{"id":84499,"date":"2024-10-19T00:22:02","date_gmt":"2024-10-19T03:22:02","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=84499"},"modified":"2025-02-07T17:29:58","modified_gmt":"2025-02-07T20:29:58","slug":"tres-filmes-do-26o-festival-do-rio-bird-bruxas-o-cao-preto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2024\/10\/19\/tres-filmes-do-26o-festival-do-rio-bird-bruxas-o-cao-preto\/","title":{"rendered":"Tr\u00eas filmes do 26\u00ba Festival do Rio:\u00a0&#8220;Bird&#8221;, &#8220;Bruxas&#8221;, &#8220;O C\u00e3o Preto&#8221;"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>textos de\u00a0<a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/leandro_luz\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Leandro Luz<\/a><\/strong><\/h2>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-84502\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/bird1.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"331\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/bird1.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/bird1-300x132.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u201cBird\u201d, de Andrea Arnold (2024)<\/strong><br \/>\nAndrea Arnold aponta a sua c\u00e2mera nervosa para um bairro no sudeste da Inglaterra, numa regi\u00e3o perif\u00e9rica pr\u00f3xima a Londres. Acompanhamos a vida de Bailey (Nykiya Adams), uma jovem de 12 anos que vive com o irm\u00e3o e o pai no melhor estilo &#8220;solta no mundo&#8221;, uma vez que o seu c\u00edrculo familiar n\u00e3o tem muito tempo, em meio aos corres da vida, para ampar\u00e1-la &#8211; tal como acontece com milhares de crian\u00e7as e adolescentes que vivem em circunst\u00e2ncias semelhantes mund\u00e3o afora. Bug (Barry Keoghan, em seu melhor papel no cinema) \u00e9 o t\u00edpico garot\u00e3o que precisou amadurecer cedo demais e que opera no vai-e-vem entre as obriga\u00e7\u00f5es do cotidiano e os preparativos do seu casamento, evento nada tranquilo para Bailey que recha\u00e7a a madrasta e se afasta cada vez mais das tentativas de cuidado do pai. As rela\u00e7\u00f5es entre as personagens s\u00e3o tratadas com muita sutileza, sem grandes invencionices, algo entre o cinema de John Cassavetes e o estilo <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2015\/02\/04\/tres-filmes-big-eyes-wild-two-days\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">dos irm\u00e3os Dardenne<\/a>. Em <a href=\"https:\/\/mubi.com\/en\/notebook\/posts\/a-whole-world-a-conversation-with-andrea-arnold\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">entrevista para Caitlin Quinlan<\/a>, no contexto da estreia de &#8220;Bird&#8221; em competi\u00e7\u00e3o no Festival de Cannes, Andrea Arnold disse que se sente t\u00e3o vulner\u00e1vel agora como sentia quando fez os seus primeiros curtas-metragens. Esse fator extra-filme \u00e9 relevante pois demonstra o quanto Arnold \u00e9 uma diretora disposta a se arriscar em seus trabalhos, conduzindo temas sempre muito espinhosos e construindo personagens frequentemente inst\u00e1veis, pulsantes, dispostas a pular no abismo de suas pr\u00f3prias contradi\u00e7\u00f5es. Ao se sentir exclu\u00edda em virtude do novo relacionamento do pai, a protagonista busca aten\u00e7\u00e3o e acolhimento em outro lugar, que se apresenta primeiro como estranhamento e em seguida como porto seguro, materializado no personagem que d\u00e1 t\u00edtulo ao filme, interpretado por Franz Rogowski. \u00c9 curioso como o filme faz quest\u00e3o de tornar intang\u00edvel esse personagem \/ elemento, fazendo de &#8220;Bird&#8221; um filme que acena para a fantasia apesar da sua voca\u00e7\u00e3o realista. O bom uso da m\u00fasica pop na trilha sonora (Fontaines D.C., Blur, The Verve) arremata a experi\u00eancia, neste que \u00e9 um dos filmes mais interessantes da temporada.<\/p>\n<hr \/>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-84504\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/bruxas.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"331\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/bruxas.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/bruxas-300x132.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u201cBruxas \/ Witches\u201d, de Elizabeth Sanke (2024)<\/strong><br \/>\nElizabeth Sankey dirige o seu document\u00e1rio como quem declara princ\u00edpios. E que baita declara\u00e7\u00e3o! Come\u00e7a com um levantamento iconogr\u00e1fico dos filmes de bruxas, explorando como a hist\u00f3ria do cinema lidou com a ideia do feminino em circunst\u00e2ncias &#8220;m\u00e1gicas&#8221; ou simplesmente em estado de resist\u00eancia \/ confronto para, em seguida, embarcar no tema da maternidade e das press\u00f5es psicol\u00f3gicas que as mulheres enfrentam no p\u00f3s-parto. A diretora conduz entrevistas, narra\u00e7\u00e3o e material de arquivo sem que nada pare\u00e7a fora do lugar. Se coloca &#8211; e se exp\u00f5e &#8211; como personagem, mas guarda a devida dist\u00e2ncia quando precisa entrar na intimidade dos relatos de outras pessoas. Esse jogo de aproxima\u00e7\u00e3o e afastamento \u00e9 um trunfo da cineasta, que \u00e9 capaz de equilibrar bem a exposi\u00e7\u00e3o de hist\u00f3rias muito pesadas vividas pelas mulheres entrevistadas e a reflex\u00e3o em torno da inefici\u00eancia das pol\u00edticas p\u00fablicas voltadas para a sa\u00fade (e olha que estamos falando da Inglaterra). A tese do filme \u00e9 a de que mulheres com depress\u00e3o, transtorno de ansiedade e psicose em fun\u00e7\u00e3o da experi\u00eancia p\u00f3s-parto foram historicamente ignoradas, relegadas ao constrangimento e \u00e0 solid\u00e3o. Tal fato, ilustrado por um punhado de depoimentos assombrosos, \u00e9 um disparador para que o filme atravesse o tecido da realidade e brinque com o imagin\u00e1rio da bruxaria &#8211; seus elementos mais conhecidos s\u00e3o retrabalhados e reinterpretados, e servem para ressignificar a ideia pr\u00f3pria do que se entende como &#8220;bruxa&#8221; e para promover uma l\u00f3gica de cuidado no contexto da no\u00e7\u00e3o de sororidade. Os cen\u00e1rios cuidadosamente montados para acolher as entrevistas (algo de que o filme se orgulha bastante, vide o making of inclu\u00eddo nos cr\u00e9ditos finais) s\u00e3o fundamentais para que cada testemunho seja dado com o aux\u00edlio da atmosfera correta. De &#8220;A Bruxa&#8221; (Robert Eggers, 2016) a &#8220;O M\u00e1gico de Oz&#8221; (Victor Fleming, 1939), de &#8220;Jovens Bruxas&#8221; (Andrew Fleming, 1996) a &#8220;Suspiria&#8221; (Dario Argento, 1977), mas tamb\u00e9m passando por representa\u00e7\u00f5es menos \u00f3bvias como &#8220;O Mart\u00edrio de Joana D&#8217;Arc&#8221; (Carl Theodor Dreyer, 1928) e &#8220;Os Inocentes&#8221; (Jack Clayton, 1961), Elizabeth Sankey nos enfeiti\u00e7a, re\u00fane dispositivos cativantes &#8211; que funcionam tanto para quem est\u00e1 no filme como personagem quanto para n\u00f3s espectadores &#8211; e manipula a linguagem documental com extrema confian\u00e7a.<\/p>\n<hr \/>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-84505\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/blackdog.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"331\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/blackdog.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/blackdog-300x132.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u201cO C\u00e3o Preto \/ Gouzhen\u201d, de Guan Hu (2024)<\/strong><br \/>\nPremiado como Melhor Filme do Un Certain Regard no Festival de Cannes, &#8220;O C\u00e3o Preto&#8221; (2024), dirigido pelo chin\u00eas Guan Hu, talvez tenha sido, de todos os filmes que assisti durante o Festival do Rio, o mais estimulante visualmente e a novidade que mais mobilizou conversas pelos corredores cariocas (ainda que outras obras de maior interesse midi\u00e1tico tenham mobilizado mais as redes). H\u00e1 um aceno bem evidente para o universo dos quadrinhos na decupagem do diretor, que constr\u00f3i a sua narrativa com poucos di\u00e1logos e um dom\u00ednio absoluto do trabalho com os enquadramentos, se aproveitando principalmente dos planos gerais para efetivamente imprimir uma no\u00e7\u00e3o espacial org\u00e2nica daquele mundo concebido com muito esmero. Um mundo que \u00e9 filmado a partir de uma perspectiva arriscada, muito pessoal, que n\u00e3o tem medo de apontar para o fant\u00e1stico e que, em alguma medida, dependendo da maneira e de sob qual aspecto se observa, pode soar falso ou irreal. O t\u00edtulo do filme se justifica j\u00e1 na primeira cena: um autom\u00f3vel cruza em alta velocidade a paisagem des\u00e9rtica at\u00e9 que um grupo gigantesco de c\u00e3es (falar em matilha, simplesmente, n\u00e3o d\u00e1 a dimens\u00e3o do volume de animais que invadem o quadro) assusta o motorista, que perde o controle da dire\u00e7\u00e3o. \u00c9 a\u00ed que conhecemos Lang (Eddie Peng), que retorna \u00e0 sua cidade natal ap\u00f3s cumprir longa pena na pris\u00e3o por um crime que desconhecemos. Lang \u00e9 um homem de poucas palavras e o seu relacionamento com o c\u00e3o preto do t\u00edtulo, que se destaca do conjunto canino, \u00e9 o grande interesse de Guan Hu. Eles se conhecem, se estranham, estabelecem uma confian\u00e7a sincera e se ajudam mutuamente a sobreviver em um ambiente hostil a ambos. No meio dessa rela\u00e7\u00e3o, conhecemos outro personagem bem interessante, Tio Yao, que ajuda o protagonista e carrega a curiosidade de ser interpretado por Jia Zhangke (cineasta chin\u00eas cuja trajet\u00f3ria tem sido relevante desde o in\u00edcio dos anos 2000). Os cachorros vadios s\u00e3o mesmo um espet\u00e1culo \u00e0 parte, tanto pela beleza de suas presen\u00e7as na composi\u00e7\u00e3o dos planos &#8211; frequentemente abertos, cheios de textura, explorando as paisagens que variam entre o urbano e a natureza &#8211; quanto pela fun\u00e7\u00e3o que exercem sobre a trama.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/tag\/festival-do-rio\/\"><em>Leia mais sobre o Festival do Rio<\/em><\/a><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Bird Trailer #1 (2024)\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/gP7rcFnzpgw?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"WITCHES | Official Clip | On MUBI November 22\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/EbDKhg98Zm0?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Black Dog\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/VlvSttT_nQY?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u2013 Leandro Luz (<a href=\"https:\/\/twitter.com\/leandro_luz\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">@leandro_luz<\/a>) escreve e pesquisa sobre cinema desde 2010. Coordena os projetos de audiovisual do Sesc RJ desde 2019 e exerce atividades de cr\u00edtica nos podcasts\u00a0<a href=\"https:\/\/podcasters.spotify.com\/pod\/show\/plano-sequencia\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Plano-Sequ\u00eancia<\/a>\u00a0e\u00a0<a href=\"https:\/\/podcasters.spotify.com\/pod\/show\/plano-sequencia\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">1 disco, 1 filme.<\/a><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\u201cBird\u201d \u00e9 um dos filmes mais interessantes da temporada; Elizabeth Sankey nos enfeiti\u00e7a com &#8220;Bruxas&#8221;;  \u201cO C\u00e3o Preto\u201d foi um dos filmes mais visuavelmente estimulantes do festival\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2024\/10\/19\/tres-filmes-do-26o-festival-do-rio-bird-bruxas-o-cao-preto\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":137,"featured_media":84512,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[4],"tags":[7401,7400,7377,7399],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/84499"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/137"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=84499"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/84499\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":84514,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/84499\/revisions\/84514"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/84512"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=84499"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=84499"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=84499"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}