{"id":84330,"date":"2024-10-14T00:41:26","date_gmt":"2024-10-14T03:41:26","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=84330"},"modified":"2024-11-26T00:05:42","modified_gmt":"2024-11-26T03:05:42","slug":"entrevista-15-anos-apos-seu-segundo-disco-joao-coracao-retorna-com-soberana-todo-sobre-uma-mulher","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2024\/10\/14\/entrevista-15-anos-apos-seu-segundo-disco-joao-coracao-retorna-com-soberana-todo-sobre-uma-mulher\/","title":{"rendered":"Entrevista: 15 anos ap\u00f3s seu segundo disco, Jo\u00e3o Cora\u00e7\u00e3o retorna com &#8220;Soberana&#8221;, um disco todo sobre uma mulher"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>entrevista por\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/pedro.m.salgado.5\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Pedro Salgado<\/a>, especial de Lisboa<\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">A d\u00e9cada de 2000 ficou marcada por uma renova\u00e7\u00e3o da m\u00fasica alternativa em Portugal, atrav\u00e9s do dinamismo dos selos <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2017\/03\/27\/conheca-seis-selos-musicais-de-portugal\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">FlorCaveira<\/a> e Amor F\u00faria, e deu a conhecer artistas como Samuel \u00daria, B Fachada, Tiago Guillul, Jorge Cruz e Manuel F\u00faria, entre outros, que afirmaram a import\u00e2ncia de cantar em portugu\u00eas e apontaram novos caminhos musicais e l\u00edricos para o pop e o rock lusitano. No epicentro desse movimento estava, tamb\u00e9m, <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/joao.coracao\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Jo\u00e3o Cora\u00e7\u00e3o<\/a> (alter ego de Daniel de Castro Ruivo), que foi o autor de dois discos cultuados: o luminoso e eficaz \u201cMuda Que Muda\u201d (2009) e o noturno e circunspecto \u201cN\u00ba 1 Sess\u00e3o de Cezimbra\u201d (2008), ambos editados pela FlorCaveira.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Corta para 2024: nos primeiros momentos da nossa conversa, na sala do seu apartamento no bairro do Lumiar, em Lisboa, abordamos o percurso diversificado que o levou a estudar arquitetura e cinema e a montar nove empresas em \u00e1reas relacionadas com a criatividade. O primeiro instrumento que tocou foi a bateria, mas pretendendo ter mais capacidade de express\u00e3o, aprendeu a tocar outros instrumentos, como autodidata. Para al\u00e9m de gostar muito de artes visuais, Jo\u00e3o assina os seus pr\u00f3prios clipes e fez tamb\u00e9m a capa do novo disco, <a href=\"https:\/\/linktr.ee\/joao_coracao\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">\u201cSoberana\u201d<\/a> (2024), que marca um regresso aos lan\u00e7amentos discogr\u00e1ficos ao fim de 15 anos. \u201cSe eu tivesse de escolher uma s\u00f3 arte seria a m\u00fasica\u201d, confessa, enquanto me mostra, com evidente prazer, as potencialidades r\u00edtmicas e mel\u00f3dicas de um omnichord, que se encontra num quarto onde conserva outros instrumentos musicais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"https:\/\/linktr.ee\/joao_coracao\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">\u201cSoberana\u201d<\/a> (editado pelo <a href=\"https:\/\/cucamonga.pt\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">selo Cuca Monga<\/a>) \u00e9 um trabalho maioritariamente rom\u00e2ntico com can\u00e7\u00f5es pop, um travo veraneante pontual e algum cariz explorat\u00f3rio. Nele, Jo\u00e3o Cora\u00e7\u00e3o continua a revelar um intimismo peculiar na forma como reflete, ate\u0301 onde e\u0301 possi\u0301vel, a cren\u00e7a e esperan\u00e7a num grande amor e os receios associados a uma rela\u00e7\u00e3o, colocando o cerne numa mulher soberana e idealizada. H\u00e1 tamb\u00e9m uma forma requintada e cintilante na abordagem ao pop e um lado po\u00e9tico bastante vincado. Sobre essa componente particular das suas letras, o artista afirma uma ideia de profundidade e o gosto pelas diferentes interpreta\u00e7\u00f5es: \u201cEu tenho, naturalmente, uma maneira po\u00e9tica de olhar para as coisas. \u00c9 uma forma de express\u00e3o muito rica. Porque o que sentimos \u00e9, por vezes, t\u00e3o complexo. E a utiliza\u00e7\u00e3o literal do verbo fica aqu\u00e9m do que est\u00e1 a acontecer dentro de n\u00f3s. A poesia tem uma liberdade muito grande e permite-nos aproximar de aspectos mais profundos. Como toda a express\u00e3o art\u00edstica, toda a gente vai ler da sua maneira e isso tamb\u00e9m \u00e9 interessante para mim\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O novo \u00e1lbum contempla dois duetos com vozes femininas: \u201cAmour Multilingue\u201d (com M\u00e1rcia) e \u201cTu Defendes Eu Defendo\u201d (com Marta Falc\u00e3o). Ambas as faixas representam o lado mais colorido do trabalho, mas enquanto na primeira h\u00e1 um maior refreamento, a segunda revela uma maior soltura. Jo\u00e3o Cora\u00e7\u00e3o afirma que as duas can\u00e7\u00f5es lhe surgiram mentalmente como duetos e acentua que \u201ctanto uma como outra s\u00e3o di\u00e1logos\u201d. Sobre o que as distingue, o m\u00fasico sublinha que representam estados diferentes no \u00e2mbito do relacionamento entre duas pessoas: \u201cA \u2018Amour Multilingue\u2019 \u00e9 mais focada nos movimentos iniciais de aproxima\u00e7\u00e3o e \u00e9 anterior a \u2018Tu Defendes Eu Defendo\u2019 que representa a primeira rea\u00e7\u00e3o \u00e0s defesas que as pessoas trazem naturalmente para uma rela\u00e7\u00e3o\u201d. A derradeira e enigm\u00e1tica \u201cNunca Mais\u201d, de inclina\u00e7\u00e3o orquestral, na qual se repete a estrofe \u201cA nossa vida nunca mais vai ser igual\u201d, pressup\u00f5e que a hist\u00f3ria ainda esteja em aberto, mas abarca outra perspectiva. \u201cH\u00e1 pessoas que passam a vida toda a tentar voltar a um lugar onde estiveram. No entanto, a vida avan\u00e7a e estamos sempre num lugar diferente. A frase \u00e9 um pouco a La Palisse, mas o significado \u00e9 que depois do que aconteceu tu e eu nunca mais seremos as mesmas pessoas, seja qual for o futuro\u201d, explica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Relativamente ao show de apresenta\u00e7\u00e3o de <a href=\"https:\/\/linktr.ee\/joao_coracao\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">\u201cSoberana\u201d<\/a> (na lisboeta Musicbox a 8 de novembro) e \u00e0 sua expectativa sobre o acolhimento do p\u00fablico, Jo\u00e3o Cora\u00e7\u00e3o sente como se estivesse a \u201cconquistar tudo a partir do zero\u201d, mas est\u00e1 preparado e promete um espet\u00e1culo especial. \u201cSer\u00e1 uma celebra\u00e7\u00e3o e uma festa. Para al\u00e9m da minha banda vou tentar convidar artistas que eu gosto. \u00c9 um pouco como era antes, em que juntava as pessoas no palco e agrada-me fazer isso. N\u00e3o me satisfaz a ideia de um concerto que tenta reproduzir o disco. Nunca procurei isso nem me atrai v\u00ea-lo ao vivo. Interessa-me assistir a uma performance que acontece naquele momento e noutra ocasi\u00e3o ser\u00e1 diferente. O que eu quero trazer para o palco \u00e9 \u00fanico. A verdade n\u00e3o \u00e9 algo que vais replicar \u00e9 apenas a verdade que se manifesta nesse dia. Eu consigo transportar isso para os meus shows e \u00e9 o que eu procuro na arte\u201d, conclui.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De Lisboa para o Brasil, Jo\u00e3o Cora\u00e7\u00e3o conversou com o Scream &amp; Yell. Confira:<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Soberana\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/videoseries?list=OLAK5uy_lTtJvCaM19tfk-xOFhe2q8DksaEtU6NuA\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Entre a edi\u00e7\u00e3o de \u201cMuda Que Muda\u201d (2009) e \u201cSoberana\u201d (2024) passaram-se 15 anos. Como surgiram as novas can\u00e7\u00f5es e por que demorou tanto tempo para lan\u00e7ar um novo disco?<\/strong><br \/>\nAs can\u00e7\u00f5es surgiram quando a vida me colocou naquele lugar em que elas apareceram. N\u00e3o decido quando \u00e9 que elas v\u00eam e nestes 15 anos estive afastado, porque estava muito dedicado a n\u00e3o depender da m\u00fasica e empenhei-me a construir as minhas empresas. Fiz um par de can\u00e7\u00f5es dispersas, mas a catadupa de faixas que apareceram de repente, quando eu estava sentado, e em que fiz 30 m\u00fasicas em 20 dias, isso \u00e9 algo que a vida me trouxe a esse ponto. Fiz as can\u00e7\u00f5es todas ao mesmo tempo no ano passado, porque elas vieram na mesma altura. As m\u00fasicas apareceram sem aviso e n\u00e3o bateram \u00e0 porta. Por isso, elas surgiram de forma instintiva. Mas, todas as faixas deste disco s\u00e3o sobre a mesma mulher. De certa forma, o que acontece \u00e9 que eu n\u00e3o escrevi estas can\u00e7\u00f5es, elas nasceram no momento. \u00c9 como se a can\u00e7\u00e3o j\u00e1 existisse. Quando ela me veio n\u00e3o a conhecia e estou a descobri-la nesse instante, s\u00f3 que em vez de estar a fazer \u2018play\u2019 num leitor qualquer sou eu que estou a cant\u00e1-la. \u00c9 muito estranho, mas foi exatamente assim que aconteceu.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>As can\u00e7\u00f5es do seu novo \u00e1lbum s\u00e3o sobre uma mulher \u201cSoberana\u201d e \u00e9 recorrente a abordagem ao universo feminino no seu trabalho. Um desses exemplos \u00e9 a can\u00e7\u00e3o \u201cConheci Uma Menina\u201d, do disco \u201cN\u00ba1 Sess\u00e3o de Cezimbra\u201d (2008), em que voc\u00ea revela uma aparente rendi\u00e7\u00e3o. Qual \u00e9 a sua perce\u00e7\u00e3o atual sobre as mulheres e o amor?<\/strong><br \/>\nH\u00e1 um lado meu muito rom\u00e2ntico, n\u00e3o no sentido da paix\u00e3o, mas no sentido do movimento rom\u00e2ntico. O que eu quero dizer \u00e9 uma forte cren\u00e7a numa liga\u00e7\u00e3o superior e infinita no tempo e maior do que conseguimos explicar. No movimento rom\u00e2ntico \u00e9 como uma rea\u00e7\u00e3o \u00e0 finitude da vida. H\u00e1 uma necessidade nossa de trazer um sentido para a vida, com liga\u00e7\u00f5es muito profundas. Os rom\u00e2nticos faziam isso relativamente ao tempo e \u00e0 morte. Eu tenho um pouco essa faceta. Tem gra\u00e7a voc\u00ea citar a can\u00e7\u00e3o \u201cConheci Uma Menina\u201d porque este romantismo nem sempre \u00e9 sobre a rela\u00e7\u00e3o entre duas pessoas. Na faixa, a menina representa a morte. H\u00e1 realmente uma analogia sobre uma garota que conhecia de cor as minhas can\u00e7\u00f5es, mas representa uma reflex\u00e3o minha sobre uma pessoa muito pr\u00f3xima que faleceu e sem pensar saiu-me aquela m\u00fasica. Foi uma rea\u00e7\u00e3o direta e imediata no dia em que isso aconteceu. Mas, este disco, \u201cSoberana\u201d (2024) \u00e9 todo sobre uma mulher. Representa a imagem de uma mulher id\u00edlica, ideal e soberana. A minha vis\u00e3o sobre as mulheres n\u00e3o mudou muito nestes 15 anos e sobre o amor acredito que tamb\u00e9m n\u00e3o houve grandes mudan\u00e7as. A forma como eu vejo uma mulher ou uma criatura neste mundo \u00e9 como um universo infinito. Qualquer pessoa com que me cruzo \u00e9 um universo gigante, e eu tamb\u00e9m, e esse encontro n\u00e3o \u00e9 sempre constante. \u00c9 algo que vai ter fases diferentes e momentos de harmonia ou de falta dela, bem como etapas de maior proximidade e de maior dist\u00e2ncia. A dicotomia entre o amor e a paix\u00e3o nunca ser\u00e1 definida com muita exactid\u00e3o, mas eu diria que o amor \u00e9 um estado de respeito ao outro universo como ele \u00e9, independentemente da proximidade, ao ponto em que estaremos sempre dispon\u00edveis, aconte\u00e7a o que acontecer. Isto n\u00e3o se traduz s\u00f3 no amor rom\u00e2ntico entre um casal, mas tamb\u00e9m no amor entre pais e filhos, entre amigos ou irm\u00e3os. Podem acontecer falhas, no entanto o v\u00ednculo \u00e9 inabal\u00e1vel e incondicional e estaremos sempre l\u00e1.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-84338\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/Joao-Coracao-Capa-do-album-Soberana-2024-copiar.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"750\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/Joao-Coracao-Capa-do-album-Soberana-2024-copiar.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/Joao-Coracao-Capa-do-album-Soberana-2024-copiar-300x300.jpg 300w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/Joao-Coracao-Capa-do-album-Soberana-2024-copiar-150x150.jpg 150w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>No \u00e1lbum anterior, \u201cMuda Que Muda\u201d (2009) voc\u00ea colheu influ\u00eancias nos Talking Heads, Serge Gainsbourg e em m\u00fasica de westerns. Desta vez, houve outras refer\u00eancias que o marcaram musicalmente e que quis transportar para o novo trabalho?<\/strong><br \/>\nNormalmente, gosto de pensar uma can\u00e7\u00e3o. Para mim, ela existe sem o arranjo e \u00e9 uma letra com uma melodia, por isso \u00e9 algo que tem de funcionar a cappella. A pessoa canta e aquilo \u00e9 a can\u00e7\u00e3o. A obra \u00e9 isso e depois o arranjo que ela leva pode ser um ou outro em momentos diferentes. Quando um arranjo de uma can\u00e7\u00e3o me vem \u00e0 cabe\u00e7a \u00e9 natural que seja influenciado pela m\u00fasica que escuto. Na minha sala tenho 200 vinis, mas noutra divis\u00e3o da casa tenho 2000 \u00e1lbuns e tudo o que ou\u00e7o influencia-me sempre. Eu n\u00e3o escolho uma est\u00e9tica mas, simplesmente, quando fa\u00e7o o arranjo de uma can\u00e7\u00e3o ele surge num determinado registro e se eu gravasse noutro momento seria outro. As m\u00fasicas aparecem-me e depois materializo-as. Eu tento sempre representar a obra como se fosse um ser vivo. Por isso, n\u00e3o a condiciono, porque tem a sua vida e por onde ela for eu vou atr\u00e1s. \u00c9 muito divertido. Como se de repente tivesse a surfar num golfinho que n\u00e3o \u00e9 a minha prancha. O golfinho est\u00e1 a ir para um lado e eu estou a curtir, mas aquilo tem uma vida pr\u00f3pria. Eu escutei muito durante o \u00faltimo ano e meio o \u00e1lbum \u201cBismillah\u201d (2019), dos Peter Cat Recording Co. Agrada-me bastante o disco \u201cPassages\u201d (1990), de Ravi Shankar e Philip Glass, esse trabalho \u00e9 um cl\u00e1ssico de toda a minha vida, sempre o ouvi, e \u00e9 um \u00e1lbum que devia ser obrigat\u00f3rio nas escolas prim\u00e1rias, porque \u00e9 um tratado de harmonia, melodia e ritmo. Mas, da mesma forma, mostra como \u00e9 bom ter regras e quebr\u00e1-las. Tamb\u00e9m escutei imenso o \u201cMasterpiece\u201d (2016), dos Big Thief e o \u201cAli and Toumani\u201d (2010), de Ali Farka Tour\u00e9 &amp; Toumani Diabat\u00e9. A Unknown Mortal Orchestra \u00e9 uma banda que ando a seguir ultimamente e o disco \u201cII\u201d (2013) \u00e9 um dos trabalhos deles, entre outros, que estou igualmente a ouvir.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O single \u201cMi\u00fada\u201d tem uma toada arrastada e evoca uma aparente incerteza existencial e amorosa. Em que se inspirou para compor a m\u00fasica?<\/strong><br \/>\nTodo este disco \u00e9 sobre o mesmo conceito: uma aproxima\u00e7\u00e3o muito forte, mas t\u00e3o dif\u00edcil quanto inevit\u00e1vel entre duas pessoas. \u00c9 tamb\u00e9m uma coisa perfeita e um romantismo quase p\u00f3s-renascentista, do tipo Romeu e Julieta, em que ningu\u00e9m morre, at\u00e9 agora, e h\u00e1 tanto a atrair como a afastar esses dois seres. N\u00e3o \u00e9 a atra\u00e7\u00e3o da paix\u00e3o, mas sim algo mesmo profundo. Trata-se de uma viagem com imensas aproxima\u00e7\u00f5es e afastamentos e \u201cMi\u00fada\u201d \u00e9 um momento desses, uma fase de incerteza em que eu estou quase em discurso direto e digo: \u201cAinda bem que fui embora mas se calhar devia ficar e vou\u201d. Isto \u00e9 o que eu estava a pensar e a can\u00e7\u00e3o sai literalmente a partir do que me est\u00e1 a passar pela cabe\u00e7a, sem ornamentos, com a minha poesia e a minha forma de escrever. Mas \u00e9 exatamente isso, um momento em que a for\u00e7a que faz aquele amor ser t\u00e3o forte e ao mesmo tempo traz tantas dificuldades, est\u00e1 em conflito aberto nesses dois lados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea faz parte de uma gera\u00e7\u00e3o de m\u00fasicos que emergiu na d\u00e9cada de 2000 e marcou a m\u00fasica alternativa portuguesa como s\u00e3o os casos de <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2020\/10\/23\/tres-discos-noiserv-samuel-uria-selma-uamusse\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Samuel \u00daria<\/a>, <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2019\/06\/05\/roque-da-casa-06-b-fachada\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">B Fachada<\/a>, <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2015\/06\/07\/de-portugal-conheca-tiago-cavaco\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Tiago Guillul<\/a>, Jorge Cruz ou <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2022\/12\/15\/ao-vivo-manuel-furia-apresenta-novo-album-em-lisboa-com-a-alma-nas-memorias-e-o-corpo-na-danca\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Manuel F\u00faria<\/a>. Como v\u00ea a evolu\u00e7\u00e3o dos seus pares e a contribui\u00e7\u00e3o que eles deram \u00e0 nova m\u00fasica portuguesa?<\/strong><br \/>\n\u00c9 algo sobre o qual posso falar com toda a honestidade. Pode parecer um pouco enviesado, porque s\u00e3o pessoas queridas, pr\u00f3ximas e meus amigos. Eu lembro-me perfeitamente que antes de come\u00e7armos a fazer m\u00fasica toda a m\u00fasica pop e rock em Portugal era cantada em ingl\u00eas. S\u00f3 metade do hip-hop \u00e9 que era cantado em portugu\u00eas, mas trata-se de um estilo de m\u00fasica muito espec\u00edfica e uma tribo \u00fanica. Se houve uma mudan\u00e7a clara nos \u00faltimos 15 anos foi na quantidade de m\u00fasicos que apareceram a cantar em portugu\u00eas. Deu-se uma invers\u00e3o, porque se antes cantar em portugu\u00eas era estranho, hoje em dia \u00e9 um bocado diferente na cena portuguesa cantar em ingl\u00eas, mas existem pessoas que o fazem e t\u00eam excelentes can\u00e7\u00f5es. Isso \u00e9 pac\u00edfico. No entanto, atualmente, \u00e9 um anti-padr\u00e3o. Essa foi a grande mudan\u00e7a. Se h\u00e1 algum legado que este movimento deixou foi isso. Os artistas de que me falou s\u00e3o pessoas com quem tenho uma liga\u00e7\u00e3o pr\u00f3xima. Recordo tamb\u00e9m o <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2017\/03\/31\/a-nova-cena-musical-portuguesa-luis-severo\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Lu\u00eds Severo<\/a>. Ele \u00e9 um m\u00fasico que eu adoro e dei-lhe a m\u00e3o para que entrasse no meio. Todos estes artistas come\u00e7aram na mesma altura e mant\u00eam-se como \u00e9 o caso da <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2023\/11\/25\/ao-vivo-filipe-sambado-apresenta-novo-album-em-lisboa-com-dinamismo-intensidade-e-proximidade-com-o-publico\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Filipe Sambado<\/a>, que j\u00e1 estava a fazer can\u00e7\u00f5es, ou do <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2020\/10\/07\/entrevista-benjamim-lanca-seu-terceiro-disco-vias-de-extincao\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Benjamim<\/a> que cantava em ingl\u00eas ainda. De certa forma, est\u00e1vamos sempre juntos, viv\u00edamos em festa e toc\u00e1vamos nos concertos uns dos outros. Eu gosto da obra de todos eles e isso faz parte do meu universo musical. Claro que h\u00e1 uns que escuto mais do que outros, mas eles integram o meu cancioneiro e al\u00e9m de serem meus amigos respeito-os bastante como artistas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Qual \u00e9 a mensagem que gostaria de deixar aos leitores brasileiros do Scream &amp; Yell que nunca escutaram a sua m\u00fasica?<\/strong><br \/>\nA can\u00e7\u00e3o brasileira \u00e9 algo que eu sempre ouvi. Eu nasci e cresci em garoto com os meus pais nos domingos em casa e nas viagens de carro a ouvir muita m\u00fasica. Lembro-me que escutei Chico Buarque, Caetano Veloso, Tom Jobim, Maria Beth\u00e2nea, Gilberto Gil, Jorge Ben Jor e Djavan. Por isso, cresci a ouvir toda essa m\u00fasica mais Vinicius De Moraes e Cartola, bem como o cancioneiro mais tradicional da origem do samba e da bossa nova at\u00e9 \u00e0 tropic\u00e1lia. Isso acompanhou-me a vida toda. Relativamente \u00e0 cena nova do Brasil tamb\u00e9m h\u00e1 coisas que adoro. Este ano escutei bastante os Bala Desejo e delirei no show deles. Tamb\u00e9m gosto imenso do Tim Bernardes e d\u00b4O Terno e conhe\u00e7o bem a pandilha do Moreno Veloso e do Alexandre Kassin. H\u00e1 muita m\u00fasica brasileira a tocar no meu carro e na minha casa. \u00c9 pena n\u00e3o haver mais interc\u00e2mbio entre Portugal e Brasil. N\u00f3s consumimos imensa m\u00fasica brasileira e os brasileiros n\u00e3o escutam tanta m\u00fasica portuguesa. Temos bastante em comum, tal como a nossa l\u00edngua, e uma heran\u00e7a hist\u00f3rica. Tenho imensa pena de que a troca seja s\u00f3 de l\u00e1 para c\u00e1 e n\u00e3o seja nas duas dire\u00e7\u00f5es. O que eu diria era que ouvissem, para al\u00e9m da minha m\u00fasica, tudo o que tem acontecido na m\u00fasica portuguesa e que \u00e9 t\u00e3o bom. Escutem o Lu\u00eds Severo, Capit\u00e3o Fausto, B Fachada e muitas outras coisas que ocorrem entre n\u00f3s. Os m\u00fasicos brasileiros que conhe\u00e7o ficam maravilhados e estupefactos por n\u00e3o terem descoberto a m\u00fasica portuguesa antes. Muitos deles ficam f\u00e3s de v\u00e1rios nomes de que lhe falei. Eu tive colabora\u00e7\u00f5es com artistas brasileiros e fiz duas can\u00e7\u00f5es com o Albert Nane, uma delas era a m\u00fasica \u201cJoana\u201d (um lado B do \u00e1lbum \u201cMuda Que Muda\u201d) e um amigo meu, Guarany, fez uma letra de outra can\u00e7\u00e3o minha. Sinto que a quest\u00e3o do encontro entre a m\u00fasica portuguesa e brasileira tem a ver com uma din\u00e2mica que n\u00e3o se estabeleceu. A m\u00fasica brasileira foi consumida em Portugal desde muito cedo e continuou. \u00c9 mais f\u00e1cil um mercado maior entrar num segmento mais pequeno do que o contr\u00e1rio. Acho que \u00e9 s\u00f3 isso, mas tamb\u00e9m \u00e9 verdade que os portugueses entendem melhor o portugu\u00eas do Brasil do que os brasileiros compreendem o portugu\u00eas de Portugal. N\u00f3s fechamos as vogais e os brasileiros abrem as vogais. H\u00e1 tamb\u00e9m um mito urbano de que n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil aos m\u00fasicos portugueses entrarem no mercado brasileiro. Embora n\u00e3o queira politizar minimamente a conversa, recordo que existem v\u00e1rios apoios e movimentos governamentais e estaduais de interc\u00e2mbio cultural que por mais que sejam estabelecidos revelam uma falta de punho do lado portugu\u00eas. As parcerias estabelecem-se, mas continuam a ser s\u00f3 num sentido, ou seja, do Brasil para Portugal.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Em Est\u00fadio | Jo\u00e3o Cora\u00e7\u00e3o\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/NuW4lJw2QEQ?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Jo\u00e3o Cora\u00e7\u00e3o - Mi\u00fada (Videoclip)\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/6CSsTOXkto8?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Track on Track: Mi\u00fada c\/ M\u00e1rcia e Benjamim\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/XhnbEG5BsWc?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u2013 Pedro Salgado (siga\u00a0<a href=\"http:\/\/twitter.com\/woorman\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">@woorman<\/a>) \u00e9 jornalista, reside em Lisboa e colabora com o Scream &amp; Yell desde 2010 contando novidades da m\u00fasica de Portugal. Veja outras entrevistas de Pedro Salgado\u00a0<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/author\/pedro-salgado\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">aqui<\/a>.\u00a0<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\u201cSoberana\u201d (editado pelo selo Cuca Monga) \u00e9 um trabalho maioritariamente rom\u00e2ntico com can\u00e7\u00f5es pop, um travo veraneante pontual e algum cariz explorat\u00f3rio\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2024\/10\/14\/entrevista-15-anos-apos-seu-segundo-disco-joao-coracao-retorna-com-soberana-todo-sobre-uma-mulher\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":7,"featured_media":84332,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[3],"tags":[7388,47],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/84330"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/7"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=84330"}],"version-history":[{"count":6,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/84330\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":84340,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/84330\/revisions\/84340"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/84332"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=84330"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=84330"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=84330"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}