisando algumas coisas do Geraldo Sarno no banco de dados da Cinemateca, e encontrei algumas fotografias e at\u00e9 um roteiro desse filme, \u201cAuto de Vit\u00f3ria\u201d. E expliquei a ela que era um filme que o Geraldo estava procurando, mas que ele n\u00e3o sabia onde estava. Perguntei a ela como poderia ter acesso ao material, pois procurei no sistema da Cinemateca e n\u00e3o achei. Ela me explicou que havia a possibilidade de o filme estar em um dep\u00f3sito ao qual eu n\u00e3o teria acesso pela busca. Ela usou um sistema interno da Cinemateca para fazer a busca do filme, mas n\u00e3o dava para dizer se ele estava na leva de filmes que sobreviveram \u00e0 enchente, mas provavelmente ele est\u00e1 no galp\u00e3o em que ficam os filmes que a gente n\u00e3o sabe a qualidade. S\u00e3o filmes que ainda n\u00e3o passaram por um trabalho de restauro. E para minha surpresa, ela faz uma pesquisa ali na hora, e encontra o filme (no sistema). Isso foi em maio ou junho de 2023! Ent\u00e3o come\u00e7a todo um processo, uma longa espera. Primeiro era preciso localizar o filme. Uma vez localizado, era necess\u00e1rio aguardar que os t\u00e9cnicos vissem o real estado do filme. Foram meses at\u00e9 ter a resposta: \u201cO filme n\u00e3o est\u00e1 100% perfeito, tem algumas imperfei\u00e7\u00f5es, sujeiras e tal, mas \u00e9 poss\u00edvel digitalizar\u201d. E a\u00ed eu come\u00e7o a acompanhar um pouco mais de perto o processo, que foi 100% feito e custeado pela Cinemateca, uma vez que ela \u00e9 a produtora do filme. O direito autoral da obra tamb\u00e9m \u00e9 da Cinemateca. E o mais bacana \u00e9 que os t\u00e9cnicos da Cinemateca conseguiram me dizer que essa c\u00f3pia foi depositada na Cinemateca em dezembro de 1981 pelo Francisco Ramalho Jr., que \u00e9 o produtor do filme. Ent\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 a c\u00f3pia original do filme. \u00c9 uma c\u00f3pia da c\u00f3pia original e que foi exibida pouqu\u00edssimas vezes, no m\u00e1ximo tr\u00eas ou quatro vezes. D\u00e1 para saber disse o atrav\u00e9s das perfura\u00e7\u00f5es do negativo. Os t\u00e9cnicos da Cinemateca me mostraram. \u00c9 poss\u00edvel a gente perceber que esse filme foi exibido poucas vezes. Isso vai de encontro ao que eu descobri depois, pesquisando nos jornais da \u00e9poca. Esse filme teve apenas duas exibi\u00e7\u00f5es p\u00fablicas. Uma delas foi na segunda edi\u00e7\u00e3o do Festival de Bras\u00edlia, que na \u00e9poca ainda era chamado de Semana do Cinema Brasileiro, em 1966, quando concorreu com \u201cBeth\u00e2nia Bem de Perto\u201d, primeiro filme do Eduardo Escorel, co-dirigido pelo Julio Bressane. Depois disso, ele foi exibido na Cinemateca do MAM, em um evento fechado. Ent\u00e3o, esse filme nunca foi exibido no circuito comercial de cinema.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Em sua pesquisa para a biografia do Geraldo, o que voc\u00ea encontrou sobre a rela\u00e7\u00e3o dele com \u201cAuto de Vit\u00f3ria\u201d?<\/strong><br \/>\nO Geraldo tinha uma certa preocupa\u00e7\u00e3o com esse filme. Encontrei cartas escritas pelo Geraldo para o Paulo Em\u00edlio (Salles Gomes) perguntando como tinha sido a recep\u00e7\u00e3o ao filme. Ent\u00e3o, ele tinha muita preocupa\u00e7\u00e3o, imagino eu, at\u00e9 por causa da ditadura. Porque o filme \u00e9 de 1966, e ele fica pronto um ou dois anos antes do AI-5. Ent\u00e3o, quando ele est\u00e1 no Nordeste fazendo filmes com o Thomas Farkas, esse filme est\u00e1 pronto aqui em S\u00e3o Paulo. E ele sem saber qual foi o destino do filme. Acho que a grande preocupa\u00e7\u00e3o do Geraldo, pelo que entendi das cartas ali, era para saber se ele poderia sofrer algum tipo de repres\u00e1lia. Porque ele estava longe de S\u00e3o Paulo. Ele estava no Nordeste filmando com a Caravana Farkas. Ent\u00e3o, eu acho que essa descoberta do filme ficou muito interessante nesse sentido, porque a Cinemateca corrigiu a imagem. Est\u00e1 muito bonita. O som est\u00e1 muito bonito. A trilha sonora original \u00e9 do Rog\u00e9rio Duprat. A fotografia \u00e9 do Affonso Beato \u2013 acho que \u00e9 o terceiro ou quarto filme do Beato. Ele ainda bem jovem, com vinte e poucos anos. Esse filme tem uma super equipe por tr\u00e1s. Tem o S\u00e9rgio Muniz fazendo o som, o Sylvio Renoldi na montagem. Esse trabalho de restaura\u00e7\u00e3o, dessa nova c\u00f3pia digital, reafirma essa for\u00e7a que o Geraldo Sarno tem. Porque \u00e9 um filme de 1966 que continua super atual. Ele discute coisas assim como o \u201cViramundo\u201d. \u00c9 um filme que discute coisas que est\u00e3o a\u00ed ainda. As igrejas continuam tendo poder no Brasil. As igrejas continuam, de certa maneira, regendo a vida p\u00fablica dos brasileiros. As igrejas est\u00e3o cada vez mais envolvidas com a pol\u00edtica. E eu acho que \u201cAuto de Vit\u00f3ria\u201d trata um pouco disso e de uma maneira muito ir\u00f4nica. Porque, na parte ficcional, a gente tem ali Satan\u00e1s e L\u00facifer debatendo o futuro do Brasil. Deus foi alijado desse debate (risos). Ent\u00e3o, est\u00e1 na m\u00e3o do inferno decidir se a gente tem futuro, se a gente tem solu\u00e7\u00e3o ou n\u00e3o. Ent\u00e3o, isso \u00e9 fant\u00e1stico.<\/p>\n<figure id=\"attachment_84606\" aria-describedby=\"caption-attachment-84606\" style=\"width: 750px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-84606\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/Lucifer-e-Satanas-discutem-o-Brasil-copiar.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"536\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/Lucifer-e-Satanas-discutem-o-Brasil-copiar.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/Lucifer-e-Satanas-discutem-o-Brasil-copiar-300x214.jpg 300w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/Lucifer-e-Satanas-discutem-o-Brasil-copiar-120x85.jpg 120w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-84606\" class=\"wp-caption-text\">SP01274Z<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>No processo de escrita do seu livro lan\u00e7ado em 2020, \u201c<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2020\/11\/04\/entrevista-piero-sbragia-fala-sobre-o-livro-novas-fronteiras-do-documentario-entre-a-factualidade-e-a-ficcionalidade\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Novas Fronteiras do Document\u00e1rio: Entre a Factualidade e a Ficcionalidade<\/a>\u201d, voc\u00ea chegou a conversar com o Geraldo sobre \u201cAuto de Vit\u00f3ria\u201d?<\/strong><br \/>\nN\u00e3o. Cito o filme em uma das perguntas, mas naquela \u00e9poca eu n\u00e3o tinha visto o filme ainda. E n\u00e3o gosto de perguntar sobre obras, livros e filmes que eu n\u00e3o conhe\u00e7o. Eu at\u00e9 citei \u201cO Auto de Vit\u00f3ria\u201d, mas, assim, superficialmente. Ele tamb\u00e9m n\u00e3o se aprofundou. Ent\u00e3o, \u00e9 uma coisa que eu tenho&#8230; N\u00e3o diria um arrependimento, porque descobri o filme s\u00f3 agora. N\u00e3o tinha acesso a ele na \u00e9poca. Mas diria que no dia que eu reencontrar o Geraldo, vou perguntar isso a ele. Por mais que eu encontre entrevistas dele na \u00e9poca falando do filme, e eu encontrei v\u00e1rias, eu morro de vontade de saber o que ele pensaria hoje sobre esse filme, sobre essa nova exibi\u00e7\u00e3o. Porque era algo que ele estava atr\u00e1s. Conversei com o pessoal da UESB (Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia) sobre essas mensagens do Geraldo. A Rayssa Coelho, que \u00e9 uma das pessoas que montou o site Linguagem do Cinema, tem v\u00e1rias mensagens trocadas com o Geraldo e ele constantemente perguntava para ela sobre o paradeiro do filme. O Euclides (Santos Mendes) que tamb\u00e9m \u00e9 da UESB, comentou que o Geraldo tinha uma pista de que esse filme pudesse estar na Cinemateca. Mas era s\u00f3 uma pista. Ele tamb\u00e9m poderia n\u00e3o estar. Porque, publicamente, ningu\u00e9m conseguia saber que o filme estava l\u00e1. Eu descobri por acaso porque eu estava l\u00e1 dentro, conversando com a Gabriela, que \u00e9 a diretora t\u00e9cnica, e ela teve um acesso mais r\u00e1pido. Ent\u00e3o, \u00e9 um pouco isso. Acho que o \u00eaxodo tamb\u00e9m \u00e9 um tema presente na obra dele, sem sombra de d\u00favida. Nos livros dele, o Geraldo trata disso diretamente. Na s\u00e9rie, \u201cSert\u00e3o de Dentro\u201d, que ele fez antes do \u201cSert\u00e2nia\u201d e ainda est\u00e1 in\u00e9dita, tamb\u00e9m.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Desde \u201cViramundo\u201d, Geraldo Sarno criou um foco em sua carreira que se voltou para uma reflex\u00e3o acerca do \u00eaxodo do povo brasileiro e todas as mudan\u00e7as pol\u00edticas e sociais que o Brasil viveu a partir da segunda metade do s\u00e9culo XX. Para voc\u00ea, como esse peso da an\u00e1lise do \u00eaxodo social do brasileiro simboliza no trabalho que ele deixou?<\/strong><br \/>\nFazendo uma an\u00e1lise muito, eu diria, superficial do Brasil, acho que a gente est\u00e1 vivendo hoje, em 2024, um processo de restauro do pa\u00eds. N\u00e3o acho que esses fen\u00f4menos sociais e pol\u00edticos sejam in\u00e9ditos. J\u00e1 tivemos marcha de integralistas em S\u00e3o Paulo, e que apanharam de rebeldes. Nada desses fen\u00f4menos de Bolsonaro, Mar\u00e7al, nada disso me assusta. Porque eu acho que s\u00e3o movimentos c\u00edclicos. Mas o que me parece e que \u00e9 cada vez mais evidente, cada vez na nossa cara, \u00e9 que o Brasil \u00e9 um pa\u00eds que nasceu da viol\u00eancia. O Brasil nasceu, basicamente e simbolicamente, do estupro de mulheres ind\u00edgenas cometido pelo homem branco europeu. E esse estupro d\u00e1 origem ao roubo de terra, d\u00e1 origem a roubo de propriedades, a posse de objetos, ao tr\u00e1fico de pessoas, que come\u00e7a com os ind\u00edgenas e, depois, com os negros escravizados. E vai culminar com outras viol\u00eancias, como a intoler\u00e2ncia religiosa, falta de moradia, e tudo isso \u00e9 contemplado na obra de Geraldo. O Geraldo discute essas viol\u00eancias todas e que, de certa maneira, representam esses \u00eaxodos que vivemos no Brasil. \u201cAuto de Vit\u00f3ria\u201d est\u00e1 dentro desse contexto. \u201cSert\u00e2nia\u201d est\u00e1 dentro desse contexto, que \u00e9 o cangaceiro moribundo que n\u00e3o consegue reagir a essas coisas que ele sofre na vida, quando ele \u00e9 separado da m\u00e3e e depois quando ele tra\u00eddo pelo amigo. Ent\u00e3o, a obra toda de Geraldo fala desses grandes \u00eaxodos no Brasil. A gente continua em \u00eaxodo. N\u00f3s todos somos refugiados dentro do nosso pa\u00eds. Me lembro de um document\u00e1rio da Eliane Caff\u00e9, \u201cEra o Hotel Cambridge\u201d, que tem uma pessoa que pergunta para algu\u00e9m que est\u00e1 em situa\u00e7\u00e3o de ref\u00fagio no Brasil porque ele \u00e9 um refugiado no Brasil. Ele responde dizendo que, realmente, saiu da S\u00edria refugiado e veio para c\u00e1. Mas a\u00ed ele pergunta ao brasileiro: &#8220;Mas e voc\u00ea que \u00e9 refugiado dentro do seu pr\u00f3prio pa\u00eds?&#8221; Acho que \u00e9 um pouco isso. A gente tem 80 mil pessoas aqui em S\u00e3o Paulo em situa\u00e7\u00e3o de rua. Eu tenho ido pra BH toda semana por causa do meu doutorado e \u00e9 impressionante a quantidade de pessoas na rua ali no entorno da rodovi\u00e1ria de Belo Horizonte. Ent\u00e3o, a gente tem uma massa de pessoas no Brasil que n\u00e3o tem sequer moradia. E n\u00f3s estamos em 2024. Ent\u00e3o, a gente tem ali s\u00f3 3% da popula\u00e7\u00e3o com ensino. Das pessoas com ensino, s\u00f3 uma negra. Sendo que os negros s\u00e3o mais da metade da popula\u00e7\u00e3o. E onde est\u00e3o os negros, por exemplo? Est\u00e3o nas penitenci\u00e1rias. 80% da popula\u00e7\u00e3o encarcerada no Brasil \u00e9 negra. Olha quantos \u00eaxodos que a gente tem e a obra de Geraldo, de certa maneira, atravessa tudo isso.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-84604\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/Auto-de-Vitoria-copiar.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"1125\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/Auto-de-Vitoria-copiar.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/Auto-de-Vitoria-copiar-200x300.jpg 200w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u2013\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/profile.php?id=100009655066720\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Jo\u00e3o Paulo Barreto\u00a0<\/a>\u00e9 jornalista, cr\u00edtico de cinema e curador do\u00a0<a href=\"http:\/\/coisadecinema.com.br\/xiii-panorama\/apresentacao\/panorama-2017\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Festival Panorama Internacional Coisa de Cinema<\/a>. Membro da Abraccine, colabora para o Jornal A Tarde, de Salvador. A foto que abre o texto \u00e9 de Leo Lara.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Em 1966, em plena ditadura militar, um jovem Geraldo Sarno, aos 28 anos, filmava seu segundo trabalho, o curta-metragem \u201cAuto de Vit\u00f3ria\u201d. O filme trazia uma reflex\u00e3o sobre as influ\u00eancias da igreja nas decis\u00f5es pol\u00edticas e sociais do Brasil&#8230;\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2024\/10\/20\/entrevista-piero-sbragia-biografo-de-geraldo-sarno-fala-sobre-auto-de-vitoria-filme-perdido-do-diretor-exibido-na-mostra-sp\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":21,"featured_media":84607,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[4],"tags":[7405,226],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/84600"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/21"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=84600"}],"version-history":[{"count":8,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/84600\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":84613,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/84600\/revisions\/84613"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/84607"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=84600"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=84600"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=84600"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}